Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

Part 30

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--Com o Clemente?! Tu casares com o Clemente? Tu, uma rapariga delicada, de educação, de gosto, de sentimentos elevados, casares-te com um rustico, com um rapaz que quando muito saberá escrever o seu nome! com o filho da Anna, com o snr. regedor! Isso não tem geito nenhum. Isso é um disparate de tal ordem!... Quem foi que se lembrou de tal?!

--Clemente pediu-me a meu pae...

--E teu pae concedeu? Coisas do Thomé a final. Mas tu? tu, Bertha, tu consentiste!?

--Clemente é um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho...

--Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e é isso bastante para que uma rapariga como tu vá sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia á de um homem que não póde servir-lhe de boa companhia?!

--E porque não póde, meu padrinho? Elle é bom e delicado, dizem.

--Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes fazer, Bertha. Pois devéras o coração approva essa escolha?

--Não, snr. D. Luiz, não é que o coração m'a peça, porém...

--Então quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te?

--Tambem não; mas o padrinho sabe que nem sempre o coração é bom conselheiro. Mais vale ás vezes não esperar que elle escolha. Oh! se mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o coração decida, mais vale.

--O Clemente não póde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus concedeu qualidades tão distinctas, que melhor estarias n'essas casas nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por lá tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso.

--A sua muita bondade para commigo, padrinho, é que o cega. Pois diga a que posso eu a final aspirar?

--A que podes aspirar?!--exclamou o fidalgo, a quem a exaltação de espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus principios mais radicados--aqui, n'esta terra de selvagens, não podes aspirar a mais, porque não ha quem te mereça até. Aqui nem sequer por sonhos se sabe o que é delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se aprecia essas nobres qualidades de coração e de espirito de que Deus te dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e que nem póde conhecer o thesouro que deseja possuir.

--Mas, snr. D. Luiz, que outra póde ser a minha sorte? Ora diga.

D. Luiz, fazendo um gesto de despeito, respondeu com vehemencia:

--Pois bem, queres ser mulher de Clemente, não é assim? queres ir sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptidões aos arranjos da casa da Anna do Védor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu não quero ficar com remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de Clemente! Vossês, as raparigas, a final são todas assim, as mais ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem que são mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o proposito de não o escutares? Anda lá, faze a tua vontade, e Deus queira que te não arrependas, quando já não fôr tempo. Tu não necessitas do meu consentimento, faze lá o que quizeres.

E D. Luiz encostou-se á mesa com gesto e movimentos de amuado.

--Porém, meu padrinho--insistiu Bertha, poisando-lhe as mãos no hombro com a doce familiaridade de filha--não era esse consentimento de má vontade que eu lhe pedia; esse não me trará felicidade, bem vê.

--Queres talvez forçar-me a dizer que approvo um casamento, contra o qual se revolta a consciencia? É boa!

--Mas pense bem e talvez que a sua consciencia não ache motivos para revoltar-se.

--Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma inclinação irresistivel, e então eu entenderei a tua insistencia.

--Não digo, porque não diria a verdade.

--Mas então onde está essa necessidade de casamento?

Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para convencêl-o.

--Olhe, snr. D. Luiz--disse ella--eu vou informal-o de todo o meu pensamento, e dirá depois se tenho razão. A educação que meu pae me deu não me cegou a ponto de illudir-me a respeito do meu futuro e do destino que me está reservado. O exemplo de minha mãe, que tem sabido em toda a sua vida ser a companheira fiel de um homem de trabalho e tem comprehendido que a sua missão era aquella, a de fazer-lhe esquecer em casa os desgostos de fóra e dar-lhe forças para continuar a sua tarefa, este exemplo nunca o perdi de vista; entendi sempre que terá de ser esse o meu papel n'este mundo, e nem me envergonhei nem me temi nunca d'elle. Sentia em mim forças para aceital-o e para cumpril-o.

--Mas nem só os homens do trabalho material e grosseiro são os que precisam d'esse conforto da casa e da familia. As lidas de intelligencia tambem cansam, Bertha, e á cabeça desfallecida á força de estudo tambem é grato encontrar um seio amigo aonde se encoste a descançar--redarguiu o fidalgo com uma animação excepcional.

