# Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

## Part 24

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--Respeitar como a um velho honrado, diz bem; amar como a um rapaz é que não é possível.

Bertha córou d'esta vez, respondendo:

--Não queria dizer isso.

--Bem sei que não. Mas digo-o eu. Jorge é um escravo do dever, e tão absorvido anda nos seus grandes e generosos projectos, que não ha para sonhos de amor logar n'aquella cabeça. As raparigas não podem amar um homem assim, em quem os olhares da mais affectuosa sympathia não insinuam calor no coração. Tem umas maneiras para todas uniformemente polidas e affaveis, que excluem a ideia da menor preferencia. Pois não lhe parece?

--Os nobres sentimentos da alma tambem podem exercer algum prestigio...

--Mas valha-me Deus, Bertha, esse prestigio revela-se em taes casos por uma veneração, que não é amor. É como a que temos pelos sanctos. De virtuosos e justos que nol-os pintam, fogem do nosso nivel e temos de elevar a vista para contemplal-os; e d'esta maneira, com os olhos no céo, adora-se, mas não se ama.

Bertha, com os olhos fitos em não sei que ponto da perspectiva, não respondia e parecia engolfada na corrente de profundos pensamentos.

A baroneza, sem interromper a sua observação, continuou:

--Já assim não é Mauricio.

A abstracção de Bertha não lhe deixou reprimir um movimento que estas palavras lhe provocaram. Dir-se-ia que lhe custava a aceitar a comparação.

Gabriella, observando-a sempre, proseguiu:

--Mauricio não tem o juízo de Jorge, é verdade; porém é mais amavel. Os seus mesmos defeitos fazem com que seja possivel fital-o mais directamente, sem que o esplendor dos seus meritos nos offusgue. É um rapaz, que sem deixar de ser generoso, permanece no nivel commum, em que todos vivemos, e ahi é bem mais facil amal-o.

Bertha escutava quasi distrahida; só passados instantes, depois das ultimas palavras da baroneza, foi que rompeu o silencio, dizendo vagamente:

--São ambos duas almas generosas e merecedoras de estima.

--De certo--insistiu a baroneza.--Mas, minha querida Bertha, eu não sei se lhe succede o mesmo... mas em geral estes rapazes serios e de juizo, como Jorge, intimidam-nos a nós outras, mulheres; não ousamos fital-os com um olhar de sympathia, com medo de que só por esse olhar elles nos accusem, mentalmente pelo menos, de estouvadas, e o resultado d'isto é que não olhamos para elles.

Bertha sorria, sem responder.

--Conhece ha muito esta familia?--perguntou a baroneza.

--De pequena. Brincamos muitas vezes, eu, Beatriz e todos elles na Casa Mourisca.

--E Jorge era então já assim sisudo?

--Foi sempre mais ajuizado do que as crianças da sua idade.

--É um rapaz singular. Já tenho pensado em que era preciso casal-o, porque dará um excellente chefe de familia. O essencial é passar em claro os tramites de um galanteio, porque para isso é que elle não é.

Bertha nada disse ainda.

A baroneza proseguiu:

--Por isso é necessario que os estranhos tractem d'isso e escolham por elle.

Bertha aventurou timidamente algumas palavras.

--E aceitará elle a intervenção em um acto tão essencial da sua vida? Elle que está costumado a olhar em pessoa por os negocios que lhe dizem respeito?

--Isso é verdade, mas contentar-se-ha em fallar directamente com a noiva que lhe propozerem e dizer-lhe com aquella natural franqueza todo o seu pensamento, e feito isto póde a escolhida ter a certeza de que terá n'elle um marido leal e affeiçoado, talvez sem grandes requebros de amante, mas com a verdadeira estima de um amigo.

--De certo que a pessoa a quem o snr. Jorge estender a mão póde confiar n'ella como na de um pae.

Bertha, julgando dizer estas palavras naturalmente, não pôde tirar-lhes um tremor de commoção, que a baroneza notou.

Bertha foi quem primeiro rompeu o silencio, que se seguiu a estas palavras:

--Mas dizia a snr.ª baroneza que viera procurar-me?

--É verdade. Andava anciosa por conhecêl-a. Adivinhava-a pela impressão que via causar em quantos se aproximavam de si. O tio Luiz fallava-me de Bertha com uma ternura a que já é pouco sujeito; Mauricio com um enthusiasmo de apaixonado; e Jorge....

Gabriella fez aqui intencionalmente uma pausa, durante a qual estudou a physionomia de Bertha.

Esta baixára-se, como para cortar uma malva do chão, mas nas faces estendia-se-lhe um rubor fugaz, que denunciava um intimo alvoroço.

--E Jorge--concluiu a baroneza--com aquelle modo apparentemente frio que tem para dizer todas as coisas, mas em termos que exprimiam bem a sua estima por a pessoa de quem fallava; d'aqui o meu desejo de conhecêl-a; não me admiro agora de todo aquelle effeito, porque eu mesma o estou sentindo já.

Bertha sorriu, agradecendo-lhe o comprimento.

--Creia-me, Bertha. Conhecemo-nos de pouco, mas olhe que sou já sua amiga e talvez possa ainda mostrar-lh'o um dia.

--Agradecida, snr.ª baroneza.

--Não tome esse tom de ceremonia para me fallar. O que eu digo não é um comprimento. Sabe que mais, Bertha? Talvez que pouca gente esteja tão adiantada no conhecimento do seu coração como eu, depois d'esta nossa primeira e curta entrevista.

Bertha córou d'esta vez intensamente, e olhando para Gabriella com um olhar assustado, balbuciou quasi tremula:

--Do meu coração?... Por ventura...

--Não se assuste. Não quero fallar mais nisto emquanto não me conhecer melhor. Só lhe digo que eu não passo de uma pobre mulher com bastante coração e com o grau de loucura preciso para me enthusiasmar pelo partido dos sentimentos generosos e sinceros, quando luctam com as convenções e os preconceitos sociaes. E agora deixe-me mostrar-lhe um grupo de cavalleiros que estou d'aqui vendo, e que talvez o seu olhar melhor possa distinguir do que o meu.

Bertha, seguindo com os olhos a direcção que a baroneza lhe indicava, exclamou:

--São elles, são! É meu pae e Jorge... e o snr. Jorge.

E aproximando-se do angulo do adro, d'onde melhor poderia ser vista, pôz-se a acenar com o lenço para os recem-chegados.

Thomé não respondeu logo, mas passado algum tempo tremulava na ponta da vara do cavalleiro, como flammula em mastaréo de navio, o lenço de quadros, que o vento desenrolava.

Gabriella, seguindo com os olhos os movimentos de Bertha, pensava:

--O mysterio d'esta já eu descobri. Pobre criança! tem muito pouca astucia para occultal-o. Ha n'ella uma transparencia que deixa vêr até ao coração. E aquelle?--proseguiu, dirigindo os olhares para Jorge, que ainda vinha longe--Enganar-me-ia eu? Não será aquillo sómente frieza, será reserva? Póde ser, póde. Estes homens assim morrem ás vezes com uma paixão no peito, e morrem por esforços que fazem para occultal-a. Se o facto se dér com Jorge, é uma coisa gravissima; quem póde calcular o que se seguiria? Emquanto a Mauricio, já vejo que está tudo bem; parece-me que por este lado não deixará muitas lagrimas por vestigio da sua passagem, nem terei de sentir remorsos se o arrebatar para longe d'estas paragens. Mas observemos.

Bertha, que corrêra a esperar os cavalleiros, estava nos braços do pae, que a beijava com effusão. A baroneza, meio occulta por um tronco de sovereiro, notou um rapido olhar de Jorge para Bertha, quando a rapariga ainda o não podia vêr, porque Thomé lh'o encobria; notou mais que assim que Bertha o procurou, estendendo-lhe a mão, Jorge correspondeu com ceremoniosa deferencia, e nunca mais dirigiu para ella a vista.

A baroneza foi emfim ao encontro dos viajantes.

Recebeu de Jorge um acolhimento sem comparação muito mais expansivo, do que o que Bertha lhe merecêra. O penetrante espirito de Gabriella interpretou esta differença a seu modo.

A companhia desfez-se passado pouco tempo.

Thomé tinha pressa de chegar a casa; segurando a egoa pela arriata, despediu-se da baroneza e de Jorge, e partiu, em companhia da filha, caminho da Herdade.

A despedida de Jorge e Bertha teve a mesma apparencia de reserva e de constrangimento, que caracterisára o primeiro encontro.

Observou porém Gabriella que, proximo a dobrar uma curva do caminho, além da qual se perdia de vista Thomé da Povoa e a filha, que seguiam em direcção opposta, Jorge se voltou para traz com apparente naturalidade.

--Então que resultados colheste da tua excursão?--inquiriu a baroneza, não demonstrando as descobertas que ia fazendo, emquanto cavalgava ao lado do primo.

--Excellentes--respondeu Jorge, em tom de verdadeira satisfação.--Estes dias foram preciosos. O nosso pleito entrou em muito melhor caminho depois da minha conferencia com os advogados. Não me havia illudido sobre a importancia do tal documento que a incuria de frei Januario deixára encher de môfo nas gavetas.

Os advogados quasi me asseguraram o exito da causa. Se assim fôr, posso dizer meio vencida a tarefa que emprehendi. As informações que colhi sobre a nova instituição de Credito Predial animaram-me. Legalisados alguns titulos menos regulares, e alienando uma parte da nossa propriedade, que é apenas um estorvo ao melhoramento da outra, poderei habilitar-me a usar prudentemente do credito, recorrendo á nova instituição; resgatar a nossa casa, e dentro de alguns annos remir a divida, graças á eficacia dos melhoramentos que espero realisar. E dizem ainda mal das instituições modernas! Ellas apenas sacrificam os que a ellas recorrem com uma intenção má. O dissipador que julga illudir o credito sob falsas promessas de melhoramentos, é um dia por elle severamente castigado. E justo é que o seja. Mas quem o procurar com boa fé, com lizura, com intelligencia e com o animo decidido para trabalhar, encontrará n'elle auxilios milagrosos.

Jorge faltava com tanto enthusiasmo, que a baroneza, ao ouvil-o, ia sentindo dissiparem-se as suspeitas que ao principio concebêra.

--Este enthusiasmo enche completamente todo aquelle coração--pensava ella--não póde haver lá dentro vazio que o atormente.

Jorge proseguiu informando minuciosamente a prima do estado dos seus negocios, dos seus planos de reformas, das suas esperanças no futuro, e quasi lhe não poupou o calculo de annuidades, pelo qual chegava a determinar a época em que poderia amortisar totalmente a divida contrahida, segundo as bases da legislação hypothecaria.

Só próximo á quinta dos Bacellos foi que a baroneza conseguiu dar á conversa a direcção que havia muito lhe desejava vêr tomar.

Discutindo com o primo o valor dos meios a que se poderia lançar mão para trabalhar na empreza em que elle se empenhara, Gabriella lembrou-lhe o de um casamento com mulher abastada.

Jorge sacudiu a cabeça em signal de repugnancia.

--E aconselha-me isso?--exclamou elle--Não seria regenerar-me, seria vender-me, e venda mais vergonhosa do que aquella aonde nos conduziria o systema de administração seguido até agora n'esta casa; porque n'esse apenas se punha em venda a propriedade, e n'este vendia-se o proprietario.

--Isso é conforme a maneira de vêr as coisas; além de que eu a ti já faço a concessão de não suppôr um casamento exclusivamente por interesse, mas quero que um pouco de amor authorisasse o contracto, que sem tal sancção te repugnaria. Tudo se póde combinar.

--Eu não tenho tempo para amar--respondeu Jorge sacudidamente.

--Ora; o amor não espera occasião opportuna. E eu não posso acreditar que uma alma como a tua não esteja conformada para uma affeição verdadeira.

--Não digo que não; mas quero fugir de pôr em pratica essa aptidão, se a tenho, porque talvez que depois não sentisse bastante contemplação para com o mundo, para aceitar a restricção que elle costuma impôr á satisfação das paixões.

--Mas quem te diz que se estabeleceria esse conflicto entre ti e o mundo?

--Era o mais provavel.

--Queres dizer que mais depressa te apaixonarias por alguma rapariga do povo, pobre, costumada á vida do trabalho e da economia, do que por qualquer das tuas ociosas e fidalgas primas d'estes arredores.

--Com certeza que não me seduzirão essas.

--Mas vamos; se apesar das tuas precauções o facto se désse--porque emfim... estas coisas nem sempre é possível evital-as--romperias abertamente com o mundo?

--Nem quero pensar no que faria. Talvez me resignasse a deixar-me sacrificar aos preconceitos dos outros. Sabe de quem. Resignava de certo, se o sacrificio fosse sómente meu. Mas, se amasse devéras e fosse amado, e a mulher, a quem dedicasse este amor, não tivesse igual coragem para o mesmo sacrificio... não me julgaria com o direito de fazel-a soffrer por uma ideia, que nem para ella nem para os seus tivera o prestigio de uma crença. Mas fallemos em outra coisa, porque este pensamento incommoda-me até.

--Dir-se-ia que não é sómente como pura abstracção, que elle te apparece, Jorge. Fallemos porém d'outra coisa, fallemos.

E a baroneza mudou effectivamente de conversa.

Mas, ao entrar em casa, julgava ella ter obtido as informações que desejára possuir.

XXVI

Clemente, o filho da Anna do Védor, que nos tem andado longe da vista desde a primeira vez que o encontramos, estava destinado a influir na sorte dos principaes personagens d'esta historia; convem portanto que outra vez o chamemos mais para a luz.

Sabemos já que a vida publica d'este bem intencionado rapaz não era isenta de espinhos. As resistencias e estorvos que se oppunham á carreira direita, que o seu vivo sentimento de justiça lhe traçára, deixavam-lhe intimos desgostos e turbavam-lhe a bucolica serenidade dos seus dias.

Embora ás iniquidades que observava fosse estranha a sua vontade e a sua cooperação; embora a consciencia lhe não exprobrasse uma unica infracção voluntaria das leis, que religiosamente acatava, ainda assim, como todas as almas bem formadas, Clemente tinha motivos de sobra para lhe amargurarem o coração generoso e leal, vendo de perto a parcialidade e as paixões más, que presidiam á distribuição da justiça pelas mãos dos seus superiores e os privilegios que faziam desviar a balança da horisontalidade com que elle sonhára.

Todos os caracteres nobres não adquirem, sem doloroso aprendisado, a desconsoladora sciencia, que se chama scepticismo. Cada illusão que se desvanece é um golpe fundo no mais sensivel da alma, e os conflictos da vida social deixam feridas que só lentamente cicatrizam.

Clemente estava n'este caso. Modestas como eram, as suas funcções civis tinham-lhe aberto os olhos para muitas coisas obscuras e desenvolvido no espirito um fermento de descrença.

Assustado com o que sentia, temendo saber mais e ser obrigado a operar como instrumento passivo em iniquidades que lhe repugnavam, Clemente sentiu o desejo de se acolher á vida privada, onde não lhe chegasse aos ouvidos o rumor das injustiças humanas.

Um novo incidente, em que tomaram parte os fidalgos do Cruzeiro, principaes fautores de todos os attentados no concelho, acabou de decidil-o.

Vimos em um dos capitulos precedentes, que elles protegiam muito ás escancaras a fuga de um refractario ao serviço militar, facto que sobremaneira irritára Clemente, o qual chegou a tentar pôr em prática as medidas extremas, que a lei lhe permittia. Encontrou, porém, na authoridade administrativa, que afagou a influencia eleitoral dos fidalgos, froixo apoio, e o refractario conseguiu escapúla.

Logo depois de realisada a fuga, Clemente, que a attribuia sobre tudo á falta de energia do seu chefe, recebeu d'este um officio censurando-o asperamente pela debil vigilancia que tivera no caso e admoestando-o para ser de futuro mais activo e diligente.

Esta duplicidade indignou o ingenuo rapaz, que resistiu a custo á tentação de ir dizer ao administrador algumas amargas verdades.

Dias depois houve um serão em casa de um lavrador da freguezia, e Clemente recebeu aviso de que os manos do Cruzeiro premeditavam para essa noite umas vinganças contra uns serandeiros com quem mantinham uma rixa antiga.

O regedor, não só por dever do cargo, como pelo desculpavel desejo de dar uma severa lição a esses incorrigiveis, causa principal dos seus desgostos, tomou providencias, reuniu os cabos e rondou as proximidades da casa do serão.

A precaução policial foi util, porque evitou alguma desgraça séria. Pela meia noite os dois irmãos do Cruzeiro sahiram ao caminho a um camponez, que recolhia do serão, e atacaram-n'o com impeto, que não denunciava um proposito innocente.

O regedor cahiu porém sobre elles, e a muito custo conseguiu captural-os, jurando que sómente os soltaria á ordem expressa da authoridade superior.

A ordem veio e redigida em termos severos para o honesto rapaz, a quem se recommendava mais tino e cordura no desempenho das suas obrigações.

Os apaniguados dos fidalgos, parasitas que ainda se nutriam da seiva quasi exhausta d'aquella carcomida arvore genealogica, clamaram contra o attentado do regedor e chegaram a ameaçar-lhe a existencia, fazendo-lhe esperas nocturnas. Mas, o que mais é ainda, o povo, os pobres, os opprimidos, os esmagados de hontem, esses mesmos, quasi levaram a mal ao regedor a falta de attenção que tivera para com os fidalgos. Transtornar uma regra social estabelecida, embora seja para bem, escandalisa sempre os fanaticos da ordem; e ha-os tão fervorosos, que a adoram, ainda quando ella revista a feição moscovita.

A taça trasbordou para Clemente. Pediu terminantemente a sua demissão e foi-lhe concedida, com muita facilidade por as eleições estarem proximas, e serem em regra incommodos impecilhos estes caracteres amigos do justo para o andamento da machina administrativa, quando empregada na grande tarefa de cunhar deputados com a effigie governamental.

Com grande jubilo celebrou Anna do Védor a resolução do filho. Havia muito tempo que ella lhe aconselhava aquelle passo.

--Que precisão tens tu, Clemente, de te metteres n'estas barafundas? Se não precisas d'isso para comer, para que has de perder o socego com coisas que te não dão interesse?--pregava ella, inoculando no filho a sua philosophia um tanto egoista.--Olha, rapaz, a tua casa já dá bem que fazer a um homem. E quem quizer que prenda os ladrões e ande adiante dos cabos em serviço do rei, que tu, graças a Deus, não ficas mais honrado com isso. Inda se essa gente do governo fizesse caso de quem os serve bem, mas tu estás vendo como elles são. Por isso deixa-os; elles que se avenham, que lá se entendem.

Assim que o filho efectivamente declinou o encargo da regedoria, disse-lhe a ajuizada matrona:

--Agora para a dares em cheio, sabes tu o que deves fazer? É casar-te. Isso é que era ouro sobre azul. Porque emfim, rapaz, só assim é que se ganham raizes em casa e que um homem é devéras homem de familia. Emquanto solteiros, ora adeus, por melhores que vossês sejam, lá vem um serão, lá vem uma caçada, lá vem uma doida de uma rapariga que vos faz andar a cabeça á roda. Não ha como é isto de ouvir gemer as crianças em casa e cantar a mulher a arrolal-as. Tu riste? É o que te digo. Quando eu me casei com teu pae, que Deus haja, todos me diziam: «Ó filha, não levas homem que te gaste muito os trastes da casa.» Porque, emquanto solteiro, elle tinha sido d'aquelles de se lhes tirar o chapéo, dos taes que Deus mandou fazer. Pois era vêl-o depois. Logo que podia, elle ahi estava ao pé de mim a brincar com as crianças. Até muitas vezes eu lhe cheguei a dizer: «Ó homem, sahe-me d'aqui para fóra; eu não gósto de vêr homens tão caseiros.» Por isso, rapaz, faze o que te digo, casa-te, que estás em boa idade.

--Não vou longe d'isso, minha mãe, mas bem vê que não é coisa que se faça assim do pé para a mão.

--Não, olha, tu tambem para andares muito tempo a arrastar a aza á rapariga é que não és, que isso sei eu. Pois então é tractar da coisa como de negocio serio e casar.

--Mas... e a noiva? Ahi está já a primeira dificuldade.

Anna do Védor olhou muito direita para o filho, e depois de um instante de silencio interpellou-o:

--E então tu, na tua verdade, ainda não lançaste as tuas vistas?

Clemente encolheu os hombros como quem não podia dizer que não, nem queria dizer que sim.

--Ora para mim é que tu vens com isso. Lançaste, sim, e nem podia deixar de ser, que não tinhas muito onde escolher. Queres que te diga quem é? Olha que tambem eu nunca tive outra na ideia.

--Mas eu não pensei ainda a serio....

--Adeus; e que tens tu que pensar? Porque é que te não havia de convir a pequena do Thomé?

Clemente respondeu um pouco sobresaltado:

--A mim de certo convinha; agora eu é que talvez lhe não convenha. A Bertha está educada tanto á cidade...

--E com quem queres tu que ella case, não me dirás? Com algum dos pequenos do fidalgo, hein? Que elles estão mesmo alli á espera d'ella. Deixa-te de tolices. A rapariga deve erguer as mãos ao céo se agarrar um marido, que não é nenhum labrego, que é homem de bem e capaz de estimal-a.

--Mas o pae, que a educou assim e que em tanta conta tem as prendas da filha, ha de aspirar a mais.

--O quê? O Thomé é um homem de juizo. E então digo-te mais, eu já lhe toquei n'esse negocio, e o homem não se deitou de fóra d'isso, antes mostrou que lhe agradava bem o projecto.

--Devéras fallaram n'isso?

--Então não t'o estou a dizer? E o Thomé da Povoa lembra-me bem que me disse: «A minha Bertha o que deve esperar é um marido honrado, trabalhador e que a saiba estimar, e o seu Clemente é a nata dos rapazes.» Depois, aqui para nós, o Thomé sabe as circumstancias em que tu estás, e, vamos lá, isso tambem influe. E faz elle muito bem, lá isso ninguém lhe póde levar a mal.

--Porém Bertha...

--Deixa-te de acanhamentos, rapaz. Sabes o que mais? O que eu estou vendo é que tu com'assim não dás conta do recado. Por isso vae ter com o Jorge. Elle é alli tudo em casa do Thomé, é quem dá lá os dias sanctos. O que elle diz é o que se faz, nem se mexe um pé em casa sem consultar o pequeno. E juizo tem elle para aconselhar bem, que aquillo foi mesmo um milagre do céo, o nascer aquelle rapaz na família. Pois vae tu ter com elle, vae e dize-lhe as tuas tenções, e elle gue se encarregue do mais. Vae por ahi, que vaes bem. Digo-t'o eu. O Thomé tens tu de teu lado, e Luiza diz sempre com o marido; emquanto á rapariga, ella ha de reconhecer que tu não és noivo que se engeite.

Horas depois, Clemente, a quem a mãe acabára de convencer, procurava Jorge no seu gabinete de trabalho na propriedade dos Bacellos.

Clemente encontrou Jorge sentado á banca, tendo diante de si massos de papeis e de livros, que consultava com attenção.

A entrada do filho de Anna do Védor não obrigou Jorge a interromper a sua tarefa; saudou-o com a affectuosa familiaridade que de pequeno usava para o seu irmão de leite, e continuou trabalhando.

--Bons dias, snr. Jorge. Pelo que vejo trabalha-se?

--Que remedio, meu bom Clemente, que remedio? Estes negocios de minha casa estão de tal maneira enredados, que não fazes ideia.

--N'esse caso fiz mal em entrar; vim distrahil-o.

--Não, não, Clemente, não. Deixa-te ficar, que me não estorvas. O que estou fazendo não é de tal transcendencia, que não me deixe fallar com os amigos. Estou aqui a ver se descubro n'esta papelada um documento de que preciso. Aquelle frei Januario sempre tinha isto em uma desordem! Eu bem sei o que elle merecia. E que me dás tu de novo, Clemente? Disseram-me que te demittiste do logar de regedor?

--E ha mais tempo que o devia ter feito, que nunca recebi senão desgostos no officio.

--Sim, cá por este mundo, quem andar por caminho direito póde contar com encontrões, que magoam--observou Jorge, sem erguer os olhos dos papeis.

--E não foram poucos os que me deram. Perdoe dizer-lh'o, snr. Jorge, mas aquelles seus primos do Cruzeiro...

Jorge encolheu os hombros, fazendo um gesto de desprezo.

--Que queres tu, homem? Se elles nem para si mesmos são bons! Aquillo nos Cruzeiros é uma cama de tres javalis, qual d'elles mais selvagem. Que se póde esperar d'aquella gente?

--Mas teem quem os attenda, que é o que me faz zangar. Uma authoridade descer áquellas baixezas e andar ahi a receber o beija-mão d'aquelles senhores! Isto, isto, a fallar a verdade, parece-me... nem eu sei o que me parece.

Jorge esteve algum tempo sem retorquir, absorvido pelo exame de um papel que encontrára no masso. Depois, tomando á margem uma nota a lapis, e pondo o papel de lado, ponderou vagamente:

--Coisas d'este mundo, Clemente; que remedio senão aceital-o assim?

