Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

Part 19

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D. Luiz, ao ouvir estas palavras, estremeceu, como se ellas o ferissem no vivo; as faces tingiram-se-lhe de um intenso rubor, e foi tal a sua perturbação que, sem tirar os olhos do fazendeiro, não pôde articular uma palavra que lhe respondesse.

Thomé proseguiu mais exaltado:

--Deixe-me crescer e medrar, fidalgo, que as minhas plantações para terem viço, não vão roubar o succo das suas terras. Não é por isso que ellas estão maninhas, não. E se quizer offuscar-me, deixe seu filho Jorge empregar o talento, a honestidade e o amor ao trabalho que deve a Deus, em tornar a sua casa no que ella foi em outros tempos. Então sim, então terá razão o orgulho de v. exc.ª, porque ninguem será mais para louvar e admirar do que o moço que der um tal exemplo, a criança que se fez homem para trabalhar, e o fidalgo que se fez lavrador para salvar a sua casa, e que por isso não deixou de ser fidalgo, antes mais do que nunca mostrou que o era. Este orgulho entende-se; mas ha um de má casta, que se parece muito com a inveja.

A esta ultima palavra D. Luiz não conteve um movimento de violencia.

--Basta. Desde que principia a ser insolente, não devo escutal-o. Talvez tenha feito mal em ouvil-o tanto tempo. Do motivo das minhas acções só tenho a dar contas a Deus. A si, basta que lhe diga que não recebo essas chaves, nem volto para a Casa Mourisca, emquanto não estiverem saldadas as minhas contas comsigo.

--Commigo! E sempre commigo? Pois bem; teima em offender-me?... aceito as chaves, levo-as para casa. Mas faço-lhe aqui, eu tambem, um protesto, fidalgo. Juro que hei de, a seu pezar, fazer-lhe o bem que podér. Se os meus soccorros o humilham e envergonham, ha de ter a paciencia de se humilhar e envergonhar por muito tempo, porque de hoje em diante vou trabalhar como nunca na restauração da sua casa. Ah! cuida que é só desfeitear-me e eu calar-me envergonhado? Enganou-se. Enganou-se. Enganou-se. Apre! Eu também tenho vontade. Ha de vêr com quem se metteu. Ainda que o fidalgo quizesse agora dar cabo do que lhe resta, eu lhe juro que não o conseguiria. Fica por minha conta a empreza de pôr no pé em que esteve a sua casa e a sua propriedade. Ora aqui está. Agora queixe-se, insulte-me, desfeiteie-me á vontade; ande, não tenha escrupulos. A minha tenção está formada. Não quero saber se o seu orgulho se offende, ou se se não offende. Se se offender, tanto melhor, que d'elle tambem é que eu recebi offensa. Apre! Cuidam que nós não temos brio nem pundonor? É só affrontar-nos como se não fossemos capazes de sentir? Sim? Elle é isso? Pois nós veremos. Ora deixa estar que eu lhes direi como as coisas correm. Quer que eu lhe fique com as chaves, não quer? Pois não, com muito gosto. Olhe, cá as levo. Vê? Passe muito bem v. exc.ª, passe muito bem. Eu lhe prometto que ha de ter noticias minhas. Ora é boa! A paciencia esgota-se. A gente tambem tem cá uma medida de soffrer; cheia ella, acabou-se, vae tudo por ahi fóra. Adeus, fidalgo, eu lhe protesto de novo que lhe hei de fazer todo o bem que podér.

E Thomé da Povoa, inflammado n'aquelle ardente desejo de sancta e honrada vingança, sahiu da sala, resmoneando ainda:

--Estes fidalgos que cuidam que a outra gente não sente! Ora deixa que já que elle tanto se espinha com o bem que lhe faço, eu o flagellarei. Vou tomar mais a peito a casa d'elle do que a minha, e se eu não conseguir o que quero... Ora deixa estar! Apre! Que é demais!

D. Luiz ficou ainda mais triste e pensativo depois que Thomé se retirou.

A seu pezar a entrevista com o fazendeiro impressionára-o profundamente.

O honesto caracter do pae de Bertha transparecia tão claro sob a franca rudeza da sua linguagem!

A unica vingança concebida por aquelle velho, no auge de indignação contra a humilhadora aristocracia do seu nobre visinho, era mais uma prova da sua generosa indole.

