Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

Part 25

Chapter 25 4,016 words Public domain Markdown

--Isso é que é verdade.

--E lá por casa como vão? Tua mãe?

--Bem; foi ella quem me aconselhou esta visita.

--Sim? Então já não t'a agradeço.

--Eu, a fallar a verdade, como sei que tem o tempo muito occupado, receio...

--Ora deixa-te de tolices. Se por acaso estivesse tão occupado que me não fosse possivel receber-te, com a maior franqueza t'o diria. Bem sabes que entre nós não ha etiquetas.

--Pois eu vinha para pedir-lhe um favor.

--Terei muito prazer em te servir--respondeu Jorge, levantando-se para procurar novos papeis na secretaria e voltando a sentar-se á banca, sempre entretido no seu trabalho.

--Como sabe, pedi a minha demissão e estou agora resolvido a viver em minha casa, e a occupar-me sómente dos meus negocios.

--É justo. E quem bem trabalha no que é seu, tambem trabalha no que é de todos--ponderou Jorge emquanto executava uns calculos arithmeticos.

--Ora, para fazer a vontade a minha mãe e tambem por me sentir com inclinação para isso, estou meio decidido a...

--A casar-te, hein?--concluiu Jorge, sem manifestar surpreza, e notavelmente embebido na execução dos seus calculos.

--Justamente.

--É uma boa resolução. Os homens como tu dão excellentes chefes de familia. Podes fazer a tua felicidade e a da mulher com quem casares.

--Isso são favores seus, snr. Jorge.

--Ora! Mas a final o que queres tu? Vens ouvir-me de conselho n'esse negocio? A mim, um rapaz solteiro?...

--Não, senhor, a coisa é outra.

--Então?

--Eu já lancei as minhas vistas...

--Sim, é natural.

--Mas não sei ainda se serei bem acolhido e, para lhe fallar a verdade, não me sinto com animo de... de tractar disso em pessoa.

--Não? Ora essa! E então?

--E então lembrei-me do snr. Jorge para lhe pedir este favor.

--De mim?! Tem graça. Queres obrigar-me a representar o papel de casamenteiro. Com todo o gosto. Mas sempre tenho curiosidade de saber a razão por que te lembraste de mim--disse Jorge que, havendo concluido o calculo, poisára a penna e esfregava vivamente as mãos para aquecêl-as. Olhando d'esta vez directamente para o seu interlocutor, perguntou-lhe:

--E quem é a noiva?

--É a filha do Thomé da Povoa.

Estas palavras dissiparam instantaneamente toda a meia indifferença com que Jorge escutára até alli as communicações de Clemente. O estremecimento que não pôde reprimir ao ouvil-as, a subita transformação que se lhe operou na physionomia, bastariam para revelar a verdade a Clemente, se este bom rapaz não tivesse uma d'aquellas almas, onde nunca entram de subito as suspeitas, mas sómente depois de muitos e porfiados embates.

--A filha do Thomé da Povoa!--repetiu Jorge estupefacto.

--Sim--tornou Clemente, interpretando erradamente aquelle espanto--a filha do Thorné da Povoa, do Thomé da Herdade... Bertha, a que foi educada em Lisboa e que voltou ha tempos...

--Bem sei--atalhou Jorge com impaciencia--mas... Bertha...

E acrescentou quasi sem consciencia do que dizia:

--Bertha da Povoa... mas... mas como te lembraste agora de Bertha sem mais nem menos? É singular!

--Como me lembrei agora? Mas não foi agora que me lembrei. Eu já tinha penâado n'isso. É a noiva que eu proprio...

--Pois sim, mas... Como te deu logo para pensar em Bertha da Povoa? É o que pergunto.

--Ora essa! Em alguma havia eu de pensar. Se não fosse n'ella, seria em outra. Succedeu ser em Bertha. Coisas do coração...

--Ahi vens tu já com o coração--acudiu Jorge com mal reprimido despeito.--Vossês fallam no coração a proposito de tudo. E até agora então, que andavas todo influido com a tua regedoria, não te importaste com o coração, nem elle te dizia nada... Ora adeus! O coração!...

E erguendo-se da banca com certa agitação, que estava espantando Clemente, pôz-se a passeiar no quarto, e tão convulso que não conseguia preparar um cigarro, que mal sustinha nas mãos.

Clemente allegou:

--Eu não digo que isto seja uma paixão muito forte, uma paixão por ahi além; mas, resolvido a tomar estado, pensei na noiva que me conviria e lembrei-me de Bertha. É uma boa rapariga, bem educada e de alguns haveres...

Jorge cortou-lhe a palavra:

--Ah! então dize-me d'isso. Agora já entendo por que te lembraste de Bertha. Devias principiar logo por ahi. De alguns haveres! Ahi é que está a questão. Vossês são todos os mesmos a final. O interesse, o maldito interesse! Pois fazia melhor conceito de ti, Clemente; digo-te francamente que fazia de ti melhor conceito. Lá porque uma rapariga tem meia duzia de centos de mil reis, já a perseguem com proposito de casamento, já...

--Ó snr. Jorge--interrompeu Clemente, tão surprendido como vexado com o que ouvia--por quem é faça melhor opinião de mim. Não só me não lembrei de Bertha apenas pelo dinheiro, mas nem a quero perseguir. Olha quem? Eu! Se a rapariga disser que não, ou o pae, paciencia. Mas parece-me que a minha proposta não a deshonra.

Jorge principiava já a conhecer a sem-razão com que fallava, mas não podia ainda ceder totalmente ao bom senso que despertava em si. Não tinha previsto o caso, que se lhe offerecia, e sentia-se por isso irritado contra a hypothese que tão imprevistamente lhe surgira no caminho.

--Pois sim... mas...--murmurava elle, sem saber o que dissesse--mas... Bertha... Olha, se queres que te falle a verdade... Bertha não te convem.

--E porque acha?

--Porque... Ora, porquê?... Eu não posso bem dizer porquê... porque... porque não.

--Parece-lhe talvez que tem uma educação muita fina para mim?

--Não, não digo bem isso... mas...

--Eu tambem concordo. Mas attenda o snr. Jorge que aqui na terra as pessoas melhor educadas do que eu não a querem para mulher. Eu sei de fidalgos que não se lhes daria de inquietal-a, e já o teem mostrado. Mas creia que menos a honram os olhares d'esses taes, do que a minha proposta. Eu não apreciarei, como conviria, os talentos de Bertha, mas talvez os respeite melhor. E em todo o caso julgo que se poderá fazer de mim um bom marido.

--Ninguem te diz menos d'isso... mas... bem vês que... Eu não sei quaes são as tenções de Thomé, porém parece-me que...

--De Thomé sei eu que approvaria o casamento, porque já o disse a minha mãe.

A estas palavras cresceu outra vez a irritação de Jorge.

--Então já é negocio tractado? Os paes fallaram-se. Está dito tudo. É o absurdo costume cá da terra. Provavelmente vão exercer pressão sobre a pobre rapariga, que se sacrifica para fazer a vontade á familia. Olha, sabes que mais, Clemente, isso não é bonito. Para que hei de estar a dizer o contrario? Não é bonito. Nem eu te quero dizer tudo o que penso d'isso.

--Mas, valha-me Deus, eu estou devéras admirado de vêr o juizo que o snr. Jorge faz de mim! Pois imagina que eu consentiria em casar com alguma mulher contra vontade d'ella?

--Tu é que disseste que tua mãe e Thomé já se entenderam--observou Jorge, continuando a passeiar no quarto.

--Disse que fallaram n'isso e que elle não desapprovára. Mas o snr. Jorge conhece o Thomé e por isso sabe que elle não é homem capaz de obrigar a filha. Deus me livre de imaginar tal! Mas emfim vejo que o snr. Jorge não approva a minha escolha; eu respeito-o muito e não quero ir contra o seu parecer. Direi a minha mãe...

Jorge acudiu com vivacidade:

--Não, não. Eu não desapprovo. Essa é boa! Que tenho eu com isso? Segue lá o teu destino. E se fores feliz... tanto melhor. Eu sou teu amigo, desejo a tua felicidade. Anda... tenta... nada perdes em tentar. Emfim... eu não tenho objecções a pôr... só me parecia que... Mas emfim, anda para diante.

--Pois sim, mas... eu desejava que o snr. Jorge fosse quem fallasse.

Cresceu a impaciencia a Jorge.

--Não, não, isso é que não. Perde isso da ideia. Que lembrança! Eu fallar! E porque hei de ser eu? Que tenho eu com isso? Conheço o Thomé, não conheço a filha. Que me importa a mim saber se a Bertha te quer para marido, ou se não quer? Era até ridiculo. Mas como te lembraste de mim para esse emprego?

--Foi minha mãe quem me aconselhou.

--E porque não vae ella? Assim como tractou com o pae, que tracte com a filha. Quem quer negociar casamentos para os filhos não incumbe a estranhos parte da missão.

--É porque minha mãe julgava que o snr. Jorge não era para nós de todo em todo um estranho--murmurou tristemente o collaço de Jorge, a quem a imprevista maneira por que fôra acolhido por este tinha deixado em profundo desconsôlo.

Estas palavras de timida censura e a maneira branda e resignada com que foram ditas, commoveram Jorge e abateram a tempestade que lhe perturbára a habitual serenidade do seu espirito. Fazendo um esforço para dominar os despeitos que ainda sentia revoltos no coração, disse com maior placidez, apertando a mão de Clemente:

--E julgava bem tua mãe. Eu não posso ser para vós um estranho, nem vós para mim o sois. Farei o que desejas. Não faças caso das minhas palavras. Tenho andado um pouco impertinente estes dias por causa de certos negocios, e por isso fallei ha pouco mais vivamente. Desculpa. O teu projecto é razoavel, eu fallarei n'elle a Thomé. Que duvida? O que não prometto é servir-me de qualquer influencia que tenha sobre elle, porque... porque emfim... tenho escrupulos.

--Nem eu quereria que o fizesse. Basta que lhe exponha o caso; que lhe diga que estou resolvido a casar, e sentindo amor...

--Será melhor não fallarmos em amor--atalhou Jorge com renascente impaciencia--porque afinal, Clemente, vendo as coisas como ellas são, tu não amas Bertha.

Ao olhar espantado com que foram acolhidas estas palavras, Jorge respondeu já com mais força:

--Não amas, homem, não amas. Talvez estejas persuadido de que a amas, mas não ha tal amor. Desengana-te. Isso em ti é um projecto frio, pensado, no qual só achaste vantagens e portanto resolveste adoptal-o. Tens considerações por Bertha, entendes que podes estimal-a; mas amor é outra coisa. Deixemos porém isto. Fica decidido, eu fallarei a Thomé e dar-te-hei a resposta.

--Agradeço-lhe, snr. Jorge. Mas veja lá, se lhe custa...

--Porque ha de custar? Ora essa! Se fallo quasi todos os dias com o Thomé. Em logar de conversarmos no tempo que faz, ou no estado das terras, conversaremos n'isso. Sim, porque para mim é um assumpto como outro qualquer, O casamento de Bertha é um assumpto em que eu posso conversar com Thomé, naturalmente. Pois que tinha eu com o casamento de Bertha? Eu não sou irmão d'ella. Estimo-a, é verdade, mas... o que é certo é que... é que me não compete importar-me com o casamento de Bertha. Já vês então que não me póde ser custoso fallar n'isto ao pae... Pois porque te parecia que me havia de custar?

E Jorge dizia tudo isto com uma volubilidade e com uma inquietação que admirava Clemente.

--A mim? Por nada--respondeu este.--Eu dizia que no caso de não querer.

--Mas porque não? Fallo. Não tenho a menor duvida. Ámanhã dar-te-hei a resposta. Adeus. Agora peço-te licença para examinar umas contas.

--Eu retiro-me.

--Então adeus. E vae descançado; hoje mesmo tractarei d'isso. É uma coisa tão simples! Pois não te parece que é uma coisa simples? Sim, porque bem vês que eu nisso não tomo parte activa. Por acaso tinhas algum motivo para suppôr...

--Nenhum.

--Mas parecia que julgavas que eu tinha algum motivo... talvez...

--Eu não julgava tal--respondia Clemente cada vez mais espantado com a insistencia de Jorge, tão singular pelo menos como a sua primeira irritação.

Jorge conduziu o seu amigo até á porta do gabinete, onde se despediu d'elle, apertando-lhe affectuosamente a mão.

Depois de Clemente sahir, Jorge voltou a sentar-se á banca, e, como quem se dispunha a proseguir no trabalho interrompido, pôz-se com affectada tranquillidade a aparar um lapis, e trauteando a meia voz; mas tal era o estado nervoso em que ficáa e a sua distracção tão completa, que o lapis desfazia-se-lhe nas mãos, em vez de se apromptar para serviço. De repente arremessou de si o lapis, o canivete e varios livros e papeis que encontrou diante, e erguendo-se exclamou com accentuada amargura:

--Está pois decidido que eu vá pedir a Thomé da Povoa, e para Clemente, a mão de sua filha! Tem graça! Sempre se me preparam casos n'esta vida!

Principiou a passeiar na sala, com os braços cruzados, a cabeça pendida e o pensamento disputado por as mais contrarias paixões.

--Ahi está uma solução que eu não previa--continuou elle.--Sim, senhor; é a maneira mais simples e mais natural de cortar as dificuldades de que tanto me receiava. Assim tudo se resolve. Fixa-se o meu futuro, cessam as minhas hesitações, acalma-se a minha febre; applicarei o pensamento exclusivamente aos meus negocios... E ella... será feliz. Serão felizes... O casamento é natural... O Clemente é bom rapaz e Bertha...

Esta ideia provocou um movimento de reacção.

--Bertha e Clemente! Clemente marido de Bertha! Bertha casada com Clemente! Não me posso conformar com esta ideia. Não posso costumar-me a reunir estes dois nomes. É monstruoso, é impossivel!

E ficou por algum tempo abatido com os olhos fitos no chão, como subjugado por aquelle pensamento. Depois tornava, com nova energia:

--Mas quem tem a culpa? Sou eu, eu, que não tenho coragem para passar por cima de preconceitos ridiculos, que me prendo com teias de aranha e fico perpetuamente aguardando não sei o quê. Pois que podia eu esperar? Ou este sentimento em mim é real e poderoso ou não é. Se não é, com que direito me estou incommodando com o casamento de Bertha? Se é, porque não lhe obedeço? porque não me declaro, porque hesito...

Vinha depois a reflexão acalmar este momentaneo paroxismo.

--Sim, e havia de descarregar mais esse golpe sobre aquelle velho, que não tem culpa em acatar esses preconceitos no valor de um credo religioso! O primeiro golpe, por doloroso que elle o sentisse, foi-lhe salutar e evitou-lh'os mais crueis. Este porém só teria compensação para mim, e elle não lhe sentiria o beneficio. Vamos, deixemo-nos de loucuras. Resolvi ter coragem. Hei-de têl-a. Fallarei a Thomé.

Vinha-lhe em seguida um pensamento diverso.

--E qual será a resposta de Bertha? Ella não póde aceitar Clemente. A educação que recebeu... E porque não ha de aceitar? Clemente é um rapaz honrado, trabalhador, capaz de estimar e proteger a sua mulher. Que mais póde ella desejar? Este é o marido que lhe convem. Talvez lhe preferisse Mauricio, que se ri d'ella, que não pensará n'ella ámanhã, mas que é um rapaz da moda, elegante e que lhe sabe dizer bonitas palavras. A phantasia d'estas collegiaes...

Tornou a razão a fazer-se ouvir.

--Mas ahi estou eu com a minha loucura, accusando aquella pobre rapariga de defeitos, que nunca lhe pude descobrir. Mas se esta ideia faz-me perder o juizo! Pelo contrario, a Bertha tem muito bom senso, ha de comprehender o caracter do Clemente, apreciar as qualidades d'aquella excellente alma e aceitar a proposta... e até sem a menor hesitação. É um marido a final. As mulheres o que querem é um marido. Talvez até o Clemente agrade a Bertha... Hão de ser felizes. Porque não?... Bertha não tem aspirações mais solidas... Não póde ter... Aquillo com Mauricio é um capricho. Todos se hão de dar bem, e Bertha com a Anna do Védor... Que paz domestica! Tudo isto a final é naturalissimo. Eu sou que lhe estou dando mais importancia do que merece... Tracta-se de dizer a uma rapariga: «ahi está um homem que te pretende para mulher.» A rapariga, que não tem maiores aspirações, responde que aceita. E o casamento faz-se, e tudo entra no caminho ordinario, e eu mesmo me hei de habituar...

A explosão foi maior d'esta vez, que mais prolongado havia sido o periodo de repressão.

--Não, não me hei de habituar--exclamou elle agitadissimo--porque... porque eu amo-a! Escuso de mentir a mim mesmo. Amo-a! É uma fatalidade, mas amo-a. Foi o meu primeiro amor e ha de ser o ultimo. Amo-a e hei de padecer horrivelmente, vendo-a casada com outro. Mas, não importa, vencerei as minhas paixões. Se continuar a amal-a, ninguem o saberá; se odiar Clemente, suffocarei esse odio no coração; e se elle se despedaçar n'esse esforço, morrerei sem deixar no mundo o segredo de minha morte. O meu destino está definido; é este, o de vencer-me. Principia hoje a lucta, vou procurar Thomé da Povoa.

Depois de muitos d'estes combates intimos, Jorge tomou effectivamente o caminho da Herdade.

XXVII

Entrando na Herdade para cumprir a promessa feita a Clemente, Jorge encontrou o fazendeiro, que havia pouco tempo voltára de visitar os campos, sentado á modesta banca do seu escriptorio, examinando com attenção os livros de assento e algumas cartas que recebêra.

Usando da familiaridade, com que era recebido n'aquella casa, Jorge entrára sem se mandar annunciar.

--Olá! viva o snr. Jorge--exclamou o lavrador, voltando-se ao rumor de passos que ouvira--venha cá, venha, que temos novidade.

--Então que ha?--perguntou Jorge, sentando-se defronte d'elle.

--Vamos a saber. Teve cartas do Porto?

--Não.

--Hum! É o que eu digo. Se está á espera de que os advogados lhe escrevam, bem tem que esperar. Aquelles senhores, sahindo do escriptorio, não pensam mais nas demandas nem nos clientes. Olha quem. Eu cá entendo-me com os procuradores e não me dou peior. Ora leia.

E passou para as mãos de Jorge uma carta, na qual de facto o procurador lhe dava lisonjeiras informações relativamente ao pleito que a Casa Mourisca sustentava. A questão tomára uma face nova, depois da juncção ao processo de certos documentos de importancia, e o parecer dos juizes era favoravel, segundo o que podia conjecturar o procurador, forte n'estes prognosticos.

A noticia não podia ser indifferente a Jorge. A boa solução d'esta demanda facilitaria consideravelmente os seus projectos economicos; e poderia depois tentar mais desembaraçado e com mais efficacia os expedientes que a sua meditação e a experiencia de Thomé lhe suggeriam.

--Então que diz a isso?--interrogou o fazendeiro.

--É devéras uma feliz nova.

--Diga-me agora se ha de ou não vir tempo em que aquella casa negra tornará a ser o que foi.

--Espero que Deus me conceda essa ventura.

--Agora é necessário escrever para Lisboa para apressar o negocio, e com relação áquelles titulos, que parece não estarem muito na ordem, recommendo-lhe este procurador, que é homem diligente e seguro.

--Era já minha tenção fallar-lhe n'elle. Deixemos porém agora esta materia, porque outro grave motivo me trouxe aqui e tenho pressa de me desempenhar da missão.

--Olá! Motivo grave! Pelo modo de dizer parece que se tracta de coisa de polpa.

--Não é de pequena gravidade, não--insistiu Jorge--e se quer que lhe falle a verdade, Thomé, não me é agradavel a incumbencia.

--Vá lá. Estou d'aqui a adivinhar o que é. Temos algum recado do pae. O snr. D. Luiz sabe invental-as de bom feitio. Ás vezes tem lembranças! Mas eu já estou prevenido para tudo, venha mais essa. Diga lá.

--Não, Thomé, não se tracta de meu pae. E não cance mais a cabeça, que por certo não adivinha, e eu, em duas palavras, ponho-o ao corrente de tudo. O Clemente, o filho da Anna do Védor, procurou-me ha poucas horas para me pedir que me encarregasse de ser o seu mediador em uma pretenção que elle tem dependente de Thomé.

--De mim?! Deve ser bem exquisita para que o rapaz não venha em pessoa fallar-me. Então não somos nós amigos?

--Ha delicadeza da parte d'elle n'isto, porque a pretenção de que se tracta é de certo melindre. Em uma palavra, estou encarregado de pedir para Clemente a mão de Bertha.

Jorge não pronunciou estas palavras com a mesma forçada placidez com que até alli sustentára o dialogo. Parecia que os labios as repelliam, como se os escaldassem ao passar.

Thomé recebeu sem estranheza a communicação. Mostrou bem que a ideia d'essa alliança não era nova para elle, e que não carecia de tempo para a examinar, porque todas as faces d'elle lhe eram já conhecidas.

--Ah! pois era isso?--disse elle naturalmente--Escusava de tantas ceremonias o rapaz, porque já deve saber por a mãe o que eu penso do caso. Pela minha parte não ponho duvida alguma. O Clemente é um rapaz de bons sentimentos, honrado como poucos, trabalhador, e tendo já de seu alguns haveres, que não são maus principios de vida. É um rapaz de lavoura, como não podia deixar de ser o marido de Bertha, que filha de lavrador nasceu tambem; mas sempre tem mais um bocadinho de educação do que esses machacazes que por ahi conheço, a quem não entregaria a filha, nem que m'a pesassem a oiro. O Clemente não, o Clemente é um homem que sabe dar valor ás coisas, e ha de conhecer que a minha Bertha sempre se creou por a cidade, e que por isso exige outro tractamento que não o d'essa raparigada por ahi, que de qualquer maneira está bem. Pois não acha que tenho razão, snr. Jorge?

--Sim--respondeu Jorge, levantando-se e encaminhando-se para a janella, como para dissipar o despeito, que lhe causava a maneira por que Thomé fallava d'aquella alliança--sim, Clemente tem maneiras mais polidas e, como diz a mãe d'elle, sabe muito bem fazer uso da senhoria e da excellencia pela pratica da correspondencia official.

--Isso lá historias--tornou Thomé, sem perceber a meia ironia das palavras de Jorge--que para nada lhe serve a senhoria e a excellencia para o casamento. Entre marido e mulher não ficam bem essas ceremonias, e não ha como o «tu» entre quem se quer bem.

Estas palavras incommodaram tanto Jorge, que principiou a tocar ruidosamente nos vidros como para não as ouvir. «Tu» entre Clemente e Bertha!

Thomé continuou:

--Mas eu não queria dizer isso. Quando fallava nas maneiras do Clemente queria dizer que elle tem isto, que não sei bem como se chama, isto de um homem saber tractar com uma pessoa delicada sem a offender. Porque, vê o snr. Jorge? eu conheço homens que tiveram grande educação, muitos mestres, e muitos estudos, sim senhores, e que estão sempre a dizer coisas que offendem os outros. Emquanto que muitos, que não foram tão bem olhados em pequenos, teem lá não sei que dom de conhecer as pessoas e sabem viver com ellas sem nunca as escandalisar. Isto é assim como que uma delicadeza que se não aprende, que nasce com as pessoas. Ora o Clemente é dos taes.

--Em vista do que ouço, reputo-me feliz por ter sido o portador de tão fausta nova, e de concorrer, ainda que secundariamente, para obter-lhe um genro tão precioso--disse Jorge, cujo despeito se exacerbava.

--Devagar, devagar, esta é cá a minha opinião, mas não sou eu que me caso e portanto Bertha é que ha de decidir. Eu não duvido dar conselhos a minha filha e dizer-lhe o que penso d'este ou d'aquelle rapaz de quem ella se lembre para noivo; mas constrangêl-a, isso é que eu não faço.

--De certo; mas creio que Bertha não será tão cega, que não veja as excellencias que concorrem na pessoa de Clemente, e que se não lisonjeie da preferencia que lhe mereceu.

--Pois eu tambem quero crêr que o não engeitará. Mas emfim, a gente vê as coisas com uns olhos e ellas com outros. Por muito ajuizadas que sejam, as raparigas a final teem olhos de raparigas e ás vezes lá descobrem em um homem umas coisas, que as captivam ou que as desgostam, e ninguem póde saber o que lhes agradará mais. Em todo o caso eu vou consultal-a.

--Muito bem. Consulte-a e se, como é de esperar do juizo d'ella, Clemente fôr bem acolhido, dê-me parte para o participar ao meu constituinte.

Jorge não podia despojar as suas palavras de todo o tom de ironia, ao referir-se a Clemente.

--Mas...--disse com certa hesitação Thomé--então retira-se já?

--Pois não diz que vae consultar Bertha?

--Mas, se se demorasse, podia já saber...

--A urgencia não é tanta que se torne necessario esperar. Mas emfim esperarei. Vou dar uma volta pelo campo, emquanto lhe falla.

--E tinha duvida em ficar?

--Ficar onde?

--Aqui.

--A fazer o quê?

--A ouvir a resposta de Bertha.

--Eu?!--exclamou Jorge, com uma vivacidade que para Thomé não tinha explicação.

--Então que tem? Não se tracta de segredo algum. É uma proposta que vou fazer a minha filha e á qual ella responderá sim ou não, e está acabado. A presença do snr. Jorge nada estorva. Antes poderia dar á pequena informações a respeito do Clemente, que ella conhece mal...