Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 6
Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestação de dôr, que observava no pae, na presença d'elles de ordinario tão reservado.
--Não--acudiu elle impellido por aquelle sentimento--o interior da nossa casa não será devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem depois da sua morte. Dê-nos apenas permissão para trabalharmos, e nós juramos evitar essa humilhação.
D. Luiz ergueu finalmente a cabeça e pela primeira vez fez signal aos filhos para que se sentassem junto de si.
Depois, dirigindo-se ao mais velho, já em tom menos severo:
--Jorge--ponderou elle--a tarefa que queres emprehender não é facil. É verdade que não teem corrido pelas minhas mãos esses negocios, mas sei d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias. Frei Januario não é um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia e boa vontade de nos servir, e ainda assim não prospéra esta casa, que foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma criança que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus planos são vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos até hoje, dos que nas excellencias dos teus.
--Perdão, meu pae, mas não são tão vagos como os suppõe. Pensei já muito n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditação espero resolvêl-as; além d'isso... auxiliado... quando necessario fôr... dos conselhos de frei Januario, espero que me será possivel realisar o meu intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras.
Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a exposição dos seus projectos economicos.
Não o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmão escutaram admirados de tão inesperada sciencia. De facto, as informações de Thomé, os fructos da propria reflexão, as ideias adquiridas na leitura meditada dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um completo systema de administração, que, se tinha defeitos, não eram para ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fôra dado a esses exames. A exposição clara, o tom de convicção, o calor do quasi enthusiasmo com que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa.
D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fôra destinado pela Providencia para ser o restaurador da sua casa.
E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle não mencionára. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel um capital inicial não pouco avultado, e Jorge não dissera como havia de obtêl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja menção bastaria para desvanecer toda a boa impressão produzida no animo de D. Luiz.
O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thomé da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operação era indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e por isso sómente emprestavam sob condições onerosissimas e perigosas.
Mas o orgulho de D. Luiz não lhe deixaria aceitar favores de Thomé; nunca elle consentiria na menor transacção com o que fôra seu criado.
Por isso Jorge guardou para si sómente esta parte das suas projectadas operações, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos pontos de questões d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o pae acabou por dar o consentimento pedido.
--Seja; não me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro em pouco tempo será vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que eu julgava; comtudo marco duas condições; a primeira é que nunca faças contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia.
--Prometto-lhe que não o envergonharei.
--A segunda é que não desprezes os conselhos de frei Januario.
--Por certo que não prescindirei das suas informações.
--Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora...--acrescentou D. Luiz--vamos ao resto... E Mauricio?
Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas difficuldades para responder á interpellação, se Jorge não respondesse por elle:
--Tambem pensei em Mauricio.
--Ah! tambem?--disse o pae, não podendo occultar a quasi admiração, que lhe estava impondo Jorge.
Mauricio interrogou tambem com a vista o irmão.
--Se Mauricio confia em mim, é inutil a sua permanencia aqui na aldeia, onde não tem em que se occupe.
--Tens a minha plena confiança, Jorge. E a não me quereres para teu guarda-livros...
--Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. Lá poderá ser mais util a si e a nossa casa. É verdade que não é essa por ora uma medida economica; antes obrigará a alguns sacrificios. Far-se-hão porém, se precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para não os deixar ficar improductivos.
D. Luiz fez um gesto de duvida.
--Humh!--objectou elle--que carreira póde n'estes tempos seguir na capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje governa?
--Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem poderá fornecer-nos valiosas indicações.
--Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!--accentuou sarcasticamente o fidalgo.--Ora adeus! Uma doida...
--Tem-se mostrado sempre nossa amiga--corrigiu Jorge--e ainda por occasião do fallecimento de Beatriz...
--Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos entre a gente, que a fez orphã.
--Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o comprehenderá e lhe dará as informações pedidas.
Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente.
Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus artigos sanccionado o projecto de Jorge.
VII
Frei Januario, dormida a sua regalada sésta, dispoz-se a fazer horas para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposições de espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho.
Ainda D. Luiz meditava nas mudanças que ia soffrer o regimen economico da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir á porta, articulando o costumado--_licet_?--E sem esperar resposta o padre frei Januario foi entrando.
--Ainda ás escuras, snr. D. Luiz?!
--Nem sempre temos para nos alumiar luzes tão bellas como esta; respondeu o fidalgo, designando o luar que já lhe inundava o quarto.
--Quer não; isto de luar não é lá das melhores coisas e depois o ar da noite...
--A noite está que parece de maio.
--Sim? mas sempre os vapores dos campos... Eu acho mais prudente accender luz e fechar as janellas.
--Não me opponho, frei Januario, até porque temos que fallar.
--Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.ª
--Pois, muito bem. Vamos a isso.
Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a conferencia.
D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro.
--Visto isso, principiarei, e o que sinto é que seja para dar a v. exc.ª noticias assustadoras--preludiou o egresso.
--Assustadoras! Que é a final? Alguma insolente exigencia de credor.
--Nada, nada; a coisa é outra. Tracta-se do filho de v. exc.ª
--De Mauricio? Que fez elle?
--Não, senhor; não é do snr. D. Mauricio, que eu fallo.
--Então? É de Jorge?
--Justamente. Eu conto a v. exc.ª
E frei Januario principiou a expôr ao fidalgo os pormenores da discussão que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexões proprias. Horas antes, esta communicação teria talvez produzido o effeito estupendo, que o egresso calculára; mas a prévia entrevista de D. Luiz com os filhos tirára toda a importancia á revelação. D. Luiz apenas franziu o sobrolho á parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignação e do espanto, com que esperava vêl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras, pronunciadas com a maior fleugma:
--E então que pensa d'isso, frei Januario?
Lá de si para si o padre replicou á pergunta com a sua expressão favorita de desapontamento--Lérias!--mas em voz alta não foi tão expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar:
--O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc.ª o que pensa? Eu por mim penso que anda aqui febre liberal; o veneno já está no sangue. Tão certo! Aquillo dá logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botões: «Pois sim, sim, estás arranjadinho.» O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum mação. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que estão na estalagem do Manco. Isto de engenheiros é gente que se não confessa; ou então são coisas do hortelão, que eu não seja quem sou se ainda não ha de dar que fallar n'esta casa; mas o certo é que lhe metteram na cabeça essas caraminholas e se v. exc.ª não olha por isso, eu lhe protesto que dão com o rapaz mação, o que é uma pena, porque é um bom rapazinho. Mas quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, torço-lhe logo o nariz.
--Parece-me que d'esta vez são sem fundamento os seus receios, frei Januario. A final, pondo de parte alguma expressão menos sensata, e que o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz são razoaveis.
--Razoaveis?
--Pois porque não? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que perde na ociosidade. Está cançado da vida de rapaz. É natural e é louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que ámanhã será constrangido a fazer, com peior resultado; no que eu devêra ter feito na idade d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale então que principie já, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que tarde, ás cegas e sem uma pessoa de confiança a encaminhal-o.
--Pois é verdade, mas...
--Elle fallou-me n'isso ha pouco.
--Ah! pois sempre fez o que disse?!
--Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no caso e dei-lhe a permissão que elle pediu. Era até o que eu tinha para dizer-lhe.
--Então, visto isso, de hoje em diante?...
--De hoje em diante, Jorge se entenderá comsigo. O frei Januario precisa de descançar tambem.
--Eu ainda não estou cançado--resmungou o padre.
--Espero que dará a meu filho todos os esclarecimentos de que elle precise e todos os conselhos da sua muita experiencia.
--Não seja essa a duvida; mas, na verdade...
O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a phrase ao egresso.
Pelos modos a ceia ia tardando.
--Com licença--disse elle, levantando-se--eu vou vêr como correm as coisas na cozinha.
Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico:
--Não tem que vêr. Filho mação, pae idiota... casa perdida.
Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, pé ante pé, á cozinha, a fim de surprendêl-o em flagrante.
Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate ás suspeitas um acalorado travar de vozes, que de lá vinha.
Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelão, o inimigo irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com uma perna atravessada sobre a outra e as mãos a segurarem o joelho, nem ouvia o chiar das caçarolas, nem se lembrava da ceia.
O padre fumou com a descoberta.
O hortelão dizia:
--Foi então que o imperador... oh aquillo é que era um homem!... foi então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832, alli pela tardinha.
E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou recitando oratoriamente:
--«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa vinda e confiam...
Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D. Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:
--Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!
Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus postos. O hortelão reagiu, como era seu costume.
--Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer, póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do imperador e...
--Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o logar dos hortelões não é na cozinha.
--Lá se vamos a isso, tambem o do capellão não é ao pé das panellas, e comtudo vocemecê póde dizer-se que não tem outro posto, onde esteja mais firme.
--Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e depois não se queixe.
--Não se metta o snr. padre commigo, se não quer ouvir. Olhe que eu fui soldado, e não é um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco que não morriam queimados todos os meus camaradas de caçadores 5. Hein? que diz vocemecê áquella caridade?
--Você não se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que você tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religião e da igreja.
--Quem fallou em tal? Eu em quem fallo é nos frades, que é coisa differente.
A desavença terminou com a subita sahida do padre, que perdia as estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas, e o hortelão passou a contar por miudo como tinha sido o caso do incendio do convento dos Franciscanos.
O padre, na presença do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua immediata demissão. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o silencio do costume.
D'ahi a momentos estava o procurador aplacado..., porque ceiava.
Á ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.
Ninguem fallou durante a refeição nocturna. O padre estava amuado, D. Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre o aspecto carrancudo do padre.
Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho:
--O snr. frei Januario já está informado do que hoje se combinou. Ámanhã elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.
E depois de uma sêca «boa noite», D. Luiz sahiu da sala.
Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem.
Jorge interrogou o padre:
--A que horas quer que o procure ámanhã, snr. frei Januario?
--A que horas?... Ah!... sim... isso... eu sei?... A coisa não é de pressa... Se não fôr ámanhã...
--Ha de ser ámanhã--atalhou Jorge.
--Ha de ser! Essa é boa! Sabe lá da minha vida? Ha de ser! Tem graça.
--Não lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero só que me passe os livros e os papeis.
--Os livros!... e os papeis... Mas para que?
--Porque d'ámanhã em diante tomo conta d'elles.
--Eu não me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o que eu nunca esperei d'elle. É bem custoso receber tal paga no fim de tantos annos de serviço! E então que patetices! Attender aos caprichos de uma criança em coisas tão sérias como estas! E sabe que mais, snr. Jorge? Eu não tenho vagar nem paciencia para me pôr agora a ensinar meninos.
Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o, dizendo:
--Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lição ou conselho?
--Então para que me procura ámanhã?
--Para que me dê os livros e mais documentos relativos á gerencia da casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. Não são perguntas de discipulo...
--Percebo o que quer dizer na sua, são de juiz.
--Não. Quem o suppõe réo? Não, senhor. É apenas uma curta conferencia, como o trocar da senha entre a guarda que se rende.
--Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto?
--Muito sériamente.
--Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de consciencia, e eu não sei se devo...
--Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os livros da sua escripturação.
--E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem.
--Então geria de cabeça, frei Januario?--perguntou Mauricio, rindo.
--Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de parlapatices e espalhafatos é que nunca fui.
--Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei Januario--concluiu Jorge.
--Snr. frei Januario, muito boa noite--secundou zombeteiramente Mauricio.
--Ide com nossa Senhora--murmurou o padre irritado.
Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.
Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa ceia, ia resmungando:
--Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola... E como elle falla?! Parece já um senhor que _todo lo manda_! Os livros! Era o que me faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar. Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar! Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vêr o sarilho, em que isto tudo está mettido, que nem eu sei já como sahir d'elle, então é que ha de dar vivas, e gritar «aqui d'el-rei.» Ora deixa estar.
E o padre ria, ria de boa feição, ao pensar no logro que havia de pregar a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vêl-o.
Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador.
Jorge não dormiu, como o padre; velou até alta noite, lendo, calculando, combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou igualmente no futuro, na revolução que ia operar-se na sua vida, mas de um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso. As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem que se fixasse uma só d'ellas. Era um succeder de ideias tão rapido, que parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor.
No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge.
Frei Januario tentou realisar a traça que com applauso proprio delineára na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem classificação nem escolha, procurações, recibos, contas, contractos de arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitação com a fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspirações ambiciosas.
Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto successor, o padre, encostando os braços á banca, apoiou o queixo entre as mãos, posição em que a bôca repuxada lhe tomava um geito de caricatura eminentemente comico, e ficou á espera do resultado das suas manhas com um sorriso de malicia e triumpho.
Jorge porém não desanimou. Com um rapido lançar de olhos julgava da importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha de lado para segundo exame ou os guardava como vistos.
Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais minuciosa revista.
Frei Januario já se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia vendo ás coisas, e insensivelmente foi tomando uma posição mais discreta e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que até alli observára Jorge.
O peior não tinha principiado ainda.
Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de importancia, de uma serie de perguntas, que embaraçaram sobre maneira o padre. Reconheceu então que o filho de D. Luiz não era a criança que elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual esperava dar uma memoranda lição ao impertinente discipulo, podia muito bem terminar com notavel desvantagem do mestre.
Ao principio do fogo cerrado de questões e objecções, o padre tentou entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade varonil, com que Jorge lhe insinuou:
--Snr. frei Januario, eu não vim aqui para brincar, nem o assumpto da nossa conversação é digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada até agora.
O padre experimentou a arma da dignidade offendida.
--Então quer dizer que desconfia de mim?... e instaura-me um processo?
--Peço-lhe por favor que não venha com isso outra vez. Ninguem o accusa, já lh'o disse. Peco-lhe só esclarecimentos sobre o passado, para poder caminhar para diante.
Frei Januario acabou por se convencer de que não havia fugir á sabbatina. Não lhe foi suave tarefa aquella.
Jorge pela primeira vez lhe fazia vêr os erros de officio que elle commettêra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo em que deixára outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a testa, entrava em explicações confusas d'onde com muito custo sahia, titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio céos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro á paciencia e fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observação que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o opposto ao que frei Januario prognosticára. Quem d'elle sahiu atordoado, desgostoso e disposto devéras a não querer saber mais da administração da casa, foi o padre e não o rapaz.