# Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

## Part 20

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--Porém...--ia Jorge a objectar, quando Bertha o interrompeu, dizendo:

--Agora não, agora não. Lembre-se só de que eu fico acreditando que será sincero commigo, no dia em que eu o interrogar, e que de certo não se recusará então a fallar-me com franqueza. Adeus, snr. Jorge. Creia que desejava devéras que fosse tão meu amigo, como é de meu pae.

E retirou-se depois de pronunciar estas palavras.

Jorge desceu vagarosamente as escadas, montou distrahido o cavallo que o aguardava no quinteiro e deixou-lhe a redea livre, de maneira que o animal seguiu a passo o caminho da casa, que por tanto tempo lhe déra abrigo, o caminho da Casa Mourisca.

Desapercebidamente ia passando Jorge por todos os logares intermedios. As palavras de Bertha, animadas por aquella sentida commoção, que a dominava ao fallar-lhe, estavam-lhe ainda nos ouvidos, e nos olhos a imagem da gentil rapariga, em quem uma grave expressão de dôr mais realçava a belleza.

--E se voltar a interrogar-me--pensava Jorge--que posso eu dizer-lhe? que devo confessar-lhe? Nada. Pois que tenho eu contra ella? Pobre rapariga! Mas é certo que me parece que tenho sido um tanto rude, um tanto desabrido... E porquê?

Jorge parecia n'este momento estar sondando o fundo do seu proprio coração, para investigar a verdade. De repente fez um movimento com a cabeça, como tentando regeitar uma ideia pertinaz.

--Mas isto não póde ser, Senhor. Isto é uma loucura que não tem razão de existir. Pois não hei de ter força de a abafar á nascença? Acaso o sangue de minha idade tambem me ha de fazer doidejar como aos outros? Eu felizmente não possuo o temperamento de Mauricio e hei de vencer na lucta, hei de. Mas em todo o caso é uma puerilidade a maneira por que estou procedendo com Bertha. Porque é certo que o modo por que a tracto não é natural. É medo de me trahir? Mais me traio ainda por esta fórma. É despeito por as attenções que a vejo dar a outro?... a meu irmão?! Mas é uma vileza da minha parte... A meu irmão!... É verdade que se elle a amasse devéras... mas eu que o conheço... É uma loucura a final, é o que é. E fiem-se no juizo de um rapaz de vinte annos?! Ahi estou eu tão doido como qualquer d'esses estouvados. E o mais é que a mim é que se não perdoaria a loucura. A loucura em um rapaz de juizo é um delicto imperdoavel. Se soubessem por ahi... se descobrissem... «E quem havia de dizer! Ora vejam, um rapaz que parecia tão ajuizado!» É como elles principiam logo. Ai, tem pesadas responsabilidades o que na minha idade mereceu que lhe chamassem «um rapaz de juizo.» É preciso a cada momento suffocar a revolta do temperamento e da idade, luctar incessantemente com a imaginação... E hei de luctar! É forçoso que não deixe sahir cá de dentro os meus desvarios de rapaz. Doideje o coração á sua vontade, comtanto que só eu o saiba... Mas a meta é commigo e não com ella... Bertha tem razão em perguntar-me o motivo da minha hostilidade. A minha hostilidade! Ah que se ella tivesse um olhar mais penetrante... D'isso é que me receio... Não ha que vêr, hei de preoccupar tanto, tanto, tanto a minha cabeça com algarismos e negocios, que hei de por força perder a consciencia dos affectos, e é assim que hei de matal-os.

N'este momento vencia Jorge o declive que levava á porta principal da Casa Mourisca. O caminho desaffrontado n'aquella altura de arvores e de sebes altas subia á vista do casal de Thomé e permittia descobrir na encosta fronteira as veredas que para lá conduziam.

Jorge desviou naturalmente a vista para aquelle sitio.

Na varanda de entrada divisava-se ainda o vulto de Bertha, na mesma posição em que a deixára.

Alvoroçou-se o coração do rapaz com isso; ao mesmo tempo porém ia subindo na direcção da Herdade, um cavalleiro que elle reconheceu ser Mauricio.

Esta nova descoberta desagradou-lhe manifestamente. Purpurearam-se-lhe as faces por momentos, e a fronte contrahiu-se-lhe com uma expressão de desgosto. Pela primeira vez fustigou o cavallo, que até alli deixára entregue ao capricho.

Mauricio, que tambem da outra margem avistára o irmão, fez-lhe um acêno com a mão, ao qual Jorge respondeu apontando-lhe para a Casa Mourisca, como a designar-lhe o destino do seu passeio. Mauricio replicou-lhe com um movimento de braço, exprimindo que o seu giro era mais extenso e para o outro lado. E na direcção que seguia era inevitavel a passagem por casa de Thomé da Povoa.

--Por isso ella se demorou na varanda--murmurou Jorge com amargura--e proseguiu olhando para Mauricio:

--Aquelle póde ser louco á sua vontade; ninguem lh'o estranhará, ninguém lhe fará d'isso um crime. E a final talvez que de nós dois não seja elle o mais louco. A loucura é inseparavel do homem; umas vezes toma-lhe a cabeça e deixa-lhe em paz o coração, que nunca se empenha nos desvarios a que ella é arrastada; é o caso de Mauricio; outras vezes ha na cabeça a frieza da razão e ao coração desce a loucura para o perturbar com affectos; quer-me parecer que é o que succede commigo.

O cavallo parou espontaneamente á porta da Casa Mourisca e arrancou Jorge á corrente de vagas cogitações em que lhe fluctuava o espirito.

--Vamos, Jorge--dizia elle a si mesmo, ao desmontar--já agora é necessario ser rapaz de juizo até ao fim. Tu não tens direito de condescender com a tua mocidade, homem. Ninguém te relevaria os ardores da juventude, porque todos te suppõem o sangue de gêlo.

E serenando outra vez a physionomia, até alli um pouco alterada sob a influencia de encontrados pensamentos, entrou para a quinta em procura de Thomé, que o precedêra ahi. Quando, depois de algumas pesquizas, Jorge, guiado por o som de vozes e por um ruido de sachos e de enxadas, conseguiu avistar o fazendeiro, não pôde reter um sorriso de estranheza e de sympathia, que o espectaculo que via lhe provocava.

E tão grato effeito parecia produzir-lhe esse espectaculo, que, sem ter querido interrompêl-o com a sua presença, continuou por algum tempo, observando-o.

Effectivamente para quem soubesse a verdadeira significação dos actos em que Thomé estava empenhado n'aquelle momento, não seria para estranhar o sorriso de Jorge, nem a sua expressão duplice de sympathia e de espanto.

Thomé não havia meditado no plano para a vingança que jurára contra o fidalgo. Anciava por principiar a pôl-a em pratica, e encetou-a sem methodo nem systema. Intimou os criados para que o acompanhassem, sem que tivesse ainda pensado no que lhes mandaria fazer.

Chegados que foram á quinta, fixou-se na primeira avenida á entrada e ahi principiou a azafama, arrancando as hervas inuteis, decepando os ramos mortos, varrendo as folhas cahidas, amparando os arbustos derrubados sobre o caminho, desassombrando as plantas affrontadas e á mingua de sol, enxugando e nivellando os passeios alagados, e desobstruindo os encanamentos de rega. A rua ficou que era um primor.

No momento em que Jorge o avistou, limpavam os criados o limo depositado em um tanque, emquanto Thomé, suando, tentava erguer sobre o pedestal a estatua de pedra de não sei que divindade pagã, que havia muitos annos repoisava em leito de malvas e ortigas, coberta de lichens esverdeados.

--É dia de festa por cá, á balburdia que estou vendo!--disse Jorge, adiantando-se emfim, e apparecendo aos olhos do fazendeiro, que se voltou precipitado ao ouvir-lhe a voz.--Quem visse dizia que passa por aqui procissão, em que nós somos mordomos.

Thomé, readquirindo a sua presença de espirito, respondeu:

--Procissão não digo, mas festa em que eu sou mordomo, ha de haver aqui, se Deus me der saude.

--Bem, visto que o Thomé é o juiz da festa, póde dispôr do seu tempo sem pedir licença a ninguem. Por isso ha de conceder-me um momento de conversa.

--Não, não, snr. Jorge, tenha paciencia; mas eu tenho grande empenho em dar andamento a isto.

--E eu absoluta necessidade de fallar-lhe.

--Ora valha-me Deus! E eu então que estou quasi a adivinhar o que me vae dizer!

--Talvez que não.

--O que lhe affirmo é que se me quer tirar da cabeça isto que se me metteu cá dentro, é tempo perdido.

--Não faça conjecturas anticipadas, Thomé. E sente-se primeiro.

--Pois vá lá. Vocês sigam por ahi adiante--disse o lavrador, voltando-se para os criados--e além n'aquella nora....

--Póde mandal-os embora, Thomé--atalhou Jorge.

--Embora? Adeus! É o que eu digo! Olhe que se é com o fim de me dissuadir que...

--Mande-os embora, que está a cahir meio-dia e pouco serviço podem fazer até lá. De tarde ou ámanhã continuarão, se o Thomé achar conveniente.

--Não, não, hei de achar. Emfim vão lá á sua vida, mas em sendo duas horas...

--Ora adeus; deixe as ordens para lh'as dar em casa, que tem tempo--atalhou pela segunda vez Jorge.

--Pois tenho, tenho, mas emfim... Ide lá com Deus.

E ficando só com o joven fidalgo, Thomé da Povoa cruzou os braços, e interrogou em tom de amigavel enfado:

--Aqui me tem. Então o que é que me quer?

Jorge enfiou o braço no d'elle e encaminhando-o para o tanque de pedra, limpo e esfregado de pouco pelos criados da Herdade, disse-lhe:

--Vamos sentar-nos alli, que o que eu tenho a dizer-lhe é serio e precisa de ser tractado com socego e descanço.

E sentando-se ambos na borda do tanque, voltados na direcção da Casa Mourisca, cuja fachada se descobria por entre uma das arvores, Jorge proseguiu:

--Agora que estamos sós, Thomé, vae dizer-me o que significa toda esta brincadeira.

Á palavra «brincadeira», o fazendeiro deu um salto.

--Eu não o disse?! Elle ahi vem com as suas reflexões! Por essa esperava eu. Mas não tem duvida, eu estou prompto para explicar-lhe a brincadeira. Se o snr. Jorge visse, como eu vi, olharem as minhas acções como insultos, não serviços, que bem sei que não os fiz, mas pelo menos bons desejos, como são os que tenho de lhe ser util e aos seus, tambem não havia de soffrer com tanta paciencia a injustiça, que não procurasse tirar desforra.

E Thomé, levantando-se, pôz-se a passeiar agitado.

--Mas venha cá, Thomé, quem lhe diz que não tem razão em se offender e até em se vingar nobremente, como emprehendeu fazêl-o?

--Sim, mas então não chame brincadeira ao que faço--tornou o fazendeiro amuado.

--Chamo, por vêr que não realisa a sua vingança por essa fórma. O Thomé, se pensar a sangue frio, ha de ser o primeiro a concordar commigo. Ora diga, pois acha que a obra mais difficil de levar a effeito em nossa casa é a limpeza d'estas ruas e d'estes tanques? Acha que vale a pena principiar por aqui a exercer a sua actividade? Se um dia entrando em bom caminho a administração dos nossos bens, nos restituir, como espero, o pleno gozo d'elles, livre das demandas, dos onus e da usura que os definham, não lhe parece que os nossos criados farão em dois ou tres dias obra correspondente ao valor da sua vingança?

--Lá iremos. Da quinta subirei os degraus e entrarei em casa, que remoçarei do portal até aos telhados.

--E que é tudo isso para o muito que ainda haveria por fazer, e onde os seus auxilios poderiam ser-nos mais vantajosos? Não vale muito mais tudo o que já tem feito? O Thomé bem sabe que o nosso grande mal não está n'aquellas pedras cahidas, isso é apenas o symptoma da doença, que é preciso combater primeiro.

--Pois sim, mas...--titubeou o lavrador já abalado.

--Sabe o que consegue com isso, Thomé? consegue uma vingança apparente, que falla mais aos olhos, isso é verdade; mas não a vingança real, generosa e nobre, representada pelo seu empenho em auxiliar-me devéras na obra que emprehendi. Consegue contrastar as minhas ambições; sou eu quem mais soffro da sua vingança. Esta casa, como sabe, é apenas uma pequena parte da nossa propriedade, mas é a que, por assim dizer, a representa. O povo, emquanto não vir renovar aquellas ameias cahidas, aclarar aquellas paredes negras, restaurar aquella capella abandonada, nunca se persuadirá de que a nossa casa conseguiu escapar do naufragio em que esteve para perder-se. Quando eu tivesse assentado em bases solidas esta propriedade que encontrei vacillante, quando podésse desafogadamente chamar meu ao mesmo que meus avós chamaram d'elles, havia então de renovar esta velha habitação, que só então teria o direito de sorrir defronte da sua Herdade, Thomé, e d'essas alegres casas que ahi se estendem por a collina abaixo. N'esse dia ficaria o povo sabendo que eu tinha cumprido um dever e havia de respeitar-me por força. Mas o Thomé quer privar-me d'essa gloria. Vae fazer sorrir esse fiel confidente dos nossos infortunios, quando ainda o sorriso é uma mentira e uma ironia aos seus proprietarios. Depois, embora eu lucte e obre prodigios, e consiga vencer, o povo dirá: Os fidalgos da Casa Mourisca estão hoje melhor do que já estiveram. Houve um homem, o dono do casal alli defronte, que teve compaixão d'elles e lhes restaurou por esmola a casa que cahia em ruinas. Não fallarão nos seus outros valiosos serviços, que não os conhecem, nem apreciam; não fallarão d'aquelles de que me não envergonho, antes me orgulho de confessar. Fallarão apenas do unico que me humilha, do unico que tem effectivamente um caracter de esmola, do menos importante de todos, do que se realisaria com o rendimento da nossa menor tapada, depois de remidos. Agora veja lá, Thomé; se o seu intento é realmente o de humilhar-me, prosiga na sua obra, que eu prometto não a embaraçar com os meios legaes que não desconhece; mas se a sua vingança é, como supponho, mais nobre, rnais digna de si, se ousa a fazer-nos bem, apesar do orgulho que lh'o rejeita, sem se lhe importar que um bem seja apparente para que os outros nos vejam humilhados, então deixo ao seu juizo resolver se este é o melhor caminho que tem a seguir.

Thomé da Povoa ouviu tudo isto com os olhos no chão, apertando o labio inferior entre o polex e o index e balanceando lentamente com o corpo.

Depois que Jorge acabou de fallar, permaneceu assim ainda por algum tempo, e acabou por dizer:

--Bem; visto isso desisto. Engulirei os meus protestos, conforme podér. Não digo que não tem razão, acho até que a tem. Quando me resolvi a isto, pensava só no fidalgo, não pensava no snr. Jorge... Agora vejo que fui muito apressado. Muito bem, farei por me resignar. Lá me custa, mas...

--Não lhe peço que desista da sua vingança. Quero tambem que um dia a verdade obrigue meu pae a reconhecer que a nobreza não está só nos pergaminhos e que a alliança com um homem honrado honra sempre quem a contrahe.

Thomé já tinha lagrimas nos olhos, ao apertar a mão a Jorge.

--Peco-lhe até que continue o seu auxilio, sem o qual eu nada faria, e até vou indicar-lhe um genero de serviços, que espero dever-lhe.

--Falle, falle, snr. Jorge, o que o senhor de mim não conseguir, ninguem consegue.

--Ha muito que eu desejo ir ao Porto. A especie de exilio, a que meu pae me condemnou, facilita-me agora essa empreza. Queria conversar directamente com os nossos advogados na demanda do Casal do Reguengo. Parece-me que ha circumstancias de valor que no processo não se tem feito sentir devidamente. Depois aquelle documento que lhe mostrei não me sahe da ideia. Emfim, póde ser uma illusão minha, mas tenho com tanto afinco estudado a questão, que me parece que vejo claro n'ella. E como sabe, Thomé, se ella se nos resolvesse favoravelmente era meia victoria ganha.

--Isso era.

--Portanto quando o Thomé podér dispôr de si, desejava que me acompanhasse á cidade, para me apresentar aos juizes e letrados, que conhece. Depois, tenho ainda outro fim em vista; desenredadas estas teias que me embaraçam, preciso de um grande capital para encorporar á terra, para tirar d'ella os recursos, que d'outra maneira não póde dar. A sua generosidade e os seus sacrificios não podem ir tão longe; graças a elles, já a usura me deixa respirar mais livremente; e já a equidade substituiu o dolo de muitos dos contractos de nossa casa. Mais tarde a escala do emprestimo tem de subir forçosamente para realisar em grande os aperfeiçoamentos agricolas que em pequeno vou ensaiando. O capital particular não me bastará para esse intento. Lembrei-me da nova companhia de Credito Predial, que se installou agora no paiz. Preciso pois informar-me dos negocios attinentes a estas operações e da regularidade de alguns titulos que possuimos. Póde auxiliar-me no que lhe peço?

--Amanhã partiremos, se quizer.

--Pois seja amanhã. E não acha que encaminho melhor a sua vingança por este lado, Thomé?

--Acho que quem tem o juizo do snr. Jorge póde muito bem passar sem o auxilio de pessoa alguma. Mas emfim cá estou ás ordens.

Passada meia hora, entrou Thomé em casa e participou á mulher que ia no dia seguinte ao Porto, na companhia de Jorge, e que talvez ahi se demorassem alguns dias.

Luiza ficou comprehendendo que os projectos de restauração da Casa Mourisca haviam sido pelo menos adiados, e com isto cresceu n'ella a admiração pelo caracter de Jorge.

Mas Luiza tinha durante aquella manhã recebido impressões, que não se atrevia a revelar totalmente ao marido, mas que a não deixavam estar socegada, emquanto não transpirassem em vagas insinuações.

Estavam á janella os dois esposos, conversando placidamente de Jorge e de D. Luiz, e da proxima jornada á cidade, quando Luiza, depois de uma pausa na conversa, disse _ex-abrupto_ para o marido:

--Ó Thomé, e que dirias tu, se um dia a tua filha morasse n'aquella casa?

E, ao dizer isto, designava com a cabeça a Casa Mourisca.

Thomé olhou para a mulher, como se aquellas palavras lhe fizessem duvidar da firmeza do juizo d'ella.

--Que queres tu dizer com isso?

--Ora! isto de rapazes e raparigas... quando se vêem a miudo...

Thomé córou, exclamando com mau modo:

--Tu estás doida, Luiza?

--Ora adeus! Quem sabe lá?

--Ó mulher, não queiras que eu perca a confiança que sempre tive no teu bom juizo.

--Eu não digo... mas emfim...

--Ora adeus, adeus!--atalhou Thomé, quasi agastado--ha certas coisas que nem a brincar se dizem.

--Pois que mal havia?...

--Mau! Ó Luiza, peço-te por favor que te não ponhas com essas graças. Ora para o que te havia de dar!

--Então, porquê?...

--Ora, porque não. Ha certas lembranças que até me envergonho de pensar n'ellas.

Luiza, em vista da repugnancia do marido, não ousou insistir. Mas a pobre mulher, com as ambições de mãe, já não podia deixar de olhar a Casa Mourisca e imaginar o effeito que produziria a sua Bertha em uma das balaustradas ou das ogivas d'aquelle antigo edificio.

XXI

Jorge apenas a Gabriella deu parte do seu projecto de jornada.

No dia seguinte partiu effectivamente para o Porto na companhia de Thomé da Povoa.

D. Luiz, ainda firme no proposito de não querer vêr o filho, nem ouvir fallar d'elle, nada soube d'esta excursão.

Mauricio estranhou a ausencia do irmão; mas, desde que a baroneza lh'a explicou, dizendo-lhe a verdade, não pensou mais em tal.

O padre, quando soube que Jorge tinha ido ao Porto, cidade que, no conceito do egresso, era um fóco de corrupção, e onde mais risco havia para a juventude de infeccionar-se com a peste da maçonaria e outros males correlativos, abanou tres vezes a cabeça, em signal de mau prognostico; mas não ousou fallar das suas apprehensões ao fidalgo, porque andava desconfiado, havia algum tempo, com os humores em que o via.

De facto D. Luiz, depois de algumas das sevéras palavras que ouvira a Thomé da Povoa, não podia vencer um tal ou qual resentimento contra o padre, cuja imprevidente gerencia tinha talvez concorrido para o estado precario da sua casa e as humilhações que soffria.

Apenas attenuava este resentimento a ideia fatalista de que a decadencia das casas nobres era inevitavel, e que baldado era tentar reagir.

Para elle o padre não podia ser mais que o instrumento cego da sua desgraça irrevogavelmente decretada.

Toda a energia moral de D. Luiz exercia-se pois em encarar com rosto firme a adversidade, e cahir sem perder na quéda a fidalga compostura do porte.

D'estas successivas impressões que recebêra nos ultimos tempos resultava para o animo, já de indole irritavel de D. Luiz, uma impaciencia, uma quasi permanente exaltação nervosa, que augmentava á medida que se lhe depauperavam as forças e o vigor corporeo. Quem melhor sabia agora lidar com elle era a baroneza. O instincto feminino é o mais proprio para descobrir o lado accessivel d'estes caracteres azedados e para movêl-os sem os magoar.

Frei Januario, que percebia isto, afastava-se cada vez mais do quarto do fidalgo e cada vez mais se aproximava da dispensa e da cozinha.

Em casa de Thomé proseguiam os trabalhos agricolas sob a activa vigilancia de Luiza, que, na ausencia do marido, tomava a seu cargo aquella provincia do governo domestico.

Bertha olhava então pelos irmãos e pelo arranjo da casa.

Havia porém alguns dias que uma ideia fixa não deixava tranquillo o espirito de Bertha.

Quando, ao cahir da tarde, os ultimos raios do sol parecia encandecerem as vidraças da Casa Mourisca, e á sua luz se tingiam de um leve doirado as frondes dos carvalhos seculares da quinta, ainda não despidos pelo outomno, apoderava-se de Bertha uma saudade intima, profunda, que lhe desafiava as lagrimas. Toda a infancia era evocada então. Resurgiam-lhe as recordações dos jogos, dos risos, das alegrias que havia gozado n'aquelles sitios onde os olhares se lhe fixavam com insistencia, e a pouco e pouco cresceu n'ella um natural e vehemente desejo de visital-os, de tornar a vêr de perto aquellas arvores, fontes e salas, cada uma das quaes lhe guardava uma memoria do passado.

As chaves d'esse como relicario das suas mais gratas recordações, tinha-as ao alcance da mão; a distancia não era grande, as tardes corriam amenas e no campo ninguem estranharia a uma rapariga um passeio d'aquelles.

A ideia ganhou vulto e Bertha resolveu realisal-a.

Tomou a chave que abria uma das pequenas portas da quinta, e uma tarde sahiu e dirigiu-se lentamente à Casa Mourisca. Em pouco tempo chegou á ponte que reunia as duas margens do ribeiro do valle. Ao transpol-a, porém, reteve-a um vago rumor que soava nos ares. Eram as surdas detonações de uma trovoada longinqua.

Bertha olhou em roda um tanto inquieta.

O colorido do céo e o dos campos era bello, mas pouco tranquillisador.

O firmamento estava esplendidamente pintado, não com o azul uniforme dos dias serenos, mas com as variadas tintas que recebia da influencia electrica de uma tempestade imminente. Grandes nuvens isoladas illuminavam-se, ao sol poente, de reflexos doirados. O campo, em que ellas se desenhavam, ostentava todas as gradações do azul, desde o anil carregado até um quasi verde esvaecido que interrompiam leves e longos stractus tingidos de roixo e violeta. Ao nascente, no seio de um denso cumulo de vapores amarellados, desenhava-se vagamente o magestoso iris. O verde das arvores e dos prados recebia d'esta luz uma cambiante mais viva. Principiava a soprar a viração quente e rasteira, que levantava em redemoinhos as folhas cahidas no chão.

Tudo annunciava uma tempestade proxima.

Bertha não ousou ir mais adiante.

A visinhança da noite e da tempestade obrigou-a a retroceder.

N'este momento porém entrava na ponte um cavalleiro, que assim que avistou a filha do Thomé, desmontou com ligeireza e dirigiu-se para ella a pé.

Era Mauricio.

Bem desejaria Bertha evital-o, mas já não o podia fazer sem uma affectação mais indiscreta do que a propria entrevista.

Em poucos momentos Mauricio estava a seu lado.

--Até que finalmente a encontro, Bertha. Quasi me tinha chegado a convencer de que uma fatalidade ou um proposito nos separava. Ha tanto tempo que não conseguia vêl-a!

--E procurava-me, snr. Maurício?

--Todos os dias o tenho feito.

--O mais natural era procurar-me em casa; ahi é que passo a maior parte do meu tempo, auxiliando minha mãe, que bem precisa de quem a ajude.

--Em casa? E seria eu bem recebido lá?

--Já alguma vez meu pae deixaria de receber, como merecem ser recebidos, os filhos do snr. D. Luiz?

--Como merecem--ahi é que está a dificuldade. E se a consciencia me dissesse que eu não merecia esse bom acolhimento?

