Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 8
Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excursão pelos campos, quando, ao descer por entre os pinheiros de uma bouça cerrada, viu passar, em um curto lanço de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam patentes, o vulto de dois cavalleiros.
Attrahiram-lhe naturalmente a attenção e esperou, para melhor os reconhecer, que chegassem a outro lanço mais proximo e mais descoberto da estrada que seguiam.
De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que cavalgavam a par.
No homem reconheceu Thomé; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.
Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente para elles.
Perto principiou a divisar na dama, que Thomé acompanhava, feições conhecidas.
Antes porém que esclarecesse a vaga ideia que aquellas feições lhe iam suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a mão:
--Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha cá, que me volta ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo.
Mauricio acabou por corroborar a suspeita que já tivera.
Era Bertha a amazona.
Bertha, a pequena aldeã com quem brincára em criança no pateo e na quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irmã Beatriz, a afilhada de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava já então os seus galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas transformações que opéra o sangue da juventude na formosura de criança, com todo o realce e prestigio que dá á belleza a educação.
Bertha era uma rapariga de olhos negros e de bôca graciosa, onde fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade. Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura de uma criança e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a falta de dissimulação, que é propria dos caracteres generosos, e ao mesmo tempo uma natural dignidade, que impõe respeito aos menos reverentes.
Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thomé.
--Bertha!--exclamou elle, sem disfarçar a sua surpreza, nem desviar os olhos da rapariga, que o saudára córando.--E é certo que é Bertha! Conheço ainda o sorriso, que é o mesmo de outros tempos. Mas que differença em tudo o mais!
Bertha desviou os olhos sob a insistencia e expressão dos de Mauricio, e dominando a custo a commoção conseguiu dizer:
--Fiz-me mais velha, não é verdade?
--Não, Bertha, fez-se um anjo--acudiu Mauricio.
--Isso é que não--atalhou Thomé--anjo era d'antes. Hoje já não repicariam os sinos, se ella morresse.
--A terra teria bem razão para lamentar-se. Ao céo é que competiriam as festas--atalhou, galanteando, Mauricio.
--Tambem eu encontro mudança em si, snr. Mauricio--observou Bertha.--Quando o deixei, não dizia ainda d'essas coisas.
E a mesma intima turbação tirava-lhe ainda a firmeza á voz e ao olhar.
--Porque não as sentia, Bertha--redarguiu Mauricio.
Bertha abanou a cabeça com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou sobresaltada:
--Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas são os que menos sentem.
--Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha?
--É tão facil ensino! Cada um aprende por si.
--Vamos--interrompeu Thomé--nada de estar parados no meio da estrada. Lembra-te, Bertha, de que tua mãe a estas horas não faz outra coisa mais do que espreitar da janella a vêr se te vê chegar.
--Vamos lá.
Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim entre o fidalgo e o pae.
--Que saudades me estão fazendo estes sitios!--dizia Bertha, suspirando e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.--Tudo me é tão conhecido ainda!
--Lembra-se d'aquelles freixos, lá em baixo, ao descer para os Palheiros Queimados?--perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava.
--Bem sei. É onde está a fonte da Moira.
--E aonde nós um dia fomos com a Anna do Védor colher agriões. Está certa?
--É verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um cão grande que lá havia, e que se atirou a mim com uma furia!
--E não se lembra de quem lhe acudiu?
--Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Védor, que se não fosse ella, vamos, não sei o que seria.
--Ainda assim não impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda conservo a cicatriz. Olhe.
E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o vestigio d'aquelle episodio de infancia.
--É verdade--proseguiu Bertha, já mais á vontade--e a boa ti'Anna do Védor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas ainda é o que era d'antes? alegre, robusta, franca?...
--Quem? a ti'Anna?!--acudiu Thomé--verás, Bertha, que ainda te parece mais nova. Aquillo é que é mulher de casa! É um gosto vêl-a, no meio dos campos, de mangas arregaçadas e chapéo de palha na cabeça e de enxada ou mangoal na mão. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma eira?
N'este ponto Thomé deu um assobio, que exprimia a grande conta em que tinha o trabalho de Anna do Védor.
--O filho está regedor.
--É uma boa e generosa alma--tornou Mauricio, com uma expressão de sincera sympatia.--E quer-nos como a filhos.
--Isso quer--confirmou Thomé--quando falla nos seus meninos que trouxe ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos.
--E tambem me ralha com uma severidade!
--Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Então pensa que não lhe merece ainda mais?
--Não digo que não. Só me queixo de certa parcialidade que manifesta por Jorge.
--E como vae o snr. Jorge?--perguntou Bertha.
--Muito bem. Fez-se caixeiro. Não sabe? Atirou-se aos livros e á papelada da casa, como um homem, e já não ha de tirar-lhe palavra que não seja de contas e de negocios.
--E é um homem ás direitas--disse Thomé, com gravidade.
--Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas então? Deu-lhe Deus aquelle genio frio como gêlo!...
--Eu não sei lá se é frio ou se é quente. O que sei é que é um rapaz de juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e moderna, que ha lá por casa.
--A moderna é commigo, aposto. Não tem razão. Eu tambem estou decidido a trabalhar. Se ainda aqui me vê, a culpa não é minha.
--Então vae partir?--perguntou Bertha.
--Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o coração por aqui, acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras... Mas que lhe hei de fazer?
--E para onde vae?
--Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thomé ri-se! Seu pae ri-se, Bertha!
--Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte devéras e que lhe custa immenso a partida.
--E então?
--A mim já me custa a crêr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso succeder, não ha de ser a chorar que arranjará as malas.
--É injusto com o meu coração. É o que se segue.
--Não, senhor; não sou; mas sei o que é ter vinte annos, e sei o que é essa cabeça. E agora o nosso caminho é por aqui. O snr. Mauricio, se quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa para o receber, senão...
--Agradecido, Thomé. Outro dia será. Não quero perturbar com a minha presença as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os amigos que eramos d'antes, não é verdade?
--Porque não, Mauricio... snr. Mauricio?
E Bertha, com um sorriso de generosa confiança, estendeu a pequena e delicada mão á que Mauricio lhe offerecia.
Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida, levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as côres nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu a galope.
Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois que o perdeu de vista.
Thomé, que notára tudo isto, não deixou passar muito tempo que não admoestasse a filha.
--Olha cá, Bertha, tem cautela com o teu coração, que não vá elle por ahi deixar-se prender. Eu não sei como é costume viver-se hoje lá na cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, não ponhas muita confiança n'estas amizades de Mauricio. Não digo que elle seja mau rapaz, mas a cabeça é que é assim não sei como. E n'isso mesmo é que está o perigo. Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle; é bem feito, vivo, esperto, generoso... Na tua idade, e com a educação que tens, não era para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto é tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te deixavas enfeitiçar. Elles são os fidalgos que sabes, e mais fidalgos ainda se julgam do que são. Tu, rapariga, és minha filha, e eu sou um lavrador, que já servi n'aquella casa. Entendes? Ó Bertha, por quem és, não me faças arrepender da educação que te dei. Porque eu, ás vezes, tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: «Faria eu bem em educar minha filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descalços, que lhe andassem pelos campos e apegados á saia de baêta; mas assim... Quem poderá costumal-a a isso? Mas que outro marido póde ella escolher?»
Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que não annullava a expressão melancolica e pensativa, que conservavam o resto das feições. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cêdo adquiriu a serenidade habitual.
N'este ponto atalhou-o, dizendo:
--São prudentes os conselhos que me dá. Farei por não os esquecer. Mas não se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que a sua bondade me teem permittido gozar na vida; não perdi de vista o que sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por não collocar a felicidade muito acima do alcance de meu braço. Na amizade de Mauricio creio que não haverá perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes. Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa; quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa.
--Lá de Jorge nada temas. É um caracter serio aquelle. Se disser que é teu amigo, é teu amigo devéras; senão, não t'o diria; mas este...
--Jorge é ainda o que sempre foi. Já em criança era o mesmo. Sempre tão serio!
--Agora ainda mais. Elle hoje não pensa senão nos negocios da casa, que tomou a seu cuidado e que levará a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho não tem cura, a querer-me mal.
--Sim?! Mas que pena!
--Deixal-o lá, que eu em vingança hei de fazer-lhe o bem que puder.
Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi recebida nos braços da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de lagrimas generosas; os irmãos pequenos olhavam espantados para Bertha que não conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados felicitavam-n'a tirando o chapéo e murmurando phrases incompletas.
Bertha no meio d'aquella effusão, d'aquelle cordial acolhimento, d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas, sentia-se feliz.
Debalde Thomé, um dos mais folgados corações alli presentes, bradava que era tempo de pôr termo á festa, que cada um tinha a sua vida a tractar, e que Bertha precisava de descanço; os abraços succediam-se, os beijos estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio.
Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoroço, que produz a chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo esquece; a manifestação é ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica. Sómente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, é que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam.
Succedeu d'esta vez que só passada meia hora Luiza notou que tinham estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de proposito e tão anticipadamente preparára para a recepção.
A familia recolheu-se então, principiou mais regular e ordenada conversa entre mãe e filha, e prolongou-se até tarde.
Thomé foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que era seu costume.
Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que é inutil descrever, porque não ha expressões que bem traduzam o que se sente então. Suppram-n'as as recordações do leitor; e muito sem conforto deve ter sido o seu passado, se não lhe dá elementos para conceber alegrias d'estas.
IX
Duram pouco as effusões, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros instantes, em que tornamos a vêr scenas e pessoas conhecidas, de que por muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire gradualmente a serenidade do costume; e o coração, que julgava saciar emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece que ainda não chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas e inquietadoras aspirações que sentia.
É grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis expansões, desvanece-se a illusão em que se vinha; como sempre, como em toda a parte, o vazio sente-se no coração, que nenhum gozo enche, e ahi se volta a aspirar sem saber a quê, e a aguardar uma nova aurora sem saber d'onde.
Quando, á noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia já satisfeito a sêde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar.
O coração batia-lhe com o rithmo normal, habituára-se de novo a sua sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da impressão que o primeiro olhar que lançou sobre elles lhe produzira, já nem indicios restavam.
O passado, resuscitando, perdêra já o prestigio e a poesia, que só como passado tem.
Ó feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos, devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque tão depressa nos abandonaes á chegada? Porque dissipaes os vapores inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos fascinados, e nos fazeis vêr a realidade como a viamos d'antes?
Bertha, só no remanso e solidão do seu quarto, sentiu uma profunda melancolia tomar-lhe o coração. Os cuidados e disvelos de Thomé e de Luiza não tinham sido sufficientes para transformar completamente aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada.
A este desconforto relativo não podia ser de todo insensivel a organisação feminil de Bertha.
Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse effeito, sentia-se com uma disposição para lagrimas, que a surprendia.
O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns indistinctos murmurios, que são o mysterio das noites campestres, conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia.
Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de nós o coração, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade estreitam cada vez mais a suffocar-nos.
Não accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o coração na propria noite, em que voltára á casa paterna. Não duvidem por isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher.
Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que algumas a tudo se amoldam. Ha-as tão delicadas, que a menor mudança resentem.
Os corações que se prendem depressa com raizes onde se demoram, são os que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantação.
Não era isto em Bertha pezar por ser tão modesta a casa dos seus paes; a sua tristeza era mais de instincto que de razão. E pelas impressões que vem do instincto, ninguem é responsavel; só á razão ha direito de pedir contas, e a de Bertha não recearia prestal-as.
Como para fugir á estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou á janella do quarto, que deitava para os campos.
Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fóra um silencio que amedronta, uma escura vastidão que apavora, silencio que ás vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha, e não sei que outros ruidos vagos; escuridão, onde parece distinguir-se o movimento de umas fórmas estranhas e monstruosas.
Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplação por algum tempo, já não a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa interrupção vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que aquella paz, que aquella quietação, que aquella treva nos absorve, que nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte integrante de si mesma.
Opera-se em nós uma quasi magnetisação. Adormece a sensibilidade que nos revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses momentos, Sancto Deus! Como a imaginação vagueia, como parece que d'aquellas confusas sombras, que temos diante de nós, nos surjem as memorias do passado e veem, em silencioso vôo, adejar sobre as nossas cabeças e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas.
O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes affectos. Não havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil clarão da aurora que os precede, essa mysteriosa vibração de alma, que sente nascer em si faculdades novas.
Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam.
Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a delicada criança, que parecia ter vivido sómente para semear de saudades o coração de quantos a conheceram.
Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas com ella; os jogos, os folgares e até as lagrimas, choradas em commum.
Que tempos!
E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras duas crianças, seus irmãos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual já então havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinião; e a contrastar com esta serena imagem, esboçava-se a do inquieto, vivo e estouvado Mauricio, criança prompta nos risos e no chôro, violenta nas expansões, tão amoravel como colerica, e em cujo coração infantil ferviam já nascentes as paixões de homem. Era esta talvez de todas a imagem que avultava mais distincta nas recordações de Bertha. Que de episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmãos fôra este o predilecto; o seu coração de criança abrira-se mais á franqueza de Mauricio, do que á seriedade de Jorge; havia no olhar d'este uma expressão grave que a intimidava. Depois a differença da idade concorria para augmentar esse effeito.
E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas.
Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros enormes, que guardavam os jardins encantados.
De repente o monstro abriu um olho.
Appareceu uma luz em uma das torres do palacio.
Era a unica que divisava em toda aquella escuridão.
Bertha não pôde mais desviar os olhos d'ella.
De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem passeiasse diante. Depois fixou-se, e sómente mais de espaço a espaço se eclipsava, para surgir mais viva.
Tudo parecia indicar que se velava alli dentro.
--Será o snr. D. Luiz?--perguntava a si mesmo Bertha, observando a luz.--Em que pensará elle a estas horas? Pobre velho, alli só, n'aquella casa deserta!... É em Beatriz de certo que pensa como eu... Ou, quem sabe? talvez não seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio, provavelmente... Sim, alli deve ser o quarto d'elles...
E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo da visão de Bertha.
As palavras que trocára com elle aquella tarde, a maneira como a olhára, e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia reflectir.
Adivinharia Thomé com o seu bom instincto de homem do campo?
Haveria para o coração de Bertha perigos na presença de Mauricio?
Era tão natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que, á similhança da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de puros aromas, o noivo que tarda; encontra tão facil asylo a imagem de um adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si umas pueris paixões, com que se illudiu a infancia, que razão tinha Thomé para receios e razão tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar com inquieta apprehensão o sanctuario dos seus mais intimos affectos.
Prolongou-se esta contemplação em Bertha, e succederam-se-lhe no espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na luz da Casa Mourisca. Só muito tarde desappareceu subitamente essa luz. Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se então para o interior do quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo.
A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstracção.
A vista dos objectos do quarto evocou-a á realidade. Passou as mãos pelo rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a opprimiam, sacudiu a cabeça suspirando, e procurou serenar o espirito, para dormir.
--É necessario ter juizo--murmurava ella, soltando as tranças--e soprar quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vêr, como elle é, o sol da realidade. É tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os annos de criança passaram.
E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resolução.
Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha não se perdêra no espaço, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns raios na passagem.
Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do fidalgo.
Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim.
Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a momentaneamente.
Esta noite havia porém mais agitação em Jorge do que lhe era habitual; os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril; concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais frequentemente.
As vigilias de Mauricio não eram mais curtas do que as de Jorge, mas consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas digressões pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das circumvisinhanças, onde houvesse uma mesa de _wist_ ou um canto de fogão, animado pelo sorriso das damas.
Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmão estudando, e era de costume d'elles passarem alguns momentos a conversar.
N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge, que passeiava no quarto, sentou-se depressa á banca, e inclinou a cabeça sobre um livro que tinha aberto diante de si.
Á entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mão, e proseguiu ou fingiu que proseguia na leitura que encetára, até terminar a pagina.
--Boas noites, nigromante--saudou-o Mauricio.--A estas horas, n'esta torre, á luz mortiça d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti, representas admiravelmente um astrologo.
Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.
Mauricio chegou-se á janella: