Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 22
A razão de D. Luiz não podia formar juízos sobre o que se estava passando. A mão tremula, que se estendeu para abrir a porta do quarto mysterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia immovel no patamar, subjugado pela força d'aquelle encantamento.
N'este tempo juntára-se aos sons da harpa a voz de uma mulher; baixinho, quasi a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da estação, cantava a letra da mesma canção que Beatriz preferia. Era um timbre juvenil, sonoro, agradavel, o d'aquella voz, e na meia altura a que se elevava, havia um não sei quê de mystico e sobrenatural, que veio completar a allucinação do velho.
--Meu Deus! meu Deus! tende misericordia de mim!--murmurava elle, passando a mão na fronte pallida.--Se isto é um sonho, deixae-me morrer a sonhal-o!
E vergaram-se-lhe os joelhos diante d'aquella porta mysteriosa, e, soluçando e rebentando-lhe emfim impetuosas as lagrimas dos olhos, cahiu dizendo em uma desvairada exclamação:
--Ó minha filha! minha filha! Se és tu que assim me arrebatas d'este mundo, tem compaixão de teu velho pae, e não partas sem que lhe appareças um instante que seja!
Calaram-se de subito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco depois, a porta abria-se e Bertha apparecia no limiar.
Ao vêr o fidalgo de joelhos, com a cabeça escondida entre as mãos e soluçando, a filha de Thomé da Povoa correu para elle commovida:
--O snr. D. Luiz! O meu padrinho! Ó perdão, perdão!--exclamava ella.
E o susto que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper-lhe inesperadamente o canto, cedeu o passo á mais sentida afflicção.
Á voz de Bertha, D. Luiz ergueu a cabeça e fitou a afilhada com um olhar espantado e interrogador.
As lagrimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emmagrecidas.
--Perdão, perdão, meu bom padrinho--proseguia Bertha, tentando erguêl-o--fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora... mas havia tanto tempo que eu desejava visitar estes sitios! mas não chore, snr. D. Luiz, por amor de Deus perdoe-me!
O fidalgo, quasi ainda alheio ao que se passava, deixou-se erguer e conduzir por Bertha para dentro do quarto, e sentou-se, sem consciencia dos seus actos, na cadeira junto da harpa, cujas ultimas notas parecia ainda vibrarem no espaço.
A commoção violenta quebrára-lhe as forças.
Os braços e a fronte pendiam-lhe em um desfallecimento profundo.
Bertha ajoelhou-se-lhe aos pés, tomando-me as mãos, beijando-as, e cobrindo-as de lagrimas.
--Se eu imaginasse que podia causar-lhe esta pena, não teria vindo. Foi uma loucura minha; agora é que vejo; mas trazia isto na ideia havia tantos dias!... Só hoje me atrevi a subir aqui... Se soubesse como chorei ao tornar a vêr este quarto e estes objectos, que todos conhecia. Todos! Oh não se afflija, snr. D. Luiz, e perdoe-me, perdoe-me por quem é, perdoe-me por amor d'ella. Fiz mal, bem conheço, mas, como tambem lhe queria muito... Depois, assim que vi esta harpa... Ó meu Deus, que saudades! Como me lembrei d'ella, da musica que tantas vezes lhe ouvi, da canção que ella preferia... Quiz avivar essas recordações e... Mal sabia eu o que estava fazendo! Como era cruel sem o suspeitar! Quem me ha de perdoar o mal que lhe fiz? Imagino o que soffreu, o que está soffrendo ainda... E ser eu quem lhe avivou essas feridas!... Não me queira mal por isso. Foi a saudade que me trouxe até aqui, a saudade d'aquelle anjo que eu conheci no mundo. Por amor d'elle lhe peço que me perdoe a dôr que lhe causei.
E a voz de Bertha tremia ao fallar assim. D. Luiz não a interrompêra, porque a agitação era ainda n'elle muito forte para o deixar fallar.
Poisando porém as mãos na cabeça de Bertha e afastando-lhe os cabellos da fronte com um gesto de paternal carinho, fitou-a com os olhos ainda ennevoados de lagrimas e disse-lhe, suspendendo-se a cada palavra, em lucta com a commoção que o suffocava:
--De que me pedes perdão, Bertha? D'estas lagrimas? Oh! deixa-as correr, que ha muito não chóro lagrimas que me dêem um allivio assim. Eu sou que te digo: Obrigado, Bertha, obrigado, que me fizeste entrever a felicidade que o céo me póde ainda dar; n'estes curtos instantes da minha illusão luziram-me uns lampejos de alegria celeste. Tu só podias resuscitar-me a filha e eu quasi a senti ao ouvir-te, ao escutar essa abençoada musica e a voz, que julguei que só me chegaria outra vez aos ouvidos, se um dia me fosse dado escutar a dos anjos no céo. Agradecido, Bertha. A este meu coração são mais conhecidas as dôres que o despedaçam e queimam, do que estas que o desafogam em lagrimas. Agradecido, filha.
E o severo fidalgo da Casa Mourisca, sensibilisado, sem o menor vestigio da sua habitual rigidez, aproximou dos labios a fronte de Bertha e beijou-a com a doce affabilidade de um pae.
Bertha beijava-lhe as mãos, chorando com elle.
Por muito tempo assim se entenderam mudos aquelle velho e aquella rapariga, trazidos alli por uma mesma saudade, consagrando lagrimas a uma mesma recordação. D. Luiz estava cada vez mais fascinado. Nem por a ideia lhe corria que fosse a filha de Thomé da Povoa, quem tinha na sua presença, e quem abençoára e beijara.
Era a companheira de Beatriz, a encarregada pela alma d'aquelle anjo de conservar no mundo a sua memoria, de avivar as sympathias que ella inspirára na alma dos que a choravam ainda, e que a choral-a morreriam.
As mãos de Bertha não tinham profanado a harpa de Beatriz, tocando-a; nem ultrajára a sua memoria a voz que cantava a ballada favorita da infeliz menina.
D. Luiz cedia á influencia d'aquelle brando caracter feminino, e adorava em Bertha a imagem da filha que perdêra.
Ambos se esqueciam do presente, fallando d'ella. D. Luiz mostrou a Bertha todos os objectos, que haviam pertencido á filha e que elle alli conservava ainda como reliquias sagradas.
A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Bertha. Mas a quem conservava tão bem a memoria de Beatriz não era sacrilegio o devassal-os.
--Ai, Bertha, Bertha, para que me quiz mostrar Deus aquella alma na vida, se havia assim de roubar-m'a?--exclamava D. Luiz no decurso d'este melancolico exame.
--Para lhe dar um anjo que o veja do céo e vele pelo destino d'esta familia, que ella tanto estremecia na terra.
--O destino d'esta familia!--repetiu o fidalgo, assombrando-se-lhe o semblante.--Triste destino!
--Confio nas orações d'aquelle anjo.
--Quando uma familia cumpre no mundo uma dolorosa expiação, nem as orações dos anjos podem allivial-a d'ella. Deus afastou do mundo a innocente e fraca, para me deixar só a mim o pêso do meu infortunio e o das longas culpas dos nossos. Elle bem sabia que emquanto a tivesse ao meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo. Aceito a sentença de Deus, procurarei cumpril-a com firmeza, e oxalá que meus filhos, recebendo o sinistro legado, não desfalleçam como covardes.
--Não pense n'essas coisas, meu padrinho. Tenho fé que ainda voltarão dias felizes para esta casa.
--Sim; quando a comprar em hasta publica qualquer proprietario endinheirado, que faça depois resoar por estas salas os sons dos bailes e dos festins. A casa verá então dias alegres, verá. E quem se lembrará dos velhos senhores d'ella, cujos descendentes talvez aceitem um logar de conviva á mesa do novo proprietario? Porque vamos para uma época de faceis condescendencias.
Bertha calou-se, baixando os olhos, porque pressentia perigos na direcção que levava a conversa.
D. Luiz tinha delicadeza para comprehender a discrição de Bertha, e mudando de tom, continuou:
--Mas perdoa-me, Bertha, estas ideias tristes da velhice não são para a tua idade. É uma crueldade da minha parte não guardar para mim estes pensamentos.
--Se eu podésse desvanecel-os!
O fidalgo limitou-se a fazer um gesto de negação.
N'este momento ouviu-se nas escadas um rumor de passos e de vozes, que a ambos fez estremecer.
--É teu pae, Bertha?--perguntou D. Luiz, erguendo-se e olhando em redor com inquietação.
--Meu pae não está na terra. Ha tres dias que partiu e não o esperamos ainda hoje--respondeu Bertha, sobresaltada tambem.
Calaram-se como para melhor escutarem o rumor que parecia já mais proximo.
Ouviu-se uma voz dizer:
--Vejamos comtudo d'este lado; a torre póde muito bem servir para pombal.
D. Luiz estremeceu ao som d'aquella voz.
Outra respondeu em tom mais baixo:
--Parece-me que entrevejo uma porta aberta. De vagar, de vagar.
--Animo, Mauricio; olha se deixas perder as vantagens da tua bella posição.
--Mauricio!--exclamaram ao mesmo tempo D. Luiz e Bertha, e uma intensa pallidez cobriu o rosto d'esta.
D. Luiz desviou para ella um olhar, em que havia um fulgor de desconfiança.
--Ouviste?
Bertha fez-lhe signal affirmativo.
--Sabes o que significa isto?
--Não--respondeu Bertha com firmeza, levantando a vista para o fidalgo que a observava.
Na firmeza e limpidez d'aquelles meigos olhos, que não fugiam dos seus, elle conheceu a verdade da resposta.
--Não, juro-lhe que não--repetiu Bertha com energia.
--Bem--tornou o velho, carregando o sobrolho e apertando a mão de Bertha em signal de protecção--esperemos então.
Os que subiam estavam já na proximidade da porta.
D. Luiz recuou alguns passos e ficou occulto pelo cortinado do leito da filha; Bertha permaneceu immovel com a mão apoiada á harpa.
Depois de alguns instantes de demora, a porta moveu-se vagarosamente sobre os gonzos, e no vão deixou apparecer a figura de Mauricio, e mais atraz, meio encobertos pelas sombras do corredor, os dois malignos semblantes dos manos do Cruzeiro.
Mauricio trazia o olhar desvairado e certa desordem de feições denunciadoras da orgia, com que os primos traiçoeiramente o tinham preparado para o escandalo que meditavam.
Ao reparar em Bertha, Mauricio fitou-a com uma expressão de quasi cynica ironia.
--Boas tardes, Bertha--disse elle, curvando-se com gesto de escarneo--não sei se a minha presença interrompeu alguma doce meditação, que esta luz amortecida da tarde lhe estivesse inspirando. Mas tão longe estava de esperar encontral-a aqui!
Bertha tremia e baixava os olhos sem atinar o que dissesse. A consciencia de que o fidalgo estava escutando Mauricio não era o menor motivo para a sua confusão. Se se achasse só encontraria coragem para arrostar com o insulto. No olhar, nas palavras, no gesto de Mauricio percebêra o desarranjo de razão em que elle estava. Temia pois mais por elle do que por si.
Mauricio proseguiu:
--Julgavamos encontrar outra pessoa n'esta velha casa abandonada, porque vimos um cavallo guardado furtivamente, ahi perto, em uns pardieiros arruinados. Isto indicava a presença do cavalleiro. Saber-me-ha dar noticias d'elle, Bertha?
Bertha não respondeu.
--Então não falla! Parece perturbada. É inexplicavel a sua confusão diante de mim, Bertha. Conhecidos ha tanto tempo! companheiros de infancia!... Não se lembra de que brincamos n'esta sala eu, minha irmã, Bertha e... e Jorge?
Um dos primos tossiu ao ouvir o ultimo nome.
Mauricio voltou-se:
--Que é? Que reflexões vos despertou este nome? Parece que tambem Bertha não o ouve a sangue frio.
Bertha tremia cada vez mais.
--Aqui ha um mysterio. Bertha está dominada por alguma influencia má. Desconheço-a. Dar-se-ha que o mau espirito se occulte de nós, tres bons rapazes inoffensivos, que respeitam todas as entrevistas secretas, todas as doces affeições da alma, e que só querem que se seja franco e leal com elles nas palavras e nas obras, e se ponha de parte a falsa moralidade dos hypocritas?
Depois, deixando o tom de sarcasmo pelo da vehemencia, bradou:
--Se alguém me ouve e ainda tem uns restos de brio e de vergonha, que se não esconda, que appareça. É tempo de acabar a comedia. Appareça, ou eu prometto tentar a sua covardia, obrigando-o pela honra a acudir á mulher que furtivamente corteja, se a quizer livrar do galanteio que ella desdenhosamente rejeita.
Estavam mal acabadas estas palavras e D. Luiz achava-se já em frente do filho, fitando-o em silencio e com um olhar de severa e expressa interrogação.
Mauricio recuou, como se aquella apparição o ferisse em pleno peito. Os do Cruzeiro envolveram-se a mais e mais nas sombras dos corredores.
Seguiram-se alguns momentos de silencio; D. Luiz foi o primeiro a interrompêl-o.
--Aqui estou prompto para responder ao interrogatorio de meu filho e d'esses senhores que se escondem... por modestia na sombra do corredor. Interroguem.
--Meu pae...--balbuciou Maurício, baixando os olhos.
--Então deu n'isso a bravata da atrevida provocação que me fez apparecer? E os senhores não serão mais ousados? Muito bem; se é a consciencia que os abaixa ao logar de reus, eu tomo o meu logar de juiz. Que significa toda esta scena de orgia? Que infamia, que vileza os fez subir estas escadas e empurrar aquella porta? Julguei perceber que se tractava de insultar uma senhora. Boa diversão para fidalgos!
E voltando-se para Mauricio, proseguiu:
--D'antes aquelles que traziam o nome de que usas, baixavam cortezmente os olhos diante das damas e erguiam-n'os para cruzar a vista de homem, quem quer que elle fosse, que procurasse a sua. Tu hoje deshonras esse nome, fazendo o contrario. És insultante e provocador com a fraqueza, e baixas a vista ignobilmente sob o peso da tua covardia. Envergonho-me de te ter por filho.
--Senhor!
--Basta. Não quero augmentar a minha vergonha, devassando o intimo das tuas intenções vindo aqui, em companhia dos teus camaradas das devassas orgias. Bertha, bem vê. Quando movida por um sentimento generoso, subiu os degraus d'estas escadas no intento de se entreter com a alma de Beatriz, que melhor do que ninguem conheceu, confiava de mais na boa fé dos outros, julgando-a pela sua. Devia lembrar-se de que n'esta casa em ruinas, d'onde voou para o céo aquelle anjo, crearam-se os hospedes das ruinas, os reptis e as viboras, que se arrastam até aqui para a ferirem com o insulto e com a calumnia, aqui mesmo, n'este logar que devia ser sagrado para meus filhos, se a fatal influencia que pesa sobre esta familia não tivesse já apagado n'elles todos os instinctos de dignidade e de nobreza. Deus, porém, trouxe-me aqui para protegêl-a do insulto e espero que apesar de tremulo, ainda o meu braço lhe servirá de seguro apoio. Talvez que a depravação n'estes homens perdidos não tenha chegado ainda ao ponto de ousarem ameaçar-me; uns restos de respeito filial lhe servirão de salvaguarda.
E D. Luiz, dando o braço a Bertha, que machinalmente lhe obedecia, sahiu do aposento com a cabeça erguida e o gesto severo.
Mauricio e os primos do Cruzeiro afastaram-se timidamente para os deixar passar.
Mauricio deixou-se cahir em uma cadeira e escondeu o rosto entre as mãos, exclamando:
--Eu sou um miseravel!
Os primos olharam-se com o gesto comico de dois collegiaes encontrados em flagrante delicto de insubordinação.
XXIII
No dia seguinte pela manhã, D. Luiz mandou pedir á baroneza authorisação para fazer-lhe uma visita, reclamada por motivos urgentes.
Gabriella respondeu que o ficava aguardando com impaciencia.
E não foi por mero comprimento que o disse; os negocios d'aquella familia achavam-se em um estado tal, que era de esperar de momento para momento uma crise importante, e o menor successo podia provocal-a.
Gabriella sabia-o e aguardava-a.
Meia hora depois entrou D. Luiz sombrio e grave no gabinete da sobrinha.
Esta acolheu-o com a maior deferencia, procurando lêr-lhe no semblante o pensamento que o trouxera alli, mas empregando no exame toda a dissimulação.
--Para que se incommodou, tio Luiz? Se quizesse ter a bondade de esperar eu iria receber as suas ordens.
--Ergui-me cedo. E ergui-me sem ter dormido. Por isso fui tão matinal.
--Meu Deus! achou-se então incommodado?
--De espirito, muito; muito.
E D. Luiz passou a mão pela fronte, suspirando.
--E posso proporcionar-lhe algum allivio, meu tio?--perguntou Gabriella, conduzindo-o para um sofá, onde se sentou ao lado d'elle, olhando-o com ar de interrogação e de interesse.
--Gabriella, a sorte de minha familia está jogada. É uma família perdida--rompeu vehementemente o fidalgo.
--Não diga isso, tio Luiz.
--Digo-o e sinto-o--continuou elle mais exaltado.--Quando uma casa como a nossa, que não póde já conservar o antigo esplendor e o estado que em melhores tempos sustentou, não sabe de mais a mais manter o prestigio que teve por as praticas tradicionaes de nobreza, por acções de fidalguia, emfim por estes actos de superioridade que fazem dobrar a cabeça aos mais insolentes e intimidar a vista dos invejosos, quando uma casa chegue a um tal estado de decadencia, nenhum apoio solido tem a sustental-a e em pouco tempo cahirá em ruina total. A minha está perdida!
--Seus filhos...
D. Luiz estremeceu de irritação a estas palavras.
--Meus filhos! Que me quer dizer d'elles? D'elles me queixo eu. Jorge fez-me córar pela pouca dignidade dos seus sentimentos; Mauricio pela vileza dos seus actos.
--Mauricio?! Sancto Deus! Pois que succedeu mais?
D. Luiz, ainda tremulo de indignação, contou á baroneza a scena da vespera. A cólera do velho contra o filho era violenta e contrastava com a brandura e quasi respeito que o dominava ao fallar de Bertha.
A baroneza ia notando estes phenomenos todos.
Assim que D. Luiz concluiu, Gabrieila, encolhendo os hombros, formulou a emenda:
--Loucuras de rapaz.
--Loucuras! Loucuras de rapaz! Que diz, Gabrieila? Nem tudo se póde permittir ou desculpar ao verdor dos annos. E quando nas acções de um rapaz se nota, já não apenas o estouvamento e a inconsideração que é propria dos annos, mas os signaes de uma profunda depravação moral, esse rapaz, aos vinte annos, tem já a alma corrompida.
--Mas o que vê mais do que estouvamento nos actos de Mauricio?
--Que ia elle fazer embriagado, e na companhia de devassos, á Casa Mourisca?
--Saiba então, meu tio, que o primo Mauricio tem o fraco de se julgar apaixonado por todas as raparigas bonitas que vê. É o seu defeito. Portanto julga-se tambem apaixonado por Bertha, que me dizem ser gentil. Parece porém que não tem sido feliz por esse lado. D'ahi os seus desafogos. Depois os planos de Jorge, mal interpretados, e as malevolas instigações d'aquellas sanctas creaturas dos nossos primos do Cruzeiro fizeram-lhe já por mais de uma vez vêr no irmão innocente um rival preferido, e ahi está. Acrescentando a isto a influencia do estado anormal em que diz que elle hontem se achava, tudo se explica. Loucuras de uma cabeça estouvada; que por o coração fico eu.
--Perde-se, perde-se--insistia D. Luiz.--Não respeitar os sentimentos mais puros! nem pelo menos lhe merecer respeito aquella pobre rapariga, que tem as mais sanctas tradições de nossa familia a protegêl-a! Nem ella! É uma infamia!
--Sabe o que tudo isto está pedindo, meu tio?
--O que é?
--É que se tire Mauricio d'aqui. Esta ociosidade perde-o. Este viver apertado no pequeno circulo da aldeia ha de acabar por suffocar n'elle as melhores aptidões e desenvolver-lhe as más. Creia. O tio deve vencer os seus escrupulos em deixar Mauricio partir.
--Lembrei-me já d'isso. E n'esse intuito a procurei. Mas pense bem, Gabriella. Engolfal-o na grande sociedade, onde os vicios e as tentações se conspiram para embriagar e seduzir a juventude, e elle em quem germinam já tão maus instinctos...
--Tem dotes de alma que lá se desenvolverão e neutralisarão os vicios e as tentações.
D. Luiz curvou a cabeça pensativo. Os seus preconceitos politicos eram muito vivazes, não cediam sem resistencia.
--Para que me deu o Senhor filhos!--exclamou elle, revoltando-se contra a sua perplexidade, e acrescentou:
--Mas a final que carreira póde elle seguir?
--Não fixemos d'antemão planos. Em geral os acontecimentos annullam-n'os. Decida-se a partida. Eu o recommendarei de maneira que elle proprio possa dentro em pouco escolher a carreira que lhe convenha.
--Mas, se tiver de ceder...
--Meu tio, permitta-me uma reflexão. Se quizermos prevenir todos os fortuitos inconvenientes de uma resolução qualquer, antes de a tomarmos, nehuma abraçaremos. Deixemos as objecções e os reparos para o momento apropriado. Quer que Mauricio parta?
--Se elle ha de perturbar a paz d'essa família e obrigar-me mais uma vez a humilhar-me diante d'ella... Porque meus filhos teem tido a rara habilidade de deixar a humilhação por o unico expediente ao meu pundonor! Collocaram a razão e a justiça da parte dos meus inimigos, forçoso era, para poder ter a cabeça erguida, curval-a primeiro e implorar perdão.
Gabrieila fingiu não attender á primeira parte das reflexões do tio.
--Muito bem. Vou fallar ao Mauricio. Tudo se ha de decidir em pouco tempo. Tenha fé em que se não perde uma familia, cujos futuros representantes teem, um o caracter honrado e a razão clara de Jorge, outro os bons instinctos e as brilhantes qualidades de Mauricio. Pelo contrario, creio que ella está destinada a dar um salutar exemplo áquelles, cuja estrella tambem declina, ensinando-lhes a unica maneira de continuar, nos tempos que correm, as nobres tradições dos seus antepassados.
--E qual é essa maneira unica?--interrogou o fidalgo, quasi ironico, como se já esperasse a resposta.
--Entrar nobremente no caminho da actividade e do trabalho; distinguir-se ahi, como se distinguiram outr'ora nas guerras de Africa e nas navegações os que tinham o mesmo nome para ennobrecer. Ser ocioso, por não poder ser guerreiro, é fraco titulo para a veneração dos contemporaneos. Cada seculo tem a sua tarefa, meu tio; a de hoje não se cumpre ás lançadas, nem ás cutiladas. O bom senso do tio Luiz ha de dar-me razão. Sabe além d'isso muito bem o que se faz lá por fóra, o que se faz na Inglaterra, por exemplo, onde tambem ha nobreza e orgulhos nobiliarchicos, como por cá, e mais talvez ainda.
--Bem vê que não desprezei a educação de meus filhos, nem impedi que Jorge trabalhasse, quando me pediu para o fazer. Pelo contrario, n'esse dia julguei receber uma lição d'aquella criança, e cheguei a córar dos meus setenta annos de incuria e de ociosidade. A minha velhice achou-se menos veneranda do que aquella juventude. Mas repare, Gabriella, que disse: entrar _nobremente_ no caminho do trabalho. E nobremente não é andar a estender a mão á esmola dos antigos servos da nossa casa.
--Não houve esmola. Foi um honrado contracto aquelle, feito entre dois homens igualmente honrados. Se faltaram n'elle todas as seguranças do costume, tanto melhor; foi porque ambos se conheciam e confiavam um no outro. As garantias mais poderosas são a final essas. Contractos d'estes só se dão entre homens de bem. Olhe, tio Luiz, longe de mim discutir agora o proceder de Jorge; mas, se quer que lhe diga, tenho a intima convicção de que ahi dentro, bem no fundo da sua consciencia, não se conserva já grande resentirnento contra seu filho mais velho. Ha forçosamente uma voz interior que lhe clama que Jorge é um nobre e generoso caracter.
--Não disse ainda que Jorge fosse vil e infame. Mas diz bem, Gabriella, não discutamos agora isto. Peço-lhe então que decida Mauricio a sahir para evitar novas imprudencias e indignidades; não tanto por nós, como por essa boa rapariga, que é digna devéras de toda a sympathia. Que parta e que não me appareça.
E D. Luiz sahiu do quarto, repetindo esta ultima recommendação.
A baroneza ficou pensando: