Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 21
--Muito grandes deviam ser as suas culpas, para que meu pae se esquecesse da amizade que lhes deve, a si e aos seus, snr. Mauricio. Creio bem que a consciencia não lhe diz isso.
--Não, Bertha. Eu julgo-me com imparcialidade. Sei o que ha de reprehensivel no meu proceder inconsiderado; ainda que nada me peza na consciencia, emquanto ás minhas intenções.
--É o essencial.
--Não é para os outros. Por os actos me julgam e esses ás vezes condemnam-me.
--Nem todos os seus actos hão de ser maus. Os bons desfarão os effeitos dos outros--tornou-lhe Bertha, sorrindo.
--Succederá isso comsigo, Bertha? Não estarei ainda condemnado no seu conceito?
--Se principio por ignorar as culpas de que é accusado!
Maurício calou-se por algum tempo, como concentrando alentos para mais difficil resolução, e rompeu depois com maior vivacidade:
--Pois bem; escute-me e julgue depois; condemne ou absolva, conforme a consciencia lh'o dictar. Não lhe vou fazer uma geral confissão da minha vida, apenas dos ultimos tempos d'ella. As acções boas ou más, os actos irreflectidos, a que me impelle este temperamento estranho com que nasci, tenho-os ultimamente executado sob o influxo de uma paixão forte, irresistivel, que nasceu e assoberbou rapidamente todo o meu coração, Bertha, desde que a vi, quando voltou de Lisboa. Com a franqueza propria do meu caracter, com a lealdade que lhe devo, Bertha, confesso-lhe que a amo. Deve têl-o percebido. Eu não sei dissimular. É este amor que me perturba, que me faz ser injusto, desconfiado, louco, que me arrasta a extremos, d'onde não volto sem remorsos.
--Devia pois fazer por destruil-o, vendo a maligna natureza que tem--respondeu Bertha, sorrindo.
--Não zombe, Bertha.
--Não zombo, pois não diz que o arrasta a acções que lhe causam remorsos?
--Mas é por esta incerteza em que estou. Assegure-me porém, Bertha, de que o seu coração é ainda o que em outro tempo conheci...
--Snr. Maurício--tornou-lhe Bertha, d'esta vez sem a menor inflexão de gracejo--seria faltar á amizade que lhe devo, se o deixasse continuar. Quero suppôr que não zomba de mim ao fallar-me d'essa maneira; quero convencer-me de que é sincero, ou de que julga sêl-o, pelo menos, n'essa declaração que me faz, e vou responder-lhe como se assim fosse. Peco-lhe que faça por esquecer isso que diz sentir por mim e que não póde ter futuro.
--Para me dar esse conselho, para ter direito de dar-m'o, é necessario que me faça uma confissão, é necessario que me diga: Eu não posso amal-o.
--Direi: Eu não posso amal-o, snr. Mauricio.
--E será sincera no que diz? Veja bem. Interrogue sómente o coração. Não a amedrontem as difficuldades e as resistencias que possam offerecer-nos. Eu as vencerei, arrostarei eu só com todas.
--Eu disse: eu não _posso_ amal-o, e não: eu não _devo_ amal-o, como n'esse caso diria.
--E porque não póde? Que ha na sua alma contra mim, Bertha, que nem as recordações da infancia me valem? E comtudo eu tinha n'esse tempo adquirido direitos á sua affeição.
--Que valor que dá aos brinquedos da infancia!
--É porque em mim a juventude do coração principiou cêdo. Eu já então sabia amar.
--Mau é que não ache differenca entre o amor de que é capaz agora e o de então; é pois claro que ama como uma criança.
--Com a ingenuidade d'ellas.
--E com a inconstancia tambem.
--Bertha, não me falle assim. Nas suas palavras sinto um tom de duvida que me afflige. Responda-me: porque é que não póde amar-me? Ha já no seu coração outro amor?
Bertha córou e não foi superior a certa confusão, que se esforçou por vencer, dizendo:
--Ainda que não haja, não é isso motivo para o abrir ao primeiro que appareça. Com toda a sinceridade da minha alma lhe fallo, snr. Mauricio. Creia que para todas as pessoas que teem o nome da sua familia ha no meu coração muito respeito, muita estima e muita gratidão. De todos estes sentimentos se póde dar razão. Mas o amor não é assim. Ninguem sabe porque ama ou porque não póde amar. Julgo eu. É uma coisa que se sente, mas que se não explica. Pois não concorda? E agora peço-lhe que me não acompanhe mais longe. Repare que a tempestade está para breve. Espero, snr. Mauricio, que será sempre nosso amigo.
E dizendo isto, estendia-lhe a mão, que Mauricio apertou silenciosamente.
E separaram-se, seguindo direcções oppostas.
Mauricio murmurava:
--E comtudo creio que me amas. Não é essa frieza que me ha de illudir.
Pela sua parte, pensava Bertha:
--D'aqui não vem perigo para o meu coração. Acabei de convencer-me agora. Basta vêr a tranquillidade que sinto. Assim podésse dizer o mesmo do outro.
Mas a Casa Mourisca continuava a attrahil-a. De noite á claridade vaga do luar, ás tardes quando os ultimos e desmaiados raios do sol lhe tremiam na fachada ennegrecida, de madrugada, no meio das neblinas do rio, que phantasticamente o envolviam, a todo o momento emfim, as encantadas memorias da infancia de Bertha adejavam sobre o deserto solar, e as saudades, evocadas por ella, como que se lhe levantavam do coração a encontral-as.
Ás mesmas horas da tarde, repetiu Bertha no dia seguinte ao do seu encontro com Mauricio, a tentativa para visitar o solitario palacio. D'esta vez passou além da ponte, subiu a ladeira da collina opposta, e chegou a tocar com a mão na porta da quinta. Faltou-lhe porém ainda a resolução para a abrir e entrar. Apoderou-se d'ella uma especie de pavor sagrado no momento de penetrar alli. Parecia imporem-lhe respeito aquellas arvores seculares, aquellas heras vigorosas que forravam os muros da quinta e o silencio que pairava n'aquella habitação abandonada. As sombras melancolicas da tarde cresciam, e Bertha retirou-se no fim de alguns momentos, quasi tomada de entranhado terror.
No dia seguinte voltou ainda á Casa Mourisca. Armára-se, ao partir, de maior resolução. Promettêra a si propria não hesitar um só momento ao abrir a porta, para não dar tempo a possuir-se da mesma fraqueza.
Assim fez; ao chegar á porta pequena da quinta, introduziu resolutamente a chave e abriu-a. Estava emfim dentro dos muros da Casa Mourisca. Cobria-a o denso tolde de ramos entrelaçados dos carvalhos, dos freixos e dos cedros, estalavam-lhe sob os pés as folhas crestadas, de que os ventos do outomno haviam alastrado o chão; prendiam-se-lhe aos vestidos as silvas espinhosas, que cresciam á vontade de mistura com os fetos e as ortigas; á sua chegada houve um subito rumor de aves esvoaçando surprendidas, e de reptís escondendo-se por entre a folhagem sêca do chão. O bosque tinha um aspecto de braveza selvagem, adquirida durante longos annos de independencia de cultura. Era esplendida a anarchia d'aquella vegetação.
Bertha parou affectada de inexplicavel susto.
Tudo recahiu em silencio; apenas se ouvia um leve ramalhar das arvores, denunciando a passagem d'uma briza ligeira, a quéda de algum ramo sêco desprendendo-se da arvore, o pio timido de algum passaro escondido, e, um pouco mais distante, o rumor monotono e confuso das fontes e cascatas.
Dissipadas as primeiras impressões, o sagrado terror que infunde no espirito o aspecto de um bosque secular áquella adiantada hora da tarde, Bertha aventurou alguns passos e pôde percorrer os sitios da quinta que lhe eram mais conhecidos.
Quem póde referir as saudades que lhe pullulavam do coração, ao voltar, depois de tantos annos decorridos, áquelles logares saudosos?
Quem não tenha ainda experimentado na vida sensações d'aquellas, nunca chorou as mais sentidas e ao mesmo tempo as mais consoladoras lagrimas que os olhos podem verter.
