Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 29
--A final de contas ella gosta do outro. É o que isto tudo quer dizer. Então que faço eu em metter-me de permeio n'estes amores? Mas... são amores impossiveis, diz ella, até lhes chamou loucuras; e espera que os cuidados da familia lhe ajudem a esquecêl-os. Mas se não esquecer?... Não receio d'ella, isso não. Aquillo é alma que se não perde nem atraiçoa. Mas, se por acaso os taes obstaculos desappareciam e ficasse eu só no logar d'elles? Ah! Sancta Virgem! Era para um homem pôr fim á vida! Porém ao mesmo tempo a rapariga falla com uma segurança, como se este caso fosse impossivel. Impossivel! E porquê? Quem será elle, o tal? Amores que ella trouxe da cidade.... Alguem que já a esqueceu e que talvez nunca lhe quizesse devéras. Se eu adivinhasse que era isso, aceitava. Porque emfim aquillo esquecia, e... e eu creio que haviamos de dar-nos bem. Veremos o que pensa minha mãe. Mas que póde ella pensar? Que sabe ella mais do que eu? Aqui o que era preciso era quem me informasse dos taes amores. Se eu procurasse o snr. Jorge? Elle é tanto de casa do Thomé, que talvez... Elle está agora na Casa Mourisca. Pois vou lá.
E, em harmonia com esta resolução, tomou o caminho do antigo solar do fidalgo.
Jorge encerrara-se nos ermos aposentos d'aquelle sombrio palacio, não só para trabalhar, como para procurar allivio aos dolorosos golpes de coração, que lhe sangravam ainda.
Fizera-lhe companhia o jardineiro, que não quiz ficar nos Bacellos quando soube que Jorge partia. Era a unica pessoa que tinha ao seu serviço.
Jorge entregara-se ao trabalho com mais assiduidade e ardor do que nunca. Erguia-se cedo, prolongava por noite alta as suas vigilias; mas se conseguia com estes esforços adiantar o serviço, não obtinha d'elles a realisação do seu principal empenho: acalmar as torturas moraes com que viera para aquella solidão.
As poucas horas de somno eram-lhe agitadas por sonhos fatigadores, e sempre uma ideia fixa e amarga lhe occupava o pensamento, ainda quando mais absorvido pelo estudo.
Atravéz das mais fortes distracções sentia como que a sombria projecção de uma nuvem negra.
Quando um poderoso motivo de desgosto nos amargura o coração, não é de todo impossivel afastal-o do pensamento por um esforço de distracção, mas a impressão dolorosa que elle produziu não se desvanece completamente; persiste um vago sentimento de mágoa, um indefinido mal-estar, que ainda n'esses raros instantes nos afflige, sem que o expliquemos.
Estava-se dando com Jorge este phenomeno.
Conseguia fixar a attenção no estudo, vencer as difficuldades de um problema, profundar as questões mais obscuras, mas o espirito mantinha-se doente; estas victorias da intelligencia não lhe provocavam aquelle prazer, que de ordinario as acompanha. Parecia que o coração perdêra a elasticidade necessaria para vibrar d'essa maneira.
Quando se trabalha em taes disposições de animo, o esforço extenua a actividade do espirito, toma o caracter de uma febre consumptiva, de uma chamma que se alimenta gastando as forças e a vida.
Depois havia momentos em que os instinctos se revoltavam contra a tyrannia da razão, em que os gelos do temperamento de Jorge como que se fundiam no calor do seu sangue de adolescente; e então com um frenesi de desespero concebia os mais arrojados projectos. Resolvia romper com todos os preconceitos, com todas as considerações sociaes, e obedecer sómente aos impulsos do coração, que elle julgava n'esses momentos os unicos authorisados motores das acções do homem. A estes paroxismos succedia um desalento mais profundo e uma sombria tristeza.
E o resultado d'esta lucta moral, d'este isolamento, d'este excesso de trabalho, revelava-se-lhe no semblante alterado e na pallidez, que augmentava de dia para dia.
A amargura d'aquelles dias passados nas salas desertas e nas devezas melancolicas da Casa Mourisca, havia-o abatido a um ponto, que ao chegar á presença d'elle, Clemente encarou-o com gesto de espanto.
Jorge interrogou-o, sorrindo:
--O que me achas tu, para me fitares com esses olhos?
--O snr. Jorge tem estado doente?!
--Não; vou passando bem. Parece-te que tenho cara de doente?
--Sim; acho-o descórado e abatido--disse Clemente, procurando disfarçar as apprehensões que sentia ao vêl-o.--Não trabalhe tanto, snr. Jorge.
--Isto não é de trabalhar. Uma noite de bom somno far-me-ha voltar ao que fui. Então o que te traz por aqui?...
--Venho consultal-o.
--Ha tempos a esta parte obrigas-me a funccionar como conselheiro, sem que eu saiba bem em que mereci a honra da nomeação. Ora dize lá o que me queres.
--Tracta-se ainda do mesmo negocio do outro dia.
Jorge fez um gesto de impaciencia e desagrado.
--Pois não está já tudo decidido? Que mais queres? A respeito de enxoval não dou conselhos.
--Nem tudo está decidido, não senhor.
--Então?
--Eu lhe digo o que se passa.
E Clemente narrou a Jorge a substancia da entrevista que tivera com a sua noiva.
Custou a Jorge occultar a perturbação que lhe causava a narrativa. No fim conseguiu perguntar com apparente frieza:
--E que queres tu que eu te diga?
--Queria que me dissesse se por acaso sabia alguma coisa d'estes amores.
Jorge saltou na cadeira e olhou para Clemente, fazendo-se excessivamente córado.
--Eu?! E porque é que hei de saber d'esses amores?
Clemente, admirado do effeito das suas palavras, disse com hesitação:
--Lembrava-me... como é amigo do Thomé da Povoa... talvez soubesse...
--As relações que possa ter com o pae não me habilitam a devassar o coração da filha; mas que desejavas tu saber d'esses amores? Não te disse ella que era como se não existissem? que nasceram sem faculdades para viver? O que te resta é julgar por ti se nas condições em que Bertha aceita a tua proposta, ainda podes insistir em fazêl-a.
--Pois é isso mesmo. E depois de a ouvir hesito.
--Duvídas de Bertha, não é verdade? Receias que esses amores não lhe morram no coração e que um dia revivam como a lavareda quando se desfaz o monte de cinzas que a suffocava? Se assim é, se não tens no caracter de Bertha a precisa confiança que devemos ter na mulher que escolhemos para companheira na vida, se não repousas cegamente n'ella, na sua lealdade, nas suas virtudes, então desiste, porque irias envenenar a tua vida com ciumes e a d'ella com suspeitas injuriosas.
--Não desconfio de Bertha; mas queria saber porque julga ella impossivel esse amor que sente, para vêr se a mim me pareceria tambem que o era. Quem sabe lá se o é? E se deixar de sêl-o por o motivo de hoje e o fôr por Bertha ser minha mulher? Quem me podia curar d'este desgosto?
--Socega, Clemente, os motivos que hoje se dão, dar-se-hão sempre--disse imprudentemente Jorge.
--Pois sabe quaes são?!--perguntou Clemente admirado.
Jorge conheceu a indiscrição em que tinha cahido, e procurou emendal-a, dizendo:
--Não; mas se Bertha t'o assegurou... Ella não costuma ser irreflectida... E motivos ha na vida tão poderosos e permanentes, que póde bem predizer-se na presença d'elles a impossibilidade de um facto.
--Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim.
Jorge replicou com impaciencia:
--Julgar por ti! E quem te diz que saberias aprecial-os? Talvez os julgasses faceis de vencer, não obstante elles serem insuperaveis. Acredita o que te digo, Clemente. Um homem só póde ser perfeito juiz das acções de um outro, quando entre ambos se dão absolutamente as mesmas condições de existencia. Desde que estas variam, varía com ellas a maneira de vêr as coisas. O que para ti é um acto natural e facil, é para mim um impossivel, porque se lhe oppõe opiniões, sentimentos, crenças que me são proprias, que fazem parte de mim mesmo, de minha entidade moral, e que tu não possues e de que por ventura te ris. Por isso escusado seria talvez saber do segredo de Bertha mais do que o que ella te revelou. Crê sob a garantia da sua palavra que esses amores foram apenas uma phantasia da mocidade, que os rudes deveres da vida extinguirão, e resolve.
Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso.
Jorge pôz-se a passeiar no quarto.
A final o noivo de Bertha ergueu-se e disse suspirando:
--Bem; veremos o que pensa minha mãe.
--E que direito tens tu de ires fallar a tua mãe nas confidencias de Bertha?--interpellou-o Jorge, com uma vehemencia que sobresaltou Clemente.
--Devo confiar em minha mãe, pelo menos tanto quanto confiei no snr. Jorge. Bertha não m'o levará a mal.
Jorge reprimiu-se ao responder:
--De certo que não acho mais justificado o escolheres-me para confidente. Emfim, faze o que quizeres, mas... segue principalmente o que te dictar a consciencia.
Clemente sahiu mais pensativo do que viera.
O desconsolado noivo estranhára Jorge. A maneira por que elle lhe fallou fôra tão fria e desabrida e de tão difficil explicação, que não podia Clemente atinar com o motivo d'aquillo. A ultima reflexão, sobre tudo, deixou-o muito sentido. Jorge pozera em duvida o direito que elle tinha de consultar sua mãe n'este negocio! Pois não era ella a mais natural conselheira que elle tinha no mundo? E não pedia o caso o conselho de pessoa experiente?! Poderia Bertha levar-lhe a mal a precaução que tomava principalmente em vista da felicidade d'ella?
Mas emfim Jorge dissera-o e Clemente, a seu pesar, começou a sentir escrupulos.
De feito aquelle segredo não era seu, e Bertha não o tinha authorisado a revelal-o. Já em communical-o a Jorge exorbitára.
E no meio d'estas alternativas de resoluções entrou cabisbaixo e assombrado em casa, e não fallou em coisa alguma a sua mãe.
Esta ao vêl-o assim, attribuiu o facto a impaciencias do amor. A ida de Bertha para a companhia do fidalgo prorogára o prazo para a fixação do casamento, e Anna do Védor conjecturou que era isso que contrariava o filho.
Resolveu pois fallar a Thomé para apressar quanto podésse a festa, porque ella sabia que D. Luiz estava melhor, e que até já andava a pé, e portanto era justo que prescindisse de Bertha, que não se destinava a fazer-lhe eternamente companhia.
XXXI
Chegaram cartas da baroneza e de Mauricio, datadas de Lisboa. As noticias que davam eram satisfactorias. Mauricio fôra hospedado em casa de um primo remoto de D. Luiz e por elle introduzido nos primeiros circulos da cidade, onde recebeu um lisongeiro acolhimento.
Mauricio achava-se n'aquelle mundo, novo para si, como se n'elle tivesse sido educado. Sentia-se bem alli, agradavam-lhe aquelles habitos de elegancia e de distincção, que não conhecêra no canto de sua provincia, mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para aquelle viver que os seus instinctos o inclinavam.
Quando se viu alli respirou com o desafogo de quem sahe de um ambiente que o asphyxiava. Não necessitou de longo tirocinio para conhecer os usos d'aquella sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias não restavam n'elle vestigios sequer do seu provincianismo. Uma forte vocação substitue um lento noviciado. Os homens acharam-n'o espirituoso; as mulheres, amavel; e para com todos soube ser tão insinuante, que os influentes politicos, a quem a baroneza o recommendára, tomaram por elle o mais vivo e promettedor interesse.
Escusado é dizer que Mauricio não foi muito escrupuloso na observancia dos artigos de fé politicos com que D. Luiz doutrinára os filhos. Para genios como o de Mauricio, um dos maiores achaques que póde ter uma ideia é o estar fóra da moda.
Jorge sentia que não lhe era possivel abraçar a crença do pae, porque a razão a condemnava; e estas convicções para toda a parte o acompanhariam, porque procediam de um juizo claro e de uma aturada reflexão.
Mauricio, apesar de nunca ter adherido manifestamente ao credo paterno, só agora parecia havêl-o devéras renegado, porque o desgostavam os ares de sédiço e desusado, com que elle lhe apparecia á esplendida claridade dos salões da moda.
Tudo quanto havia de eminente no jornalismo politico, na litteratura, no parlamento, no fôro, constituia agora o circulo habitual das relações de Mauricio, e nas conversas animadas, cheias de vivacidade, brilhantes de eloquencia e de espirito, em que elle tambem tomava parte, jogavam, como principios assentes, certas proposições que elle fôra educado a considerar como abominaveis heresias.
Isto era o bastante para que elle abjurasse o credo velho com que o haviam catechizado na provincia e professasse a doutrina nova.
A baroneza, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira e occultára parte da verdade a D. Luiz, para não o assustar.
Ella porém via com prazer o exito do seu protegido, que excedia a sua espectativa.
«Em pouco tempo--escrevia ella a Jorge--teu irmão tornou-se um homem da moda, e é para ver o bem que elle sabe sustentar a posição que tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos primeiros salões de Lisboa, Mauricio está como em terreno conhecido, e muitos nados e creados n'estes ares invejam-lhe o seu _aplomb_ e o seu _savoir faire_ inimitaveis. O ministro dos negocios estrangeiros, a quem muito especialmente o recommendei, dá-me as melhores esperanças de elle ser despachado como addido para o corpo diplomatico, carreira que sobre todas me parece a mais talhada para as predilecções e talentos do nosso protegido.»
Estas noticias foram recebidas com prazer por Jorge e por D. Luiz. Este recordou-se, ao lêl-as, do tempo da sua juventude, em que tambem trilhára a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o caracter do irmão e sentia que elle tinha de facto entrado no caminho para onde o chamavam os seus talentos e as suas disposições moraes.
A imaginação de Mauricio era muito poderosa e exigente, as tarefas proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da provincia, a consagração de uma vida inteira ao cumprimento de um dever, não lhe bastavam.
Uma impaciencia insuperavel desviava-o d'esse caminho.
As brilhantes apparencias, a vida agitada, a variedade de impressões, as luctas incessantes, alimento da febril anciedade que devora certos espiritos, eram-lhe indispensaveis. Sob a influencia de taes estimulos, as suas faculdades entravam em acção. Não se contentava com os applausos da consciencia propria, precisava dos applausos do mundo. Para os conquistar tentaria esforços sobrehumanos.
Jorge era uma alma formada para o dever; Mauricio uma alma formada para a gloria.
D. Luiz não pôde deixar de sentir-se lisongeado com o bom exito do filho, não obstante as vagas apprehensões que sentia de que a intima convivencia com a corrupta mocidade da côrte o contaminasse. Felizmente o velho realista não tinha já a seu lado o padre procurador, com a sua incessante prégação contra os costumes do seculo, que era d'antes o thema obrigado das conversações diarias. E desde então as prevenções do fidalgo haviam perdido muito das côres carregadas que as tingiam.
Ás primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as noticias dadas n'aquellas.
As auras continuavam a soprar favoraveis a Mauricio nos mares insidiosos da côrte. A baroneza dava quasi como certo o proximo despacho d'elle para addido a uma embaixada de Vienna ou de Berlim.
Mauricio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens da situação politica dominante, que se interessavam por elle. As sympathias femininas, poderoso elemento de prosperidade n'aqueilas altas regiões, como em geral em todas, conspiravam tambem a seu favor.
«Com mais um pequeno esforço talvez fosse possivel fazêl-o ministro, (escrevia a baroneza a Jorge) que não é em Portugal dos postos de mais difficil accesso. Ministro da marinha pelo menos, que é a pasta dos principiantes e a mais adequada para os homens de imaginação como elle, onde teem muito com que a alimentar, porque é a pasta symbolica das nossas glorias passadas e pouco mais.»
N'esta mesma carta de Gabriella havia alguns periodos em que, usando de uma linguagem mais grave, ella fallava da probabilidade do seu casamento com Mauricio.
«Não attribuas este projecto a um mero capricho de mulher. Não é. Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais friamente possivel nas vantagens e consequencias d'elle. Mais tarde ou mais cedo eu tinha de contrahir segundas nupcias; a posição em que me acho e as impertinencias dos innumeros aspirantes á minha mão, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam. Era difficil deixar de ceder. A minha sympathia por Mauricio é um motivo de preferencia muito justificado. Nenhum candidato me agradava mais, o que não quer dizer que me sinta apaixonada. Mas muito teria que esperar se aguardasse por uma paixão para me decidir. Já não estou em tempo d'isso. Mauricio é um rapaz amavel e delicado bastante para não me dar motivos de arrepender-me. É quanto exijo. Sou tolerante por indole e por habito, não terão portanto effeito sobre mim os costumados motivos de desolação de todas as esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Mauricio não deixará de dar á sua. Isto pelo que me diz respeito. Quanto a elle, entendo que lhe convém este casamento. Primeiro, porque realisará uma operação financeira um tanto vantajosa; depois porque, graças á minha longanimidade, não peiará demasiadamente os seus movimentos de rapaz com os laços matrimoniaes, sem que por isso corra os precalços dos maridos pouco fieis aos lares domesticos. O Jorge faz-me a justiça de assim o acreditar, não é verdade? E finalmente porque d'esta maneira precavê-se contra alguma tentação, a que são sujeitas as cabeças como a d'elle, que em um momento de enthusiasmo transtornam todo o seu futuro. Casando commigo, fica livre de desposar a primeira dançarina de S. Carlos, que o fascinar. Em conclusão, creio que poucas mulheres poderiam como eu aceitar Mauricio para marido, com tanta probabilidade de não o fazerem infeliz nem de o serem. O que é preciso é aproveitar o ensejo em que Mauricio me faça a honra de uma preferencia. Por isso talvez qualquer dia surprendamos o tio Luiz pedindo-lhe a authorisação necessaria. Espero que o Jorge advogará a nossa causa. Perdoa-me se alguma leviandade descobrires ainda n'esta minha resolução. Acredita porém que nunca pude ser mais séria do que o estou sendo, ao escrever-te esta carta.»
Havia ainda um _post-scriptum_, em que ella acrescentava:
«Bertha ainda está nos Bacellos? Será bom que se demore. Nunca é tarde de mais para o tal casamento, com o qual por emquanto me não pude conformar.»
A communicação que lhe fazia Gabriella surprendeu em extremo Jorge, que muito longe estava de prevêl-a. Reflectindo porém, acabou por achar que a prima tinha razão e por convencer-se de que, não obstante o tom ligeiro da carta que lêra, expunham-se n'ella razões de pêso para justificar o facto annunciado.
Casando com a baroneza, Mauricio precavia-se contra si proprio e ligava-se a uma mulher, que por as especiaes disposições de sua indole, saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem desgraçada os provaveis desvarios d'elle.
Effectivamente, conforme o que a baroneza predissera, semanas depois era D. Luiz surprendido por uma carta d'ella e outra de Mauricio, pedindo-lhe o beneplacito para o referido casamento.
O fidalgo recebeu com prazer a inesperada nova.
Gabriella era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus filhos elle ambicionava. Joven, rica, de sangue igual ao seu, e de sentimentos elevados sob a frivola apparencia de que os revestia, a baroneza augurava um auspicioso futuro ao homem a quem désse o titulo de marido. Para Mauricio seria demais uma prudente conselheira e um obstaculo a muitas loucuras que, entregue a si ou a peior vigilancia, o rapaz não deixaria de commetter.
Por isso D. Luiz, com animo folgado e um sorriso expansivo a alizar-lhe na fronte e nos labios a contracção habitual, apressou-se a responder ao pedido nas mais benevolas e lisongeiras phrases que lhe inspirava o seu bom humor.
Bertha veio dar com elle sentado á secretária a escrever. A filha de Thomé da Povoa quiz retirar-se para não o interromper.
D. Luiz, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel em que escrevia:
--Entra, Bertha, entra, que não me incommodas.
E, sentindo-a mais perto, acrescentou:
--Sabes o que estou fazendo?
--A escrever; bem vejo.
--Sim; mas a quem?
--A seu filho Mauricio talvez.
--A Mauricio e a Gabriella tambem. E sabes a respeito de quê?
--Eu, não.
O fidalgo terminava n'aquelle momento a assignatura no extremo inferior da pagina, e só depois de concluil-a foi que, voltando-se para Bertha, continuou:
--Authoriso um casamento.
--Um casamento?!
--É verdade. Havia alguem de suppôr que o Mauricio se casava?!
--Casa-se! Com quem?
--A vêr se adivinhas.
Bertha reflectiu alguns instantes.
--E eu conheço a noiva?
--Conheces perfeitamente.
--Então não póde deixar de ser a snr.ª baroneza.
--Justamente. É Gabriella.
--É uma felicidade para elle.
--Assim tambem o julgo. Se alguem se aventura n'este casamento é a noiva.
--O snr. Mauricio tem uma boa alma, não dará motivos de arrependimento a quem depositar confiança n'elle.
--Hum! É muito rapaz--murmurou o fidalgo, fingindo sentir contra o filho maiores prevenções do que effectivamente sentia.
Bertha julgou que era occasião opportuna de pôr em pratica um projecto, que desde madrugada meditava.
Thomé da Povoa tinha-a na vespera procurado para lhe fallar na visita que recebêra da mãe de Clemente, e no que ella lhe dissera sobre o desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento. Thomé não queria apressar a sahida de Bertha dos Bacellos, mas, lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, não seria elle o primeiro a dizer a Bertha que prescindia dos seus cuidados, pensava que seria bom que ella lhe insinuasse a necessidade de separação e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licença para o casamento que se ajustára.
Bertha perguntou ao pae se tinha já a certeza de que Clemente estivesse ainda resolvido a insistir na sua proposta. Thomé admirou-se da pergunta, porque nada sabia da conferencia da filha com o noivo, e assegurou-a de que a resolução de Clemente era ainda a mesma, visto que a mãe n'aquelle mesmo dia lhe viera recordar o ajuste.
Em vista d'esta declaração, Bertha prometteu fallar n'aquelle objecto a D. Luiz no dia seguinte, e era esse o ensejo que ella desde pela manhã procurava.
O assumpto a que a coincidencia das cartas de Mauricio e da baroneza chamava a conversa, preparára excellentemente o caminho para o pedido de Bertha.
Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe com o tom de affabilidade com que aprendêra a dominal-o:
--Já que está em maré de condescender com os pedidos que lhe fazem, não quero perder a occasião de lhe fazer um tambem.
--Ah! tens um pedido a fazer-me?
--Tenho. E tão parecido com esse!
--Com esse... qual?
--Com o que lhe fez seu filho.
--Com o pedido de Mauricio? mas... então tracta-se de casamento?
--Sim, meu padrinho. É de um casamento que se tracta.
--De quem?--interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Bertha.
--De quem ha de ser, se sou eu a que peço?--respondeu esta, baixando os seus, e não podendo disfarçar a melancolia que ainda lhe causava aquella ideia.
--Tu?!--exclamou D. Luiz sobresaltado, e voltando-se rapidamente--Tu queres... tu vaes casar-te?!
--Sim, snr. D. Luiz, está decidido que isso se faça e eu peço-lhe licença para o fazer.
--Tu casares-te, Bertha!--repetia o velho como se lhe fosse difficil conformar-se com essa ideia--mas... com quem?
--Com o filho da Anna do Védor, com Clemente.
D. Luiz deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a mão na banca que tinha diante de si.
--O quê?!... Ora adeus! Tu estás a brincar commigo.
--Não, meu padrinho, fallo-lhe sériamente.