Vingava-se a fazer bem! E o mais é que se vingaria, se o conseguisse fazer. O beneficio recebido das mãos d'elle seria peior castigo para D. Luiz, do que a perseguição mais cruel.

O fidalgo sentia-o no intimo da consciencia, e um pensamento, que nem as palavras ousaram formular, atravessou-lhe-o espirito como a luz rapida do relampago.

--Terá razão este homem? Será inveja isto?!... Inveja!...

Passados momentos pensava ainda:

--O que é certo é que é um homem honrado. Porque me irrito pois com o auxilio que vem d'elle?... Inveja!

E, perseguido por este grito da consciencia, D. Luiz correu a encerrar-se no seu gabinete, onde passou o resto do dia.

XX

A violencia das impressões que deixára em Thomé da Povoa a entrevista com o fidalgo da Casa Mourisca não era para se desvanecer com o inquieto somno de uma só noite.

No dia seguinte, pela manhã, o fazendeiro acordou ainda indignado e firme na resolução que abraçára, de se vingar a seu modo. Nem o animo impaciente lhe soffria grande demora na execução.

Logo de madrugada principiou a dispôr as coisas para n'aquelle mesmo dia inaugurar a empreza. Deu contra-ordens a criados que tinham serviço talhado de vespera, foi mais expedito na visita quotidiana ás diversas repartições do casal, afagou mais distrahido a egoa fiel, que lhe cheirava os bolsos, habituaes portadores de uma lambarice matutina, deu um beijo nas crianças, sem se demorar a fazêl-as saltar nos joelhos, mandou que lhe fizessem o almoço mais cedo, depois de almoçar calado, contra o seu costume, ergueu-se da mesa, ordenou que tres criados se preparassem para sahir com elle, levando alguns instrumentos de lavoura, e a final acabou por pedir á mulher as chaves da Casa Mourisca.

Luiza, a boa, a prudente Luiza, que desde a vespera observava, sem reflexões, os signaes de desassocego de espirito que manifestava o marido, não pôde, ao ouvir a ultima ordem, reprimir um movimento de estranheza, e violentando um pouco o seu respeito conjugal, disse, olhando fixamente Thomé:

--As chaves da Casa Mourisca?! Para que queres tu as chaves da Casa Mourisca?

--Provavelmente para abrir as portas.

--E tu vaes lá?

--Vou, e olha que já ha mais tempo lá me queria.

--E que vaes tu fazer á Casa Mourisca, Thomé?

--O que vou fazer? Vou trabalhar.

--Trabalhar?! Pois tu tomaste-a de renda?!

--Tomal-a de renda? Para quê? Então o fidalgo não me deu as chaves? Então não embirrou em que eu havia de ficar com ellas? Pois para espantalho não me servem cá em casa. As chaves são para abrir as portas, e quem as tem entra quando quer.

--Sim, mas que tens lá que fazer?

--Oh! não me falta tarefa. Aquillo não viu enxada ha bom tempo. Os canos estão entupidos, as minas por limpar, os tanques rôtos, as ruas cobertas de herva, os muros no chão, e tudo o mais por este gosto.

--E então tu é que vaes pôr isso tudo em ordem?

--Vou, sim senhora. É assim que hei de ensinar aquelle soberbo, que se julga deshonrado, só por que eu lhe fiz um serviço insignificante. Pois agora veremos como roe estes que lhe vou fazer. Olha, mulher, vês aquelle casarão negro, coroado de dentes, muitos dos quaes já lhe cahiram de velhos? Pois se eu não lhe puzer dentadura nova e lhe lavar aquelle cara, de maneira que pareça que está a rir e perca o ar carrancudo com que d'alli nos olha, não seja eu quem sou.

--Tu não estás em ti, Thomé. Vê lá no que te vaes metter. São despezas grandes, e nem tu tens direito para similhante coisa.

--Não sei de historias. O homem não quer tomar conta da casa emquanto não pagar as suas dividas; pôz-m'a ao meu cuidado e eu do que está ao meu cuidado cuido assim.

--Ih! Jesus, que homem este! Não faças as coisas no ar, Thomé.

--Qual no ar; prometti que hei de trabalhar para pôr aquella casa em cima, só para fazer uma pirraça ao fidalgo; e ainda que tenha de hypothecar todos os meus bens e de arriscar o futuro dos meus filhos, hei de fazêl-o.

--Mas, já fallaste com o snr. Jorge a esse respeito?

--Não, nem preciso.

--Pois devias fallar. É um rapaz ajuizado e que põe as coisas no seu logar.

--O que elle me vinha dizer sei eu, e por isso é que não desejo fallar-lhe, porque não quero que me tire isto da cabeça, nem quero brigar com elle. Mas os rapazes já estão á minha espera. Vamos lá. Dá cá as chaves, ouviste?

--Thomé, Thomé! Olha lá o que fazes! Eu não sei...

--Pois por isso; se não sabes, deixa-me cá. Basta-me a chave grande. Eu hoje não passo da quinta.

E pegando na chave que a mulher lhe deu a medo, o lavrador sahiu á frente dos tres criados, em direcção da Casa Mourisca.

Luiza, a cujo bom senso não agradava a resolução do marido, veio desabafar com a filha.

O que sobre tudo levava a mal a bondosa Luiza era o não haver o marido consultado Jorge. Para Luiza Jorge era um conselheiro infallivel. A sympathia que sempre lhe inspirára aquella criança, «que se não mettia com ninguem» como a boa mulher tantas vezes dizia, crescêra e misturára-se á admiração, ao respeito e á absoluta confiança, assim que o viu, adolescente, tomar aos hombros o pesado encargo da direcção e reforma da sua casa, e que ouviu os louvores em que o enthusiasmo de Thomé se desafogava, fallando d'elle. Luiza afez-se a suppôl-o um ente privilegiado, incapaz de errar, com faculdades creadas para levar ao fim qualquer empreza e realisar todas as suas tenções, por menos exequiveis que parecessem.

O dogma da infallibilidade de Jorge fôra por ella definido.

Transpirára além d'isso cá fóra o grande successo do dia do jantar na Casa Mourisca, e por ventura a versão mais seguida sahira colorida por aquellas tintas maravilhosas, com que o povo illumina as suas narrativas. O que é certo é que este facto acabou de divinisar Jorge no conceito de Luiza, e agora menos do que nunca ella estava disposta a perdoar ao marido o haver prescindido dos conselhos de um rapaz tão brioso e prudente.

Bertha escutou o arrazoado materno com ar pensativo e triste. Ouviu, sem a interromper, a longa exposição das excellentes qualidades do filho mais velho do fidalgo e os artigos de benevola accusação, acremente formulados contra Thomé por quem aliás menos do que ninguem estava disposta a condemnal-o.

De quando em quando a vista de Bertha erguia-se para o vulto escuro da Casa Mourisca, e parecia que o aspecto d'ella lhe augmentava a melancolia.

Luiza sahiu emfim da sala, chamada por as exigencias do serviço domestico.

Bertha ficou só. Reclinando a cabeça á mão e apoiada no peitoril da janella, conservou por muito tempo a immobilidade e a fixidez do olhar, que denunciava uma grande abstracção.

Em que pensaria Bertha?

Que nuvem cruzaria o seu firmamento, para assim lhe projectar sobre a fronte aquellas sombras de tristeza?

Operava-se uma revolução moral n'aquelle espirito. Bertha sahira criança da aldeia, levando entre as mais agradaveis memorias da infancia, a dos momentos passados na Casa Mourisca e a das pessoas a quem alli déra então os seus primeiros affectos.

Crescêra, e essas imagens modificaram-se pela influencia do amor na phantasia, pela influencia de solidão e dos devaneios de juventude; a de Beatriz, como que sanctificada pela morte, cercára-se de um resplendor angelico, claro e suave como os raios do luar em luminosas noites de estio; a de Jorge apparecia-lhe como a de um amigo leal e seguro, a quem se não confiam puerilidades do coração, mas de que se póde esperar auxilio e conselho nas provações da vida; a de Mauricio, porém, fôra a que a imaginação que despertava, colorira de mais seductores reflexos. O seu campeão da infancia assumira as fórmas nobres e prestigiosas dos heroes de todos os poemas de amor. Belleza propria de uma juventude varonil, coragem, generosidade, tudo quanto exalta e ennobrece a alma, a phantasia d'aquella rapariga, entregue a si, elaborando a sós sobre as memorias do passado, associára ao nome de Mauricio. Fôra isto que Bertha trouxera no coração para a sua aldeia. Era o seu romance. Tinha ella a razão bastante clara para não o tomar por outra coisa mais real do que um verdadeiro romance, e bastante poder de reflexão para não se deixar dominar por elle.

Percebendo que em Mauricio não estavam ainda extinctas tambem as memorias do passado, e que ainda os seus sentimentos presentes recebiam d'elle luz e calor, Bertha assustou-se, desconfiou de si, e mais do que nunca procurou precaver-se, fugindo á influencia de que se temia, mas cedendo a ella sem querer.

Seguiram-se porém as scenas que sabemos; e o iris que rodeava Mauricio aos olhos de Bertha, dissipou-se como um verdadeiro iris em tardes humidas de inverno.

O ideal de Bertha não era sómente bello, era generoso e impeccavel, e Mauricio não attingia tão alto. O instincto do coração denunciou a Bertha o segredo do caracter de Mauricio; não havia depravação n'elle, sómente leviandade e insconstancia; mas já era bastante para o desprestigiar. Nem leviano, nem inconstante era o Mauricio que sonhára. Pelo contrario, de dia para dia lhe apparecia mais na sua verdadeira luz o caracter de Jorge, d'esse rapaz honesto, generoso, grave, respeitado por todos. As suas qualidades moraes attrahiram emfim a attenção de Bertha, e muita vez, emquanto conversava com Thomé, absorvido em uns vastos e generosos projectos, ou quando seguia pensativo pelos irregulares caminhos dos campos, era elle, sem o suspeitar, o objecto da contemplação de Bertha, em quem só então parecia terem feito impressão a nobreza e intelligencia, que nos gestos, na physionomia e nas palavras d'aquelle adolescente se revelavam.

A scena do jantar na Casa Mourisca augmentou a intensidade d'estas nascentes impressões. Nem podia deixar de ser assim.

É natural suppôr que a imagem de Jorge, d'esse rapaz corajoso e leal, que perante uma desdenhosa companhia do fidalgo, se erguêra a reivindicar a boa fama da familia plebeia, perfidamente calumniada por um d'elles, occupasse o pensamento da que mais soffrêra da calumnia, e offuscasse a do outro, leviano e estouvado, que concorrêra para levantar o aleive.

Poderia deixar de insinuar-se em um coração aberto a sentimentos generosos, como era o de Bertha, esse rapaz de vinte annos, diante de quem os velhos se descobriam, cheios de respeito pelas suas nobres qualidades de alma e pela superioridade da sua intelligencia?

Uma outra causa influira porém, além d'estas, no espirito de Bertha e no mesmo sentido que ellas; ainda que á primeira vista se podésse julgar que diversa deveria ter sido a sua acção.

Esta causa fôra a frieza, a quasi hostilidade delicada com que Jorge a tractava. Bertha não se illudia. Via bem claro que Jorge lhe fallava sempre constrangido, e como se tivesse pressa de interromper um dialogo, que o impacientava. Ás vezes havia nas palavras que d'elle obtinha, um leve tom de ironia, que ella não sabia a que attribuisse. Este proceder de Jorge deu que pensar a Bertha. Formando um conceito elevado do são juizo e da seriedade do joven amigo de seu pae, convencia-se de que aquellas maneiras frias com que era tractada por elle, não podiam deixar de ter um fundamento. E este fundamento occulto procurava-o Bertha com ancia em si mesma, estudava profundamente o seu proprio caracter, na esperança de descobrir a solução d'este enigma que a affligia; e ao mesmo tempo estudava em Jorge o effeito dos esforços com que fazia por vencer aquella prevenção, qualquer que fosse.

Succedeu o que era natural que succedesse. Não é sem perigo que a imaginação de uma rapariga como Bertha se entrega ao estudo de um caracter de rapaz, como o de Jorge, que lucra sempre em ser estudado e conhecido. Á medida que caracteres como este melhor se observam, mais virtudes se lhes descobrem, ao inverso de outros, cujos vicios latentes vão a pouco e pouco transparecendo no decurso de uma attenta observação, e destruindo a impressão favoravel que ao principio produziram.

Bertha reconheceu um dia que não obrigára impunemente o espirito a pensar a todo o instante em Jorge.

Assustou-a a descoberta, mas o effeito já não podia evital-o. Inquieta com os novos sentimentos que lhe invadiam o coração e a levavam a estas vagas apprehensões, áquellas tristezas que tão frequentes lhe estavam sendo, não era outro o motivo da distracção com que escutára a mãe e da melancolia em que se deixou ficar á janella, depois que ella sahiu.

De repente estremeceu.

Jorge, que já não procurava occultar-se nas visitas que fazia a Thomé, e dava aos seus actos uma publicidade mais conforme com o seu caracter, acabára de entrar no pateo da Herdade, e desmontando-se, prendia o cavallo, em que viera, ao esteio da ramada.

Alguns criados que andavam por alli, occupados em diversos serviços de lavoura, descobriram-se ao vêl-o entrar. Jorge cortejou-os com affabilidade e passou a interrogal-os sobre promenores de trabalho em que elles se entretinham. Os homens davam-lhe as informações pedidas com os maiores signaes de deferencia.

Depois Jorge subiu lentamente as escadas que conduziam á sala onde estava Bertha. Ao vêl-o subir o primeiro degrau, ella tentou retirar-se; mas susteve-a uma inexplicavel hesitação, e quando Jorge abriu a porta, ainda a encontrou na sala.

O olhar de Jorge desviou-se de Bertha, como se contrariado com a sua presença.

--Vim talvez importunal-a? Perdoe. Ignorava que a acharia aqui--disse Jorge com apparente placidez.

Bertha não estava menos constrangida, ao responder-lhe:

--Importunar-me? De maneira alguma.... Eu é que sinto que meu pae não esteja em casa, que é de certo quem o snr. Jorge procurava.

--Ah! seu pae não está em casa?

--Não; sahiu agora mesmo.

Bertha não ousou dizer para onde.

O nome da Casa Mourisca recordaria a scena do jantar, e Bertha tremia de recordal-a diante de Jorge.

Este caminhou para a janella, distrahidamente. E passeiando a vista por os campos, perguntou, sem ainda olhar para Bertha:

--Não sabe se o pae tardará muito?

--Eu... julgo que sim... Mas talvez minha mãe o possa informar melhor.

A proposito chegava Luiza para dar as informações precisas e para fazer cessar o constrangimento d'aquelle dialogo, cuja prolongação seria um martyrio para ambos.

--Ah! snr. Jorge, snr. Jorge--exclamou Luiza logo que o viu--ainda bem que veio, e pena é que não viesse meia hora mais cedo.

--Então era cá tão necessaria a minha presença?

--Ora se era! Eu ponho as mãos n'umas horas se estando cá o snr. Jorge, se mettia aquella scisma na cabeça do meu Thomé.

--Que scisma é essa de que falla?

--Pois então não sabe para o que havia de dar áquelle homem de Christo?

--Não sei, não.

--Ó Bertha, então tu não disseste ao snr. Jorge para onde teu pae foi?

--Eu... eu ignorava...

--Ora adeus! Se eu não tenho fallado de outra coisa, desde que elle sahiu! Ignorava! Vocês sempre teem coisas! Pois o meu Thomé está a estas horas na Casa Mourisca.

--A fazer o quê?

--Isso só elle sabe e Deus. Mal almoçou foi para lá com tres criados. Diz elle que já que o fidalgo teima em lhe pôr as chaves em casa e que todo se espinhou por elle lhe querer ser prestavel, vae fazer o bem que podér a sua familia, e melhorar a quinta e a Casa Mourisca, e que ainda que tenha de empenhar os seus teres e os dos filhos, se ha de vingar do fidalgo, fazendo-lhe todo o bem que estiver na sua mão. E tirem-lhe lá isso da cabeça!

--É uma alma generosa a de Thomé, mas eu o dissuadirei d'essa vingança, que viria transtornar os meus planos e tirar-me a gloria, a que aspiro, de trabalhar por minhas proprias mãos n'essa obra de restauração.

--Eu não o disse? «Thomé tu não faças nada sem fallares com o snr. Jorge.» Mas qual! Bem lhe importava elle com o que eu prégava! É um bom-serás o meu Thomé. Em vinte annos de casada, nunca me deu um desgosto. Póde haver maridos tão bons como elle, melhores não posso crêr que haja. Devo dizer o que é verdade. Mas, lá de quando em quando, em se lhe mettendo umas scismas na cabeça! adeus, minhas encommendas! já se lhe não dá volta. Só o snr. Jorge. Elle lá ao snr. Jorge ainda cede. E o que elle lhe não fizer escusam ahi de vir os poderes do mundo, que nada fazem. Lá o snr. Jorge! credo! Isso basta ouvil-o fallar em si. Ora, não é agora por estar presente, mas razão tem elle para fazer o que faz.

--Obrigado, snr.ª Luiza.

--Obrigado por quê? Ó filho, não, a minha bôca não é para gabar quem não o merece. Mas, diga-me cá, que rapaz ha ahi que faça o que o menino faz? Que na sua idade, em que emfim todos sabemos que o que se quer é brincar, olha como um homem por a sua casa, como nem muitos velhos sabem. E depois, ó snr. Jorge, sempre lhe digo que ainda ha bem poucos dias estes olhos choraram bastantes lagrimas por sua causa.

--Por minha causa?! Pois eu fil-a chorar, snr.ª Luiza?

--Oh! não foi por mal que me fizesse, foi porque emfim ... ha certas acções, que bolem cá dentro com uma pessoa e... quando me contaram o que se passou em sua casa, com aquelles vadios de seus primos, e em que o menino...

--Oh! não fallemos n'isso, snr.ª Luiza, que não vale a pena.

--Se não vale!... Olhe que não fui eu só que chorei. E Bertha?

--Ah! sinto devéras ter sido motivo de um desgosto para Bertha--disse Jorge no tom de que habitualmente usava fallando d'ella.

Bertha não pôde responder.

--Desgosto?--acudiu Luiza--Ora essa! Antes ella deve agradecer-lhe; e querem vêr que ainda o não fizeste, Bertha?

A confusão de Bertha augmentou com esta arguição da mãe.

Jorge atalhou:

--Eu é que me esqueci de pedir a Bertha perdão por haver dado ensejo, com os meus actos, a que o seu nome andasse por bôcas de pessoas a todos os respeitos indignas de pronuncial-o. Coisas minhas; ando tão alheio ao tracto do mundo, que a cada passo caio n'estas imprudencias, e sacrifico os outros, sem o querer. Bertha tem razão para estranhar este caracter bravio; mas espero que me perdoará.

Bertha ia a responder, mas era tal a sua commoção, augmentada pelo modo por que Jorge dissera estas palavras, que sentiu não lhe ser possivel formular uma resposta; os olhos inundaram-se-lhe de lagrimas e o rosto trahiu-a.

Levantando-se agitada, sahiu da sala em silencio, como se precisasse de estar só para desafogar em lagrimas a oppressão que a angustiava.

Luiza viu-a sahir e ficou admirada. Olhou para Jorge com estranheza, olhou para a porta, como se não soubesse explicar a scena a que assistira.

--Estas raparigas teem uns modos! Já viram uma coisa assim?!--murmurou ella, passada a primeira surpreza.--Queira perdoar, snr. Jorge.

Igualmente enleiado, Jorge procurou mudar o sentido da conversa, fallando outra vez de Thomé, em procura do qual sahiu poucos minutos depois.

Assim que o viu deixar a sala, Luiza ficou pensativa por algum tempo e no fim disse em voz alta, como era costume seu:

--Deixal-os. Se assim fosse, tanto melhor. Coisas mais incríveis se teem visto. Seja o que Deus quizer!

Ao passar no patamar das escadas que davam para o quinteiro, Jorge encontrou alli Bertha, que parecia esperal-o. Cortejando-a, procurou nos olhos d'ella o vestigio de lagrimas.

--Snr. Jorge--disse-lhe Bertha, com voz triste e levemente tremula--perdoe-me a minha perturbação de ha pouco. Fui obrigada a sahir da sala sem lhe dizer nem uma simples palavra de agradecimento por o muito que lhe devia; mas creia que não é porque o desconheça.

--O que me deve! Então quer que lhe repita o que já lá dentro lhe disse? Eu sou que tenho a pedir perdão.

--Basta, snr. Jorge--atalhou Bertha, tentando sorrir, mas raiando-lhe o sorriso por entre mal contidas lagrimas, como o sol no meio da chuva do inverno.--Hoje não... mas... em outro dia... ha de dizer-me por que não é meu amigo.

Jorge estremeceu, e olhando para ella repetiu:

--Por que não sou seu amigo?! Que quer dizer, Bertha?

--Oh! creia que ha signaes, que não enganam. Seja o que fôr, mas no seu pensamento ha alguma coisa contra mim, snr. Jorge. É pouco dissimulado, bem vê, não o póde disfarçar.

--Bertha! mas que criancice! Pois que ha de haver contra si no meu pensamento?

--Não sei. Um dia m'o dirá; não é verdade? É muito leal e muito generoso para não m'o dizer. Bem vê que preciso sabêl-o para me emendar; porque... eu desejava que fosse meu amigo, snr. Jorge. Todos o respeitam, todos fallam na sua generosidade; espero que não a desmentirá commigo.