Bertha tornou-lhe, sorrindo:

--E qual seria a cabeça cansada de muito pensar que viria procurar a esta aldeia o seio em que repoisasse? De longe é de crêr que não viessem, e as d'aqui... ha tão poucas que se sintam cansadas d'isso! Creia, snr. D. Luiz, só um lavrador como Clemente procuraria a filha do lavrador Thomé da Povoa, e Clemente é um homem digno de ser estimado.

--Só um lavrador! Que estás tu ahi a dizer?! E porquê? Tomaram-te para esposa esses doutores que por ahi estão ociosos, comendo e bebendo á custa dos paes, e esquecendo o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida inutil que levam; olha que não te haviam de engeitar esses morgados vadios e perdularios, que passam a vida em caçadas e que arrastam o nome que herdaram pelas tavernas e por todos os logares de devassidão.

--Esses engeital-os-ia eu. Pois julga que lhes não devo preferir Clemente?

--Pois não digo esses, mas... emfim... ainda por ahi ha gente... bem educada...

--Se não fosse a sua muita bondade para commigo, o meu padrinho mesmo acharia natural este casamento, e pelo contrario estranharia se algum dos filhos d'essas familias que diz fosse procurar noiva á casa de meu pae.

O sentido epigrammatico d'esta resposta, dictado a Bertha por a nobre e justa indignação do coração, que depois de se haver sacrificado aos preconceitos de um homem, via o proprio por quem fizera o sacrificio negar a necessidade d'elle, feriu certeiro o fidalgo, que se sentiu vencido.

Mudou pois de tactica, e com a eloquencia que lhe inspirava o receio de perder a companhia de Bertha, tornou:

--Muito bem, dizes que não amas esse homem, que não cedes a inclinação alguma do coração, aceitando-o por marido; que se o fazes é por julgares que é essa a tua missão de mulher, a de suavizar a vida de um homem, e de tornar-lhe mais facil o seu caminho no mundo. E para cumprires essa missão vaes deixar-me só, velho, doente, abandonado dos filhos, sem conforto algum na vida; só com as lembranças pungentes do meu passado, e isto depois de me habituares á tua companhia, depois de me haveres recordado as doçuras d'este viver ao lado de uma filha, doçura que o amargor das saudades me tirava dos labios havia muito tempo. Para que vieste então? Quem te chamou? Se eu tivesse ficado só, estaria morto talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares a sentir agora esta separação; para me fazeres morrer de paixão no dia em que celebrares esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te quasi como uma segunda Beatriz que Deus me concedêra, e podes julgar se eu daria a Clemente uma filha minha.

--Meu padrinho!--exclamou Bertha, inquietando-se com a exaltação do fidalgo.

D. Luiz proseguiu sem a escutar:

--Mas que te importas commigo? Eu estou velho; as cabeças na minha idade vergam muito para a terra, pesam demasiado, não se póde exigir de umas mãos jovens a tarefa de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha! Mas para que vieste? Julgas que me deixas forte? Estás enganada. Esta vida em mim é ficticia. É da tua presença que a recebo. Ámanhã que me deixes vêr-me-has mais prostrado do que me encontraste. Emquanto viveu a minha Beatriz, ninguem me viu fraquear. Dois mezes consecutivos, dois mezes, passei junto do leito onde ella agonisava, quasi sem dormir, quasi sem comer, e nunca me faltaram as forças, e desde o momento em que m'a tiraram dos braços para m'a encerrarem no tumulo, abandonou-me toda a minha energia, e cahi no leito quasi exhausto de vida. Mas vae, não quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os corações na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conheço isso; mas não me digas que é sómente a consciencia da missão que te compete na vida a que te impelle; essa bem a desempenharias tu aqui, e generosa e abençoada como nenhuma, porque nenhum coração receberá de ti consolação igual áquella que me dás; podes crêl-o, porque tambem poucos ha mais apertados de angustias e que ha tanto tempo abafassem como este meu. Mas queres deixar-me... Vae... vae, que eu não devo, nem quero impedir-te.

Havia tão sensivel commoção na voz com que D. Luiz pronunciára estas palavras, que Bertha sentiu o contagio d'ella, e pegando nas mãos do padrinho para as levar aos labios, disse-lhe sensibilisada:

--Ó meu padrinho, se é verdade o que diz, se a minha companhia lhe faz tão bem, ordene-me que fique, e ninguem me tirará de junto de si, e nenhuma sorte me será mais querida do que esta. Concorrendo para alliviar-lhe os seus soffrimentos, parece-me que estou cumprindo um encargo que Beatriz me deixou, e que ella do céo me sorri e agradece. Quer que não saia de ao pé de si? quer que lhe consagre todos os meus cuidados? fal-o-hei e fal-o-hei com prazer.

O velho cingiu a formosa cabeça d'aquella rapariga, que se lhe ajoelhava aos pés, e aproximando-lhe dos labios a fronte e as faces beijou-as a chorar.

--Obrigado, Bertha, obrigado por essas palavras que me entram pelo coração como um balsamo salutar. A minha vida não póde ser muito longa, filha, o teu sacrificio não duraria muito tempo... mas nem eu quero que faças promessas de cumpril-o. Só te peço que me dês algum tempo para responder á tua petição, e que até lá me não falles mais n'esse casamento. Eu pensarei e talvez... talvez me conforme com essa ideia, contra a qual ainda me revolto. Póde ser isto? Podes esperar na minha companhia alguns dias mais?

--Esperarei o tempo que quizer. E não pense por ora em tal casamento, se esse pensamento o afflige. Se soubesse nem lhe tinha fallado n'isto.

--Melhor foi que fallasses; é preciso pensar com vagar n'isso.

--Mas agora não, agora vamos até á quinta, que a manhã está bonita.

Em resultado d'esta conferencia nada ficou determinado emquanto á época do casamento. Thomé teve de dizer a Anna do Védor que o fidalgo ainda não podia prescindir da companhia de Bertha.

Anna não ouviu a noticia sem fazer-lhe commentarios, nos quaes havia algumas azedas allusões ao egoismo do fidalgo, que depois de offender o pae, assim se sabia apropriar dos serviços que lhe prestava a filha.

Cumpre porém notar que a boa Anna seria a primeira a aconselhar a Bertha que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegára D. Luiz.

XXXII

Não podia passar da ideia a Clemente a maneira insolita e quasi desabrida com que Jorge por duas vezes recebêra as suas consultas relativamente ao assumpto do casamento de Bertha.

Clemente conhecêra sempre em Jorge uma tal placidez de espirito, uma tal impassibilidade em presença dos casos mais estranhos, que não sabia como explicar aquella subita transformação.

Esta mudança em Jorge e a revelação que ouvira da bôca de Bertha tão preoccupado traziam o pobre rapaz, que não podia dispôr da attenção para outro objecto. Distrahiam-n'o estas ideias das suas tarefas diarias e agitavam-lhe o somno das suas noites.

Jogava-lhe alternadamente o pensamento com estes dois assumptos, como se joga com duas espheras em uma só mão; emquanto se arroja uma ao espaço, cahe a outra a occupar o logar que fica vazio. Ora succede que muitas vezes as espheras encontram-se e batem uma na outra; e que muito será para admirar se d'este choque resultar uma faisca? Pois com o jogo do pensamento póde succeder o mesmo. De duas ideias que se encontram, á força de se cruzarem muitas vezes no cerebro, póde sahir um clarão. Este phenomeno succedeu com Clemente.

Pensava elle uma noite no seu leito:

--Mas quem poderá ser o tal rapaz que Bertha diz que amou e que ainda ama? Porque será impossivel o casamento com elle? E Jorge tambem diz que o é. Elle parece que sabe a este respeito alguma coisa mais do que disse. Até quando lhe fallam n'isso se enraivece. Quando me lembro! Nunca o vi assim! Nem elle era d'aquellas coisas. Como está impertinente! Mas o tal rapaz, o tal rapaz? É claro que é conhecimento da cidade. Sim, porque da terra não póde ser... a rapariga já ha muito que d'aqui sahiu... e sahiu criança... Desde que chegou com ninguem tem convivido... a não ser com os fidalgos da Casa Mourisca, mas esses... É verdade que pelos modos Mauricio lhe arrastou a aza, como faz a todas, mas ella não lhe deu confiança; emquanto a Jorge... Jorge... Jorge...

