Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

Part 5

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Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.

Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente consultava.

A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi ao fechar da tarde.

Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação. Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte, sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.

Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do irmão, interrogou-o:

--Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?

--Deixa-me, Jorge--respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e pondo-se a passear no quarto.--Se soubesses como eu venho suffocado de raiva?

--Contra quem?

--Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!

--Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.

--É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha sangue nas veias e pundonor no coração.

--E sangue tambem no coração--emendou Jorge, sorrindo.--Olha que tambem é lá preciso.

--Não rias, Jorge! Por quem és!--tornou o irmão despeitado.--Bem vês que fallo seriamente.

--Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.

--Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado, mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento de fallar nas dividas da nossa casa?

--Quem as contrahiu e não procura pagal-as--respondeu, triste mas placidamente, Jorge.

E logo depois acrescentou:

--Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.

--O que foi?

--Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.

--Inevitaveis?! Eu te juro...

--Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso que me fez pensar.

--Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?

--Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.

--Sim, mas de que maneira?

--Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.

--Queres então fazer-te lavrador?

--Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos. Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós? Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza. O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores genealogicas; desengana-te.

--Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?

--Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos desprezar do que nós a elles.

--Desprezar-nos!--repetiu indignado Mauricio.

--Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito. Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos, e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder, Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?

--Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que...

--Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos salvar, se quizermos ser homens.

--E como?

--Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.

--Mas...

--D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente, pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda certa.

--Mas que entendes tu de administração?

--Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.

Mauricio ficou pensativo.

A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa duração.

Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com uma impetuosidade juvenil:

--Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos, a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.

Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso, e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua habitual serenidade:

--Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes ficar a montear por estas aldeias.

Mauricio sorriu, objectando ao irmão:

--És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas devezas, valles e ribeiras.

--Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que não a vias lá.

--Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham?

--Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados; vi-a eu que estava de fóra.

--E quem deu a Thomé sentidos para a vêr?

--A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos, impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o.

Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter, e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo momento a D. Luiz.

A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto o fidalgo devia estar só no seu quarto.

Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas sombras da quinta.

Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da perspectiva, e o pensamento... ai, quem sabe porque melancolicas paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias, festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao desapparecer lh'a deixou escura e desencantada... que outras podiam ser as visões presentes áquelle espirito sombrio?

Pobre velho!

Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos.

VI

Ao chegar á porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira hesitação.

D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira tão austera, abria-se-lhes tão pouco em confidencias, mostrava tão má vontade ao ter com elles longas e sérias conversações, que Jorge precisava de exercer um grande esforço sobre si mesmo para dar aquelle passo tão fóra dos seus habitos.

Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto d'elle; a estranheza do facto seria pois já uma razão bastante para os perturbar, ainda quando não concorresse para o mesmo effeito a natureza do assumpto da conferencia, que não podia ser mais solemne.

A resolução de Jorge era porém muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi instinctiva timidez.

Jorge bateu á porta com intimo sobresalto.

Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia.

Os dois irmãos impelliram diante de si a porta, e afastando o reposteiro, entraram.

Os raios do luar tinham já principiado a penetrar na sala, desenhando no pavimento as projecções das janellas ogivaes, que a pouco e pouco cresciam para o interior.

Do lado da porta eram porém ainda espessas as sombras, e D. Luiz não podia pois conhecer quem entrava.

A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem poder conjecturar de quem fossem.

A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes silencio.

A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella mysteriosa luz uma singular expressão de gravidade.

D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e perguntou-lhes admirado:

--O que é que pretendem?

Jorge foi o que respondeu.

--Se v. exc.ª nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe.

--Fallar-me?!--repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado.

--Sim, senhor.

--É singular! E a proposito de quê?

--Do nosso futuro.

--Ah!--exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua crescente irritação.--Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar.

--Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me inquieta.

D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia:

--Tambem te atacaram as mesmas inquietações pelo futuro?

--Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez--respondeu-lhe com firmeza o filho interrogado.

D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge:

--Então vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui.

E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braços da cadeira.

--Meu pae--principiou Jorge--perdoe-me a liberdade que tomo de fallar n'isto a v. exc.ª; mas é o empenho que faço em que o nome e o credito de nossa familia se conserve sem mancha... que...

O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella.

--E quem o manchou?--rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho com um olhar, cujo fulgor até á claridade tibia da lua se percebia.

--Até hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez ámanhã, quando não puder satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater á porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a sciencia do trabalho--respondeu placidamente Jorge á violenta interpellação do pae.

--Então já sabes que te baterá á porta a miseria?--inquiriu o fidalgo amargamente.

D'esta vez foi Mauricio quem respondeu:

--Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos um mestre, e as crianças por ahi já sabem dizer que os fidalgos da Casa Mourisca estão empenhados.

D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo:

--No meu tempo pagavam-se essas lições bem caras! Para isso serviam então, pelo menos, os rapazes das nossas familias.

--Tambem nós as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a consciencia que não ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e a vingança estariam satisfeitos; mas a razão e o dever, não--contestou-lhe Jorge.

--Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e... e o que mais?... Ah, sim... e mais o dever.

Jorge, sem se perturbar, acudiu:

--Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel; mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento, destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae, diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida ociosa e inutil que passamos aqui.

--Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida; veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os... arrumar?

O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico.

--Não, meu pae--insistiu Jorge--vimos apenas lembrar a v. exc.ª que chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a permissão para realisal-os.

D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando:

--Está bem. Então tu o que queres ser?

Jorge respondeu promptamente:

--Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa.

D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das titubeações que esperava. Convenceu-se de que Jorge não procedia levianamente de todo, e que n'elle havia uma tenção formada. Voltando-se para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principiára:

--E tu? Queres ir para o Brazil?

Mauricio não tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o projecto era apenas uma resolução vaga e mal definida, e não um plano fixo e meditado como o do irmão. Era n'essas fórmas vagas que elle mais o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar as primeiras repugnancias e desillusões.

D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas, como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros:

--Ainda não pensaste n'isso. Bom. Ouçamos então primeiro teu irmão. Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administração de nossa casa prosperaria?

--Creio que não iria peor conduzida do que vae. V. exc.ª conhece perfeitamente que não será grande façanha ir tão longe como frei Januario.

--É um homem experiente.

--Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que nós, saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que não me enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vão. Pedir emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, não para melhorar o que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras não arrendadas, é a pratica até hoje seguida, tão facil como funesta.

--E quem te disse que é possivel fazer outra coisa?--objectou já sem ironia o pae.--Os tempos actuaes são de prova para familias como as nossas, a maré que sobe traz á flôr da agua o que era lôdo em outros tempos.

--Deixe-me tentar, meu pae.

--Tentar o que? criança. Queres ser enganado e escarnecido por esses manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de lidar? Que sabes tu da administração dos bens ruraes?

--Aprenderei. A sciencia, patente ás faculdades de frei Januario, não é defeza a ninguem.

--Nem tu sabes o que pedes. Não córarias de vergonha no tracto familiar a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes, miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram á cara com a sua riqueza?

--Procuraria d'entre esses os de mais educação.

O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando:

--Educação! Elles!

--Porém, meu pae--argumentou Jorge com mais vehemencia--é uma triste necessidade esta. Pense bem. Se é vergonha, como diz, procural-os para tractar negocios, maior vergonha será que elles nos procurem para nos expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por ella, peor e menos decoroso lhe será ter de deixar esta terra, onde já não possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraça senão á sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrerá menos se um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da destruição e de mãos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradições que a illustravam. É pouco para ambicionar-se esta fama.

--E depois, meu pae--acudiu Mauricio--que dôr não seria o vêr devassado por invasores o quarto em que morreu minha mãe, esta sala, o salão onde brincavamos em criança, e até os aposentos de nossa irmã, da sua querida Beatriz?

A memoria da filha morta commovia sempre o coração d'aquelle velho, que ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabeça assim que lhe ouviu o nome, e murmurou:

--Não; a nossa miseria não irá tão longe. Creio que Deus não me reservará esse tremendo castigo. Morrerei primeiro.

--E nós, se lhe sobrevivermos, senhor, não soffreremos tambem? Quererá legar a seus filhos uma herança d'essas?--interpellou-o Jorge.

O pae escondeu a cabeça entre as mãos, já sem signaes da rispidez com que principiara a scena, e não pôde responder a esta interrogação de Jorge.