Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 33
--Foi então--proseguiu Bertha, mas enleiada--que imprevistamente elle me confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente má vontade, da dureza das suas palavras era... a affeição que me tinha e que, desde que a sentira, se esforçára por occultar e vencer, como eu tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de familia, mas que não queria que o sacrificio ferisse a mais alguem senão a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as minhas attenções e sympathias. Não o conseguiu; mas que importava? Eu não tinha menos coragem do que elle, e comprehendia tão bem como elle quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda.
--Pobre rapariga!--murmurou D. Luiz commovido.
--Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses... amores de que lhe vieram fallar não sei para quê. No mesmo dia em que nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em nós mesmos essa loucura que nascêra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente.
--E teu pae nada soube de tudo isso?--perguntou o desconfiado fidalgo.
--Se nós mesmos o não sabiamos!--respondeu Bertha com ingenuidade.
Depois de um intervallo de muda reflexão, D. Luiz segurou outra vez nas mãos a graciosa cabeça da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo, verdadeiramente paternal.
--Era bem digna de ter nascido entre a nobreza--disse elle suspirando--quem tão nobremente pensa e procede. Quantas raparigas creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre pequena! O teu sacrificio é grande e custoso, porque tu com esse coração que tens, se amas, deves amar devéras; mas bem vês e tu mesma o reconheces, é um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha certas exigencias tradicionaes....
--Snr. D. Luiz--disse Bertha interrompendo-o--repare que ha dias que eu lhe pedi o seu consentimento....
--Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem tão longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que não amavas?
--Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O destino de uma mulher como eu é esse. É a nossa missão. Porque não havia de cumpril-a?
--Illudindo, porque não podias amar.
--Disse-o a Clemente. Não lhe prometti o que não podia dar-lhe.
--E elle aceitou?!
--Pediu tempo para pensar. Agora vejo que não....
Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e desdobrava distrahida o pequeno avental de sêda. D. Luiz observava-a com ar pensativo.
Foi elle quem renovou o dialogo.
--Custa-te muito o sacrificio que fazes, não é verdade?
--Para que hei de dizer que não? Custa-me como quando ao acordar de sonhar um sonho agradavel, me convenço de que foi um sonho tudo. Sabe porém o que me anima? É o pensar que mais me custaria se o sonho se realisasse.
--Porquê?
--Porque teria remorsos de pagar d'essa maneira o affecto que encontrei sempre n'esta casa; porque teria vergonha de que pensassem que, da minha parte, esses affectos eram calculados e interesseiros. Nós tambem temos o nosso orgulho, snr. D. Luiz--acrescentou ella, sorrindo.
--E nobre que elle é--acudiu o fidalgo, cada vez mais fascinado.
N'este momento a porta abriu-se, e frei Januario metteu a cabeça pela abertura.
--Que é?--perguntou D. Luiz, irritado.
--É o Thomé da Povoa ... é o pae d'essa menina que a procura.
--A mim?--disse Bertha, levantando-se.
--Sim, menina--tornou o padre--e parece-me que procura a v. exc.ª tambem.
--Pois que entre--respondeu D. Luiz asperamente.
Passados momentos Thomé da Povoa entrava para o quarto de D. Luiz, com as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares.
XXXV
Como homem a quem pesava a commissão que se propunha a desempenhar alli, Thomé da Povoa, depois de comprimentar o fidalgo e de abençoar a filha, foi direito ao fim da sua visita.
--Pois, snr. D. Luiz, eu venho aqui para buscar a rapariga, se v. exc.ª der licença.
Bertha desviou para o fidalgo um olhar inquieto e investigador.
D. Luiz não respondeu, mas correu-lhe pelos labios um rapido sorriso, entre amargo e ironico.
Thomé, em vista do silencio do fidalgo, sentiu que não podia deixar de dizer mais algumas palavras de explicação, e por isso, enleiado a forjar um pretexto que não lhe occorria, acrescentou:
--Ella está sendo lá precisa... porque... sim, a minha Luiza, pelos modos... anda assim adoentada...
--Minha mãe está doente?--perguntou Bertha com inquietação.
--Doente, doente... o que se chama doente, não digo, mas... E depois ha lá uns milhos a arrecadar e os pequenos... E emfim, n'esta época do anno, a casa de um lavrador... Os jornaleiros são muitos...
E a cada pretexto que mal apontava, Thomé erguia a vista para D. Luiz a estudar-lhe na physionomia o effeito da desculpa.
Mas de todas as vezes a achava cerrada na mesma expressão de reserva e de mysterio.
De repente, porém, D. Luiz fez um movimento, como se uma subita resolução lhe acudisse, estendeu a mão para Bertha, que se demorára ainda ao lado d'elle e como que a impelliu de si e na direcção de Thomé, dizendo com affectada placidez:
--Ahi a tem. Póde leval-a.
Á estranheza com que Thomé o encarou, vendo-o fazer aquelle gesto, correspondeu o fidalgo, acrescentando em tom de amargura e sarcasmo:
--Não calculou bem o tempo. Antecipou-se. A occasião não era ainda esta; por ora não estou enfeitiçado, bem vê.
Thomé julgou perceber vagamente o sentido d'estas palavras e córou, dizendo:
--Ou eu entendo mal o fidalgo, ou quer dizer...
--Que póde levar sua filha. A presença d'ella aqui não adianta os seus projectos. Meus filhos não estão nos Bacellos, como vê, e eu... eu já não tenho coração sujeito a feitiços.
--A illusão não era possivel para Thomé. As palavras de D. Luiz confirmavam as previsões que elle tivera antes de lh'as ouvir.
O rosto do lavrador tomou a expressão que os fortes golpes e as paixões violentas lhe costumavam dar.
Ficou-se por algum tempo a olhar para o fidalgo sem soltar uma palavra, mordendo os beiços e abanando significativamente com a cabeça. Depois tomou a filha pela mão, e encaminhando-a para a porta do quarto, disse-lhe:
--Bertha, vae apromptar as tuas coisas, que eu espero por ti... e no entretanto conversarei com o fidalgo.
Bertha sentia que entre aquelles dois homens havia imminente uma lucta de paixões, que não estava já na sua mão dissipar. Mais valia pois deixal-os chegar a uma explicação decisiva, que definisse a posição de cada um.
Obedeceu portanto á indicação do pae, dirigindo-lhe apenas em um olhar uma supplica que não passou desapercebida de Thomé.
Depois que Bertha sahiu, o lavrador voltou para defronte do fidalgo, e cruzando os braços disse-lhe com um modo decidido:
--Agora que estamos sós, snr. D. Luiz, faça v. exc.ª o favor de me accusar abertamente e de uma maneira clara e franca.
D. Luiz respondeu com frieza e sobranceria:
--Se nas minhas palavras viu coisa que lhe parecesse uma accusação é porque de certo a consciencia lh'as interpretou assim.
Thomé da Povoa não pôde reter um movimento de impaciencia.
--Por quem é, fidalgo, não me principie v. exc.ª com esses discursos enredados, com que não me entendo. Jogo franco! Ou se não, começo eu, e será talvez melhor.
D. Luiz encolheu os hombros, exprimindo a mais aristocratica indifferença.
--Não me custou a entender as suas palavras de ha pouco, fidalgo, porque depois do que eu soube esta manhã, esta manhã apenas, repare bem, snr. D. Luiz, depois do que soube esta manhã e conhecendo como conheço o genio de v. exc.ª, já esperava ouvir alguma coisa parecida com o que ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram menos as taes palavras. É preciso que v. exc.ª saiba. Porque um homem que não tem a pesar-lhe na consciencia nenhuma deslealdade, um homem que tem brios, não póde a sangue frio ser suspeitado como eu o estou sendo por v. exc.ª
--Bem; pois se a consciencia lhe não exprobra nada, é o essencial. Vá em paz com ella e deixe-me em socego, homem, deixe-me, que bem preciso eu d'elle.
--Perdão, fidalgo. Isso é que eu não posso fazer. Deus me livre de ser accusado pela minha consciencia, mas Deus me livre tambem de o ser pela dos homens que respeito e estimo. E v. exc.ª, ainda que não o creia, é um d'esses.
--Muito obrigado.
--Permitta-me que vá direito ao caso. Minha filha não tarda ahi, e eu não quero fallar diante d'ella. Esta manhã foram a minha casa, (provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram tambem aqui com a mesma nova... Foram a minha casa e disseram-me...
--Perdão, eu não preciso de saber o que se diz nas casas alheias.
--Pois bem--acudiu Thomé já irritado--eu lhe conto então o que se disse na sua. Vieram aqui, a casa de v. exc.ª, e disseram-lhe: «O seu filho Jorge está namorado da filha do Thomé e a rapariga também gosta d'elle.» Disseram-lhe isto com certeza, e disseram-m'o a mim tambem. Ora agora, eu lhe conto mais, eu lhe conto o que v. exc.ª pensou e o que eu logo previ que v. exc.ª pensava. Pensou v. exc.ª: Aquelle insolente Thomé foi quem machinou tudo isto. Atreveu-se a sonhar em apanhar o meu filho para marido da filha d'elle, em alliar a sua familia á minha, em dar por aposento áquella rapariga as salas do meu palacio. Para isso principiou a amimar-me o filho, para isso prestou-lhe serviços com signaes de desinteresse, para isso o levou por sua casa e lhe metteu á cara a filha, e emfim, para assegurar ainda melhor os seus projectos, sabendo da predilecção que eu mostrava pela rapariga, trouxe-m'a para casa, porque, velho e doente como me via, conjecturou que bem podia ser deixar-me de tal maneira prender por ella, que não oppozesse obstaculos aos seus projectos. Ora aqui está o que v. exc.ª pensou. Negue-o, se é capaz.
D. Luiz não ousou negar.
--Muito bem, fidalgo. O tempo é pouco, como disse, e por isso eu vou já direito ao meu fim. Eu logo vi que deviam ser estes os pensamentos de v. exc.ª, porque ainda quando as apparencias eram menos contra mim do que d'esta vez, v. exc.ª costumava sempre fazer a meu respeito supposições tão boas como esta. Por isso não pude soffrer a ideia de conservar nem mais uma hora minha filha n'esta casa. Vim e vim á carreira para a levar commigo. Procurava dar um pretexto qualquer a esta retirada, mas foi desnecessario, porque logo vi ás primeiras palavras de v. exc.ª que já chegára tarde para remediar o mal que previra. Muito bem, n'esse caso resta-me pouco a fazer para descargo da minha consciencia e depois retiro-me.
Thomé passou a mão pela fronte, que tinha inundada de suor. Na voz como no semblante eram evidentes os signaes da sua excessiva commoção.
D. Luiz, que o ouvira conservando os olhos fitos no tapete do pavimento, sentiu-se involuntariamente obrigado a levantal-os n'aquelle momento para os fitar na physionomia do homem que tinha diante de si e que a seu pezar o impressionava.
--Fidalgo--proseguiu Thomé, depois d'esta breve pausa--juro-lhe que nunca percebi estas affeições entre minha filha e o snr. Jorge, juro-lhe que nunca pensei em que ellas podessem dar-se. Quando o soube estalou-me o coração de dôr e córaram-me as faces de vergonha. Cheguei a arrepender-me, pela primeira vez, de alguns serviços que em boa fé prestei ao snr. Jorge, pequenos mas feitos da melhor vontade. Mas uma vez que o caso se deu, sem culpa minha, só tenho a dizer-lhe isto, fidalgo; ouça-me bem. Quero do coração a seu filho, de pequeno o estimo, e respeito-o agora como um homem de bem que é; quero devéras, se quero! a minha filha, é a primeira que eu tive, é a única rapariga, é a que trago mais chegada ao coração, fraquezas de pae, como sabe; pois bem, quero-lhes a ambos e muito, mas ainda que a affeição que elles tivessem um pelo outro fosse tal que eu os visse morrer, e que a salvação d'elles só dependesse do meu consentimento para se casarem, deixal-os-ia morrer, deixava; morreria com elles, mas não daria esse consentimento. Juro-lh'o, fidalgo, juro-lh'o! que para tanto tenho coragem; porque o meu orgulho não é menos forte do que o de v. exc.ª! Para eu consentir que um filho meu entrasse na sua familia, fidalgo, era necessario... Eu sei lá o que era necessario?... Era necessario que v. exc.ª primeiro me pedisse por favor para assim o consentir. Agora veja lá se isso é possivel.
Ao terminar, Thomé tinha a respiração cortada, offegante, como de quem realisou um esforço enorme. Cahiam-lhe bagadas de suor pela fronte afogueada e as mãos contrahiam-se-lhe em crispações nervosas.
D. Luiz ia a responder-lhe quando Bertha entrou no quarto preparada para a partida.
A sua chegada cortou n'este ponto a scena.
Bertha relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a scena que ella previra tivera logar.
--Quer que vamos?--perguntou ella ao pae timidamente.
--Vamos--respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se para a porta.
Bertha aproxiraou-se do fidalgo, olhando-o com timidez.
--Quer dar-me a sua benção de despedida, meu padrinho?--perguntou Bertha a meia voz, como receiosa de uma recusa.
D. Luiz, sem voltar o rosto, estendeu-lhe silenciosamente a mão.
Bertha apoderou-se d'ella e beijou-a, banhando-a de lagrimas de saudade.
D. Luiz estremeceu ao sentir aquelles beijos e aquellas lagrimas, mas fez por se reprimir na presença de Thomé.
Emfim, Bertha separou-se d'elle, e encaminhou-se para a porta, onde o pae a esperava.
Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz suffocada.
Voltou-se. D. Luiz seguia-a com a vista nublada de pranto e estendia-lhe os braços para um ultimo adeus.
Ella correu para o velho e abraçaram-se soluçando.
Thomé sensibilizado escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro.
Por algum tempo durou ainda aquella tocante scena de despedida, que despedaçou o coração do velho fidalgo.
A final afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte, enternecido, murmurou:
--Vae, minha filha; é melhor que vás. O teu sacrificio é grande, mas crê que não é maior do que o meu. Dize a teu pae....
Mas percebendo Thomé meio escondido na porta, dirigiu-se a elle:
--Thomé, ha pouco fui injusto comsigo. Desculpe-me; a velhice e a doença fizeram-me assim. Creio na sua boa fé e espero que todos nós saberemos proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego-lhe a sua filha. Tem razão em a querer junto de si.
E pela segunda vez na sua vida o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a mão ao seu antigo criado.
Thomé aceitou-lh'a com a effusão com que sempre acolhia a mão que lealmente se estendia para a sua.
--Fidalgo, se v. exc.ª... Mas não; é melhor que Bertha venha commigo. É melhor para socego de todos. Custa ao principio, mas...
--Sim; é melhor, é; Bertha que vá--assentiu D. Luiz.
E depois de uma ultima despedida tão terna como a primeira, o pobre doente viu desapparecer para não voltar, a doce figura da sua carinhosa enfermeira.
Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho escondeu a cabeça entre as mãos já trémulas, e com a voz cortada pelos soluços exclamou com desespero:
--Agora morre! morre! morre para ahi só, velho desgraçado, sem filhos, sem familia, sem amigos; morre só com os teus rancores, com as tuas paixões, com o teu orgulho, já que assim o queres. Quando acabará de se despedaçar este coração, para me deixar descançar?
Frei Januario veio surprendêl-o n'este apaixonado monologo e recuou assustado ante a vehemencia d'aquella dor.
D. Luiz nem deu pela chegada do padre. Cahindo em um profundo abatimento, assim permaneceu sem que as perguntas e supplicas do padre conseguissem arrancar-lhe uma palavra dos labios contrahidos.
Sómente ao fim da tarde, D. Luiz disse que queria deitar-se; ajudaram-n'o a despir-se e a mettêl-o na cama, onde elle ficou como cabido em uma somnolencia morbida.
O padre receioso do resultado d'aquella subita depressão de forças, pensou em avisar Jorge.
O bom do padre, apesar dos seus defeitos, não era um coração insensivel, e por D. Luiz tinha uma affeição sincera. Aquella noite, reagindo contra o seu amor pelas commodidades, velou, ou melhor, permaneceu á cabeceira do doente. Teve porém o desgosto de perceber que este não sentia grande refrigerio em vêl-o alli, porque sempre que no intervallo dos seus somnos agitados dava com os olhos n'elle, desviava-os logo com despeito.
Não obstante, o padre conservou-se fiel ao seu posto.
XXXVI
O estado do doente no dia seguinte não era mais animador. O abatimento, em que tão de subito cahira, mostrava geitos de prolongar-se e por ventura de terminar por uma solução funesta.
O padre mandou á pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacellos.
A carta de frei Januario chegou ás mãos de Jorge juntamente com outras de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decisão favoravel da importante demanda que elle sustentava, outras da baroneza e de Mauricio, participando-lhe o seu casamento e promettendo uma proxima visita á aldeia. Todas estas noticias de tão diversa indole impressionaram extraordinariamente Jorge.
Por esse lado illuminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a constancia e a tenacidade de um animo varonil; por outro assombrava-o o estado perigoso de seu velho pae, a quem elle desejaria dar ainda a consolação de vêr como que erguida das ruinas a casa de seus antepassados.
As novas, quasi funebres, que lhe vinham dos Bacellos, enlutavam-lhe as alegrias nupciaes das cartas do irmão e de Gabriella.
Debaixo da influencia d'estas impressões oppostas, Jorge, depois de escrever um pequeno bilhete a Thomé, em resposta a outro que d'elle recebeu, communicando-lhe também o resultado da demanda, montou a cavallo e partiu a toda a pressa para os Bacellos.
O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a cabeça, conduziu-o ao quarto de D. Luiz.
Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o coração ao aproximar-se do leito do pae.
--Elle já nem falla--dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda não conseguira obter uma só palavra do fidalgo.
Jorge afastou quasi tremendo as cortinas do leito.
D. Luiz, que jazia com os olhos fechados e n'aquella immobilidade quasi morbida em que desde a partida de Bertha cahira, não deu signal de ter percebido a chegada do filho.
Jorge, assustado com aquella impassibilidade, pegou-lhe na mão que tinha estendida por fóra da roupa, como para procurar n'ella o calor da vida.
Ao contacto da mão do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos; vendo Jorge, passou-lhe nos labios um desvanecido sorriso de affecto.
--Ah! és tu, Jorge?--disse elle com a voz ainda fraca--não te tinha visto entrar.
Frei Januario ficou estupefacto, ouvindo fallar o doente, que elle já suppunha em estado de não poder fazêl-o.
--Acha-se melhor?--perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.
O velho só respondeu encolhendo os hombros como exprimindo indifferença pela sua sorte, e depois fitando outra vez os olhos no filho, interrogou-o por sua vez:
--E tu?
Jorge estranhou esta solicitude no pae, tão fóra dos seus habitos, e sentiu-se commovido.
--Eu?... eu estou bom.
--Estás pallido e doente--proseguiu o pae, fitando-o.
E sem desviar os olhos, recahiu no silencio, que manteve por alguns segundos.
Depois, procurando a mão do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma commoção a que só ultimamente era sujeito.
--És um homem, Jorge! És digno do nome que tens e da familia que representas.
Estas palavras surprenderam extraordinariamente Jorge e não menos frei Januario, que as attribuiu ao delirio produzido pela doença.
D. Luiz acrescentou no mesmo tom:
--Saber sacrificar tudo a um dever é a principal e a mais difficil sciencia que nós temos a aprender na vida, e tu... mostras que estás bem senhor d'ella.
Julgando perceber o sentido d'estas palavras, Jorge fitou no pae um olhar perscrutador.
Elle porém fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como cahido em um somno profundo.
O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.
--Como vão os negocios de nossa casa?--perguntou d'ahi a pouco elle sem abrir os olhos.
Jorge communicou-lhe a boa nova que recebêra de se haver vencido a mais antiga e a mais importante demanda que sustentavam.
Na pallidez das faces do doente passou um instantaneo rubor. Os labios agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pôde ouvir o filho, murmurou:
--Será chegado o termo d'esta longa provação?!
Depois recahiu no torpor em que passára a noite e não disse mais palavra alguma.
Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a claridade do aposento, e entregando-o á vigilancia do padre, retirou-se ao escriptorio para trabalhar nos negocios da casa.
Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.
Pela madrugada do dia immediato despertou a gente nos Bacellos á chegada de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando a baroneza e Mauricio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa da sua visita.
Jorge correu a recebêl-os e cingiu nos braços commovido o irmão e a cunhada.
Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria, a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehensão.
--Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?--disse a baroneza.--Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não podes realisar os teus grandes projectos?
Jorge sorriu, encolhendo os hombros.
--Que quer que lhe faça, Gabriella? A vontade do homem não rege os processos intimos da sua vida organica. Não está na minha mão modificar o andamento dos meus actos nutritivos.
--Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de trabalho...
--Não é isso, Gabriella--acudiu Mauricio--eu sempre conheci em Jorge o habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata é a louca presumpção de ser superior ás paixões, e a tentativa que faz para sacrifical-as a não sei que imaginarios deveres.
Jorge sorriu.
--Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos. Esse soubeste-o só depois de casares.
--Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.
--Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer d'elle.
--Mas--tornou a baroneza--é preciso sahir d'isto. O Jorge suppõe-se mais forte do que é.
--Creia, Gabriella, o melhor é deixar ao tempo o cuidado de resolver as crises. Hoje o que me preoccupa é a solução dos meus negocios, que felizmente vão tomando uma face animadora.
--É verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que tanto te preoccupava. O que tu não sabes é que ao valimento de Mauricio com um dos desembargadores, em cujas mãos parava o processo, se deve essa prompta solução.
--Devéras?
--Não ouso crêl-o--disse Maurício--ainda que é verdade ter-lhe fallado e haver recebido d'elle a promessa de aviar depressa o processo.
--Hoje quasi posso assegurar-lhe que é certa a nossa regeneração--tornou Jorge.--Esta primeira victoria prepara-me o terreno para outras e solta-me os movimentos que tinha peiados. E os teus projectos, Mauricio?
--Vão em bom caminho. Tenho quasi certo um logar na embaixada de Londres ou de Berlim.
--Eu ainda não desespero de envelhecer embaixatriz--disse a baroneza, sorrindo, e acrescentou:--Mas que é de Bertha? Já cá não está?
--Retirou-se ha dias. Desde então recrudesceu a doença do pae.
--E para que se retirou?
--O Thomé veio buscal-a.
--Com que fim?
--Não sei... Ainda que... por algumas coisas que ouvi... quer-me parecer que fizeram conceber a Thomé certos receios. Emfim eu proprio não quiz profundar os motivos da retirada por temer que não me fosse agradavel ouvil-os.
--E querem vêr que o tio Luiz também soube? É impossivel que tudo isto não lhe tenha feito muito mal! Eu nunca vi! Esta gente toda entregue a si parece que porfia em complicar a situação. Mauricio, vamos vêr teu pae. Eeus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens, Jorge?