De repente o filho da Anna do Védor sentou-se de um salto na cama e murmurára já audivelmente:

--Jorge! Querem vêr que...

E sem bem saber o que fazia, accendeu luz. Este movimento de instincto, pelo qual parece que queremos desfazer com a luz de fóra as meias sombras que dentro de nós escurecem ainda uma ideia, é frequente n'estas circumstancias. Clemente permaneceu sentado no leito com a vista fixa e o queixo apoiado na mão.

E continuava murmurando:

--E porque não? E a mim que não me tinha occorrido! É até o mais provavel. E assim explica-se tudo... A maneira por que elle fallou a primeira vez e hontem... Aquillo de sahir da casa dos Bacellos, quando ella foi para lá... E a tristeza em que anda... Mas então... E porque é impossivel? Ai, sim, o velho. Isso lá é verdade, quem fallasse ao velho em tal, o que ahi não iria!... Porém... morrendo o pae... já não havia tropeço... E ahi ficava eu... É o que eu digo... É verdade que o rapaz tem lá uns modos de pensar!

Aqui bateu Clemente uma palmada no travesseiro, exclamando quasi:

--E não é outra coisa! Agora é que eu explico tudo o que elle me disse... e ella tambem. É certo. Coitados! Se assim fôr... Mas é com certeza. Vou jural-o. Pois se não fosse... Ora se não é, é sem a menor duvida. Elles gostam um do outro. Bertha gosta de Jorge e o rapaz tambem gosta d'ella.

E formulando esta conclusão, Clemente, com abstracção igual á do philosopho que, excitado pela alegria de uma descoberta, sahiu como estava do banho a proclamal-a por toda a cidade, saltou da cama e começou a vestir-se com presteza sem reflectir no que fazia.

Já meio vestido foi que reparou que eram duas horas da noite e que portanto era aquelle acto extemporaneo. Com instinctiva repugnancia deitou-se outra vez.

Quando no decurso de uma noite nos luz assim de subito uma ideia, em busca da qual andavamos havia muito, quando nos occorre a solução de um problema em que meditavamos, impacienta-nos o imperturbavel silencio e quietação que nos rodeia, formando tão completo contraste com o tumulto que nos vae no pensamento. Anciamos pelo dia para ter a quem communicar a descoberta, e para a examinar á luz bem clara, e desenganamo-nos de que não fomos victimas de uma illusão nocturna.

Emquanto o dia não rompe, o cerebro é irritado por aquella sua creação, como o seio materno pelo ser desenvolvido; acabado o periodo da gestação mental é necessario que a ideia venha á luz, e qualquer demora é afflictiva.

Este phenomeno psychologico passava-se em Clemente. Custou-lhe a respeitar o somno da mãe, esperando a luz do dia para lhe transmittir a descoberta que fizera.

O resto da noite passou-o volvendo-se e revolvendo-se na cama sem poder dormir. Era quasi um estado febril o seu.

Incommodára-o a ideia de que a sua pretenção á alliança com Bertha era o motivo da tristeza de Jorge, e que, sem o saber, fôra elle o importuno despertador d'aquelle sonho em que se embalavam ambos, deixando-se amar, sem pensarem no futuro do amor a que cediam. Sonho irrealisavel embora, porém Clemente não quereria ter sido quem os acordou.

Antemanhã, quando ainda a estrella d'alva despedia proxima do horizonte as suas ultimas scintillações, Clemente deixou finalmente o leito, onde não encontrára repouso, e foi passeiar para o campo contiguo á casa, aguardando o despertar da mãe.

Anna do Védor era matinal e por isso Clemente não esperou muito.

Effectivamente a vidraça do quarto em que dormia a robusta matrona abriu-se e ella bradou da janella para o filho:

--Que força de serviço foi essa que te estremunhou, rapaz?! Sume-te! Mal luzia o buraco e tu já a sarilhares por essa casa!

--Levantei-me um bocadito mais cedo e vim espairecer até aqui.

--Qual historia! Então cuidas tu que te não senti toda a sancta noite? Ó rapaz, olha que isto não me vae agradando. Aquelle maldito empate do casamento...

--Ora adeus, bem se tracta agora d'isso.

--Pois que outra coisa ha de ser?

--Quer que lh'o diga? Faça vossemecê favor de chegar aqui abaixo e conversaremos.

--Olá! A coisa é séria! Temos historia. É o que eu digo.

E sahindo da janella e descendo as escadas para ir ter com o filho ao quintal, a boa Anna ia a dizer para si:

--O rapaz anda exquisito! Que me quererá elle? É coisa que lhe dá freima. Na cara se vê. Queira Deus que não tenhamos por ahi alguma alhada. O diacho do casamento!

E chegando ao quintal, onde a aguardava o filho, exclamou:

--Ora aqui me tens. Vamos lá a ouvir isso que tens para me contar. Desabafa lá, que isto de guardar cada um as coisas comsigo não é bom. Vá.

--Ora venha para aqui, minha mãe--disse Clemente chamando-a para um banco de madeira, por baixo de um parreiral.

--Mas avia-te, filho, que eu tenho que fazer lá dentro. Já sei que me vaes fallar no casamento.

--É verdade, vou fallar-lhe no casamento que se não faz.

--Que se não faz?!--repetiu Anna, dando um salto e fitando no filho os olhos espantados.--Tu que dizes?

--Isso mesmo que entendeu. Que se não faz.

--E então porque é que se não ha de fazer?

--Porque pensei melhor.

--Ora vae pensar para os quintos. Olha agora! Viu-se já um disparate assim? Pensaste melhor em quê e porquê?

--Olhe, minha mãe, vossemecê bem sabe que eu não sou nenhuma criança capaz de fazer as coisas no ar. E por isso eu que lhe digo que o tal casamento não deve fazer-se é porque...

--E então criança sou eu, para tu nem sequer me dares a importancia de me dizer o porquê? Olha que teu pae até bem velho se aconselhou commigo, apesar de ser homem ajuizado, e não tenho lembrança de o haver feito nunca arrepender por isso. Olha agora!

--Pois tambem eu lhe direi tudo, mas é se vir a mãe mais bem disposta a ouvir-me com socego.

--E parece-te que eu estou desassocegada? Ora valha-te não sei que diga. Em peiores talas me tenho visto na minha vida, sem perder a cabeça. Boa mulher estava eu se me estonteava assim á primeira! Olha agora! Anda, dize lá.

--Pois, minha mãe, este casamento não tem logar, porque Bertha... emfim...

Anna do Védor franziu o sobrolho.

--Bertha o quê? Que disse ella? Disse que não? Olha a presumida! Então quem acha ella que é? Sempre se vêem coisas no mundo! Olha agora! Então ella disse que... Ó senhores, não estar eu lá! sempre queria perguntar-lhe...

--Valha-me Deus, minha mãe, é essa a paciencia que me prometteu? Nem me deixa concluir, nem espera por saber o que vou dizer.

--É porque eu cuidei que ella... sim, porque isso então...

--Ouça, Bertha aceita, mas não tem verdadeira inclinação para mim.

--E porque não?

Clemente sorriu ao ouvir a pergunta.

--Ora essa!--tornou elle brandamente--então n'estas coisas precisa-se de se dar razões? Gosta-se, porque se gosta; não se gosta, porque se não gosta, e acabou-se.

--Mas emfim uma pessoa sempre diz: Não gosto d'aquelle, porque é feio, d'aquelle, porque é torto, ou porque é aleijado, ou porque tem mau genio, por isto ou por aquillo, eu sei lá! Mas tu...

--Sim, eu não tenho defeito que me faça engeitar, hein? Se todos me vissem com os seus olhos, minha mãe!

--Ora, mas vem cá, mas então dize-me...

--Perdão, ouça-me vossemecê primeiro. Bertha não sente inclinação por mim, porque a sentia já por outro. Está satisfeita?

--Olha a pateta da rapariga! Então já a sonsinha... tinha tambem o seu namorado! Que mundo este!

--Ó minha mãe, então se ella se agradasse de mim não era pateta, e lá porque se inclina para outro, já vossemecê faz um espanto d'esses! Que sou eu mais do que elles?

--Não é isso--disse a mãe um pouco embaraçada com o argumento--eu o que queria dizer era... emfim... se fosse um homem capaz... mas qual!... algum menino bonito, algum peralvilhito de Lisboa. Então disse-te assim mesmo na cara que não gostava de ti. E tu...

--Bertha disse-me que tinha tido uma paixão, mas que fazia por vencêl-a, porque não podia casar com o homem de quem gostava; e que se eu, sabendo isso, ainda a quizesse para mulher, ella não duvidava em dizer que sim, e que jurava que me seria fiel companheira na vida.

--Muito obrigada aos seus favores, mas não são cá precisos. Olha agora! Nem que tu morresses sem os seus bonitos olhos. Se deu o coração a outro, que lhe preste, e que passe por lá muito bem sem elle. Olha agora! Como quem diz: emfim eu não gosto de ti, mas vejo-te tão embeiçado, que me mettes pena. Graças a Deus, não faltam por ahi mulheres com quem cases, e se faltassem, tambem vivias bem sem ellas, que, Deus louvado, não te falta que comer, que é o essencial. Olha agora! Não que eu nunca vi umas delambidas como agora ha! Aquelle Thomé é quem tem a culpa.

--Ó minha mãe, já estou arrependido de lhe ter fallado n'isto. Olhem o escarceu que ahi está levantando!

--Ó filho, isto é um modo de fallar. A gente faz cá os seus votos de razão. Mas vamos ao caso. Tu disseste-lhe logo que passavas regaladamente sem os seus obsequios? está entendido. Fizeste muito bem, e está acabado.

--Não disse, não senhora, não lhe disse isso logo.

--Não? Pois isso é que eu não esperava de ti.

--Pedi-lhe tempo para pensar. Eu o que queria era saber quem era o tal, para vêr se de facto o casamento seria impossivel, porque se visse que o era, casava eu, isso casava. O que não queria era vir a ser tropeço algum dia.

--E d'ahi?

--E d'ahi tanto pensei, tanto parafusei, que esta noite dei com a historia.

--Então? Algum janotinha da cidade?

--Sabe o que lhe digo, minha mãe, é que o caso é bastante serio; e agora o que me dá cuidado não é o meu casamento, que esse já eu sei que se não faz; o que me dá cuidado são elles.

--Elles quem?

--A Bertha e o rapaz de quem ella gosta e que é... Sabe quem? O filho mais velho do fidalgo, Jorge.

A Anna do Védor empurrou o hombro do filho, e fez um gesto que, combinado áquelle movimento, exprimia a mais radicada duvida.

--Vae-te d'ahi! Olha agora o disparate! Ora, ora...

--Creia que é verdade.

--Pois a tola da rapariga... metter-se-lhe-ia em cabeça?...

--Não se lhe metteu em cabeça coisa nenhuma. Gosta d'elle, mas sem esperança, e tanto que não hesita em casar com outro. Mas o peior é que Jorge ainda gosta mais d'ella talvez. E Deus queira que isto não venha a dar cabo d'elle!

--O quê? A dar cabo d'elle!

--Pois se vossemecê o visse! É olhar-lhe para a cara e diz-se logo: este rapaz tem coisa que o roe lá por dentro. Eu não suspeitava o que fosse, mas agora que pensei...

--Mas como é que tu vieste a saber isso?

Clemente contou á mãe as entrevistas que tivera com Jorge, e a maneira estranha por que elle o recebêra, a irritação com que o ouvira fallar em Bertha, a singularidade das reflexões que lhe fez e dos conselhos que lhe deu, e a Anna do Védor acabou por convencer-se de que o filho acertára.

Tinha um compassivo coração a boa mulher e, como dissemos, era perdida por Jorge, a quem amava quasi tanto como ao filho. Por isso tomou logo o partido d'elle, e exclamou: