Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

Part 28

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Trabalhando e conversando, Bertha tinha já aquelles ares de familiaridade, que naturalmente assumem as mulheres no tracto da casa que dirigem.

Tomára posse d'aquelle terreno como de dominio seu, e dentro em pouco a influencia dos seus cuidados fazia-se já sentir na apparencia de ordem e de methodo que alli dentro vestira tudo.

D. Luiz seguia-a com olhos de satisfação. Parecia-lhe que ella só povoava o quarto.

Com que indizivel prazer a via tirar dos hombros o chale que trouxera, dobral-o e poisal-o, junto com o chapéo, no sofá proximo do leito, como se estivesse em sua casa!

A presença d'aquella joven e gentil rapariga, occupada na lida domestica, fallando-lhe com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e prevenindo-lhe os menores desejos, satisfazia uma tão ardente e tão antiga necessidade do coração d'aquelle homem, que esquecido quasi de seus infortunios, reputava-se feliz.

Animado por Bertha, comeu com mais appetite e fallou com uma animação que lhe não era habitual.

--Mas, agora me lembra, Bertha--disse D. Luiz, como se de repente lhe occorresse uma ideia--preciso de dar ordens para a tua accommodação. Talvez o quarto de Gabriella...

--Não se incommode--atalhou Bertha.--A snr.ª baroneza parece que tinha tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava já.

--Mas como sabia Gabriella?...

--Pois se foi ella quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir a necessidade de vir occupar o seu logar.

--Ah! agora entendo a carta d'ella. É uma boa rapariga a final.

E D. Luiz tinha nos labios, ao dizer isto, um sorriso de sympathia, que lhe suavisava a dureza habitual das feições.

A agradavel doçura que o fidalgo da Casa Mourisca estava saboreando com a presença e o conversar de Bertha foi interrompida por umas pancadas timidas na porta do quarto, que elle escutou de má vontade.

--Quem está ahi?--perguntou quasi irritado.

--_Licet_?--murmurou a voz do padre fóra da porta.

--Entre quem é--respondeu D. Luiz, ainda mais irritado depois de conhecer a voz.

O padre entrou subitamente, cortejou Bertha com olhos desconfiados e avançou com passos vagarosos.

--Que é o que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz desabridamente.

O padre continuou a aproximar-se do leito e respondeu melifluamente:

--Os filhos de v. exc.ª, os snrs. D. Jorge e D. Mauricio, pedem licença para lhe fallarem.

D. Luiz fez um movimento de impaciencia.

--Que me querem elles?

O padre encolheu os hombros.

--Não posso dizer a v. exc.ª, porque eu mesmo não o sei.

--Que lhes não fallo agora--respondeu em tom sacudido o fidalgo. Mas ao voltar-se deu com os olhos no rosto de Bertha, que insensivelmente revelou n'elle o desprazer com que ouvira aquella resposta.

O padre ia a retirar-se com o recado, quando ouviu D. Luiz dizer:

--Mas não poderei saber o que é que me querem os senhores meus filhos?

O padre parou, esperando uma ordem definitiva.

Bertha, que estava alizando uma das travesseiras em que o padrinho se encostava, murmurou, como a gracejar:

--A melhor maneira de ficar sabendo é ouvil-os.

D. Luiz encolheu os hombros, como a exprimir o pouco valor que suppunha á conferencia pedida, mas disse ao padre:

--Diga-lhes que entrem.

Estava finalmente revogada a sentença que votára ao ostracismo os dois filhos do fidalgo. O coração do velho sentia-se muito brando n'aquelle momento para conservar rancores. A influencia de Bertha principiava a actuar.

A negrura dos delictos de que até alli accusára os filhos, dir-se-ia que a dissipára um sorriso da afilhada.

Jorge e Mauricio entraram pouco tempo depois no quarto, descobertos ambos, e com aquelle ar de respeito que sempre lhes impunha a presença do pae.

Bertha sentiu que se lhe sobresaltava o coração, ao tornar a vêr Jorge depois da scena que tivera logar na Herdade.

Não pôde porém deixar de fital-o com interesse. Achou-o pallido e abatido.

Dominando as suas violentas impressões saudou os dois irmãos com um sorriso afectuoso e sereno.

Jorge e Mauricio corresponderam-lhe com um gesto de deferencia e sympathia.

