Os Filhos do Padre Anselmo

Chapter 1

Chapter 13,857 wordsPublic domain

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*Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Fev. 2008)

SÁ D'ALBERGARIA

OS FILHOS DO PADRE ANSELMO

ROMANCE

PORTO LIVRARIA CHARDRON DE *Lello & Irmão, Editores*

1904

Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica

178, rua de D. Pedro, 184

OS FILHOS DO PADRE ANSELMO

I

Os irmãos da mão negra

O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite.

O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.

Era em fins do outono.

As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto de espoliadas.

Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.

Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da illuminação publica, consultou o seu relogio.

--Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou.

E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.

Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.

Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em frente d'elle.

--És tu, Paulo?--disse de dentro uma voz.

--Sou.

--Entra depressa, que a noite está agreste!

E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a entrada.

O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.

Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.

Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu joven companheiro:

--Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de consentir que te vende os olhos.

--Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?

--De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.

--Pois bem, seja!

O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro.

--Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas ordem...

--Dou. Mas se o fizesse?

--Poderia isso custar-te a vida, meu caro.

--Apre!--fez o outro, sorrindo--vocês são intransigentes!

--Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.

--É justo.

--Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.

--Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro.

--Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a gente...

--Fallemos sério!--tornou o moço que dava pelo nome de Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?

--Assevero-te que os irmãos da _Mão-negra_ comprehendem e cumprem á risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos.

--Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da mulher que amo?

--Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que toda a acção da _Mão-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a força, o poderio, a importancia.

O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.

--No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associação vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo, poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...

--Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu caracter!--protestou o mancebo.

O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta quinta murada.

Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.

--Chegámos!--disse elle.

Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.

--E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--Não receias a sua indiscreção?

--É um dos nossos irmãos--respondeu simplesmente o outro.

--Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um serviço bem montado!

Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram seguindo em silencio.

--Já estamos em casa!--disse Paulo.

--Porque?--perguntou o outro.

--Sinto-o pela differença de temperatura.

--Ainda não... Vamos entrar agora...

E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.

--Pódes tirar a venda--disse Jorge.

O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.

Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um olhar de glacial indifferença para a caveira.

--É singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela visão da morte!

Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa resoar na sala:

--Medita!--disse aquella voz.

O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava.

Não viu pessoa alguma.

Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não descobriu a porta por onde tinha entrado.

Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o poderia fazer, por não encontrar sahida.

Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.

--Medita!--tornou a voz a repetir.

Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando fito a caveira.

N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.

Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da _Mão negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado. Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos com animo sereno e tranquillo.

--Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creança assustadiça, capaz de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes.

E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:

--Detem-te! O que ias fazer?

--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla.

--Com que fim?

--Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.

--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?

--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...

--E depois?

--Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.

--Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e impuros?

--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.

--Materialmente, disseste?

--Disse.

--Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do Nada?

--Não.

--Explica-te.

--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.

--Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?

--De um meu irmão.

--É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante? Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será d'um plebeu?

--Ignoro.

--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?

--Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito dos vivos.

--Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?

--Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou na humanidade emfim.

--Tens religião?

--Tenho.

--Qual?

--A do Bem.

--A que vieste?

--Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.

--Sabes o sacrificio a que isso obriga?

--A todos os sacrificios me sujeito.

--Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição para seres admittido entre nós.

--Acceito-a.

--Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos, familia--tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado.

--Obedecerei.

--É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço. O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?

--Sem a menor hesitação.

--Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por toda a parte. A _Mão-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente, vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um escravo--d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti; o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes, da nossa Associação. Terás força para tanto?

--Terei--respondeu firmemente o mancebo.

--Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena conta a propria vida.

--Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.

--A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é iniquidade. Os irmãos da _Mão-negra_ não teem o direito de discutir e apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas terás que obedecer.

--Experimentem.

--Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil, outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a vida,--vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde vieste.

--Não!--respondeu o mancebo com energia--Eu não sou dos que recuam. Quero ser dos vossos.

--Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á _prova_!--ordenou a voz.

Paulo estendeu a mão sobre a caveira:

--Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmãos da _Mão-negra_ e estou prompto a submetter-me á prova que me for imposta!

Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos aguazis do Santo Officio.

Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em seguida disse:

--_Á prova!_

Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica.

--Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir.

--Irmão--respondeu o mysterioso guia de Paulo.

--D'onde vindes?

--Da Ala negra.

--Que trazeis?

--Um novo braço.

--Que busca elle?

--A mão.

--Quem vos guia?

--S. Miguel.

A porta abriu-se.

--Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o rosto coberto pelo capuz.

Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro por uma phantastica _mão negra_, que pendia do tecto.

Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente occulto sob o capuz do habito.

Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando punhaes e espadas, em panoplia.

Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno, assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes. Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e immovel.

O _irmão_ introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito, movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa.

--Que quereis, irmão?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que era sem duvida o chefe da seita.

--Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que pretende entrar na _ala_ como combatente.

--Fiaes d'elle?

--D'elle fio, senhor!

--S. Miguel vos proteja!

--O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á parede, em fila com os seus companheiros.

Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.

--Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe.

--Combater.

--Que armas trazeis?

--A submissão, a energia e a lealdade--disse Paulo.

--Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do Bem e da Justiça. Que vos falta?

--A força da _Mão-negra_.

--A _Mão-negra_ só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem os timidos nem os cobardes.

--Não o sou.

--Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova?

--Estou prompto!

--Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides emprehender.

--A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util.

--É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração, o objectivo da existencia.

--Tudo sacrificarei aos meus irmãos.

--É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer antes de chegardes á _Mão-negra_, encontrareis mil perigos e mil precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer. Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.

--Irei e hei-de chegar.

--Pois bem, vinde!

Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse:

--Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que S. Miguel--que venceu o dragão--vos dê força e coragem.

O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha ousadia.

A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés.

Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente, erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio.

O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas, nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo, disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder.

Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente, tornando mais densa a treva do corredor.

Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso subterraneo transformado n'um lago.

A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas vinham açoitar o rosto de Paulo.

Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo.

Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer, avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e com ella o ruido pavoroso da corrente.

A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito, quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir.

Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo.

Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse a menor contusão.

Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido terrivel lhe despertou a attenção.

Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma ameaça a guella hiante.

Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador.

Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou, avançando para as féras:

--Antes morrer que recuar!

Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta, levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra.

A porta abriu-se.

--Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo, recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido.

Paulo entrou.

--Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal. N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração.

Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou espantado, soltando um grito terrivel:

--Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente.

É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mão negra_!

--Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na voz.--Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás restituido á liberdade.

No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude, todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar!

E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia, tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada!

Era horrivel!

--Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os mysteriosos designios da _Mão-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua cobardia!

Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra _cobardia_, o mancebo apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso interlocutor, disse, rangendo os dentes:

--Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para resgatar a vida d'aquella mulher?

--Nada!

--Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais horrenda,--não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco!

--Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?