Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 17
--Depois do que se passou, não quero demorar-me n'esta casa uma só noite. Peco-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me não engano, tencionava partir ámanhã para lá. Não é verdade? Pois bem, faça o sacrifício de partir hoje e permitta-me que a acompanhe. Um quarto e uma enxerga bastam-me. Preciso de me ir costumando a tudo.
A baroneza ficou por alguns momentos muda de surpreza.
--Mas... Por quem é, meu tio... Grande prazer me dará a sua visita... porém em outras circumstancias e por outros motivos. Não tome resolução alguma emquanto assim está dominado pela paixão. Veja o que vae fazer! O que se dirá? O que se fallará por toda a parte!
--Já de sobra teem em que fallar. A vergonha não é maior--tornou o velho mais agitado.
--Pois sim--acudiu o padre--mas reunir a vergonha ao incommodo... a fallar a verdade... é... é...
--A vergonha... a vergonha... Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e despreoccupado de paixões, os actos de seu filho? Quem lhe diz que outros não chamarão virtude áquillo a que chama baixeza?
A cólera relampagueou de novo nos olhos do velho:
--Gabriella, por quem é, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me não demove da resolução em que estou e que sómente me afflige. Se não quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta.
Gabriella não insistiu.
--A minha casa é sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para partirmos.
--Não esperem por mim--recommendou ainda o fidalgo--eu irei com frei Januario mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incommodo que isto lhe vae causar, Gabriella. Mas os criados ficarão na estalagem da Encruzilhada.
--Todos cabem; visto que tambem os quer levar, escusam de ficar a meio caminho. Então fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo? Muito bem. A casa de meu pae é bastante espaçosa, e com os arranjos que eu mandei fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para nós todos. Agora um pedido.
--Qual é?
--Jorge está consternado, pelas suas asperas palavras ao jantar. Não ha de reconciliar-se com elle?
--Gabriella, se é amiga de Jorge, não procure trazêl-o á minha presença, e se quer que isto que sinto cá dentro contra meu filho não cresça ou degenere em paixão peior, não pronuncie diante de mim por ora o nome d'elle.
Gabriella tinha certo dom para conhecer quando convinha luctar e quando era preferivel ceder. D'esta vez percebeu que o animo de D. Luiz não estava para acalmar de prompto.
Sahiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os preparativos da partida.
Ao passar na sala onde ainda estavam Jorge e Mauricio, apenas lhes disse:
--Tracta-se de partir já.
--Para onde?
--Para a minha casa, nos Bacellos.
--E meu pae?
--Tudo parte. É uma emigração completa.
--E a Casa Mourisca?...
--Fechada, ao que parece, até... acabar o interdicto.
--Mas isso não póde ser!
--Mas é, e eu vou já dar ordens precisas para a mudança.
--E eu vou fallar com meu pae--exclamou Jorge, erguendo-se.
A baroneza reteve-o.
--Não vás. É inutil e perigoso. Deixa que os factos succedam naturalmente. Eu já estou convencida de que esse é o melhor expediente. É preciso que teu pae desafogue a paixão que lá tem dentro. Entende que deve sahir d'aqui, deixemol-o sahir. Estas exterioridades acalmam-n'o. Depois lhe apparecerás.
--Então agora recusa vêr-me?
--Recusa. O que não tira que não possas estar muito á tua vontade na minha casa dos Bacellos. Ha lá um pavilhão na quinta, ao talhar para um refugiado como tu.
Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em movimento para a quinta dos Bacellos.
Os preparativos não occuparam muito tempo, porque o fidalgo mandára apenas levar o que fosse estrictamente necessario.
A baroneza veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o ultimo a sahir de casa.
Jorge e Mauricio partiram em companhia de Gabriella.
O fidalgo ficou só com frei Januario, que continuava a protestar por todas as fórmas contra a resolução da mudança de quartel a horas improprias.
D. Luiz nem lhe respondia.
Quando o procurador, a fim de suavisar as agruras do desterro, pretendia fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor accommodação da familia, o fidalgo ordenava-lhe sêcamente que o deixasse ficar, o que cada vez mais exasperava o padre.
Vendo que tudo estava prompto, D. Luiz deixou por alguns instantes o procurador na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos antigos aposentos da filha que perdêra.
Ao penetrar alli, que doloroso estremecer o do coração do velho! Ia desamparar tambem aquelle quarto! Esta ideia só poderia fazer vacillar-lhe a inabalavel coragem! Era um logar de reconhecimento aquelle para o desconfortado ancião. Tudo alli dentro se conservava como no fatal dia em que ella morrêra. Todos os objectos que haviam pertencido á infeliz criança alli se guardavam religiosamente. E ia deixal-os! O leito, o genuflexorio, o toucador, a harpa, parecia possuirem uma voz para fallar-lhe d'ella. E havia de fugir-lhes! A coragem porém não sossobrou na lucta. D. Luiz fechou discretamente a porta para si; depois com fervorosa commoção beijou quasi um por um esses differentes objectos, e ao chegar junto do leito, o mesmo em que a vira adormecer do ultimo somno, ajoelhou soluçando, e cobriu de beijos e de lagrimas as almofadas onde tantas vezes se encostára a pallida cabeça da sua Beatriz.
Mais tranquillo depois d'esta effusão de dôr, ergueu-se, enxugou os olhos e desceu com a mesma lentidão as escadas até o portal, onde o padre o esperava já com impaciencia e inquieto pelo adiantado da hora.
Um criado segurava pela redea os cavallos, que deviam transportal-os.
--Vamos, vamos, snr. D. Luiz, olhe que nos apanha a noite na estrada e os caminhos não são lá essas coisas--exclamou o padre afflicto.
D. Luiz, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os cavallos:
--Vae esperar-nos na baixa do Paul. Nós já lá vamos ter.
--Então v. exc.ª quer ir a pé até á baixa do Paul?!--perguntou o padre assustado.
--Vou?
--Mas... é um estirão e....
--Então que fazes? Parte--disse D. Luiz com impaciencia para o criado, e este obedeceu-lhe promptamente.
O padre ficou a resmonear:
--Eu cada vez ando mais ás aranhas com a gente d'esta casa. Sempre tenho visto e ouvido coisas ha tempos a esta parte! Olhem que preparos estes! Havemos de ceiar a boas horas, não tem duvida nenhuma!
--Agora feche a porta, frei Januario--ordenou D. Luiz.
O padre tomou com ambas as mãos a enorme chave do portão, e fêl-a girar na fechadura.
Este movimento produziu um som agudo, similhante ao gemido de uma ave, o qual resoou tristemente pelo interior d'aquella casa deserta.
O padre tirou a chave, que juntou ao mólho que trazia, deu um encontrão á porta, para verificar se ella estaria bem fechada, e depois olhou para D. Luiz.
--Vamos--disse este.
O padre ia pôr-se a caminho, mas parou vendo o fidalgo seguir a direcção opposta á da quinta dos Bacellos.
--V. exc.ª por onde vae?
--Por aqui--respondeu sêcamente o fidalgo, continuando a andar.
--Mas... v. exc.ª está enganado. Esse não é o caminho.
--Bem sei.
O padre seguiu-o, murmurando contra as venêtas do fidalgo:
--Esta cabeça já não regula direita. Onde diabo quer ir este homem?
O caminho que D. Luiz continuava a seguir, ia tão divergente do que o padre esperava, que outra vez o interpellou:
--Mas v. exc.ª onde quer ir?
--A casa do Thomé da Povoa--respondeu D. Luiz e acrescentou:--E advirto-lhe, frei Januario, que não me sinto com disposições para conversar.
O padre sabia que sempre que D. Luiz fazia certas observações em certo tom e com certa inflexão de voz, era inutil e imprudente contrarial-o. Por isso calou-se, o que augmentou o mau humor que já trazia accumulado.
--A casa do Thomé da Povoa!--resmungava elle--O homem está doido! Ora isto! E eu a atural-o! O que me estava reservado!
A intenção com que o fidalgo demandava a casa do fazendeiro era um mysterio indecifravel para o espirito do procurador.
Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca. Aproximavam-se da ponte que atravessava o valle. A tarde ia no fim. Era já a claridade do crepusculo que illuminava a paisagem. A azafama do trabalho acalmára. Nos marcos dos campos, á soleira das portas e nos parapeitos das pontes repoisavam finalmente os lavradores das fadigas do dia. O gado caminhava para as prêsas, conduzido por crianças de seis e sete annos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, timido como elle é, ao aproximar do outomno e ao aproximar da noite. Era tal a serenidade da tarde, que se percebia o sino de uma freguezia distante, dobrando a finados.
A suave melancolia d'aquella hora influiu no animo de D. Luiz. Que densidade de tristeza a que poisou n'aquelle coração! Saudades, mas saudades escuras de velhice, saudades de quem não tem futuro, era o que havia n'aquella alma. Com o passado lhe tinham ido todos os objectos das suas crenças, do seu amor, das suas affeições. Já não era capaz de enthusiasmo, e os olhos em que o enthusiasmo não influe, vêem tristemente coloridas todas as scenas da vida. Ao desencantamento do presente juntavam-se as apprehensões pelo futuro a entenebrecer-lhe o espirito. Era devéras infeliz aquelle velho!
Depois da ponte seguia-se a collina, onde prosperava a Herdade de Thomé.
D. Luiz reuniu alento para subil-a.
O padre aventurou outra observação:
--Snr. D. Luiz, eu não atino com as razões que trazem v. exc.ª aqui, mas não vejo que possa resultar bem algum de similhante visita. Veja o que faz! A prudencia...
--Socegue, frei Januario--atalhou D. Luiz com um sorriso amargo.--Não imagine que venho praticar alguma violencia. Já lá vae o tempo em que nós resolvíamos á força de braço os nossos pleitos. A nossa vez passou, bem vê.
O padre conheceu pelo tom da resposta que o fidalgo estava já mais quebrado, mas ainda pouco disposto para explicar-se.
Para se chegar á casa de Thomé da Povoa por o lado por onde D. Luiz seguia, tinha-se de tomar por uma avenida de olmeiros, orlada por sebes naturaes formadas de madresilvas e de rozeiras. No fim d'esta avenida ficava uma das entradas da quinta do fazendeiro, era a parte que elle cedêra ás predilecções da filha e da mulher, e onde as balsaminas, os limonetes e hortensias cresciam vigorosas, e a relva rescendia com as violetas e malvas que a entremeiavam.
D. Luiz desceu lentamente a avenida, com os olhos fitos no portão da quinta.
--É aquella uma das entradas da propriedade, não é?--perguntou elle ao padre.
--É, sim, senhor. Repare v. exc.ª que é um portão de quinta nobre. Falta-lhe o brazão.
O fidalgo calou-se e não tirou os olhos do portão da quinta, da qual se ia avisinhando. Passados alguns instantes respondeu á observação do procurador, dizendo:
--Dentro de alguns annos mais póde comprar barato o da Casa Mourisca. Os meus filhos não serão exigentes no preço.
O padre não soube bem o que devia dizer n'este caso. Limitou-se por isso a expellir um simples «Oh!» sem entonação que o definisse.
Chegaram emfim ao portão. D. Luiz ordenou ao padre que tocasse a sineta.
Este ia a fazêl-o, quando se voltou dizendo:
--Anda gente cá dentro.
D. Luiz não foi superior a certo sobresalto ao ouvir a noticia; vencendo-se, porém, caminhou resoluto e com a fronte contrahida para diante. De repente estremeceu, parou, e comprimindo o peito como se fora ferido alli, murmurou:
--Ó Sancto Deus!
--Que tem v. exc.ª?--interrogou inquieto o padre, que reparára no gesto de D. Luiz--Foi pontada?! Estes passeios violentos e fóra d'horas...
O fidalgo não respondeu e continuou com os olhos fitos em não sei que ponto do interior da quinta.
Frei Januario desviou para alli a vista, a fim de elucidar-se na explicação do mysterio.
Chegava n'este momento ao portão uma rapariga, singelamente vestida de branco, que correu ao encontro d'elles.
Era Bertha.
--O meu padrinho!--exclamava ella dirigindo-se ao fidalgo--O snr. D. Luiz! Até que emfim o vejo! Julguei que não chegava este dia!
E pegando-lhe na mão, beijou-a com respeito e affecto.
E D. Luiz não lh'a retirou, nem teve uma palavra que lhe dissesse. Continuava a olhal-a, como esquecido de tudo e profundamente perturbado.
O padre observava a scena boquiaberto.
--Ha que tempos o não via!--proseguiu Bertha com uma carinhosa volubilidade de criança--Pois tinha bem saudades! Quantas vezes olhava para aquellas janellas, a vêr se por acaso o descobria em alguma? Mas nunca, nunca! Que vontade que tinha de lá ir, mas... Disseram-nae que o padrinho nunca sahia, e que vivia quasi sempre só no seu quarto. Para que é que vive assim? Isso faz-lhe mal. Mas... que tem, snr. D. Luiz? Meu Deus... está a chorar!
O padre deu um passo á frente, como duvidando do que ouvira.
D. Luiz afastou-o com a mão.
--É verdade--disse elle a final, profundamente commovido.--É singular isto em mim! Mas que quer, Bertha? Quando aqui cheguei e a vi...
--Não me tracta já por tu?--interrompeu-o Bertha, sorrindo tristemente.
O fidalgo, depois de uma curta hesitação, repetiu:
--Quando aqui cheguei e te vi, lembrei-me da minha pobre Beatriz. Parecias-me ella. Ella era mais moça quando morreu, mas ultimamente tinha deitado corpo e... depois trazia ás vezes um vestido d'essa côr, e emfim... ha tanto tempo que não via uma rapariga que se lhe assimilhasse... Sim, porque ha muitas por ahi, mas nenhuma ainda m'a recordou como tu. É notável! a mesma côr de cabello, a mesma estatura, certas maneiras e até o metal de voz... Não é verdade, frei Januario? É notavel! A minha pobre filha! Como tu m'a recordas, Bertha, ai, como tu m'a recordas!
--Não se afflija.
--«Não se afflija» era mesmo assim que ella me dizia; não que era mesmo assim. Pois não era, frei Januario? «Não se afflija.» Se tu soubesses o que eu estou sentindo, Bertha? se tu soubesses o que vão de saudades aqui dentro?
--Então não sei? Não era eu amiga de Beatriz tambem? O tempo mais feliz da minha vida não foi aquelle em que a conheci? Inda hontem chorei ao reler as cartas que ella me escrevia.
--E ella escrevia-te?
--A ultima que tenho d'ella é datada de oito dias antes da sua morte.
--Pobre criança! E... e dizia-te que sabia o estado em que estava?
--Dizia; mas que fingia illudir-se para não affligir os seus.
--E era assim, era. Nunca se ouviu uma queixa d'aquella bôca. Morreu a sorrir o pobre anjo.
E o saudoso pae quasi soluçava ao avivar aquella permanente chaga do seu coração.
--Snr. D. Luiz--acudiu frei Januario--olhe que lhe faz mal estar a recordar essas coisas. O passado, passado. A noite está comnosco e...
--É verdade!--atalhou Bertha--e eu a demoral-o aqui! Faça favor de entrar, meu padrinho, a mãe anda lá para a quinta. Meu pae está para a cidade e julgo que só ámanhã virá, mas....
Estas palavras recordaram a D. Luiz o motivo que o trouxera alli. Chamaram-n'o á realidade de sua presente situação, afugentando as memorias do passado, melancolicas, mas suaves para o seu espirito.
Mudou immediatamente de expressão, as lagrimas como que se lhe secaram aos estos da paixão que crescia n'elle. Ergueu a cabeça que a tristeza curvára. Assumiu aquella apparencia magestosa que costumava apresentar aos olhos dos estranhos, e em tom não rispido, porém menos cordial do que até alli, disse para Bertha, que era agora para elle a filha de Thomé da Povoa e já não a companheira de Beatriz:
--Bertha, ia-me esquecendo o que me trouxe aqui. O coração domina-me ainda ás vezes. Mas a crise passou. Vinha procurar teu pae. Visto que não o encontro, peço-te que lhe transmitias o meu recado. Soube hoje que um de meus filhos havia recebido d'elle adiantamentos de dinheiro a titulo de emprestimo para melhorar a nossa propriedade, e isto sem garantia alguma. Não sei a quanto monta a somma recebida, mas em todo o caso não posso aceitar o emprestimo... ou a esmola. A divida ha de ser paga em breve tempo; mas, emquanto não o fôr, deixo em penhor de minha palavra aquella casa, que hoje mesmo abandono, e tudo que n'ella se contém. As chaves aqui ficam. Virei a seu tempo buscal-as.
E, fazendo signal ao procurador, tomou as chaves das mãos d'este, que continuava a estar abysmado, e entregou-as a Bertha.
A estupefacção da rapariga era tal, que machinalmente as recebeu, sem bem saber o que fazia.
--Parece-me que será bastante garantia--acrescentou D. Luiz.--Se eu não sou victima de uma perseguição do céo, espero resgatal-as ainda. Senão... Adeus, Bertha.
--Mas--pôde emfim dizer a filha de Thomé, sahindo da sua abstracção--isto não póde ser! Eu... nem sei o que estou fazendo. Por quem é, padrinho, meu pae não póde querer....
--Não te pertence julgar d'estes negocios, Bertha. Faze o que te digo.
--Deixar a Casa Mourisca! a casa em que tem vivido sempre, onde nasceu e morreu Beatriz! E porque?... Que somos nós para si então, padrinho?
O fidalgo tornou-se de novo sombrio ao responder:
--Bertha, quando a minha consciencia me impõe um acto na vida, é inutil tentar demover-me.
--A consciencia!--repetiu Bertha, timidamente, como exprimindo uma duvida.
--Se queres tambem chamar a isto um preconceito de classe, como já lhe chamou um de meus filhos, chama-lh'o embora. Em todo o caso obedeço-lhe e de obedecer-lhe me orgulho.
E o fidalgo ia para retirar-se, quando Bertha lhe disse, hesitando:
--E não me consente que lhe beije outra vez a mão?
O animo irritado do senhor da Casa Mourisca abrandou outra vez ao som d'aquellas palavras meigas. D. Luiz estendeu a mão a Bertha, que lh'a beijou chorando.
Ao sentir-lhe as lagrimas o fidalgo ergueu-lhe amigavelmente a cabeça, perguntando-lhe:
--Porque choras, Bertha?
--Porque sinto que já não me tem a amizade que d'antes me tinha.
--Criança--disse o fidalgo com uma brandura que havia muito tempo ninguem conhecêra n'elle--que tens tu com as paixões áridas das nossas almas de homens? Os entes como tu e como aquelle que eu perdi, nasceram para as dissipar e não para soffrel-as.
E cedendo á commoção que de novo a dominava, o severo e implacavel D. Luiz, com admiração crescente de frei Januario, apertou a afilhada nos braços e poisou-lhe na fronte um beijo, como os que dava em Beatriz.
E ao separar-se d'aquelle logar ia outra vez com as lagrimas nos olhos.
Ao fim da avenida, d'onde se avistava o portão, voltou-se. Bertha permanecia no mesmo sitio, a seguil-o com a vista.
--Repare, frei Januario, repare; a quem vê d'aqui, a distancia, não parece mesmo a minha Beatriz, quando nos esperava á porta da Casa Mourisca?
--Sim, as raparigas ao longe todas se parecem; mas olhe que é noite fechada, snr. D. Luiz.
--Jesus! e agora a dizer-me adeus!--continuava D. Luiz, dizendo adeus tambem--é mesmo aquelle anjo que eu perdi. Fujamos, fujamos d'estes sitios, que tenho medo de enlouquecer.
--E até porque é noite fechada--acrescentou o padre.--Valha-nos Deus!
Depois de longo tracto de caminho andado em silencio, D. Luiz parou, e levantando os olhos ao céo, exclamou com paixão:
--Que tremendas culpas estou eu expiando, meu Deus! Porque me roubas tudo, para tudo dares áquelle homem?! Até a filha! até a suave consolação d'aquelle amor de filha, que eu perdi, até esse elle possue! Que tremendo castigo, Senhor!
D'ahi até o termo da jornada, na quinta dos Bacellos, não tornou a pronunciar uma só palavra.
Quando lá chegaram ia a noite adiantada; e já havia desassocego pela demora dos dois.
O padre procurador estava furioso. Dizia elle completamente desconcertado:
--Uma estafa assim depois de um jantar lauto! Esta gente não tem consciencia! Deus queira que não me venha por ahi alguma apoplexia! Os filhos são doidos, o pae está pateta, e eu que os ature!
E correu á cozinha a vêr se havia alguma coisa quente que o confortasse.
XVIII
O antigo solar da familia da baroneza, chamado a Casa dos Bacellos, como que ao despertar de um somno de muitos annos, abrira á luz do dia as suas amplas janellas, reacendêra o fogo nos lares apagados, e restaurára o movimento e a vida nos aposentos vazios.
Era a primeira vez, depois do seu casamento, que a baroneza voltava aos sitios onde lhe corrêra a infancia, cujas suaves memorias ainda os povoavam. Ao vêr de novo aquellas velhas paredes e aquellas arvores frondosas, ao seguir pelos extensos corredores, ao penetrar nas espaçosas salas e nos mais retirados gabinetes da casa, Gabriella, ainda que pouco propensa a melancolias, não pôde subtrahir o espirito a uma impressão de saudade.
Vestigios mal apagados d'aquelle tempo longinquo a cada passo lh'o relembravam; alli fôra o theatro dos seus brinquedos e jogos, além estava um objecto ao qual se prendia a reminiscencia de uma provação infantil, aquelle era o logar favorito de seu pae, acolá desenhava-lhe vagamente a sua recordação a imagem da mãe, que perdêra em criança, e dominada por esta influencia, Gabriella suspirava e conhecia que ainda não morrêra de todo em si o coração provinciano.
Mas uma tal disposição de espirito não podia durar muito. A baroneza era uma mulher de acção, e não se esquecia de que tinha muito em que pensar e que fazer em virtude dos acontecimentos ultimos da Casa Mourisca.
Não eram sómente as canceiras de dona de casa, que deseja accommodar convenientemente os seus hospedes, que a preoccupavam, mas tambem, e mais ainda, o desejo de restituir áquella familia a harmonia tão inesperadamente interrompida e de reconciliar o irritado fidalgo com o filho, que pelo seu nobre proceder incorrêra no desagrado do velho. Gabriella tomava devéras a peito esta pacificadora empreza; mas para isso era ainda cêdo. A paixão ensurdecia ainda muito D. Luiz, para que lhe fosse possivel escutar conselhos.
Na manhã immediata á noite da installação solemne da familia de D. Luiz na casa dos Bacellos, Gabriella foi procurar Jorge ao pavilhão no fundo da quinta, onde elle desde a vespera se alojára, longe dos olhares paternos.
A baroneza tinha sabido de frei Januario tudo o que se passára entre D. Luiz e Bertha á porta da quinta de Thomé, e desejava fallar n'isto ao primo.
Jorge recebeu-a com umas apparencias de serenidade, que não eram de todo sinceras.
--E meu pae?--foi a primeira pergunta de Jorge, depois das palavras de comprimento.
--Um pouco menos affrontado, depois que realisou uma ideia cavalheirosa e vindicou, como entendeu, a sua dignidade aristocratica.
--Pois que fez elle?
--Foi entregar pessoalmente as chaves da Casa Mourisca nas mãos do Thomé da Povoa. O frei Januario contou-me tudo. A aristocracia é assim em toda a parte. Tem a cabeça cheia de tradições da idade media e por ellas se regula. Procura sempre dar ás suas acções uma feição dramatica, e sempre que o consegue, sahe desopprimida de qualquer situação apertada.
--E Thomé aceitou-as?
--O Thomé não estava em casa. A entrevista teve logar á porta da Herdade entre o tio Luiz e Bertha, a heroina de toda esta historia, e a proposito....
--Perdão, mas... o que se passou n'essa entrevista?
--Pelo que me disse o padre, correu muito sentimental ao principio. A vista de Bertha recordou ao tio a imagem de Beatriz e commoveu-o a ponto de chorar. A rapariga parece que lhe disse algumas coisas ternas, que acabaram de o sensibilisar; abençoou-a, beijou-a e quasi se ia esquecendo do que o levára alli, mas de repente recordou-se e fez a entrega das chaves com uma gravidade igual á de Martim de Freitas, cuja vaga recordação foi o que provavelmente lhe suggeriu a ideia da scena. Tu sorris? Olha que é o que te digo. Eu conheço os achaques d'estes nobres. Os mais serios e ajuizados são perdidos por umas coisas assim. Se em uma occasião de crise tiverem um dito sentencioso, uma acção, um gesto dramatico d'estes que se tornam proverbiaes, ficam muito satisfeitos e resignam-se ás consequencias da crise. O certo é que as chaves lá ficaram.
--Thomé por certo lh'as restitue.