Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

Part 9

Chapter 9 3,881 words Public domain Markdown

--Mas é preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E ellas hoje que estão tão scintillantes! Ah! grande novidade no nosso firmamento! Graças a Deus que, além de nós, ha já mais alguem na aldeia que não dorme a estas horas!

Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmão á janella.

--Que queres dizer?--perguntou aproximando-se.

--Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia!

--Uma luz?!

--Sim, e é em casa de Thomé.

Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo calado; depois murmurou:

--Thomé ainda de vela a estas horas! É singular!

--Faz-lhe mais justiça--tornou Mauricio.--Thomé dorme ha boas quatro horas. A gente do campo é incapaz do extravagante delicto de escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios de habitos cidadãos. Quem vela é a filha, com certeza.

--Ah! sim... Bertha... esquecia-me de que tinha voltado--acudiu Jorge, esforçando-se por dizer isto em tom natural e indifferente.

--Voltou, e bem outra do que foi!--advertiu Mauricio.

--Em quê?--perguntou Jorge, olhando para o irmão.

--Foi d'aqui uma criança agradavel, e veio uma encantadora mulher!

--Ah! ah; já notaste?--disse Jorge, com um sorriso contrafeito.

--Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vêl-a, que fosse a filha do Thomé. Um ar tão delicado, umas maneiras tão distinctas, tão de cidade!...

--Olha se te deixas apaixonar por ella; anda lá!--continuou Jorge, ainda no mesmo tom.

--Não seria prova de mau gosto, afianço-te. Que superioridade, comparada a todas as nossas primas d'estes arredores! O que é a educação!

Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado:

--Provavelmente não produzirá em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza de que hei de sentir saudades, ao vêl-a, da Bertha, que conheci pequena.

--Não duvido, porque és bastante philosopho para isso. Eu por mim confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que tenho por crianças, não me sinto com disposições para repetir as palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para mim... as grandes...

--Em vez da criança alegre e innocente--proseguiu Jorge com acrimonia--da criança que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz, preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda, com um pouco de geographia e de historia na cabeça e deixando cahir da bôca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E é isto o que te encanta?... Pois olha, eu até já não gosto de vêr aberta aquella janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e é nas raparigas uma doença impertinente, insupportavel.

E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar.

--Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime que dizes, até tu, o homem menos capaz de commettêl-o que eu conheço, poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha é realmente adoravel. Verás. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem suspeitará, ao vêr Bertha, a origem aldeã que ella teve. A mim parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que tão airosamente cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thomé da Povoa e d'aquella excellente Luiza.

--Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? Já?!--notou Jorge, em um tom de acerba ironia, que era novo n'elle.

--Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. Não a conheci ao principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E depois tinha no olhar tantas promessas!

Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado.

--É o que eu digo--murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou:

--Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Póde ser de mais sérias consequencias do que as duzias de paixões que tens tido por as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de uma sêpa igualmente ante-diluviana.

--Ahi estás tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheço-te, Jorge. Realmente não sei d'onde te veio essa febre democratica e philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria.

Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente não lhe era inspirada pelo assumpto:

--Não sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexão por dia. É o que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que resista á sua inutil ociosidade; e que hão de ficar muito admirados quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os não tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a.

Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito de facticio; como se procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo do seu estado nervoso.

--Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que, se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para... arranjar um modo de vida... não juro que pudesse ser indifferente áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer parecer-me que ella ainda as não esqueceu.

Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.

--Mas aquella luz não me sahe do pensamento--proseguiu Mauricio.--Que estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece que está alguem á janella?

--Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo que sim.

--Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão ter realidade as vagas aspirações do seu coração.

Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:

--Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que deixou suspirando em Lisboa.

--Estás insupportavel, Jorge.

--Uma experiencia!--exclamou, passados alguns momentos de silencio, Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.--Tu estás dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz, ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer mostrar que tambem prolonga as suas _rêveries_ por noite alta.

--Ora! deixa-me com as tuas observações!

--Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado.

Mauricio condescendeu.

A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da noite.

Como o leitor já sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto.

--Eu que dizia?--exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se aquelle rir lhe fizesse mal.

--Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor--disse Mauricio, despeitado.

--Tanto melhor?!

--Sim. Porque não hei de eu vêr, n'este proposito de acompanhar a nossa vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje tornou a vêr?

--Ah! ah! Pensas n'isso?

--Porque não? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do coração proprias do sexo não é uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos cá por este mundo, anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapéo, benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma oração, mas afianço-te que não os amava.

--Boa noite, Mauricio. Olha que são duas horas.

--Adeus, Jorge.

--Não sonhes com Bertha.

--Não sonhes tu com a arithmetica, que é peior pesadêlo.

E os dois irmãos separaram-se, rindo.

A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha.

Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto podia, no proprio conceito, esforçando-se por convencer-se de tudo quanto a respeito d'ella dissera ao irmão, para diminuir assim a impressão, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.

Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fôra sensivel ao seu galanteio, e esta ideia torturava o espirito de Jorge.

Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposição de que a vigilia de Bertha lhe fôra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso e sonhou... sonhou... Oh! quem póde exprimir o longo romance dos sonhos de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginação como a de Mauricio!

X

Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com coragem de mulher as suas novas condições de vida, e de entregar-se de alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para isso a indocil imaginação de rapariga.

Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia, avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a resolução de vêl-a e de fallar-lhe.

Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questão agronomica, em que meditava havia muitos dias.

Veremos o que as diversas disposições de animo d'estes tres personagens deram de si no decurso do dia.

O aspecto risonho da manhã dissipou as nuvens, que de noite se haviam accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e não podia perdoar a si mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a mãe nas occupações domesticas, encontrava n'isso uma distracção poderosa e quasi um intimo prazer. As caricias dos irmãos commoviam-n'a, e foi já com desassombrada alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mão ao outro, atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do chão, e cahia em gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!

Os irmãos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flôres campestres que iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os presenteava depois.

Entregue toda a esta tarefa, sentia-se tão do intimo contente, que se pôz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.

Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos silvados, e não lhe deu maior attenção.

D'uma vez porém, em que os irmãos corriam para ella com uma regaçada de flôres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direcção d'aquelle olhar, e descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava observando.

A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar de todo a confusão que experimentava com o inesperado encontro, interrogou sorrindo:

--Estava ahi ha muito?

--Ha alguns momentos, ao que me parece.

--A fazer o quê?

--A vêl-a e a ouvil-a.

--Com tão pouco se entretem!

--Então parece-lhe que não será novo para mim o espectaculo?

--Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianças? Ora essa!

--Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso bello paiz?

--É muito injusto com as suas patricias.

--Oh! não as lisongeie.

--N'isso interesso eu tambem, bem vê.

--Poupe-lhes a humilhação de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que, indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolução espontanea, ao mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma força occulta que assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde sómente encontrava ambiente apropriado.

--Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei, sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria, que estes são os ares, em que respiro á vontade.

--Esse bem-estar não tardará que se transforme em fastio.

--Não, não, não creio.

--Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as aspirações naturaes a um espirito como o seu.

--Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que aspirações são essas que diz?

--Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?

--E espero que ha de satisfazer-me.

--E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou Maria da Azenha?

--Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não me incommódo com isso.

--Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores, posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha...

--Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos trabalhos aldeãos...

--Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos educados para a poesia que ella rescende.

--A poesia!--repetiu Bertha, com um forçado gesto de desdem, encolhendo os hombros.

Mauricio percebeu-o.

--Ri-se?--interrogou elle.

--É que ouço fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade, ainda não pude saber bem o que seja.

--Não sabe o que é a poesia?!

--A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi...--disse Bertha, simulando um tom de completa ingenuidade.

A chegada das crianças, pedindo á irmã que as conduzisse a casa, interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.

--Será possivel que eu me engane?--pensava elle.--Será a final de contas uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradições da familia? Não creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou não é indifferença o que ella sente, quando me falla.

E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.

Bertha, rindo e brincando com os irmãos, pensava tambem:

--Parece-me que alguma coisa conseguiria. É preciso desvial-o d'este proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me aborreça. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e de entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar. Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso saber nem quero. Ás vezes... desconfio de mim... receio... assusto-me. Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!... Hoje... Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla. É preciso acabar com isto, antes que augmente.

O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do venturoso casal.

Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.

Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores, onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia possuida.

Assim correu o dia.

O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha, como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.

Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa. Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao patamar.

--Ahi vem o snr. Jorge--disse Luiza para o homem.--Conheço-o já pelo andar.

--É elle, é; e temos hoje bastante que fallar.

--Eu vou accender o candieiro no quarto--acrescentou Luiza, que sahiu a preparar a sala das conferencias.

Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha.

Jorge não era superior a uma occulta commoção, ao entrar alli. Ia encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas apprehensões. Era tão forte a sua turbação, que lhe tremiam as pernas ao transpôr a porta da sala.

Na presença de Bertha, Jorge lançou para ella um olhar rapido, mas penetrante, e desviou-o logo. O espirito não serenou com o resultado d'esse primeiro exame.

Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.

Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, tão differente do do irmão, acolheu-o com mais franqueza e menos precauções do que tivera com Mauricio. Contra Jorge não precisava de acautelar o coração.

O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse, quasi sem olhar para Bertha:

--Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda se lembre de um antigo conhecido.

--Não costumo esquecer-me, snr. Jorge--respondeu Bertha, sem poder deixar de examinal-o com curiosidade.

Jorge proseguiu no mesmo tom:

--Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora esta terra?

E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas desviou-os ao encontrar os d'ella.

--A mesma que deixei--respondeu Bertha--a aldeia guarda melhor as memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flôres, que nos despediram, nos dão as boas vindas outra vez. Se alguma mudança ha é nas pessoas.

--Encontrou mudança n'essas?

E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em Bertha.

--Nem podia deixar de ser--tornou esta--para nós não ha estações; as folhas que vão cahindo, não vem primavera renoval-as.

Jorge pôz-se a folhear, com apparente distracção, um livro que encontrou sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.

Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga aquelle caracter serio de rapaz.

Thomé propôz a Jorge principiarem os seus trabalhos.

Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a mãe.

--Então que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?--perguntou o enlevado Thomé.

Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.

--Olhe o que é a educação--insistiu Thomé.--Quem ha de dizer que foi nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda um pouco peior do que hoje?!

--Ah! sim... a educação... vale muito, mas é preciso que os dotes naturaes a auxiliem--murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o assumpto da conversa.

--Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda... Mas o que ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!

Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a Jorge, que nada respondeu d'esta vez.

Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr aquella noite, e por isso abriu a sessão.

Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.

Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto. Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.

Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos amores de Paulo e Virginia.

Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.

--Lê romances--murmurava elle.--A estas horas phantasia-se a heroina de algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo mundo a realisação d'esse ideal. A final é o que eu digo. É como as outras. É uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco pedante... É o resultado do systema de Thomé... Fazer viver estas mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade, que lhes ha de parecer insupportavel!... Triste methodo de formar esposas e mães!

E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritação, que elle proprio não podia justificar.

Depois proseguiu, com crescente malignidade:

--E quem sabe?... Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou proposito? É natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de espirito adquiridas no collegio, e ha tão pouca gente no caso de as apreciar n'esta aldeia, que não admiro que seja eu um dos eleitos. Emfim, são vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser indulgente. E demais que tenho eu com isso?... Mauricio que averigue, se quizer. Está no gosto d'elle...

Thomé voltou, e minutos depois estavam ambos em plena conferencia. Notou comtudo o lavrador aquella noite, que Jorge mostrava-se muito mais desattento do que de costume.

No meio dos seus exames, distrahiu-os uma voz melodiosa que, em outro aposento da casa, cantava em tom de acalentar crianças:

Quando uma criança dorme, Veem os anjos a sorrir Abrir as portas do céo, Para Deus as vêr dormir.

--Escute--disse Thomé, apurando o ouvido--é a minha Bertha a adormecer o irmão.

E Thomé pôz-se a escutar, com fervor paternal.

Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquella voz juvenil, que continuava cantando:

E um d'elles á terra desce Junto do berço a velar Para longe do menino Os sonhos maus afastar.

--Então? Não tem uma linda voz a rapariga?--continuava Thomé, olhando para Jorge, que não respondeu.

A voz continuou:

Dorme, dorme, meu menino, Que é alegre o somno teu. E emquanto na terra dormes Folgam os anjos do céo.

Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica melopêa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crianças.

Thomé, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia encontrar um caminho direito para o coração d'aquelle pae extremoso, e commovêl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas consoladoras.

Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se.