Voltar com os pensamentos da juventude ou da virilidade, com a experiencia adquirida no tracto do mundo, com a memoria dos dolorosos embates soffridos no meio das luctas da vida, e a impressão das paixões gravada fundo na alma; voltar assim ao logar dos nossos jogos de infancia, dos nossos risos e chóros pueris, uns e outros tão sem razão nem vestigios, olharmo-nos outra vez, depois de longa ausencia, em frente dos objectos que nos assistiram aos brinquedos, e que parece saudarem-nos ainda como se nos vissem crianças, sentirmos em um momento dissipar-se-nos da memoria todos os tempos intermedios e como que resuscitarem as ideias, os gestos, os pensamentos d'aquella época, como se apenas tivessem adormecido para acordarem mais vivos, é uma das mais violentas e ao mesmo tempo mais gratas commocões que póde experimentar uma alma humana; e a que não ceder e se não abrandar sob essa influencia é uma alma perdida para os affectos e para a regeneração.
Poderia a de Bertha estar n'este caso, a d'ella, alma sensivel e amoravel, para a qual o passado era objecto de um fervoroso culto? Poderia olhar sem lagrimas para aquelles logares onde lia como que pagina por pagina a sua vida de então?
Chorou, chorou sentada no banco musgoso, junto de uma fonte, onde ella e Beatriz tantas vezes vinham sentar-se, e onde Jorge e Mauricio corriam a ter com ellas, logo que terminavam as suas horas de estudo.
Era tarde quando voltou a si o pensamento d'aquella digressão pelo passado. Não tinha já tempo d'esta vez de visitar a Casa Mourisca. Procurou de novo a porta da quinta, por onde entrára, e sahiu com saudades d'aquelles logares.
No momento em que Bertha se afastava, dois caçadores, que desciam una pinhal visinho, d'onde se descobria a entrada da Casa Mourisca, viram-n'a e reconheceram-n'a.
--Ó Chico, olha lá, aquella não é a Bertha do Thomé?--disse um d'elles para o outro.
--Nem póde ser outra coisa.
--Só! a estas horas... e próximo da Casa Mourisca! Que quer dizer isto?
--É que vem de lá.
--Mas... a casa não está vazia?
--Tanto melhor. Se lá estivesse o velho, a coisa mudava de figura.
--Mas, falla serio, ó Chico, que conjecturas tu de toda esta historia?
--Que ou o Mauricio ou o Jorge fazem tambem as suas visitas á capoeira.
--O Mauricio foi hoje para a caçada dos Monteiros do Rio-baixo, e o Jorge, segundo ouvi dizer, está no Porto.
--_Quod probandum_--redarguiu o outro, recorrendo ás suas reminiscencias escolasticas; e, como se receiasse que o companheiro o não comprehendesse, traduziu:
--Isso é o que resta provar.
--Foi o mesmo Mauricio que o disse.
--E tu a dares muita importancia ao que diz o Mauricio! Então não sabes que se o Jorge lhe disser que está Papa, o toleirão é capaz de lhe beijar o pé?
--Mas lá em casa, pelos modos, todos o fazem no Porto.
--Pois ahi é que está a finura. E se elle, pilhando fóra do ninho a rapoza velha, se veio alli estabelecer muito á sua vontade?
--Se eu o acreditasse....
--Que farias?
--Era bem feito dar-lhe uma assaltada.
--Já me lembrou isso, mas é melhor outra coisa. Vigiamos isto a vêr quando a pequena cá volta, temos o Mauricio debaixo de mão e trazemol-o então comnosco. O caso deve ser interessante!
--Apoiado!
--Emquanto a mim, ninguem me tira de que aquelle velhaco do Jorge anda a comer-nos a todos com os seus ares de sancto. Vou ainda jurar que as taes visitas a casa do Thomé levavam agua no bico. Se agora o pilhavamos!
--Era soberbo! Mas o Mauricio anda esquisito comnosco, depois da historia do jantar.
--Deixa que eu o amansarei; era bom que elle estivesse um pouco _picado_ n'esse dia; tudo se arranja, deixa estar.
E os dois caçadores seguiram, combinando e commentando o plano que tinham traçado.
O leitor, que já os conheceu pelos primos do Cruzeiro, fica sabendo que estes esperançosos jovens proseguiam nos seus habitos de vida fidalga, em cata e preparação de escandalos, e cada vez mais implacaveis contra Jorge, cuja desdenhosa frieza para com elles ha muito tempo os irritava, antes mesmo que o acontecimento do dia do jantar viesse augmentar essa irritação.
XXII
A impaciencia de D. Luiz tocára o extremo. Em vão procurava apparentar resignação e conformidade á sua nova vida nos Bacellos. Os laços que o prendiam ás velhas paredes da Casa Mourisca eram mais fortes do que julgára, ao separar-se d'ellas. Estava-o sentindo pelo mal-estar que experimentava agora.
Todos os objectos da antiga residencia, que tão precipitadamente abandonára, pareciam occupar um logar no seu coração; e o vasio em que o deixaram era terrivel para uma velhice já sem esperanças.
A corrente d'aquella vida, ainda que turvada pelas paixões, seguia desde muitos annos regular e silenciosa pelo alveo e margens invariaveis. De repente, porém, como succede ás aguas de subito constrangidas a mudar de leito, perdeu a serenidade melancolica, a calmante monotonia, tão salutar a um espirito atribulado; e atravez de novas perspectivas e de novas scenas precipitava-se inquieta e turva.
Recrudesceram violentamente as torturas d'aquella alma exagitada, como despertam as dôres d'um membro enfermo ao arrancar-se da quietação e repouso em que adormeceram.
Em certa idade as diversões não distrahem, affligem. Vive-se do passado, e para que o pensamento o retracte, é mister que o remanso lhe dê a limpidez do lago tranquillo.
Só o orgulho e o pundonor de fidalgo é que impediam D. Luiz de voltar de novo aos lares abandonados.
Esta disposição de espirito era insustentavel.
Uma manhã viram-n'o, mais nervoso de que nunca, medir a passos largos o comprimento da maior sala do solar dos Bacellos, parando ás vezes junto das janellas a olhar abstracto, atravez dos caixilhos das vidraças, para as franças das arvores mais distantes que d'alli se descobriam, entre as quaes avultavam as do parque da Casa Mourisca. De subito interrompeu uma d'estas mudas contemplações, manifestando que lhe apparelhassem o cavallo para de tarde.
O procurador, a quem fôra dada a ordem, perguntou timidamente se s. exc.ª sahia a cavallo.
Com o sêco laconismo de que, havia certo tempo, usava nas respostas ao padre, o fidalgo limitou-se a dizer:
--Parece que sim.
O padre tocou a campainha a chamar por um criado, a quem transmittiu a ordem recebida, acrescentando a de que fosse avisado o escudeiro para acompanhar s. exc.ª.
D. Luiz acudiu com vivacidade:
--Quem lhe disse isso? Eu não preciso de acompanhamento. Que me tenham apparelhado o cavallo para de tarde.
--Então v. exc.ª sahe só?!--perguntou o padre, em quem esta quebra de pragmatica causava grande confusão.
--Vou--respondeu D. Luiz, continuando o seu passeio na sala.
O padre sahiu d'alli estupefacto para a cozinha, onde foi assistir á ultima demão de uma empada, e n'esse exame conseguiu felizmente desvanecer a violencia da impressão, que a ordem do fidalgo lhe havia produzido.
Effectivamente, pouco depois do jantar, ao qual Mauricio não assistira, D. Luiz montou a cavallo, e cortejando garbosamente a baroneza, que veio despedir-se d'elle á janella, partiu a meio trote pelos caminhos dos campos.
Era um ultimo lampejo da sua elegancia passada.
Na maneira por que dirigia o eavallo não se notava, porém, a indecisão propria de quem vae ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado destino áquelle passeio.
Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoação rural, rodeou quasi toda a freguezia, e, seguindo pelas raias das contiguas e por desvios ermos de casas e de cultura, por chapadas maninhas e pinhaes, onde apenas se entrevia a choça do guardador, foi dar ao extremo opposto da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca.
E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o cuidado que o cavalleiro parecia ter em não ser observado e em dirigir por veredas pouco frequentadas a sua cautelosa carreira.
Entrou por fim em uma bouça pertencente á casa, collocada, porém, fóra dos muros da quinta e separada d'elles por uma especie de valia, que servia de caminho publico.
D'alli avistavam-se as arvores, os telhados, as torres, e as mais elevadas janellas da Casa Mourisca.
D. Luiz fez parar o eavallo e fixou melancolicamente os olhos no velho solar onde nascêra e onde apprehendia não poder morrer, como haviam morrido os seus avós.
Ia adiantada a tarde, e á luz desmaiada do sol, que declinava, crescia a tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava lagrimas.
Era solemnemente triste aquelle quadro. A nobre figura do ancião, assim immovel, extatico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos da tarde arrancavam um gemer monotono e triste, com os olhos fitos nas ameias do seu palacio acastellado, d'onde as paixões o expulsaram, com o rosto illuminado pelos tremulos raios do sol, que desenhava distinctamente o rendilhado da rama dos carvalhos longinquos, atraz dos quaes se escondia, era uma personificação vigorosa do desalento e da saudade sob o colorido de desesperança que a velhice lhe dava.
A immobilidade do cavalleiro contrastava com a impaciencia do fogoso animal, que escarvava insoffrido o solo, sem que podésse satisfazer a ancia do movimento que o devorava. De subito o cavalleiro fez um movimento, como de quem adopta uma resolução, a que por muito tempo repugnára.
Pôz-se de novo a caminho, seguindo sempre a direcção do muro da quinta, e sem abandonar o pinhal.
Pouco adiante encontrou as ruinas de uma antiga casa de guarda, já quasi destelhada, e em cujo recinto cresciam á vontade as giestas e as tojeiras, por entre os montões de telha e de caliça cahida, e onde encontravam tranquillo abrigo reptís de toda a especie.
D. Luiz levou para alli o cavallo, que prendeu ao varão oxydado e torcido de um caixilho de janella, e sahiu outra vez, continuando a rodear a quinta.
Havia um logar onde o muro era parte derrubado e facilitava extremamente o ingresso. Sabiam-n'o bem uns certos rondadores noctivagos, que tantas vezes por alli effectuavam as suas explorações depredatorias no mal vigiado terreno da Casa Mourisca.
Foi por o mesmo caminho d'esses visitadores suspeitos, que o proprietario d'aquelle nobre solar ahi entrou furtivamente, e córando do passo a que a violencia de uma entranhada saudade o impellia.
Dentro em pouco achava-se na quinta.
Caminhou inteiramente agitado pelas ruas solitarias, atravessou as devezas, onde áquella hora não penetrava um só raio de sol, e sem vacillar seguiu na direcção da casa. Ao chegar ao pateo, viu aberta uma pequena porta por onde habitualmente se fazia o serviço do palacio.
Occorreu-lhe-só então que poderia estar alguem lá dentro, áquella hora.
Se se encontrasse alli com Thomé, como conseguiria arrostar com a vergonha de ser por elle descoberto n'aquella visita furtiva? Ia a recuar, mas o impulso interior a obrigal-o a progredir era mais forte. Venceu. Aproximou-se cautelosamente da porta e ficou-se a escutar por alguns instantes. No interior havia o mais completo silencio. Não se divisavam vestigios que denunciassem presença de alguem estranho. D. Luiz deu a medo alguns passos no limiar, subiu os primeiros degraus da escada, hesitando e escutando a cada passo que dava e a cada degrau que subia.
Sempre o mesmo silencio.
Pensou então o fidalgo que bem poderia ser que na precipitação da sahida tivesse ficado aberta aquella porta; e animado por esta hypothese adiantou-se mais resoluto.
Havia nas largas escadas uma luz froixa e quasi mysteriosa; esta luz e aquelle silencio eram dos que infundem no animo um sentimento quasi de pavor.
N'esses corredores e escadas vazias e obscuras, elle, o senhor e proprietario do solar, movendo-se, com o receio de ser descoberto! Que situação a sua! Que humilhadora situação para o seu orgulho!
As correntes de ar sibillavam melancolicamente ao enfiarem-se pelas fechaduras das portas e frestas, que deitavam para a escadaria; os passos do fidalgo tinham sob aquellas abobadas uma resonancia estranha.
Eram sem numero os objectos que lhe recordavam os amargos momentos da sua alvoroçada sahida da Casa Mourisca; caixões vazios, sacos, bocêtas, papeis de empacotar, tudo jazia ainda em confusão nos corredores, como, na pressa dos preparativos, frei Januario os deixara. Signaes eram estes que parecia indicarem que desde aquelle dia ainda ninguem entrára na Casa Mourisca.
Mais seguro já na persuasão de que não seria surprendido n'esta clandestina visita, D. Luiz subiu sem o menor receio as escadas que levavam ao _Sancta Sanctorum_ das suas affeições, á torre onde haviam sido os aposentos de Beatriz, aonde ella tinha vivido e expirado. Era esta a peregrinação que emprehendêra aquelle desconfortado velho; para alli era que as suas intensas saudades o chamavam. Tinha já subido mais de meio lanço da escadaria, quando subitamente estremeceu, parando a escutar um mal distincto som que lhe chegára aos ouvidos. Correu-lhe no rosto uma pallidez mortal e a fronte principiou a cobrir-se-lhe de um suor, como de agonia.
A turbação que sentia, foi tão intensa, que teve de apoiar-se á parede para não cahir.
Eram os sons longinquos de um instrumento de musica, que partiam do logar para onde elle se dirigia. Vagos, confusos ainda, mas melodiosos como de harpa que, pendurada dos ramos dos carvalhos, vibra ao perpassar das brizas da tarde.
Na triste solidão d'aquella casa abandonada, á hora mysteriosa do escurecer do dia, aquelles sons resoando pelos longos corredores e pela vastidão das salas desertas, tinham de facto não sei quê de sobrenatural; dir-se-ia musica de fadas em um d'esses paços encantados, que ergue no meio das florestas a imaginação popular.
Mas não era sómente o inesperado e a estranheza do facto que feriam de espanto o senhor da Casa Mourisca. Aquelles sons exerciam sobre elle outra e superior influencia.
Conhecia-os; não eram vozes estranhas aos ouvidos do ancião ralado de saudades, e que se achava alli attrahido por ellas.
Conhecia-os; em outras épocas tinham já resoado entre aquellas tristes paredes e sob os altos tectos dos aposentos hoje deshabitados. N'esses tempos, havia alli dentro corações que pulsavam de sympathia ao escutal-os. Eram o signal de que o anjo da familia velava; de que a meiga criança, sobre cuja cabeça se condensavam todos os castos affectos d'aquella alma de homem, praticava com os anjos, seus irmãos, na mysteriosa linguagem da musica.
Aquelles sons... podia elle desconhecêl-os?... eram os da harpa de Beatriz.
Mas que mysterio revelavam elles agora? Que magia os faria renascer, quando, havia tanto, cahira gelada a mão que os desferia?
As sombras dos mortos teriam vindo povoar a casa abandonada pelos vivos? A alma querida de Beatriz viera por ventura chorar e lamentar-se da solidão em que os seus haviam deixado os logares que ainda conservavam tão vivas as memorias d'ella?
Quem póde analysar o confuso turbilhão de ideias que atravessou n'aquelle momento o espirito do fidalgo?
Piedosas crenças da infancia, superstições que a razão subjugara, chimericos productos d'um cerebro febril, tudo se levantou em enxame alvoroçado e revolto a obscurecer a intelligencia do ancião, que tremia sob um inexplicavel terror.
--É uma allucinação--pensava elle, esforçando-se por dominar aquella fraqueza--é uma quasi loucura produzida por esta ideia fixa, que nunca me abandona.
E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre.
Mas os sons, que elle julgava effeito dos sentidos allucinados, longe de se desvanecerem, cada vez se ouviam mais distinctos. Sem duvida alguma partiam dos aposentos de Beatriz.
Estava terrivelmente pallido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a mobilidade que produz o delirio. Ha situações na vida em que a razão mais segura vacilla e sente-se vergar sob a influição das mais supersticiosas crenças.
D. Luiz n'aquelle momento acreditava sinceramente na realidade das apparições.
A distancia permittia-lhe já distinguir a melodia que executava a harpa. Tambem lhe era conhecida; era a de uma canção predilecta de Beatriz, uma musica cheia de recordações para o pobre pae. O presente desapparecia n'aquelle momento; o passado resurgia com toda a luz, que desde muito se lhe apagára na carreira da vida. Chegára quasi á porta do quarto d'onde partiam os sons. Restava entrar... Mas o que o esperava alli? Talvez se desvanecesse o encanto e a vazia realidade o aguardasse para o punir!