Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

Part 18

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--Póde ser, mas é peior. Teu pae socegará, sabendo que as chaves estão nas mãos de Thomé. Então que queres? É uma puerilidade que se deve respeitar. O acto em si, olhado á luz da actualidade, não tem o minimo valor. Bem sabemos. Mas visto como o tio Luiz o vê, illuminado pelo crepusculo dos bons tempos passados, é um desforço e uma acção fidalga, capaz de o desaffrontar perante os seculos passados e futuros. Mas vamos ao que importa. Em toda esta historia figura o nome de uma mulher. Ora é sabido que nos attribuem sempre as primeiras honras no travar e complicar da acção dos differentes dramas e comedias da vida; por isso, com quanto o papel de Bertha se nos tenha apresentado até aqui como secundario, ninguem me tira da ideia de que ella é a figura principal da historia. Que te parece, Jorge?

Jorge, evidentemente enleiado pela reflexão da baroneza, respondeu:

--Bem vê que não é. A prima está já ao corrente de tudo, póde portanto julgar da parte da acção que cabe a essa rapariga.

--Estou ao corrente de tudo? Isso é que eu não sei. Mauricio tem por ella uma grande paixão, ao que parece.

--Não creio--acudiu Jorge vivamente.

--Como se explica então que, sendo elle tão teu amigo, se irritasse por uma errada interpretação dos teus actos, a ponto de estar imminente uma acção tragica, de que nem quero lembrar-me?

--Ora essa! Então não conhece o genio de Mauricio?--tornou Jorge quasi impaciente--Os primeiros movimentos são n'elle sempre impetuosos. Aquelle rapaz não se conhece. A cada instante se engana comsigo proprio. Anda persuadido ha certo tempo de que ama Bertha, e essa persuasão é tal que dá logar a scenas como essa que sabe.

--E porque dizes que não a ama?

--Porque o conheço e porque o tenho visto amar assim muitas mulheres.

--Uma serie de amores verdadeiros, é o que se conclue d'ahi; verdadeiros, mas curtos.

Jorge sorriu.

--Parece-me que não acreditas que sejam verdadeiros os que são curtos? Tu amarias sempre, se amasses?

--Creio que sim. Ou pelo menos, quando visse acabar um amor, dizia commigo: enganei-me, não era amor ainda.

--Sympathica theoria, mas não sei se muito aceitavel. Porém quem te diz que Mauricio não se fixaria d'esta vez? E olha que não seria uma má resolução da vossa crise. O Thomé julgo que está em condições de ser um sogro salvador, assim não houvesse a prevenção do tio Luiz.

--D'essa maneira não quereria eu nunca regenerar a nossa casa--replicou Jorge gravemente.

--Ah! tambem tens d'esses escrupulos? Pois olha, filho, é o processo hoje mais seguido.

--Bem sei, mas em um homem acho-o ignobil.

--Não havendo amor, concordo; mas quando o amor absolve a alma...

--Mais honra haveria em vencêl-o.

--Esta provincia é um terreno onde as velhas plantas duram eternamente. Não ha vento revolucionario, nem corrente de ideias novas que as derrubem.

--Mas deve confessar que são bellas e boas arvores essas!

--Algumas; outras são inuteis e damninhas, e fariam muito bem se cedessem o logar a melhor e mais productiva cultura. Agora outra pergunta: e Bertha ama a Mauricio?

Jorge córou a esta pergunta e evidentemente contrariado respondeu apenas:

--Talvez.

A baroneza ia a insistir, quando o colloquio foi interrompido pela voz do padre procurador pedindo licença para entrar.

Frei Januario entrou tossindo e assuando-se de uma maneira particular, que para quem o conhecesse era indicio claro de uma grave preoccupação de espirito.

--Então, snr. frei Januario, como se tem dado n'estas ruinas?--perguntou-lhe a baroneza com a amabilidade de dona de casa.

--Excellentemente, minha senhora. Então até direi a v. exc.ª que ha muito tempo não dei com um cozinheiro que melhor atinasse com o meu paladar.

--Sim? O Gavião merece-lhe esse conceito? Se o rapaz o sabe! É capaz de se me estragar de vaidade. Não o gabe na presença. Recommendo-lhe toda a discrição, snr. frei Januario. Olhe lá.

--Mas é que é verdade o que eu digo. Que lhe pareceu a v. exc.ª aquelles bifes hoje ao almoço? Olhe que aquelles bifes!... Não lhe digo nada! O rapaz é geitoso. Mas deixemos isso. Tracta-se de uma coisa que me dá cuidado.

--Então que é?--perguntou a baroneza, recostando-se--Não quer sentar-se, snr. frei Januario?

O padre puxou uma cadeira, sentou-se e tornou a tossir e a assuar-se.

--O snr. D. Luiz--disse elle, interrompendo-se a cada momento--emfim... eu ha tempos a esta parte ando assim a modo de doido....

--Vamos, snr. frei Januario, solte a grande novidade que nos traz debaixo do capote. Depois fará os commentarios, que entenderemos e apreciaremos melhor.

--O snr. D. Luiz chamou-me ha poucos momentos ao seu quarto para me dizer... para me ordenar....

--O quê?

--Para me confiar de novo a procuração que me retirára, e ordenar-me que participasse isto mesmo ao snr. Jorge para seu governo. Emfim....

--Cumpra-se a vontade de meu pae--disse Jorge--e Deus permitia que elle tenha motivos para se applaudir por ella.

--Eu fazia melhor conceito do bom senso do tio Luiz--observou francamente a baroneza--confesso que fazia. E o snr. frei Januario acha-se com forças de desenredar esta meiada, embaraçada como está?

--Pois ahi é que bate o ponto--acudiu o egresso.--Eu... é verdade que por mais de vinte annos dirigi estas coisas e, se mais não fiz, foi porque os tempos eram o que nós todos sabemos. Mas, depois que o snr. Jorge tomou conta disto, perdi o fio da meiada, entende v. exc.ª? Eu tinha cá o meu systema e por elle me guiava. Agora porém venho encontrar as coisas todas mudadas e... emfim, póde ser que estejam muito bem, não digo menos d'isso, mas eu é que não as entendo. Para pôr tudo outra vez no pé de d'antes, isso leva um tempo dos meus peccados; para continuar no caminho em que isto vae, era preciso ter muito trabalho e a fallar a verdade, já não estou na idade d'isso.

--E então que tenciona fazer?

--Eu sei? O fidalgo não ha quem o convença. Credo! Vão lá hoje contrarial-o na mais pequena coisa! Vae tudo pelos ares! Por isso, a mim lembrava-me....

--O que lhe lembra, snr. frei Januário?--perguntou Gabriella, fitando-o com olhar penetrante.

--Lembrava-me dizer ao fidalgo que sim senhor, que tudo se havia de fazer como elle mandava, que eu me encarregaria da direcção da casa, mas, por baixo de mão, continuar o snr. Jorge a levar as coisas lá pelo seu systema.

--E quer tomar sobre si a responsabilidade dos meus actos, snr. frei Januario? Repare bem. Já sabe a que portas costumo ir bater, quando preciso de capital, e quaes os meios que adopto. As suas crenças e opiniões devem soffrer com isso.

--E a mim que me importa?--tornou o padre impaciente--A final de contas, a casa é sua e não minha. O mal que fizer mais o ha de sentir do que eu.

--Não depõe muito a favor da sinceridade do seu affecto á minha família esse dizer. Eu queria antes vêl-o oppondo-se energicamente á administração viciosa que principiei.

O padre não tinha coragem para tomar conta da gerencia da casa sob a inspecção de Jorge, a quem tomára um mêdo excessivo; tentava porém colorir airosamente a proposta que alli viera fazer.

A baroneza interpellou-o muito terminantemente.

--A sua posição n'esta casa, snr. frei Januario, e as exigencias moraes do seu caracter e da sua missão traçam-lhe distinctamente o caminho que deve seguir. Ou entende na sua consciencia que póde fazer mais e melhor do que Jorge, e n'esse caso deve obedecer ao tio Luiz, ou tem a convicção contraria e só então é admissivel a sua proposta, mas depois de confessar com franqueza e lealdade o motivo d'ella.

O padre torceu-se, balbuciando:

--Eu não digo... isto é... quero dizer... no estado em que as coisas estão... no pé em que as puzeram.... Sim... cada qual tem lá o seu systema... e eu... sim, v. exc.ª bem sabe....

--Deixemo-nos d'isso. Claro, claro. Notou alguns defeitos na administração do primo?

--Defeitos... defeitos... não digo defeitos....

--Mereceu-lhe alguns reparos? Seja franco. Não se admittem palavras ambiguas.

--Não, minha senhora, eu não tenho reparos a fazer... quero dizer....

--Achou-a boa?

--Sim... achei... isto é....

--Parece-lhe que não é capaz de fazer melhor?

--Não tenho vaidades....

--Tem medo de estragar o bem que está feito?

--Todos podem errar... emfim....

--Temos entendido. Parece-me que Jorge, em vista d'isso, não discordará do seu parecer. Não é verdade, Jorge?

--Custa-me continuar a trabalhar clandestinamente; mas não me eximo a esforço algum para salvar a minha casa.

--Muito bem; agora o snr. frei Januario póde dizer ao tio Luiz que se cumprirão as suas ordens, e o mais que terá a fazer é assignar, sem lêr, alguns papeis que por ventura sejam necessarios, isto nos primeiros dias, porque eu confio ainda na boa razão do tio. E agora côma, beba e durma, e deixe correr o mundo, que ha de correr para bom lado.

O padre retirou-se mais desafogado, mas pouco satisfeito com os modos da baroneza, que o obrigaram a despir-se de toda a diplomacia e a confessar a sua inaptidão administrativa.

*FIM DO PRIMEIRO VOLUME*

OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

OS FIDALGOS

DA

CASA MOURISCA

CHRONICA DA ALDEIA

POR

*JÚLIO DINIZ*

VOLUME II

*PORTO* TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO Rua Ferreira Borges, 31

1871

XIX

Emquanto frei Januario conferenciava com Jorge e com a baroneza sobre a maneira de melhor harmonisar a vontade e as ordens expressas do fidalgo com os interesses da casa e com a commodidade pessoal de sua reverendissima, D. Luiz, a quem desde a vespera uma impaciencia nervosa não deixava repousar ainda, e que não podéra conformar-se aos seus novos habitos de vida, sahiu do quarto e veio passeiar agitado e meditativo na vasta sala da entrada, de cujas paredes o contemplavam sisudos os velhos retratos da familia.

Não vergava sob uma ideia unica e exclusiva o espirito do velho fidalgo, perdia-se no redemoinhar de ideias diversas e antagonistas, que umas ás outras o disputavam. Saudades, terrores, despeitos, desalentos e até remorsos dos seus passados odios e vinganças, eram os demonios perseguidores e implacaveis, cujo voltear phantastico, rapido como o de um circulo de feiticeiras, quasi lhe alienava a razão, ferindo-a de vertigem.

D. Luiz envelhecêra ultimamente de uma maneira rapida. De encontro á sua organisação robusta, quebrára-se por muito tempo a força da corrente dos annos e amortecera a violencia dos embates da adversidade, sem que elle experimentasse a leve vacillação que preludia a queda. Porém desde o momento em que se manifestaram os primeiros signaes de fraqueza, o progresso na declinação foi rapido, e de dia para dia sentia-se desfallecer aquelle corpo vigoroso e aquelle espirito energico.

A manhã estava sombria, o céo carregado e a chuva miúda, continua, persistente, sem vento que a agitasse, e ainda mais desesperadora por isso; porque um dia de inverno sem vento é como a tristeza sem a explosão das paixões, perde-se a esperança de o vêr terminar.

A sala em que D. Luiz passeiava era a menos confortavelmente mobilada de toda a casa; o alto fogão, que occupava o espaço das duas janellas, jazia apagado, frio, e conservando apenas, como memoria da vida que já o animára, as cinzas sem calor. O aspecto de um fogão apagado é triste; tem o que quer que seja de um cadaver. A tristeza da manhã e a tristeza da sala augmentavam evidentemente com a presença d'esse fogão. Por muito tempo apenas o som dos passos do fidalgo despertava os eccos d'aquellas altas e despidas paredes e tectos elevados.

De repente porém ouviu-se rumor á porta da entrada.

D. Luiz voltou para alli instinctivamente os olhos, sentindo que alguem a abria; e estremeceu, como se de improviso fosse ferido, ao vêr surgir detraz do reposteiro a figura de Thomé da Herdade.

O pae de Bertha vinha todo molhado, e parecia chegar de longa jornada. Trazia as faces mais afogueadas do que o costume, e os olhos mais brilhantes. Em cada gesto e em cada movimento denunciava uma funda agitação, que lhe não era habitual. Ao avistar D. Luiz, não pôde reter uma exclamação, como quem déra com o objecto que anciosamente procurava.

Vencida a turbação dos primeiros instantes, o senhor da Casa Mourisca fez uma cortezia muito grave ao recem-chegado, e dispôz-se para sahir da sala.

Thomé da Povoa não lh'o permittiu.

--Não, não, tenha paciencia, snr. D. Luiz, não se retira assim. Eu vim para lhe fallar e não me vou embora sem o fazer.

D. Luiz parou e respondeu friamente:

--Os negocios da minha casa tractam-se com o meu procurador. Eu não posso...

--Deixemo-nos d'isso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o procurador de v. exc.ª. Não foi elle quem me offendeu; não é a elle que devo dirigir-me.

--Ah! então vem aqui pedir-me satisfações?!

--Venho, sim, senhor.

--Tem graça!--observou o fidalgo, com um sorriso cheio de aristocratico sarcasmo.

--Então v. exc.ª acha que um homem que é insultado, não tem o direito de vir perguntar á pessoa que o insultou a razão por que o fez?

--E suppõe que eu já alguma vez me occupei a insultal-o?

--Supponho, sim, senhor; e supponho mais, supponho que v. exc.ª bem sabe quando e de que maneira me insultou. Porque era preciso não ter brios para imaginar que um homem de bem não se offenderia com acções, como as de v. exc.ª para commigo.

--Ora essa! commentou D. Luiz, voltando-lhe as costas e caminhando desdenhosamente para a janella.

Thomé da Povoa, a quem este movimento augmentou a excitação de que já estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso interlocutor.

O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo.

--Vem aqui decidido a alguma violencia, ao que parece.

A irritação de Thomé desvaneceu-se. O olhar de D. Luiz parecia avivar-lhe memorias do tempo, em que elle se costumára a obedecer-lhe e a temêl-o quasi.

A reflexão venceu esta timidez de instincto, comtudo foi menos aggressivo do que até ahi que elle respondeu:

--Não, snr. D. Luiz; venho aqui decidido a explicar-me. É preciso que fiquemos ambos sabendo o que um e outro somos. Não posso por mais tempo soffrer calado os desprezes e as desfeitas de v. exc.ª, sem perguntar qual o motivo que dei para ellas. Palavra de honra, snr. D. Luiz, que, por mais que me mate, não posso vêr em toda a minha vida uma só acção, uma unica, que me merecesse da parte de v. exc.ª este procedimento para commigo; não posso.

--Está sonhando, Thomé? Cuida que eu não tenho mais em que pensar do que em desfeiteal-o? Que mania se lhe metteu na cabeça!

--E que foi senão uma desfeita o que v. exc.ª me fez no outro dia, indo á porta da minha casa entregar nas mãos da minha propria filha as chaves do seu palacio, que deixou só por que eu havia adiantado ao snr. Jorge um pouco de dinheiro por um contracto honesto e leal? Que foi aquillo senão uma desfeita?

--Se não comprehende os motivos que me levaram áquelle passo, não sei que lhe faça. Nas familias, como a minha, ha certas regras tradicionaes de conducta que talvez pareçam estranhas a outras, educadas em habitos differentes, no que eu não tenho culpa....

--Entendo o que quer dizer, snr. D. Luiz. Foi acção de fidalgo a sua, e, por ser tal, eu, que nasci em palhas, não posso entendêl-a bem. Mas porque é que só commigo usa v. exc.ª das taes acções? Por acaso fui eu o primeiro que emprestei dinheiro aos senhores da Casa Mourisca? Quando o padre procurador de v. exc.ª andava por ahi batendo de porta em porta a levantar dinheiro, não para o empregar em melhoramentos que, mais anno menos anno, podéssem remir a divida, mas para o desperdiçar sem tom nem som, e obtinha esses capitaes a 10, 12 e 15 por cento; quando elle lavrava hypothecas e arrendamentos vergonhosos e a gente de má fé, que faziam d'elle o que queriam, o orgulho de v. exc.ª nunca o obrigou a sahir de sua casa, que se perdia n'esse andar, e a ir pôr as chaves d'ella nas mãos d'esses usurarios, que viviam á custa das tolices e dos desperdicios do padre; e agora então todo se espinhou por que eu, honestamente e sem má tenção, antes pelo muito amor que ainda tenho a esta familia e a estes meninos que trouxe ao collo, puz á disposição de um d'elles, que é hoje um rapaz de juizo, o dinheiro de que precisava para se ir livrando da usura, que o roía até os ossos, e emendar os erros da administração do padre! Só agora é que v. exc.ª se sente ferido na sua fidalguia e sahe da casa, em que vive ha tantos annos, clamando que já não é sua. Isto é collocar-me abaixo d'esses miseraveis, a quem me pejo de apertar a mão. O contracto feito entre mim e o filho de v. exc.ª é um contracto que não envergonha nem a mim nem a elle. Póde apparecer á luz do dia, e tenha a certeza de que não ha de haver muitos, mais de cavalheiros do que elle. Não dei dinheiro sem garantias, nem também o dei com usura. Nenhum de nós aceitou favor do outro. Então qual é a razão dos escrupulos de v. exc.ª?

--Vejo que está mais informado dos negocios de minha casa, do que eu proprio. Póde ser que eu devesse ha mais tempo fazer o que fiz. A culpa é da minha ignorancia. Quando porém tão publica foi a confissão da nossa baixeza, a minha dignidade obrigava-me a proceder como procedi.

--A dignidade... a dignidade... Perdoe-me o fidalgo, mas se quer que lhe falle a verdade, eu já não sei bem o que seja dignidade, quando vejo o que por ahi se faz á conta d'ella. Dignidade acho eu que a tem tido seu filho, trabalhando como um homem de bem, para desempenhar a sua casa, e confessando diante de todos os seus actos, que não o envergonham; dignidade teve elle, quando defendeu uma pobre rapariga das calumnias de uns miseraveis, que tambem se dizem fidalgos, e que tambem fallam muito na sua dignidade.

--Creio que é melhor não discutirmos. Os nossos principios são diversos, não podemos entender-nos.

--Não ha tal. Os nossos principios, aquelles que me levam a fallar, são os mesmos, são os de qualquer homem de bem. E eu prézo-me de o ser e v. exc.ª tambem o é. Havemos de entender-nos por força. N'isto até o homem e Deus se entendem, não é muito que v. exc.ª, por mais fidalgo que seja, se entenda commigo.

--Mas que quer a final? Não terei eu a liberdade de deixar a minha casa quando entender que me convem fazêl-o? Não serei o mais competente juiz das minhas acções?

--V. exc.ª sahiu de sua casa, declarando a todos porque era que o fazia; e já ahi o meu nome e a minha pessoa andaram envolvidos. Depois foi affligir a minha pobre Bertha, que nada sabe d'estas coisas, obrigando-a a aceitar as chaves da Casa Mourisca para m'as entregar, como se eu fosse um miseravel que tivesse sequer sonhado um dia em especular com a confiança que seu filho pôz em mim! As novidades correm depressa na aldeia e não falta gente para denegrir o caracter de um homem. Depois do passo que v. exc.ª deu, o que se não terá dito? Que eu andava sugando os ultimos restos de sangue da sua familia e abusando da boa fé e da pouca experiencia do seu filho, mas que o fidalgo me desmascarou a tempo! E se se disser isto, não sentirá v. exc.ª remorsos por ter dado azo a uma calumnia? Falle-me francamente, fidalgo, aqui diante de mim e de Deus que nos ouve, em sua consciencia e sob a sua palavra de honra, que sempre honrou, falle-me franco, snr. D. Luiz; em toda a minha vida, desde os tempos em que servi a sua casa até hoje, no meio dos meus trabalhos, das minhas felicidades e dos meus revezes, pratiquei já alguma acção que obrigue v. exc.ª a desconfiar de mim? Falle-me franco, snr. D. Luiz. Hoje mesmo, agora, n'este momento em que me vê e me escuta, crê, na sua consciencia, que está na presença de um miseravel?

D. Luiz respondeu sem hesitar e em tom grave e digno:

--Não, nunca o accusei, Thomé, e creio que é um homem trabalhador e honrado.

--Então para que ha de ter sómente para mim essa má vontade? Para que me ha de desprezar como se eu fosse um vil? a mim, que o servi fielmente, emquanto o servi, que então ganhei e conservei até hoje á sua familia um amor cá de dentro, como se ella me pertencesse, que chorei a sua pobre menina, aquelle anjo que Deus lhe levou, como choraria morta uma filha minha? Para que ha de ter só para este homem, que apenas bens deseja á sua casa, esses desprezes e essas afrontas? para este homem, que tem uma filha que lhe chama padrinho? E não quer que eu me sinta? Pois julga que não ha aqui dentro um coração? Ah! fidalgo, fidalgo, creia o que lhe digo, em cada um d'esses jornaleiros que passam o dia vergados a trabalhar nas propriedades de v. exc.ª, ha um coração de carne como o dos nobres; e emquanto elles trabalham, elle não pára de bater.

--Está inventando aggravos para se dar por aggravado. Nunca tive tenção de offendêl-o. N'estes ultimos tempos azedou-se-me um tanto o genio, e confesso que não me é demasiado agradavel a convivencia dos homens. Eis o motivo por que vivo retirado.

--Snr. D. Luiz, v. exc.ª não é franco. Não ha por essa aldeia quem não saiba que os filhos de v. exc.ª, se alguma vez se atrevem a procurar a Herdade em que eu vivo, correm o risco do desagrado do pae. Não sei quem é que em minha casa os póde corromper. V. exc.ª porém acha menos perigosa para elles a companhia dos fidalgos do Cruzeiro do que a minha. O snr. Jorge fez mal em arriscar-se a entrar n'aquella casa excommungada; mais seguro andou o snr. Mauricio frequentando a dos primos, apesar de..., perdoe-me a sua fidalguia, apesar de não serem mais do que uns bebedos, uns devassos e uns calumniadores.

--Está fora de si, Thomé--observou o fidalgo, que córou ao ouvir estas affrontas a uns parentes tão proximos, mas a quem não se sentia com animo de desaggravar.--Terminemos esta desagradavel conferencia. Que quer a final de mim?

--Restituir-lhe as chaves da sua casa, que me não servem para nada--respondeu Thomé, tirando do bolso o molho de chaves, que Bertha recebêra do fidalgo.

D. Luiz com um gesto desviou de si as chaves que o fazendeiro lhe offerecia.

--É inutil insistir. A minha resolução está formada.

--Mas é uma resolução disparatada; perdoe-me dizer-lh'o, fidalgo, uma resolução sem valor algum, sem significação perante a lei, sem effeito senão o de affrontar-me.

--Eu já lhe disse que nós temos umas leis especiaes por que nos regulamos.

--Então se v. exc.ª entende que deve pôr nas mãos dos seus credores as chaves de sua casa, é preciso saber quem tem mais direito a ellas. Na lista não está só escripto o meu nome. Deite v. exc.ª pregão para saber quem deve ser o depositario d'isso, que eu por mim sou o menos habilitado.

E Thomé da Povoa arrojou sobre a mesa as chaves, com irritação crescente.

D. Luiz fitou-o por momentos com um olhar de cólera, que aquelle movimento desafiára, mas conseguiu dominar-se, e respondeu com firmeza:

--Leve comsigo as chaves, Thomé! A minha dignidade não me consente ficar com ellas. Fiz um protesto, hei de cumpril-o. Se os meus credores são muitos, seja o representante d'elles todos. Em poucos posso depositar mais confiança.

--Muito agradecido pela confiança que mostra.... Olhe, fidalgo, quer que lhe diga o que tudo isto significa? quer que lhe diga o que penso d'este maior rigor commigo? Pois ouça. Cada qual tem os seus defeitos; o meu é o da franqueza. A razão de tudo isto está no grande orgulho de v. exc.ª. É o que eu lhe digo.

--Póde ser; o orgulho é o defeito de certa classe....

--Pois não lh'o invejo, nem lh'o gabo. Orgulho entendo eu que se deve ter de certa maneira; d'essa não, que não é nobre. V. exc.ª préza muito o nome de sua familia, deve então trabalhar honestamente para o conservar illustre. Mas não receie que lhe possa fazer sombra a casa do seu antigo criado, ainda que em cada anno elle levante um sobrado e metta mais um campo dentro dos muros da quinta. O valle que nos separa é muito largo, fidalgo; e ainda quando o sol se esconde, a sombra da minha chaminé não chega nem sequer ao principio dos dominios de v. exc.ª. Deixe-me pois crescer, snr. D. Luiz, e não me leve a mal o trabalhar para ganhar para meus filhos pão, que não lhes falte para o futuro.