# Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

## Part 23

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--Decididamente é preciso pôr Mauricio d'aqui para fóra. Este caracter em uma cidade grande é uma coisa insignificante; a agitação que causa perdia-se na grande agitação d'aquelle mundo. Aqui é um terrível elemento de desordem e talvez de sérias catastrophes. Agora quem me agrada mais e muito mais é o tio Luiz. Sim, senhores. Acho-o menos bravo, apesar dos seus furores. Como elle fallava da filha do Thomé! Do Thomé, que é a final a pedra de escandalo d'isto tudo! Quem o domaria a este ponto? A rapariga, ao que parece, tem condão para se insinuar. O tio Luiz tem um grande fraco por ella, conhece-se. Já o que o padre me contou de quando foi a historia de entrega das chaves, e agora esta entrevista... Preciso de conhecer Bertha; está dito. É uma influencia que é bom cultivar. Digam o que quizerem; não ha nada melhor para amansar um velho bravio como este. É vêr a falta que fez aquella pobre Beatriz. Ao pé de um velho quer-se sempre uma rapariga para não os deixar azedar e tomar estes ares selvagens e opiniões avinagradas, que o tio Luiz já ia adquirindo. Nada; o padre procurador o mais distante d'elle possivel, que prégue a outros os seus soporiferos sermões sobre o direito divino e sobre a corrupção da época; no logar d'elle colloquemos Bertha, e quero saber se o leão não ha de amansar. Agora vamos lá vêr Mauricio. Para fallar a verdade, ainda não sei bem o que se ha de fazer d'elle; mas em todo o caso, mandemol-o para Lisboa, porque nos está causando muito embaraço aqui.

E Gabriella dirigiu-se para a sala do almoço, onde Mauricio todas as manhãs a precedia.

Encontrou-o na varanda, que deitava para uma ribanceira, como absorvido na contemplação do abundante jorro de agua que d'alli se despenhava por entre fetos vigorosos, cuja rama encobria o fundo do precipicio. Os raios do sol da manhã irisavam a humida poeira, que a a agua, ao quebrar-se, levantava do abysmo.

Gabriella aproximou-se de Mauricio sem ser percebida, e depois de o observar alguns momentos, poisou-lhe a mão no hombro.

Mauricio voltou-se quasi sobresaltado. Ao vêr a prima sorriu.

--Não a senti chegar.

--Isso vi eu. Que profunda meditação era essa? Queira Deus que não estivesses sentindo a attracção do abysmo. Dizem-me que é irresistivel; sobre tudo para certas organisações.

--Não, os abysmos physicos não são os que me attrahem.

--O que é o mesmo que dizer que os moraes alguma attracção exercem sobre ti.

--Estou quasi a persuadir-me disso.

--De quê?

--De que me impelle uma força irresistivel por um caminho, no fim do qual a minha quéda é inevitavel.

--É um presentimento tragico.

--É uma opinião dictada pela experiencia.

--Experiencia! Essa palavra na tua bôca, Mauricio! O eterno mote dos velhos, glosado por um rapaz de dezoito annos, e estouvado como todos sabemos!...

--E porque não ha de ser esse mesmo estouvamento o que me perde? Os estouvados são os homens que não teem na razão força bastante para conterem os impulsos das paixões, e que por isso obedecem a estas, sem que os façam parar os preconceitos do mundo e os conselhos dos juizos frios.

--Se me faz favor, esses são os apaixonados. Os estouvados não chegam nunca a ir muito longe sob o impulso de uma paixão, porque mudam de soberana a cada momento, d'onde resulta um mover indeciso, um fluctuar sem rumo, um jogar entre ventos encontrados, que não lhes permitte vencer longo caminho.

--N'esse caso rejeito o epitheto de estouvado.

--Achas então que ha já o governo constituido e definitivo no teu coração?

--Estou convencido de que se fixou o meu destino.

--Pelo lado do amor?

--Sim; pelo lado do amor.

--A noticia contraria grandemente os meus planos.

--Os seus planos?

--Sim; não sabes o que me trouxe aqui? Vim para declarar-te que o tio Luiz exige terminantemente que o Mauricio parta quanto antes para Lisboa, por se ter a final convencido de que, apesar de todos os perigos da vida da capital, é esse um passo preferivel a deixal-o permanecer aqui, no seio da ociosidade que, como sabes, é a mãe dos vicios todos.

--N'esse caso principia hoje a lucta. Eu declaro que não parto.

--Devéras?

--Devéras. A minha sorte está decidida, prima. E qualquer que seja o resultado d'esta resolução...

--Mas, vamos a saber, primo Mauricio, e Bertha?... (porque me parece que se tracta de Bertha) e Bertha corresponde-te?

--Creio que sim. Por timidez procura fugir-me, ou por desconfiança talvez. Por isso mesmo hei de provar-lhe que sou sincero, e que atravez de todos os preconceitos...

--Está a tentar-te o papel de Romeu, é o que estou vendo. Desconfio da sinceridade d'essa exaltação.

--Pois verá.

--Ora ponhamos as coisas no seu logar. Não principies tu a phantasiar escaramuças de Montechi e Capuletti, que provavelmente não terão logar, com grande damno das feições romanticas do caso. A coisa ha de passar-se mais prosaicamente, como hoje se passa tudo. O primo Mauricio, depois de uns arrufos do tio Luiz, havia de, mais anno menos anno, vêr sanccionado por elle o seu casamento. Muito bem. Ahi o tinhamos patriarcha rural, burguezamente installado na lareira da Herdade, com os filhos a treparem-lhe aos joelhos, e conversando em sancta paz com o papá Thomé e com a mamá Luiza, ouvindo o estalar das pinhas, e abrindo a bôca de somno, quando a ceia se demorasse alguns minutos além das nove horas. Por este mesmo tempo, outros rapazes da sua idade, e talvez com menos aptidão do que elle, caminhariam por entre os fulgores da moda, da elegancia e da gloria, conhecidos e apreciados nos circulos onde radia a intelligencia e onde as brilhantes qualidades do espirito encontram sempre em que se exercerem. Não chegariam a este solitario Mauricio ás vezes umas invejasinhas d'esses taes, mesmo ao suave calor da fogueira patriarchal?

--E quem me impediria de os seguir tambem?--disse Mauricio contrariado.--N'esses caminhos que diz não é força progredir solitario. O apoio de um coração...

A baroneza abanou a cabeça em signal de duvida, dizendo:

--Desengana-te, Mauricio, se ainda te sorri a vida da grande sociedade, não procures a companhia de corações como o de Bertha.

--Porque não?

--Os corações como o de Bertha precisam do calor suave da vida de familia para rescenderem o grato perfume do seu amor. Para um homem a quem ainda attrahem as luctas da vida e as lides da gloria, não é das mais adequadas companhias a d'estas mulheres extremosas e modestas, que sómente se satisfazem com affectos, e cujo amor não se nutre da gloria do objecto que amam, mas exclusivamente do amor que d'elle exigem. Almas que o ciume desalenta, que a ausencia definha, não são para companheiras d'aquelles homens. Se um dos taes mais imprudente liga um d'estes corações ao seu destino, ou o martyrisa, cedendo aos proprios instinctos de gloria, ou sacrificando-lh'os, tortura-se, e a tortura reflecte-se sobre essas almas amoraveis, que a adivinham.

--E poderá ser verdadeiro um amor que não tenha essas qualidades que diz?

--Póde. Pois não póde! É preciso que evites, Mauricio, o preconceito que tem muita gente de que tudo é falso e mau nos brilhantes circulos sociaes. Não é. Lá ha tambem amores e affeições verdadeiras, podes crêl-o, mas, nascidas e creadas em condições diversas, vivem e resistem a ventos que definham as outras. Uma mulher d'aquelle mundo, sem que deixe de amar seu marido, não aspira a monopolisal-o para o seu amor. Pelo contrario, deseja que elle desempenhe a sua missão na sociedade. Com a gloria que ahi adquirir, se illumina ella tambem, e em vez de o reter na obscuridade do lar domestico, impelle-o para a luz e sente que o seu amor por elle cresce na proporção em que os outros o admiram. É uma vaidade que se converte em estimulo. Estas mulheres assim servem de incentivo ás aspirações, e são as que convem aos artistas, aos politicos, em uma palavra, aos ambiciosos.

--Mas quem lhe disse que eu era ambicioso?--perguntou Mauricio, já em tom differente, e demorando na baroneza um olhar analysador, como de quem pela primeira vez descobria n'ella qualidades dignas de attenção.

--E podes negar que o és?--proseguiu Gabriella--Ora falla-me com franqueza. Resignar-te-ias sem pesar á ideia de passar o resto da tua vida esquecido e obscuro n'este canto da provinda, tendo por unica diversão uma caçada de lebre? Conformar-te-ias com as modestas aspirações de Jorge, que se satisfaz com dirigir em bom caminho a administração d'esta casa? Não sonhas muita vez com a brilhante sociedade dos salões da capital, onde todas as aristocracias se confrontam, onde se tracta com tudo quanto ha de elegante, de nobre, de distincto nas sciencias, nas letras e nas artes? Não tens já sentido a anciedade de viajar, de te engolfares nos focos da civilisação moderna; finalmente de viver em um mundo, onde os teus talentos, as tuas qualidades possam ser devidamente apreciadas?

--É muito lisonjeira, prima Gabriella. Mas, quando eu sonhasse com tudo isso... E não negarei que mais de que uma vez essas phantasias me tenham enlevado, mas de que me serviria? Acaso o mundo está á minha espera para me patentear todas as portas d'esses logares de fascinação?

--Para os rapazes de vinte annos, de talento e de vontade não ha barreiras no mundo. Querer é poder. O mundo é menos feroz do que parece. Quando alguem se aproxima d'elle com a intrepidez e o arrojo do domador, esta terrivel fera abaixa a cabeça e não ataca.

--E qual póde ser a minha carreira n'esse mundo?

--Não se escolhe de longe. Na presença dos caminhos escuta-se uma voz interior, que nos diz: «Por aqui?»

--Mas creia que eu sou um inexperiente. Fóra d'estes ares sentir-me-ia embaraçado.

--Eu prometto acompanhar-te nos primeiros passos.

--Sómente nos primeiros?

Maurício fez a pergunta com uma entonação de voz e com um olhar, que causaram estranheza a Gabriella.

Fitou-o, como para perscrutal-o, e depois com um sorriso malicioso nos labios, tornou-lhe:

--Pareceu-me perceber uma musica de galanteio n'essa pergunta? Vê lá. Pois nem eu te merecerei indulgencia e contemplação?

--Demasiada contemplação me tem merecido até, e Deus sabe se por meu mal.

--Um _calembourg_ ao que percebo. Bonito. Onde está aquelle fiel Romeu de ainda agora? Se eu insistisse, era capaz de te arrancar uma declaração formal, estou vendo.

--Tem razão para zombar, prima, porém...

--Previno-te, Mauricio, de que não vale a pena perder o tempo commigo. Eu tenho uma maneira prompta e rasgada de tractar as coisas, que se não compadece com as longuras e alternativas de um galanteio a teu modo. Bem vês que já não sou criança de quinze annos, e que perdi a paciencia d'essa idade. Mas vamos almoçar, que nos estão chamando.

Durante o almoço, ao qual não assistiu D. Luiz, a conversa resumiu-se em observações de critica e analyse culinaria de frei Januario e nas glosas laconicas de Gabriella, que pôz final á prelecção, levantando-se da mesa e ordenando que lhe apparelhassem a egoa para um passeio.

Quando, momentos depois, descia ao pateo, apanhando a longa cauda do seu vestido de amazona, encontrou Mauricio, que parecia esperal-a para a ajudar a montar e por ventura para lhe servir de _jockey_.

--Então que quer dizer isto? Encarregaste-te agora das funcções de monteiro-mór?--perguntou-lhe Gabriella.

--Se me permitte que desempenhe estas funcções, muito me honrarei com ellas.

--Quem póde recusar um offerecimento tão amavel? Mas que me encontras tu de novo para me olhares com esses olhos?

--É porque effectivamente ainda a não tinha visto assim.

--Assim, como?

--Tão...

--Tão?...

--Com esses vestidos.

--Ai, ainda não? É verdade que ainda me não tinha dado para isso aqui. Então tambem ainda me não viste cavalgar?

--Ainda não.

--Olhem que descuido o meu!--disse Gabriella, saltando agilmente sobre o sellim, auxiliando-se da mão de Mauricio; e emquanto ageitava as dobras do vestido, preparava as redeas e acabava de apertar as luvas, proseguiu:

--Pois n'esse caso vaes ver o que são primores na arte. Ao que parece vens tambem?

--Se me permitte?--disse Mauricio, parando junto do cavallo, que ia já a montar.

--Com uma condição.

--Qual é?

--Quando eu te disser que nos separemos, hás de condescender.

--Obedecerei, embora me custe.

--É indispensavel. Tenho hoje uns projectos, que não posso realisar senão sósinha.

--Acompanhal-a-hei até onde me permittir.

--Está dito. A cavallo!

E, instigando de subito a egoa, partiu a galope, fazendo signal a Mauricio para que a seguisse.

Apesar de toda a diligencia d'este em montar, e da desfilada em que lançou o cavallo, não lhe foi facil attingil-a. Sendo emfim alcançada, a baroneza afroixou a rapidez da egoa, e os dois cavalgaram a passo, um ao lado do outro.

A violencia do exercicio avivara o carmim nas faces da baroneza e dera-lhe ao olhar uma animação maior do que a que lhe era habitual.

O sorriso que lhe entreabria os labios, e o arfar do seio, agitado pelo impeto da carreira, realçavam os dotes naturaes d'aquelle typo feminino, no qual se já se desvanecêra o frescor da primeira juventude, sobreviviam ainda os traços permanentes de uma belleza correcta.

Mauricio não se fartava de a admirar aquella manhã. Fôra para elle uma imprevista revelação. Dir-se-ia que até alli uma nuvem lhe occultára as perfeições da prima e que, de repente, essa nuvem se rasgára para o surprender.

O prestigio da elegancia, da moda, dos distinctos habitos sociaes, do espirito cultivado na frequencia da mais selecta sociedade, estava actuando no coração de Mauricio, predisposto como o de poucos para aquelle influxo.

A belleza e a intelligencia de Gabriella, aprimoradas ambas por uma arte, que sabia occultar-se para não prejudicar os effeitos que obtinha, attrahiam Mauricio de uma maneira irresistivel.

A baroneza tinha a perspicacia necessaria para o perceber. O seu amor proprio feminino era naturalmente afagado pela descoberta; mas, além d'esta desculpavel fraqueza, outras razões havia mais poderosas para que essa observação a lisonjeasse.

Gabriella, como já dissemos, ficára viuva muito joven, do barão de Souto Real. Tendo ainda instinctos de juventude a satisfazer, promettêra a si propria consultar o coração antes de prender-se segunda vez.

Quando recebeu a carta de D. Luiz e veio ter com elle á Casa Mourisca, sabedora das difficuldades financeiras com que luctava o fidalgo e dos nobres esforços de Jorge para remedial-os, occorrêra-lhe o pensamento generoso de favorecer o empenho do primo, offerecendo-lhe com a sua mão os recursos de que elle precisava para realisal-o. A admiração e o respeito que lhe inspirava o caracter sisudo de Jorge permittiam-lhe dar esse passo com o coração folgado.

Custava-lhe apenas ter de renunciar aos fulgores da capital, a que se habituára e que amava com toda a paixão de uma mulher da moda; mas confiava em que o seu bom senso e os subsequentes cuidados de familia lhe suavisariam o sacrificio. Tractando porém mais de perto com o primo, comprehendeu que devia desistir do seu projecto.

Jorge pareceu-lhe incapaz de se apaixonar; e com certeza, não a amando, não se resolveria a aceitar a mão que ella lhe offerecesse, mórmente por levar comsigo os recursos que o poderiam auxiliar na sua nobre empreza.

Gabriella abandonou pois a ideia que tivera. Em Mauricio não pensára ao principio. Achava-o tão leviano, que, como ella dizia, não podia lembrar-se seriamente de fazer d'elle um marido. Agora porém, notando a subita impressão que occasionalmente lhe produzira, e cujos effeitos duravam e progrediam, a baroneza principiou a encarar o caso debaixo de differente luz.

Se Mauricio se apaixonasse por ella, ser-lhe-ia facil fazêl-o partir para Lisboa e vencer a repugnancia que elle parecia oppôr a abandonar a aldeia justamente na occasião em que a resistencia do pae havia cedido.

Se, depois de deixar tomar maior incremento a este novo capricho de Mauricio, ella subitamente partisse para Lisboa, sem duvida que o arrastaria atraz de si. O resto fal-o-iam as seducções da capital.

Para conseguir este resultado, julgou pois Gabriella que não devia apagar aquelle fogo que principiava a atear-se no inflammavel coração do primo; lavareda rapida e fugaz, que importava? com tanto que durasse até extinguir a outra que lá ardia.

E se durasse mais? Quem sabe? Talvez que o primeiro pensamento de Gabriella se podésse realisar com uma variante. Mauricio não era Jorge. O caracter voluvel e inconstante do filho mais novo de D. Luiz não o garantia como um modêlo de maridos. Mas a baroneza, segundo elle proprio dissera ao primo, não era d'estas mulheres exigentes que zelam a posse de todos os pensamentos e de todos os instantes do homem que amam. A vida da alta sociedade ensinára-a a ser condescendente. Se encontrasse no marido verdadeira estima e delicadeza, não seria uma ou outra infidelidade que a obrigaria ao papel lacrimoso de esposa abandonada.

Depois, Mauricio tinha pelo menos sobre Jorge uma vantagem.

Não exigiria d'ella o sacrificio dos seus queridos habitos, nem a desterraria dos luzidos circulos que ella amava tanto. Antes lhe abriria ampla carreira de gozos, quando soltasse os vôos ás ambições, que lhe adivinhára.

Assim pois Gabriella deixava-se galantear por o primo e ensaiava n'elle a sua tactica admiravel, que o encontrou mais inexperiente do que era de suppôr em quem de tanta fama de experimentado gozava.

Mauricio porém achava-se pela primeira vez diante de uma mulher educada na alta escóla d'esta especial esgrima. A arte era demasiadamente subtil para elle a descobrir. Todo o artificio estava em simular a mais completa ausencia de affectação. Parecia tudo espontaneidade, irreflexão, imprudencia até, e julgando conquistar um coração indefezo e sem arte, o novel combatente era victima de um gladiador previdente, armado de vizeira e coiraça e jogando magistralmente com armas de melhor tempera.

A baroneza estava a acabar de convencer-se de que a supposta paixão de Mauricio por Bertha não passava de uma illusão ou de um capricho.

Mas não haveria em Bertha algum sentimento menos ephemero e que podésse ameaçar-lhe o coração?

Era esse o problema que restava resolver. E para esse fim sahira a baroneza. A presença de Mauricio impedia-a de proceder n'essa investigação, por isso exigira d'elle a promessa de a deixar, quando lh'o pedisse.

Cavalgaram por muito tempo juntos, antes que fosse reclamado o cumprimento d'essa promessa. Mauricio ia cada vez mais enlevado. Sómente proximo da estrada, que conduzia á Herdade, foi que a baroneza lhe pediu para se separarem.

Mauricio quiz romper o contracto, Gabriella porém insistiu.

Ao despedirem-se a baroneza disse para o primo, com uma inflexão de voz que alvoroçou o coração do pobre rapaz:

--Agora provavelmente vaes procurar vêr a menina Bertha?

Mauricio respondeu expansivamente:

--Conceda-me que lhe beije a mão, prima, e correrei a encerrar-me em casa com as impressões d'esta memoravel manhã.

Gabriella concedeu-lhe o pedido e recompensou-lhe com um sorriso o galanteio.

E Mauricio foi effectivamente para os Bacellos, com o pensamento occupado pela imagem da prima.

No meio dos seus enlevos pungia-o uma ideia.

«E Bertha?» pensava elle.

A pobre Bertha, que a vaidosa imaginação do rapaz teimava em representar perdida de amores, não soffreria muito se outra lhe disputasse com vantagem a posse do coração d'elle. E não estava esse perigo imminente?

É porém de notar que esta contrariedade era um dos maiores incentivos para augmentar a chamma da sua nascente paixão por Gabriella.

Havia uma perspectiva de lagrimas e de dôres a servir-lhe de fundo do quadro, e Mauricio, sem ser cruel e compadecendo-se até de antemão do mal que suppunha ir causar ao coração de Bertha, sentia-se seduzido por a situação que creára.

Expliquem como podérem estas contradicções de caracter, na certeza de que o facto não é excepcional, antes muito da regra commum.

XXIV

Depois de separar-se de Mauricio, a baroneza guiou a egoa na direcção da Herdade. Decidida a vêr e a estudar Bertha, para saber até que ponto estava o coração da rapariga empenhado nos conflictos domesticos dos senhores da Casa Mourisca, Gabriella adoptou a resolução de procural-a sem simular pretexto algum. Os costumes singelos do campo authorisavam esta suppressão de ceremonias; demais, como parenta que era de Jorge e de Mauricio, tinha a certeza de ser bem recebida lá.

Desviando-se da estrada para seguir por um atalho que ladeava a collina, avistou uma pequena capella rustica, com a sua galilé e o seu pequeno bosque de sovereiros a rodeal-a, e tão pittorescamente situada em uma das eminencias proximas, que não pôde resistir ao desejo de subir até alli.

A capellinha, erigida sob a invocação de Sancta Luzia, um dos nomes de mais devoção entre os do florilegio christão, poisava sobre a collina em uma d'essas situações que o povo, com seus instinctos poeticos, costuma escolher para assentar esses modestos monumentos da sua fé e piedade.

O valle feracissimo, por onde se estendiam os vergeis, as searas, as quintas e os lameiros de duas ou tres freguezias, descobria-se todo d'alli. A vista seguia nos seus successivos meandros o pequeno rio que se estirava em chão de areia, por entre moitas de azevinhos, de laurentins e de salgueiros, cujos ramos aqui e além se abraçavam de margem para margem. O campanario da igreja parochial, a ponte de dois arcos, os açudes, as azenhas, as prêsas onde cantavam, lavando, as raparigas do campo, os estendaes onde a roupa de linho branqueava sob os raios do sol, as noras toldadas de parreiraes completavam a feição campestre da paisagem.

Prendendo a egoa ao ramo vigoroso de um d'estes carvalhos decepados, a que na provincia chamam tocas, Gabriella caminhou a pé para a galilé da ermida.

Ao chegar alli descobriu no muro sobranceiro ao lado menos accessivel da collina, uma rapariga sentada costurando.

A baroneza adivinhou logo que era Bertha e applaudiu-se do palpite que a fizera desviar do caminho para subir alli.

Bertha saudou-a affavelmente, como quem tambem a reconhecêra.

A baroneza dirigiu-se-lhe sem rodeios.

--Não é verdade que é a menina Bertha da Povoa que tenho a felicidade de encontrar aqui?

--Sou, sim, senhora baroneza... porque me parece que estou fallando com....

--Justamente. Achamo-nos pois conhecidas. Tanto melhor, para não perdermos tempo com apresentações. Agora permitte-me que a abrace, como a uma pessoa a quem estimo?

--Oh minha senhora!

E as duas mulheres abraçaram-se, saudando-se affectuosamente, como se uma subita sympathia as aproximasse.

--Sabe--proseguiu a baroneza, sentando-se ao lado de Bertha--que ia procural-a?

--A mim?!

--É verdade. Veja que feliz acaso o que me fez subir a esta capella, para gozar do panoramma que se descobre d'aqui.

--É um dos passeios mais bonitos d'estes sitios.

--Pelo que vejo costuma fazer d'aqui a sua casa de lavor?

--Ai, não; raras vezes; hoje vim para esperar meu pae, que chega do Porto. D'aqui avista-se quasi meia legua de estrada. Vê?

--Ai, volta hoje o pae? Visto isso tambem o meu primo Jorge.

--Tambem... julgo que tambem.

Bertha não foi superior a uma leve turbação, ao ouvir o nome de Jorge e ao responder á baroneza. Quem tem no coração um segredo que de todos quer recatar, trahe-o muitas vezes, á força de disfarçal-o. Em cada olhar suspeita uma espionagem, em cada palavra uma allusão, e se a conversa se aproxima do assumpto, segue-a tremulo, como se segue o caminho que se abeira de um precipicio.

A baroneza, que tinha ainda os olhos fitos em Bertha com a curiosidade propria de uma mulher ao observar outra que sabe causar impressão nos animos masculinos, notou aquelle indicio de confusão, e não o desprezou.

--É um generoso rapaz o meu primo Jorge, não acha?--interrogou ella, demorando o olhar no rosto de Bertha.

Esta sentiu o perigo em que estava de trahir-se, e concentrando por isso toda a sua coragem, conseguiu levantar os olhos para fitar a baroneza e responder com apparente serenidade.

--É um nobre caracter, um rapaz a quem se deve respeitar como a um velho honrado.

