Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 10

Chapter 103,969 wordsPublic domain

Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo, futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma prima com quem pretendiam casal-o.

Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das despezas a que occorria o amante numero um.

Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite, depois das dez. De dia, a toda a hora.

Eugenio, porém, hospedara-se no _Hotel Francfort_ como convinha e era prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas, não chegassem a escandalisar o commendador Garcia.

Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.

--Sabes?--disse-lhe elle.--De ti recebo estas provas de affecto e orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo, porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos dois. E de minha prima... vê tu lá!--ainda que viesse de rastos lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse!

--É porque não a amas...

--É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos!

--Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!

--Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?

--Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!

--Amor e uma cabana!--disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a com enthusiasmo.--Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso...

E suspirando com tristeza:

--Para isso bastava só que morresse meu pae!

--Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.

--Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae!

O velhaco tinha razão.

Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo, botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas immediações da travessa dos Fieis de Deus.

Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera.

Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que desde criança se habituára a pensar que o não tivera.

No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido.

O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se repetiam.

No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor objecção.

Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu _anjo mau_ o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador.

--Aqui tens--disse ella--paga a esse canalha, a esse falso amigo, e lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!

--Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora tão ardentemente os teus encantos como eu!--replicou o bohemio, radiante de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.

Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu destino.

Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior.

--Olhe lá--disse elle--esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova estopada?

--Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado de tecer os pausinhos...

--O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me entra para a _loja_, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a tomar andadura regular.

--Isso, depois, é lá comsigo e com ella--respondeu rindo o procurador.--Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem, emquanto o Custodio não esticar o pernil...

--Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta difficuldade?

--Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada.

--Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para uma ceia?

--Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir?

--Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu _desmancha prazeres_, amigo Belchior!

--Para seu bem.

--E para seu...

--Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para mim.

O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio de Jesus.

--E então?--interrogaram os dois.

--Então, sabem o que ella me disse?

--O que foi?

--Adivinhem!

--Não somos bruxos!--replicou o procurador--Falle para ahi, com seiscentos diabos! Sim ou não?

--Pois bem--não!

--Hein?!--fizeram os dois espantados.

--É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não.

--E você não voltou á historia do tiro na cabeça?--observou o procurador.

--Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...

--E você o que respondeu a isso?--perguntou o Belchior.

--O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim, porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia dizer que ia dar um tiro na cabeça...

--Mas o que pensa então fazer?--interrogou Eugenio.

--Esperar, a ver o que sae d'aqui...

--D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz, e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas ainda pôr-se a _chuchar_ comsigo!--exclamou o Belchior furioso.--Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse modo que nós conseguiremos nada.

--Espere, homem, espere!--interrompeu o Custodio.--Eu tenho uma ideia.

--Que ideia é?

--Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao tal rapaselho que a namora...

--Você viu?

--Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça...

--Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis, quanto mais uns poucos de contos.

--Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder.

--Mas isso então quer-se para breve!--objectou o procurador--Aqui o sr. Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha...

--Eu é porque devéras a amo!--explicou o bohemio--Sinto-me loucamente apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa. Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?

--O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo: pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento para a pequena casar.

--Ande-me assim, seu Custodio!--bradou o procurador.--Essa é de mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...

--Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter questões por causa da partilha...

Os tres desataram a rir.

--Vamos a ver o que sae d'aqui!--disse por fim o Belchior.--Tinha graça se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!

--Amigo Belchior--expôz o Custodio--parece-me que andei bem em não apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma relação dos crédores e apresental-a á rapariga...

--Qual relação de crédores!--protestou o procurador.--Você não tem senão um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle que venha entender-se comigo...

--Justamente!--apoiou Eugenio.--E assim ficaremos sabendo os recursos de que o tal menino dispõe...

--Está dito!--decidiu o Custodio.--É claro que cincoenta contos não se arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento.

--Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé, a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe--opinou o procurador.

--Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim, e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento, que está para breve--concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.

--Exactamente--respondeu este.--E mandemos para cá, que eu me encarregarei de resolver a questão.

O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que sahisse.

O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.

Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de Borba; apresentou-lh'a, dizendo:

--Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o nariz!

O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de Mello á Fazenda Nacional.

--Com os diabos!--disse elle--para pagar tudo isto, perto de dois contos de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!

--Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?

--Pois, amigo Belchior--affirmou o Custodio com resolução--ainda que saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não deixo perder.

--Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.

--Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você verá como a coisa se arranja...

Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar a conta do seu debito para apresentar á filha.

X

Para os grandes males...

Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de as solver.

Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma noite fallar com Beatriz.

A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio, pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.

Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.

--E o que respondeu esse homem?--interrogou Paulo.

--Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.

--E tu?...

--Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com que me ameaçou.

--E se não encontrares esse meio?

--Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro homem que não sejas tu, meu Paulo!--exclamou Beatriz com firmeza.

O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas palavras.

--Ouve, Beatriz--disse elle.--É possivel que sejamos victimas de uma d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre, não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da responsabilidade d'ellas.

--Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?--interrogou Beatriz commovida, quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.

--Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu, um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.

--Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno do santo amor que te dedico!--exclamou a donzella.

Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.

O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha, em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos os seus actos.

Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o que perdera em dinheiro e não em honra--porque essa nunca elle a tivera--achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim, apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.

O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz, desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.

Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do crédor e com vencimento em curto praso.

Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma, exigindo immediato embolso.

Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e, apresentando-lhe o papel, disse:

--Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio unico da nossa salvação!

--Não fallemos n'isso, meu pae!--retorquiu mansamente Beatriz--Vamos a vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos, conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.

--Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes--observou o snr. Custodio--Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama loucamente...

--Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu consentisse em me vender a elle por dinheiro...

--Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.

--Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o repudia...

--O coração!--fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de hombros--O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago não está mal...

--Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...

--Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.

O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como unico recurso que se lhe offerecia.

Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe relancear a vista.

--Eu verei isto--disse ella--e póde ser que Deus me inspire alguma ideia salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. Eugenio de Mello.

--Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...

E depois de um curto instante de silencio:

--Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos. Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior, coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil arrazaram-me!--suspirou por fim.

--E foi só o pae que teve prejuizos com ellas?--perguntou Beatriz.

--Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual sente o seu mal...

--E Deus o de todos.

--Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente nada...

--Será o que Deus quizer.

O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.

Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:

--Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer um tal desgosto...

--Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...

N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos, conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com Paulo.

Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da janella gradeada com o mancebo.

--Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de ti!...--resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de contente.--Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.

E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.

D'ahi a pouco, ressonava.

Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:

--Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do homem que ha-de ser teu sogro.

--Então?--interrogou o mancebo.

--Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras implacaveis.

Paulo encarou o amigo:

--Tens bem a certeza d'isso?--perguntou.

--Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem contos de reis.

--Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?