Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 27
Os successivos desgostos que tinham ferido o coração de D. Luiz, a resignação que elle fizera dos seus antigos habitos, a homisiação a que condemnou successivamente ambos os filhos, as saudades avivadas de Beatriz, o desconforto do seu viver actual, sem esperanças de melhor futuro, e por ventura com remorsos do passado, todas estas influencias acabaram por prostrar de desalento o velho fidalgo, e por acabrunhal-o e envelhecêl-o em poucos dias, como se estes se contassem por annos.
Nada o distrahia. As gazetas, em cuja leitura alimentava outr'ora a chamma legitimista, que lhe abrazava o coração, enfastiavam-n'o, e tinham sido intencionalmente desviadas pela baroneza; a companhia e a conversação de frei Januario não as podia já aturar sem impaciencia; perdeu o gosto para tudo, e principiou a adquirir habitos progressivamente sedentarios.
Interrompeu os seus passeios, deixou de apparecer á mesa, jantava e almoçava no quarto, e acabou por passar quasi todo o dia na cama, debilitando-se n'esta inacção a olhos vistos.
Gabriella via com cuidado os symptomas d'este crescente abatimento physico e moral, e procurava combatel-o por todos os meios.
Ia para o quarto do tio, e variando a conversa e temperando-a com todas as graças que o espirito e o estudo lhe suggeriam, conseguia distrahil-o e chegava até a fazêl-o sorrir.
Outras vezes entretinha-o, lendo-lhe em voz alta, e escolhia livros que, no dizer della podassem adoçar as cruezas do genio do fidalgo e amaciar-lhe as aspereza das suas escamas aristocraticas. Quantas occasiões D. Luiz escutava attento e commovido os episodios de certos livros, mansamente revolucionarios, e abria desprevenido o coração a doutrinas subversivas dos seus velhos preconceitos, tão occultas ellas se lhe ensinuavam entre os artificios da concepção e da linguagem!
A baroneza tinha muita fé n'esta vaccina litteraria.
O resultado porém de tudo isto foi que assim que ella tentou partir para Lisboa, encontrou no tio uma reluctancia com que não havia contado.
O pobre velho, fraco, triste e doente, havia-se costumado á companhia d'aquella mulher cheia de vida, de intelligencia e de alegria, e queria-lhe com o apêgo que, n'essas idades, a alma contrahe a todas as imagens que lhe recordam o tempo em que se conheceu joven e vigorosa.
D. Luiz experimentava quasi um secreto terror ao lembrar-se de que a baroneza o havia de deixar. Quem viria sentar-se ao lado do seu melancolico leito, assim que ella partisse? Os filhos afastára-os para longe de si, em castigo dos delictos com que tanto o haviam offendido. Frei Januario era-lhe insupportavel.
Mas ficar só, viver só, pensar só, alli n'aquella casa que nem era sua, só nas suas longas e melancolicas vigilias, com as escuras memorias do seu passado, com as sombrias apprehensões pelo futuro... esta ideia aterrava-o. Quando Gabriella alludia á sua próxima partida, elle desviava o sentido da conversa e claramente lhe pedia que não fallasse n'isso.
A baroneza via-se pois obrigada a transferir indefinidamente o seu projecto de deixar a aldeia.
Comtudo cada dia que se demorava nos Bacellos contava-o ella como uma probabilidade menos a favor dos seus planos!
Esta difficil situação em que se via, obrigou-a a pensar seriamente no partido que devia adoptar.
Era preciso descobrir um meio de abandonar a aldeia e voltar a Lisboa, sem causar a D. Luiz o desgosto e a pena que, no estado de saude e de espirito em que o via, ella receiava que lhe podésse ser fatal.
Uma manhã foi ella procurar o seu primo Jorge, muito convencida de que tinha emfim descoberto o expediente que procurava.
Jorge trabalhava com uma actividade febril, depois que se ajustára o casamento de Bertha. Parecia querer procurar no trabalho uma embriaguez que lhe amortecesse as dôres do coração, que aquelle facto lhe produzira. Mas a violencia do esforço cançava-o, e bem claro o revelava na pallidez e depressão da physionomia.
Gabriella não pôde deixar de fazer uma observação mal o viu aquella manhã:
--É preciso cautela, primo Jorge. Nada de trabalho immoderado! Lembra-te de que a tua constituição não é para taes fadigas.
--Porque me diz isso?
--Porque te estou lendo no rosto a necessidade de ar livre, de sol, de exercicio e de distracção do pensamento.
--Effeitos de uma noite mal passada. Eu não me sinto cançado.
--Embora. Sê prudente. Olha que o bom exito dos teus planos depende da tua perseverança, e a perseverança está mais na continuação dos esforços do que na violencia d'elles.
--Creia que me sei poupar.
--Muito bem. Agora farás o favor de fechar esses livros e de me escutar, porque tenho que te dizer.
--Ás suas ordens--respondeu Jorge obedecendo-lhe.
--Entrarei sem demora no assumpto. Sabes que formei o plano de partir ámanhã pela madrugada para Lisboa?
--Então que urgencias são essas?
--É que se não tomo uma resolução assim, não acabo de partir. Vou de adiamento em adiamento até ao fim do anno. E é indispensavel que parta.
--Indispensavel!--repetiu Jorge com ar de duvida.
--Com certeza que é. Além do que é necessario arranjarmos Mauricio. Has de concordar commigo, que esta vida perde-o. Cada dia que se passa para elle n'esta ociosidade campestre, exerce uma funesta influencia sobre aquelle caracter, aliás de muito aproveitaveis qualidades.
--Isso é assim. Porém Maurício que parta só.
--Não partirá.
--Porquê?
Gabriella hesitou em dar a razão que Jorge lhe pedia, e respondeu evasivamente.
--Sei que não partirá. Demais é conveniente que eu lhe prepare o caminho em Lisboa e por isso preciso de lá ir.
--Porém meu pae?
--Pois ahi é que está a dificuldade, e por causa d'isso é que eu reclamei esta conferencia.
--Então?
--O tio Luiz está bastante doente. Do corpo e do espirito. Chega a dar-me cuidados. N'aquelle estado não póde prescindir de certos carinhos e desvelos, proprios só de uma mulher. São-lhe já tão indispensaveis, que elle, coitado, aterra-se sómente com a ideia de ter de viver sem elles. Por isso não quer ouvir fallar na minha partida. A mim mesma me custa deixal-o, porque sei que lhe hei de fazer falta.
--E contudo diz que parte ámanhã!
--É verdade, porque julgo ter descoberto uma combinação que remediará tudo.
--Qual é?
--É preciso substituir-me. É preciso sentar uma mulher á cabeceira do tio Luiz, mas uma mulher que o estime, que olhe por elle, que o distraia e a quem elle consagre uma affeição que o faça esquecer de mim, e que lhe torne essa enfermeira ainda mais necessaria do que eu hoje lhe sou, e ninguem mais está n'este caso do que a afilhada d'elle, essa rapariga por quem o tio parece haver já manifestado uma particular sympathia, e que melhor do que ninguem póde vir a exercer sobre elle uma influencia salutar; n'uma palavra, Bertha da Povoa, a filha do Thomé.
Jorge não pôde reprimir um movimento de contrariedade ao escutar o projecto da baroneza.
Ergueu-se da mesa, junto da qual estivera sentado, e disse com certo modo sacudido, como exprimindo uma opinião irrevogavel:
--Não póde ser.
--Porquê?--perguntou Gabriella.
--Porque... porque não.
--Quererás dar-te ao incommodo de procurar outra razão mais logica, primo Jorge?
--Meu pae não aceitaria os cuidados da filha do Thomé da Povoa.
--Primeiro que tudo é preciso que consideres que o doente que eu deixo lá dentro não é já aquelle D. Luiz que nós ambos conhecemos na Casa Mourisca; depois Bertha para elle é raras vezes a filha do Thomé, é a amiga de Beatriz, é a imagem viva d'aquelle anjo, que elle ainda hoje chora. Teu pae não terá coragem para afugentar Bertha de junto do seu leito, e difficil será tiral-a de lá.
--Thomé não consentiria...
--O Thomé é um homem generoso e que, apesar de tudo, tem uma sincera affeição ao tio Luiz. O Jorge bem o sabe.
--Mas...
--Mas, a final de contas, a principal objecção está em que o primo Jorge não quer. E porque não quer?
--Não é isso, mas... Demais a mais Bertha não viria de certo n'esta occasião, em que lhe não falta que fazer em casa.
--Pois que ha por lá?
--Os preparativos do casamento d'ella.
--Do casamento de... quem?!
--De Bertha.
A baroneza ficou d'esta vez verdadeiramente surprendida.
--De Bertha?! Pois Bertha casa-se?!
--E em pouco tempo.
--Com quem?
--Com o Clemente, o filho da minha ama, da Anna do Védor.
Gabriella permaneceu algum tempo calada, sem poder desviar os olhos de Jorge, como se quizesse devassar o que se passava no espirito do primo, ao dar-lhe em tom de indifferença aquella noticia.
--Bertha casa-se!--repetiu ella--E por sua vontade?
--Por certo. Quem a obrigaria?
--Parece-me incrivel. E que pensa o primo Jorge d'esse casamento?
--Acho-o tão natural, que fui eu proprio que fiz a proposta.
--A proposta do casamento?!
--Sim, a proposta do casamento.
--A Bertha?!
--Ao pae e a ella.
--E como te lembraste d'isso?
--Porque o Clemente me pediu.
--Ah! E condescendeste sem dificuldades?
--Porque não?
--E Bertha tambem aceitou sem objecções?
--Sim, sem grande hesitação.
Jorge respondia a esta serie de perguntas d'uma maneira constrangida, como quem anciava por libertar-se depressa do inquerito. Nunca olhára directamente para a baroneza, que pelo contrario não tirava d'elle os olhos, nem perdia os signaes de turbação com que elle lhe respondia.
A final Gabriella dirigiu-se ao primo no tom de resolução de quem se decide por um partido manifesto.
--Jorge, olha bem para mim.
Jorge fitou na prima os olhos admirado.
--E' com indifferença que vês realisar-se o casamento de Bertha e que me estás fallando n'elle?
Jorge córou intensamente á inesperada interpellação, e tentou responder ladeando:
--Com indifferença não, de certo. Sou amigo do Thomé e Bertha é...
--A filha d'elle, bem sei. Deixemos esses parentescos. E já que desejas que falle mais claro, pergunto-te: É ou não é verdade que amas Bertha?
--Eu?!
--Sim, tu. E repara no que me vão responder os labios, porque o rosto já me respondeu.
Jorge conheceu que não lhe era possivel dissimular, abraçou portanto o partido da franqueza, que lhe era mais congenial.
--N'esse caso era desnecessaria outra resposta. Porém não duvidarei em dar-lh'a. É verdade que a amo.
--N'esse caso que quer dizer toda esta comedia?
--Quer dizer que eu e Bertha estamos decididos a cumprir corajosamente o nosso dever. Ella fazendo a felicidade de um homem honrado que a estima, e realisando o papel de providencia de uma familia, que é a mais gloriosa missão da mulher; eu votando-me todo á obra que emprehendi, e procurando tornar tranquillos os ultimos dias de meu pae n'este mundo, sem lhe ir exacerbar as paixões do seu coração irritado, para satisfazer as minhas.
--A poesia dos meus sentimentos está muito atrazada, ao que vejo. D'antes os amantes sinceros e generosos punham acima de tudo os direitos dos seus puros affectos. Eu sou dos que lêem por a cartilha d'esses tempos.
--Os affectos generosos estendem a sua generosidade aos sentimentos dos outros corações, ainda quando lhes são oppostos. Respeitam-nos.
--É muito sublime; não entendo bem. Vamos a saber, primo Jorge, dar-se-ha que ainda haja por ahi uns fumosinhos de vaidade aristocratica?
--Em mim não a conheço; mas respeito-a n'aquelle velho, em quem descarregaria o ultimo golpe se a não respeitasse.
--É esse o obstaculo? Não vejo ahi senão a necessidade de uma contemporisação.
--Não digo isso, prima. As contemplações que tenho com meu pae, têl-as-hei com a sua memoria.
--Mas não é muito de christão suppôr que o sacrificio feito á vaidade do vivo póde ser agradável á alma, que deixou no sepulchro todos os prejuizos do barro em que se envolvia. Os preconceitos aristocraticos não sobem ao céo; quero crêl-o; ficam nos sarcophagos da familia, de mistura com as cinzas mortuarias.
--Embora; mas seriam criminosos todos os projectos de felicidade, que se baseassem em um facto tão funesto como esse a que allude. Em taes fundamentos não serei eu quem os edifique.
--Mas, se bem me recordo, o primo Jorge disse-me ha dias que não se julgava com direito de sacrificar outra felicidade que não fosse a sua.
--É verdade. Mas não sou eu só que tenho coragem.
--Ah! Ella tambem?! Visto isso concertaram ambos esse plano? É generoso, não ha duvida. Eu cada vez adoro mais a provincia, onde se dão umas raras plantas, em cuja existencia quasi não acreditava. Agora já comprehendo a opposição que encontra em ti o meu projecto. Depois da vossa heroica resolução, é claro que devia contrariar-te a presença de Bertha n'esta casa.
--Confesso que sim.
--Concebe-se. Pois é pena, porque me agrada o projecto, e assim tem de ficar só o tio Luiz.
--Mas não parta.
--Alto lá. Por muito estranhos que me pareçam os teus planos, viste que não lhes oppuz obstaculos. Reclamo a mesma condescendencia para com os meus.
--Porém meu pae?...
--Não sei o que lhe faça, primo. Pensa n'isso a vêr se até á hora da partida me lembras alguma solução. Eu não acho.
A baroneza retirou-se poucos momentos depois apparentemente dissuadida da sua primeira ideia.
Chegando porém ao seu quarto, sentou-se á secretária, e preparando uma folha de papel escreveu com a sua miuda calligraphia o seguinte:
«Meu caro snr. Thomé da Povoa.
Sou obrigada a partir hoje para Lisboa. Deixo meu tio muito doente e muito sentido pela minha falta. Na idade em que elle está e nas suas tristes disposições de espirito dá-se muito apreço aos cuidados de uma mulher. A minha ausencia deixa-o tão só e tão sem conforto, que receio dos effeitos d'ella. Sei quaes os ardentes desejos de vingança que o snr. Thomé tem contra meu tio e a indole dos actos com que os satisfaz, e por isso julguei dever dar-lhe estas informações, para que se vingue a seu modo.
Sua muito respeitadora
_Gabriella_.»
E depois de lêr o que escrevêra, principiou a dobrar cuidadosamente a carta, murmurando:
--A bom entendedor meia palavra basta.
E ao lacrar e ao escrever o sobrescripto, dizia sorrindo:
--O primo Jorge que tenha paciencia e tome contra si proprio as precauções que quizer.
Depois tocou a campainha e mandou expedir quanto antes a carta a Thomé da Povoa. E na sequencia dos seus pensamentos murmurava:
--E se o acaso lhe der para fazer das suas, lá se avenham. Eu lavo d'ahi as mãos.
E foi proceder aos preparativos da sua jornada nas mais joviaes disposições de espirito.
XXIX
A baroneza a ninguem participou, além de Jorge a sua partida para Lisboa. Havia muito tempo que os principaes preparativos estavam feitos, e por isso o movimento dos criados, que lhe executaram as ultimas ordens, não se tornou notado.
Na vespera, á noite, Gabriella demorou-se mais tempo no quarto do tio e deu-lhe a entender que brevemente teria de deixal-o por alguns dias, porque a sua presença era necessaria em Lisboa, mas que voltaria e que seria então para demorar-se mais tempo.
D. Luiz mostrou a mesma opposição a este projecto que já por vezes manifestara; mas a baroneza d'esta vez insistiu mais e obrigou-o a conformar-se com a ideia de uma proxima separação.
Na manhã seguinte, ás horas a que o velho fidalgo costumava receber a primeira visita matinal da sobrinha estava elle já impaciente, porque ella lhe tardava.
Já mais do que uma vez erguêra os olhos para o mostrador do relogio fronteiro, e espreitára atravez das cortinas para a altura do sol, e de cada vez que fizera esta observação, acabára-a suspirando.
O pobre doente tinha tanta necessidade de fallar com Gabriella! Havia nada menos do que um longo e complicado sonho a contar-lhe. E ella sem apparecer!
Depois de muito esperar, D. Luiz ouviu emfim mexer na chave da porta e voltou-se com ar de satisfação.
Mas a este vislumbre de esperança succedeu um movimento de impaciencia. Era frei Januario quem entrára.
O padre vinha com uns modos de embasbacado, virando e revirando urna carta que trazia na mão.
--Que é? O que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz com impaciencia não disfarçada--Onde está Gabriella? Tenha a bondade de ir pedir-lhe o favor de vir fallar-me.
--A snr.ª baroneza?... Ahi tem v. exc.ª as noticias que posso dar-lhe a respeito d'ella.
E estendeu para o fidalgo a carta que trouxera.
--O quê?! Que quer dizer?! Noticias d'ella? Então Gabriella?...
--Partiu esta madrugada quasi sem dizer «Deus te salve» a ninguem. Esta gente de hoje sempre tem umas maneiras exquisitas...
--Partiu! Gabriella partiu! Sem se despedir de mim?
--Então que quer v. exc.ª? Costumes d'agora. Tudo está mudado. Maçonarias. Mas ahi tem v. exc.ª uma carta, que ella lhe deixou.
D. Luiz pegou na carta meio tremulo e abriu-a.
Era concebida n'estes termos:
«Perdoe-me, meu querido tio, a maneira subita por que o deixo. Julguei preferivel isto, porque me faltava o animo para despedidas que talvez o affligissem mais. Espero não prolongar por muito tempo a minha ausencia. Seria conveniente que Mauricio viesse emquanto estou em Lisboa. Escrevo-lhe n'este sentido e confio em que v. exc.ª lhe dará permissão para elle vir ter commigo. Peco-lhe que me espere nos Bacellos, onde em breve conto vêl-o mais feliz e contente. Até lá tenho um presentimento de que Deus ha de providenciar para que não sinta muito a falta que eu lhe possa fazer. Conceda-me sempre a sua amizade e creia-me
Sua affectuosa e reconhecida sobrinha
_Gabriella_.»
O fidalgo leu e releu a carta em silencio, suspirou, e voltando-se para o padre, disse-lhe simplesmente:
--Tem a bondade de me deixar só por um pouco, snr. frei Januario?
O padre sahiu do quarto, encolhendo os hombros.
D. Luiz tornou a lêr a carta, carregando-se-lhe de mais sombria tristeza o semblante, e deixou-se cahir desalentado nos travesseiros.
E ninguem lhe ouvia aquella manhã tocar a campainha a chamar um criado para que lhe prestasse qualquer serviço que o seu estado de saude exigia, e se um ou outro, mais cuidadoso, espontaneamente se apresentava a receber-lhe as ordens, era despedido com rudeza, recahindo elle na especie de somnolencia em que depois da leitura da carta havia ficado.
Ao meio dia, porém, hora em que a baroneza costumava por suas proprias mãos servir-lhe algumas colhéres de gelêa e um calix de vinho do Porto, sentiu que lhe abriam mansamente a porta do quarto, com a mesma cautela, com o mesmo cuidado com que o fazia Gabriella.
Deu-lhe rebate o coração, e no meio dos tristes pensamentos que o acabrunhavam, fez-se um clarão de esperanças. Voltado com as costas para a porta, D. Luiz não pôde conhecer logo a pessoa que entrava, por isso perguntou com uma voz, era que se denunciava o intimo sobresalto que estava sentindo:
--Quem vem ahi?
Ninguem lhe respondeu; mas percebeu claramente o som de uns passos leves, que não podiam deixar de ser de mulher.
--Quem está ahi?--repetiu D. Luiz, fazendo um esforço para voltar-se.
Mas n'este momento parava defronte d'elle Bertha, com um sorriso nos labios, e segurando nas mãos a bandeja com o calix de vinho e a gelêa, que a baroneza costumava servir-lhe.
D. Luiz olhou para a afilhada com a expressão da maior surpreza e espanto.
--Bertha!--exclamou elle, solevantando o corpo--Bertha aqui?!
--E ha mais tempo seria este o meu logar, se não soubesse que até hoje lhe não faltavam os cuidados de que a sua doença precisa.
--E vens... vens para ficar?--perguntou o doente com uma inflexão de alegria quasi infantil.
--Se me der licença que fique...
--Se te der licença, filha!...
De subito reprimiu a sua expansão de alegria, e emendou em tom mais grave:
--Não, Bertha; não é aqui o teu logar. Eu não sou teu pae.
--Mas é meu padrinho e está doente. E á cabeceira de um doente uma mulher está sempre no seu logar. É o nosso posto de honra--respondeu Bertha, com aquella entonação carinhosa com que as raparigas sabem enfeitiçar o coração e enleiar a vontade dos seus velhos paes e avós.
O fidalgo sorriu com brandura e, passando a mão tremula pelos fartos cabellos de Bertha, disse-lhe, olhando-a com sympathia:
--Mas que dirá teu pae?
A estas palavras Bertha dirigiu para a porta do quarto um olhar indiscreto, olhar que despertou suspeitas no espirito de D. Luiz e o obrigou a seguir com a vista a mesma direcção.
Atravez da porta meio aberta descobriu a figura de Thomé, que ficára no corredor. Uma rapida contracção atravessou como o effeito de um choque electrico a fronte de D. Luiz; em breve porém dissipou-se este signal de desgosto, e com voz serena e sem aspereza interrogou:
--Estava ahi, Thomé da Povoa?
O fazendeiro deu alguns passos no quarto, ainda timidamente, e respondeu volteando o chapéo entre as mãos:
--Estava, sim, fidalgo; fui eu mesmo que acompanhei a rapariga, e se v. exc.ª me quizer fazer o favor de aceitar a companhia d'ella, com muito gosto lh'a deixo ficar. Porque emfim, snr. D. Luiz, isto de mulheres sempre é outra coisa para lidar comnosco. Teem lá umas maneiras de enfeitiçar um homem, que quem uma vez foi tractado por ellas em doença, já se não entende com outros enfermeiros. Lá sabem temperar os remedios, arrefecer os caldos, ageitar a roupa da cama e os travesseiros, que parece que uma pessoa come, bebe e dorme ainda que não tenha vontade, desde que ellas queiram. Por isso, como a rapariga é afilhada de v. exc.ª e a snr.ª baroneza foi para Lisboa e v. exc.ª ficou só, e ella não nos faz falta, porque, graças a Deus, a minha Luiza ainda basta só para o trafego da casa, lembrou-me trazêl-a, por me parecer que podia prestar alguns serviços a v. exc.ª.
--Então sabe agora, meu padrinho, o que dirá meu pae?--perguntou Bertha, occupada já a accommodar a cama que o doente tinha desordenada.
--Mas... Thomé--dizia D. Luiz descontente por ter de aceitar um favor do fazendeiro, porém sem coragem de recusal-o. Eu não quero prival-o da companhia de Bertha... Sei quanto se quer a uma filha e não posso aceitar o sacrificio.
--Ora adeus, fidalgo! Eu quero bem á rapariga, isso lá é verdade; mas não me faltam por casa filhos com que me entretenha. E depois isto de filhas, mais tarde ou mais cedo é contar que batem as azas para fugirem do ninho. É bom costumarmo-nos a passar sem ellas. Por isso, se v. exc.ª não tem duvida em aceitar a companhia da pequena... é fazer de conta que ella nada tem commigo...
D. Luiz sentiu que ia ser vencido pela generosidade de Thomé. Resistir por mais tempo era revelar inutilmente repugnancia em aceitar o beneficio, e tornar evidente a sua fraqueza quando finalmente o aceitasse.
Cedeu pois a tempo, e emquanto o podia fazer, salvando a dignidade aristocratica, que sobre tudo prezava.
--Dividas d'essa natureza não hesito em contrahil-as, apesar de saber que as deixarei em aberto. Aceito, Thomé, aceito a companhia d'esta menina, que me fallará de minha filha e m'a recordará. Não é verdade, Bertha?
--De certo que havemos de fallar muito de Beatriz.
--Muito bem--exclamou Thomé da Povoa--pois então ahi lh'a deixo, fidalgo, e vou á minha vida.
Gomprehendeu D. Luiz que não devia ficar inferior em generosidade ao seu antigo criado.
Assim que Thomé, fazendo-lhe uma cortezia, se dispunha a transpôr a porta para sahir, o fidalgo reteve-o estendendo-lhe-a mão, e disse-lhe n'aquelle tom solemne que lhe era habitual:
--Thomé da Povoa, não se retire sem que eu lhe aperte a mão. Bem vê que é a maneira que tenho de remir dividas d'estas.
--Com todo o gosto, fidalgo.
E o honrado lavrador aproximou-se do leito e apertou nas suas mãos robustas a mão magra e aristocratica do senhor da Casa Mourisca, dizendo, com a expansão de enthusiastica sympathia que tinha em excesso na alma:
--Póde acreditar, fidalgo, que aperta a mão de um amigo.
D. Luiz fez um gesto silencioso de acquiescencia.
Thomé da Povoa, quando sahiu da sala, levava nos olhos um brilho denunciador de commoção.
Todas as scenas e acções generosas exerciam n'elle este effeito.
Bertha ficou só com o padrinho. Com aquelle instincto de actividade e de ordem natural á indole feminina entrou immediatamente no exercicio de suas funcções, dispondo os preparativos para a leve refeição do doente, da qual ella se encarregára ao encontrar no corredor um criado com a bandeja na mão.