Ambos estavam prevenidos da presença d'ella.

Jorge comprehendeu que a baroneza insistira em realisar os seus projectos, apesar das objecções com que elle os combatêra. E não desestimou que ella o tivesse feito. Incommodava-o a ideia de isolamento em que ia ficar seu pae. Os carinhos de Bertha deviam ser-lhe preciosos. Depois a vinda d'ella para os Bacellos não retardaria o fatal casamento, com que não podéra ainda conformar o espirito? De pouco serviria a demora, vista a irrevogavel resolução que ambos haviam adoptado; mas fazer recuar a consummação de um facto funesto é sempre um allivio.

Aceitou pois de boa vontade a vinda de Bertha para junto de seu pae, mas resolveu precaver o coração dos perigos que correria, se permanecesse junto d'ella.

Mauricio, que dias antes não receberia tambem com sangue frio a noticia da presença de Bertha, estava n'aquella manha muito preoccupado, para se alterar ao recebêl-a.

A subita partida de Gabriella surprendêra-o e exacerbara a paixão nascente que por ella sentia.

A baroneza calculára bem o alcance da medida e assegurára-lhe ainda mais o effeito, deixando a Mauricio um bilhete concebido n'estes termos:

«Meu caro primo.

Parto para Lisboa. Não preveni pessoa alguma. Levo muitas saudades commigo. Não sei se as deixo tambem. Se acreditasse na constancia de certos sentimentos, consolar-me-ia a ideia de te vêr dentro de poucos dias em Lisboa. Mas infelizmente duvido tanto! Por isso limita-se a deixar-te ficar um longo e desconsolado adeus a

Tua prima e muito affeiçoada

_Gabriella_.»

Esta carta veio a tempo para atalhar os primeiros symptomas manifestados já em Mauricio de uma nova crise, que podia ser fatal aos planos da baroneza.

Como dissemos, Mauricio, imaginando que á sua nova paixão pela baroneza não seria indifferente o coração de Bertha, recebia d'essa ideia, que aliás o mortificava, um estimulo que atiçava aquella paixão. Subita e inesperadamente porém veio uma noticia desvanecer-lhe estas illusões. Foi a do proximo casamento de Bertha, que a Anna do Védor lhe deu, respondendo assim com ar triumphante ás duvidas que elle em tempo antepozera contra tal união. Anna assegurou-lhe que Bertha e toda a familia haviam acolhido com favor a ideia, e que o mesmo Jorge a apoiára.

Esta revelação impressionou Mauricio. Seria possivel que Bertha não sentisse por elle affecto algum? Ter-se-ia elle illudido, imaginando havel-a impressionado? Haveria antes em tudo isso um plano de Jorge?

Estas suspeitas despertaram-lhe uma leve irritação de vaidade e avivaram as quasi apagadas impressões, que lhe restavam no coração da imagem de Bertha. N'esse dia passou duas vezes pela Herdade.

Estava pois em imminente risco a paixão por Gabriella, quando a repentina partida d'esta e a sua carta de despedida lhe fizeram outra vez pender o coração para aquelle lado.

Todos os despeitos gerados com a noticia de Anna do Védor dissiparam-se perante os despeites novos.

Acabando de lêr o bilhete de Gabriella, Mauricio pensou em montar logo a cavallo e seguir no encalço da baroneza, até attingil-a. Custou a persuadil-o da conveniencia de moderar a precipitação dos seus projectos. Decidiu porém apressar quanto podésse os preparativos da jornada e partir n'aquelle mesmo dia para Lisboa. A permanencia no campo era-lhe já insupportavel.

Foi sob estas impressões que, em companhia de Jorge, elle entrou no quarto de D. Luiz.

O pae revestiu-se outra vez do seu aspecto de severidade ao dirigir aos filhos um olhar interrogador.

Mauricio fallou primeiro:

--Ha muito que está projectada a minha partida para Lisboa. A prima Gabriella sahiu esta manhã para lá, e escrevendo-me, deixou-me dito que me ficava esperando. Venho pedir a v. exc.ª authorisação para partir hoje mesmo.

D. Luiz respondeu sêcamente:

--Póde ir. Falle a frei Januario para lhe dar o dinheiro de que precisa.

Em seguida voltou o olhar para Jorge, como convidando-o a expôr o motivo da sua visita.

Jorge aproximou-se e, abrindo uma pasta, apresentou ao pae um masso de papeis.

--Desejava que v. exc.ª examinasse esses documentos e titulos, que dizem respeito a propriedades nossas e a contractos antigos, e que eu puz em ordem com o fim de facilitar o exame.

--Mas para quê? Eu não quero estar com isso. Que necessidade ha de incommodar-me com essa papelada?

--É porque depois desejava expôr a v. exc.ª os planos que concebi, e no caso de merecerem a sua approvação, pedir-lhe licença para proceder em harmonia com elles.

--Eu não tenho cabeça para entrar n'essas investigações. Tive sempre por costume deixar os negocios confiados a procuradores.

--Se v. exc.ª me authorisa ainda como tal eu não o incommodarei.

D. Luiz sentia que depois das ordens terminantes que dera ao padre Januario, em um momento de despeito contra o filho, tinha motivo para irritar-se ao vêr Jorge em flagrante desobediencia, occupando-se ainda da administração da casa. Mas a violencia do despeito abrandára, e interiormente o fidalgo estimava ter sido desobedecido.

--Façam o que quizerem--respondeu elle--o futuro que prepararem não será para mim que o preparam.

--Então se v. exc. não duvida assignar estes papeis....

E Jorge apresentou ao pae uma serie de documentos, que requisitavam a assignatura do chefe e representante actual da familia.

D. Luiz fez um gesto de enfado, mas correu com a vista o quarto a procurar alguma coisa.

Bertha, comprehendendo-o, trouxe-lhe ao leito os preparativos para escrever.

E o fidalgo, com a mais aristocratica indifferença, assignou sem lêr os papeis que Jorge successivamente lhe apresentava, authorisando assim as medidas que por ventura deviam regenerar a sua casa com a mesma facilidade e imprevidencia com que tantas vezes authorisára as que a haviam perdido.

--Agora precisava tambem da authorisação de v. exc.ª--proseguiu Jorge.--para ausentar-me por alguns dias, porque necessito de visitar as nossas propriedades mais distantes.

D. Luiz repetiu com o mesrno tom de voz a phrase que já dissera a Mauricio:

--Póde ir.

Os dois rapazes curvaram-se respeitosamente diante do velho e aproximaram-se para receber-lhe as bênçãos.

D. Luiz estendeu a mão, que um apoz outro beijou, e saudando-o outra vez iam a sahir do quarto.

O coração do pae sentiu porém a necessidade de urna despedida mais affectuosa n'aquelle instante em que ambos os filhos o iam deixar.

--Mauricio--disse elle quando os viu já proximos da porta--repare que vae entrar em uma sociedade nova para si, cheia de seducções e perigos. Seja homem e digno do nome que tem, e... dê-me o gosto de o vêr feliz e honrado.

--Terei sempre em vista o seu nobre exemplo, meu pae, e espero que assim nunca me desviarei do caminho da honra.

--Talvez o não conduza pelo da felicidade--murmurou o velho; e depois, dirigindo-se a Jorge:

--Jorge, espero do seu juizo que seja prudente no uso d'essas authorisações que lhe dou. Repare que nos esforços que faz para restaurar a sua casa não sacrifique o nome que a torna illustre. Seja sempre tão brioso como é activo.

--Espero que nunca os meus actos deslustrarão o nome com que me honro.

E os dois irmãos retiraram-se emfim.

Vendo-os sahir, D. Luiz voltou-se para Bertha, suspirando, e disse com desconforto:

--E ficamos sós, Bertha!

--Elles voltarão cedo, e com elles mais alegria para esta casa.

D. Luiz fez um signal de quem não tinha fé no futuro.

--Tem paciencia, Bertha--disse d'ahi a pouco--mas se podésses ir vêr que lhes não falte nada.... O padre é capaz de se descuidar das malas, e Mauricio não repara.

Bertha apressou-se a satisfazer o desejo do velho.

Encontrou Jorge e Mauricio na casa do jantar, fazendo os preparativos para a jornada.

Bertha coadjuvou-os com vantagem.

--Bertha--disse Mauricio--n'este reconhecimento de despedida, será bastante generosa para perdoar-me algumas loucuras que talvez não fossem de todo innocentes?

--Antes de perdoar é preciso condemnar, e eu nem sequer accusei!

Mauricio apertou-lhe a mão com verdadeira e d'esta vez insuspeita sympathia.

--Sabe, Bertha, que vendo-a aqui, a ajudar-nos assim n'esta tarefa caseira, custa-me a acreditar que não seja nossa irmã!?

--E como é que se desengana? Interrogando o coração?

--Não, que esse persuade-me do mesmo.

--Então deixe-se persuadir, snr. Mauricio, que vae n'isso tão pouco mal!

Mauricio trocou algumas palavras com ella, mas sem alludir ao casamento.

Jorge fallava menos do que o irmão. Em um momento em que este sahiu da sala, Bertha perguntou:

--Parte para muito longe, snr. Jorge?

--Não, Bertha. Vou viver para a Casa Mourisca; mas bem vê que não podia dizêl-o a meu pae; era ainda cedo talvez para elle o consentir.

--E parte... por eu chegar?...

--Parto, sim, Berlha, e não acha que deva fazêl-o?

--Talvez tenha razão.... Tem por certo. Mas perdoa-me obrigal-o a isso?

--Agradeço-lh'o. A sua vinda ha de salvar meu pae.

--Então separamo-nos amigos?

--Como sempre, Bertha.

Bertha estendeu-lhe a mão commovida, e Jorge levou-a aos labios com mais ardor do que convinha a quem formára o proposito de suffocar no peito o amor que n'elle crescia.

E n'essa tarde deixaram a quinta dos Bacellos os filhos de D. Luiz.

Este ficou só com Bertha e com o padre, que via um plano maçonico em todas estas mudanças.

XXX

Augmentava de dia para dia a influencia de Bertha sobre o animo de D. Luiz. Todas as manhãs desafiava as primeiras alegrias do enfermo o sorriso com que Bertha lhe entrava no quarto, sorriso que parecia illuminal-o mais do que os matutinos raios do sol.

Sob a benefica acção d'aquelles desvelos femininos, sentia o desconfortado doente um renascer de vida; voltava-lhe o appetite perdido, revigoravam-se-lhe os membros extenuados, corria-lhe nas veias mais vivificado o sangue que o desalento empobrecêra, e aquella mesma negrura de pensamentos, que o assombrava, parecia clarear-se progressivamente.

Bertha fizera-lhe já esquecer Gabriella. Era mais assidua á cabeceira do seu leito, mais exclusivamente devotada áquella obra de consolação, mais perspicaz em adivinhar-lhe os desejos, mais carinhosa na maneira de satisfazêl-os, e a ingenuidade quasi infantil das suas conversas tinha mais seducções para o fidalgo do que todas as galas de espirito com que a baroneza sabia temperar as suas.

As horas, que tão longas e fastidiosas se succedem na vida do doente, passavam para elle rapidas e desapercebidas, preenchidas pela companhia de Bertha.

A vêl-a trabalhar a seu lado, a ouvil-a fallar de Beatriz ou a conversar no mais trivial assumpto, a seguir-lhe com a vista os movimentos faceis que lhe recordavam a filha, a escutar pela voz d'ella a leitura dos livros de imaginação a que a baroneza o habituára, D. Luiz esquecia o tempo e os ponderosos motivos da sua usual melancolia. Um dia manifestou desejos de ouvir Bertha tocar.

Na manhã seguinte a harpa de Beatriz era transportada para junto do leito do doente, e sob os dedos de Bertha o magico instrumento, que serenava as furiosas allucinações de Saul, provou mais uma vez a sua efficaz influencia moral.

D. Luiz escutava-a commovido, e quasi sempre corriam-lhe as lagrimas ao expirarem as vibrações das ultimas notas.

Bertha fez-lhe ouvir, uma por uma, todas as musicas que Beatriz tocava. Resuscitou-lhe o passado. Sob tão profundas impressões quasi se confundiam no espirito do ancião a imagem da filha que perdêra com a da affectuosa rapariga, que tanto lhe amenisava a existencia.

Foi cedendo á affavel violencia de Bertha e apoiado no braço d'ella, que trocou o leito pela poltrona ao lado da janella do quarto; que sahiu depois do quarto para a varanda do terraço, e que finalmente desceu as escadas que do terraço conduziam á quinta, á sombra de cujas arvores se costumára a passar as melhores horas do dia.

Era ahi que tinham logar as leituras quotidianas, que já tão necessarias lhe eram. Bertha interrompia-as apenas, para lhe fazer escutar o cantico dos passaros na espessura das arvores, ou para lhe ir colher uma ou outra flôr, com que bizarramente enfeitava a lapela do casaco do fidalgo. A influencia de Bertha sobre elle era já por todos conhecida, o que valia á gentil rapariga os mais expressivos signaes de deferencia de todos quantos a tractavam.

Frei Januario era o mais desconfiado, mas ainda assim não se mostrava de todo insensivel ás attenções que Bertha lhe dispensava e que muito o lisongeavam.

Bertha era feliz n'aquelles dias.

Para a sua alma generosa era motivo de jubilo a ideia de que alguem lhe devia a felicidade.

Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luiz e a serenidade ao seu espirito atribulado, quasi esquecia, no enlevo em que esta observação a arrebatava, a grandeza do sacrifício, que pouco tempo antes realisára e a dolorosa violencia com que esmagava ainda no coração o affecto mais vivaz que lá nascêra.

Era grata a D. Luiz pelo bem que ella propria lhe fazia.

Um dia Bertha erguêra-se, como costumava, muito cedo para correr a quinta a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almoço de D. Luiz.

Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava alguns momentos ao exame e á analyse das diversas flôres que o compunham.

Bertha esmerava-se muito n'esta tarefa para obter sempre effeitos novos, que merecessem as attenções e applausos do padrinho.

N'esta exploração attingia ella sempre os terminos da quinta. Chegára aquella manhã ao portão de ferro da entrada opposta á casa e trazia já na mão uma variada cópia de flores, quando lhe pareceu que alguem parava de fóra das grades a observal-a.

Voltou-se e reconheceu Clemente.

Bertha estremeceu e sentiu sobresaltar-se-lhe pouco agradavelmente o coração, á vista do seu noivo. Tão longe tinha n'aquelle instante o pensamento do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a surpreza da transição foi cruel.

Demais era a primeira vez que se achava na presença de Clemente, depois do ajuste do casamento, o que sobremaneira augmentára a sua confusão.

Concentrando porém toda a sua coragem, saudou-o affectuosamente.

Mais confuso ainda do que ella, retribuiu-lhe Clemente a saudação.

--Quer entrar?--perguntou Bertha, caminhando para a portaria.

--Não, menina; passei aqui por acaso... É verdade, que desejava fallar-lhe... mas outra vez será.

--E porque não ha de ser já?--tornou Bertha, abrindo a porta.--Depois do que se passou é indispensavel que conversemos, não é verdade? Eu tambem tenho precisão de fallar-lhe, snr. Clemente.

--N'esse caso aqui estou para ouvil-a, Bertha.

--Olhe, sentemo-nos mesmo aqui. Não acha?--disse Bertha, preparando logar em um monticulo de relva que as folhas cahidas tapetavam.--Está-se aqui tão bem como dentro de uma sala.

Clemente tomou timidamente logar ao lado d'ella.

Bertha soltou no regaço as flores que colhêra, e fallando occupava-se a dispôl-as em ramo, como se facilitasse d'aquella maneira o desempenho da missão que se propunha.

Clemente escutava-a.

--Está já informado, snr. Clemente, do que respondi á proposta que, em seu nome, me fez... o filho do snr. D. Luiz?

--Sim, Bertha, deram-me essa resposta, que muito me alegrou; mas desejava saber da sua bôca se foi de livre vontade e por que lh'o dictava o coração que a deu assim.

--Por minha vontade foi. Ninguem me obrigou a responder como respondi. Agora se foi do coração... Era sobre isso mesmo que desejava fallar-lhe, snr. Clemente.

Clemente respondeu um pouco inquieto:

--Falle, Bertha, que eu escuto-a com attenção.

--Snr. Clemente, devo ser franca e leal comsigo, e fazer-lhe uma confissão completa dos meus sentimentos, para que pense bem antes de se resolver a dispôr assim do seu futuro. Não posso dizer que fosse o coração que me dictasse a resposta que dei. Se o dissesse, nem o snr. Clemente me acreditaria; não é verdade? Bem vê, eu mal o conhecia, quasi que nem tinhamos fallado ainda, eu vivi até agora longe de si e nenhum de nós costumava pensar no outro. Pois não é assim? Quando ouvi a sua proposta, surprendeu-me por inesperada; respondi como sabe; mas é claro que não podia ser do coração a resposta.

Clemente fez um gesto de assentimento, mas tornou-se melancolico.

--Mas, perguntará o senhor, porque respondi eu então assim, tão prompta, sem hesitar? Vou dizer-lh'o, snr. Clemente, vou dizer-lhe toda a verdade, e resolva depois o que deve fazer. Eu não podia esperar que o coração respondesse, porque sabia que elle já não podia dizer que sim a uma proposta d'aquellas.

Clemente, que julgava comprehender o enleio crescente e as palavras hesitantes de Bertha, iníerrompeu-a dizendo:

--Já? disse que já não podia? Já? Bertha teria acaso alguma inclinação a que o meu pedido viesse causar mal?

Bertha, córando, replicou firmemente:

--Havia no meu coração um outro affecto, havia, o primeiro e unico d'essa natureza que n'elle tinha de nascer; mas não lhe causou mal o seu pedido, Clemente. Esse affecto, de que me não envergonho, nasceu, mas não podia viver. Era preciso suffocal-o. Oppunham-se-lhe tantos obstaculos, que não podia haver futuro para elle. Era como uma arvore de grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu mesma me illudi com elle. Esta era a confissão que devia e queria fazer-lhe, Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta, dado que lhe fallasse lealmente, como lhe estou fallando; desde que lhe dissesse: não ha amor no meu coração para lhe offerecer, não o podia haver; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim o destino de lhe servir de companheira na vida. É a missão de uma mulher, e eu tenho coragem de cumprir no mundo a minha missão. Amizade leal, respeito, dedicação, posso prometter-lhe, mais não, que não tenho para dar.

--Mas....--balbuciou Clemente, que não podia disfarçar a sua perturbação--mas esse homem existe?

Bertha córou instantaneamente ao ouvir a pergunta.

--Existe--respondeu, porém sem hesitar--e ama-me. Mas elle tambem sente, como eu, a necessidade de vencer este affecto. E ha de vencêl-o ou pelo menos occultal-o no coração, porque é forte. A consciencia do dever ajudar-nos-ha a ambos a vencer esta loucura. Bem vê que lhe chamo loucura. Mas deixe-me dizer-lhe, Clemente, se, depois da confissão que lhe fiz, se abriu no seu espirito uma entrada para a desconfiança, peço-lhe por piedade que desista da sua proposta, emquanto é tempo.

--Não me entendeu, Bertha. Creia que eu sei ter na devida conta a lealdade com que me está fallando, e que mais do que nunca sinto por si a maior consideração e estima. Se a escolhesse para esposa, juro-lhe que, apesar da sua confissão--não digo bem--por causa até da sua confissão, teria em si tanta confiança, Bertha, como em mim mesmo. O que me faz pensar é outra coisa. Se esse homem existe, porque é que a menina perdeu já as esperanças e quer assim tornar impossivel o que ainda o não é?

--É impossivel, é, Clemente.

--Ora é! Quem sabe? Eu não queria ser um dia o obstaculo da sua felicidade. Nem de tal me quero lembrar!

--Clemente, supponha que em vez da confissão que lhe fiz, eu lhe tinha dito apenas: Sonhei um dia com um noivo, que não se parecia comsigo, Clemente. E tão louca sou, que me ficou ainda d'aquelle sonho uma vaga saudade no coração. Por isso não m'o occupa inteiro o affecto que tenho para lhe consagrar. É assim que posso offerecer-lh'o. E agora resolva como se assim lhe tivesse fallado. Bem vê que nunca se arriscará a ser estorvo a uma felicidade... que se sonhou.

--Mas, valha-me Deus, Bertha, os sonhos que nunca sahem certos são os que se sonham a dormir... e até esses ás vezes...

--Ha-os que se sonham em vigilia menos realisaveis ainda.

--Mas em todo o caso... Não me leva a mal se eu pedir tempo para reflectir?

--De certo que não. Para isso mesmo foi que lhe fallei assim.

--É um anjo, Bertha, e creia que se tenho duvidas, é porque não queria ser nunca estorvo á sua felicidade. A tempo lhe darei a resposta.

E Clemente sahiu d'alli pensativo e indeciso sobre a resolução que deveria adoptar.

Pensava o pobre rapaz: