# Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

## Part 7

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Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia, em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao simples sôpro de uma criança. A impressão que lhe ficou d'este apertado inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mêdo de Jorge, e a empallidecer só com a lembrança de uma scena como aquella.

Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, já o padre previa com terror uma interpellação e ficava nervoso! Muito mais se D. Luiz estivesse presente.

Assim pois, graças a estes mêdos, frei Januario em vez de tornar-se vigilante em relação aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto, quanto podia.

O desgraçado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua administração, que o seu desejo era vêr passar já sobre ellas muitos annos para desvanecer-lhes os vestigios.

Jorge ficou pois completamente á vontade. D. Luiz, interrogando o capellão, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos, como por tantos annos fizera aos do padre.

Portanto, sem desconfiança de pessoa alguma, pôde Jorge combinar com Thomé, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de administração. Thomé era n'estas coisas um prudente e avisado conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro, por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre que pôde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thomé da Povoa.

Causou espanto na terra a revolução administrativa da Casa Mourisca. Os que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que, movidos por ellas entravam em transacções com a casa, conceberam ao principio lisongeiras esperanças, vendo que tinham a tractar com um moço inexperiente. Cêdo porém se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso e perspicaz, graças á intelligencia propria e aos conselhos do previdente Thomé, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado sequer.

As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite, como já dissemos.

Jorge sahia de casa quando já todos dormiam menos Mauricio, unico que se recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmão.

Thomé da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo mysterio, e ás vezes prolongavam-se até altas horas estes conciliabulos economicos.

N'elles, ambos aprendiam. Thomé abria a Jorge os thesoiros da sua muita experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um são juizo e uma natural lucidez. Jorge, que já enriquecêra a sua bibliotheca de novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava a Thomé dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes estrangeiros, e eram para vêr a attenção e o enthusiasmo com que o lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e supersticioso amor pelas praticas velhas, Thomé tomava nota de muitas d'essas innovações, para as experimentar, praticando-as nas suas proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisação não planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura nos paizes mais adiantados, onde é exercida por homens intelligentes e instruidos!

Passado pouco tempo Jorge gozava já na aldeia de uma fama de fino administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes.

Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos ressentimentos de frei Januario.

Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu despeito, tentára o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade.

Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura, que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperança d'ellas, e depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da casa, não era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte lavava as mãos de tudo.

A estas palavras, levantou-se murmuração entre alguns criados, que não tinham grande confiança no novo gerente e que reclamavam do padre o pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administração.

--Não quero saber de contos--insistia o padre.--Por feliz me dou eu em me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como puderem.

A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelão, que declarou que pela sua parte estava satisfeito com a mudança, porque o snr. Jorge era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para cumprir a sua palavra.

Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as modificou.

Foi o apparecimento de Jorge.

A scena passára-se em uma sala contigua á do cartorio da casa, onde desde pela manhã Jorge se encerrára a examinar uns papeis de importancia. O padre suppunha-o fóra, e por isso promovêra aquella reunião, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pôde Jorge ouvir tudo.

Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e terminal-a airosamente, embora á custa de algum sacrificio. N'esta resolução levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual communicavam as duas salas.

Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido.

Jorge dirigiu-se placidamente áquelles.

--Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e não levantassem esse clamôr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou para lhes fazer contas.

E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no gabinete, occultando-se uns com os outros.

--Entre tambem, frei Januario--disse Jorge ao padre, que procurava retirar-se sorrateiramente da sala.

O padre teve de obedecer, a seu pesar.

Jorge sentou-se á mesa e principiou a interrogar os criados, um por um, sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois de obtida a informação.

Assim os correu e satisfez a todos, á excepção do hortelão, que o estava a observar calado e com os olhos humidos.

Jorge voltou-se para elle e disse-lhe:

--Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes desconfiados. Tu és dos que esperam com esta garantia.

E estendeu-lhe a mão francamente aberta.

O hortelão quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas.

--Ó snr. Jorge! A maior paga que me póde dar é... não me pagar nunca.

Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra vez o dinheiro recebido.

--Lá por isso... nós tambem esperamos...

Jorge restituiu-lhes o dinheiro.

--Não é necessario... Levem-n'o.

E depois acrescentou:

--As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanças no serviço. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar os de lavoura. Por isso, vossês quatro, Francisco, Lourenço, Pedro e Romão, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois. Vossês, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que pretendam empregar-se aqui no mesmo serviço, mandem-nos ter commigo. E agora podem ir.

O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observação. Sahiram todos.

--Frei Januario--acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava meio aparvalhado--podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de casa. Apesar d'isso agradeço-lhe o ensejo que me deu de a pagar!

O padre resmungou não sei o quê, e sahiu cada vez com mais medo de Jorge.

--Onde foi o diabo buscar já tanto dinheiro?--pensava elle.--Não póde deixar de ser da maçonaria.

O hortelão ficou só com Jorge.

O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distincção que recebêra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge como é que se tinha dado o ataque do monte das Antas.

Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia.

VIII

Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que já temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de menção.

Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que até alli, porque não se obtivera ainda da prima baroneza a resposta á carta de D. Luiz.

Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abraçar os nobres projectos do irmão, exige a verdade que se diga que elle soffria com demasiada resignação as delongas da empreza, na parte que lhe dizia respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, caçadas e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter.

Jorge, esse deitára-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no gabinete, discutia nas conferencias com Thomé, e principiára já a realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras.

Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam já permittido libertar a casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se já por lá as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas estereis; já se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios, aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescença de uma longa enfermidade.

Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito, murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia.

--Muito havemos de rir a final--dizia elle.--Entradas de leão; agora as sahidas...

Não communicava porém as suas reflexões ao fidalgo, porque tinha mêdo de Jorge.

D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado de escudeiro, á distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasião de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo não procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegára a realisar o milagre. Cresceu a confiança no filho e de olhos fechados entregou-se a ella.

Não pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como já dissemos, luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de uma marcha morosissima, tomára ultimamente uma feição pouco favoravel aos fidalgos da Casa Mourisca.

Frei Januario já prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida.

Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou documentos, a seu vêr importantes e até alli não aproveitados, por incuria do padre-capellão. Mostrou-os a Thomé, que experiente n'estes negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do achado, e ambos resolveram remettêl-os a um novo advogado, a quem se entregou a direcção do litigio.

Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o seu pensamento da realisação completa. O que havia por fazer era muito mais do que o que estava feito, mas os principios animavam.

Por este tempo porém sobreveio um acontecimento, que algum tanto transtornou a face d'estes negocios.

Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha.

Preciso é porém dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita já que vae chegar a final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos inteiros talvez não tenha já sido pouco estranhada.

Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thomé.

Nascida na época em que o fazendeiro não era ainda o homem abastado em que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para assegurarem o futuro da pequena.

Thomé obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar a criança á pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito tempo lavára, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude.

A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revoluções, alterou a posição relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros annos de Bertha.

Já sabemos como, em virtude d'esta revolução, Thomé subiu gradual e incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo succedeu á tal senhora, cuja indole bondosa e timida não soube oppôr estorvos ás prodigalidades de um irmão perdulario; vendo-se em consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que tinha, para ir para Lisboa educar meninas.

A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambições por a filha e queriam dar-lhe a educação de uma senhora, aproveitando e cultivando n'ella as boas disposições que já adquirira na convivencia com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Além d'isso, outra e mais generosa intenção levou-os a darem aquelle passo. Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que sempre na opulencia os auxiliára e estimára. Possuiam porém bastante delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os. Pediram-lhe pois que tomasse conta da educação de Bertha, e assim, além da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes á mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle proceder.

Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que não provocou escassos commentarios na aldeia, onde se disse que o Thomé da Herdade se afidalgava, e que já não queria ter filhos lavradores.

O senhor da Casa Mourisca não viu tambem com bons olhos aquelle passo de Thomé, cujo engrandecimento havia já muito tempo que principiára a incommodal-o.

Bertha, que fôra até então a companheira de brinquedos dos meninos da Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga criança, que temos visto viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma madrugada com lagrimas e soluços.

Desde então conservou-se em Lisboa, onde só o pae a foi vêr, por duas vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe ganhára affeição, cada vez mais funda.

Bertha crescêra; as graças infantis foram a pouco e pouco perdendo n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que não empanam a belleza, antes lhe dão mais e mais seductor relêvo. Bertha não era já a criança que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou timido, sem uma dôr que se não manifestasse em lagrimas; era já a virgem de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do coração, e portanto sujeita a todas as subtis impressões, dominada por todos os impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspirações d'aquella quadra magica.

A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que tão sem razão anda confundida com a elegancia, apurára-lhe a delicadeza feminina, desenvolvêra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para os prazeres do espirito.

Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a permanencia de uma razão clara no meio dos attractivos e seducções, com que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava, mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as prendas de educação que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o seu. Se tinha sonhos de juventude... e quem os não tem n'aquella idade? sabia que sonhava e não se distrahia a procurar no mundo real as visões, que n'elles lhe appareciam.

A lembrança da sua origem modesta não a fazia melancolica, mas prudente. Não era aquella ideia uma sombra negra, que não lhe deixava vêr a luz; simplesmente um como crystal córado, que lhe permittia fital-a, sem mêdo de offuscação e cegueira.

Assim, no meio das suas effusões, das suas melancolias e até dos seus pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga de juizo.

A educação de collegio não produzira n'ella a adocicada pedantaria de algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia uma phrase que elles não entendessem, uma palavra que os embaraçasse e lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educação. Revelava-se n'isto um natural instincto de delicadeza, que Thomé, por um instincto analogo, sabia apreciar.

Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e mãe á boa Luiza, e esta convicção não o deixava arrepender de a haver educado com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os affectos da rapariga!

As cartas de Bertha eram escriptas de fórma, que não sómente aos paes agradavam, mas a quantos as liam.

Thomé mostrara-as a Jorge, e este não pôde deixar de apreciar a redacção singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar tão acertada, vistas tão despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que são o maior achaque nas cartas de mulher; transpareciam tão distinctamente os suaves e generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas ligeiras manifestações, se revelava tão irmão seu.

A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que ás vezes se originam no coração, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paixões, despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando muito uma feição, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no coração de Jorge. Era um sentimento, que não o inquietava ao principio, nem lhe perturbava o espirito, por isso não se acautelou d'elle; deixou-se repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.

Um dia mostrou-lhe Thomé o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as feições que conhecêra infantis, animadas agora pela vida da adolescencia. Pareceu-lhe não haver contradicção entre aquella physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga começou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz.

Jorge então assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de que a razão lhe não dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencêl-a.

Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que apparecessem fóra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de experimental-o. Esta contenção forçada acabou por produzir no espirito de Jorge um effeito singular; foi um grau de irritação, revelado em uma especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe a limpidez de coração, que tivera até alli, e fazer-lhe pela primeira vez vacillar a razão, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder dizer-se, em estylo de conceitos: «queria-lhe mal por lhe querer bem.» Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impressão por que se sentia dominado.

Taes são as indicações que julgamos dever dar a respeito de Bertha, antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade.

Esta não era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia.

A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente fallecido.

Bertha escrevia assim ao pae:

«Meu querido pae.

«Escrevo-lhe a chorar e com o coração a partir-se-me de dôr. A minha madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem à noite esteve a conversar e a rir comnosco, e tinhamos até combinado para hoje um passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vêr expirar; custou-lhe já a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como estou! Nós todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho! Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez mais feliz!... Peço-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu sei que o pae já uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porém lembrar-lhe algumas coisas, e depois decida. Eu não quero dizer que tenha uma educação perfeita; mas, como não conto, nem desejo, viver nas salas d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam precisos. Muito tem já o pae feito por mim; é preciso agora olhar por meus irmãos, e alguns estão em idade em que ainda podem agradecer-me alguns serviços, que eu ahi consiga fazer-lhes. Mande-me ir. A mãe deve ter muito trabalho em olhar por tudo em casa. É tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos é uma vergonha não o fazer. É uma parte da minha educação que posso concluir ahi e que me será bem necessaria. Demais confesso-lhe que, depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em Lisboa. Peço-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as saudades, que já tenho de todos e de tudo.

Muitas lembranças á mãe, muitos beijos aos pequenos.

Sua filha, que espera muito cêdo abraçal-o,

_Bertha_.

P.S. Que não esqueça dar muitos recados á Joanna, ao Manoel da Costa e á filha, assim como á tia Euzebia e ás mais pessoas amigas.»

Thomé leu á mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido que conviria adoptar.

Saudades maternas e paternas, desejos de vêr de perto e abraçar a filha dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos, resolveram a questão no sentido indicado por Bertha; e para assim a resolver, quasi bastava que ella o indicasse.

Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade.

D'ahi os necessarios preparativos para a accommodação da filha, cujos habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que era justo attender.

O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e jornaleiros.

Jorge encontrou uma noite Thomé ainda empenhado n'esta labutação caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoroço.

O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia.

Parecia prever a aproximação d'um perigo, que mal ousava definir.

Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thomé e a Luiza os parabens pela proxima chegada da filha, e até os auxiliou com o seu alvitre na resolução de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete destinado a Bertha.

Sahiu porém da Herdade debaixo de estranhas impressões moraes. Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de desgosto.

Thomé resolvêra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha.

Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas da Herdade.

A demora de Thomé não foi longa.

Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha.

