Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 16
N'este tempo a porta da sala abriu-se e D. Luiz appareceu aos seus hospedes vestido com aquelle esmero e gravidade, que sabia guardar em todos os actos da vida.
O fidalgo não tivera pressa em apresentar-se na sala.
Fizera-se substituir por Jorge na solemnidade da recepção e na da apresentação de Gabriella a todos os primos, que ainda não a conhecessem.
Frei Januario explicára a ausencia do fidalgo, attribuindo-a a incommodos habituaes, que sómente mais tarde lhe permittiam sahir dos aposentos.
A verdade, porém, era que D. Luiz desejava encurtar, quanto lhe fosse possivel, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes n'aquelle dia dedicado aos deveres de hospitalidade.
Produziu alvoroço na sala a entrada de D. Luiz.
Todos correram a comprimental-o com aquella deferencia, que a indole séria e melancolica do fidalgo e a evidente superioridade da sua intelligencia e educação a todos impunha.
--Como vaes tu, D. Luiz?--disse, apertando-lhe a mão um ex-coronel de milicias, que havia acabado, pouco tempo antes, de ameaçar com a espada que tinha em casa na gaveta todas as constituições do mundo.
--Graças a Deus que déste signal de vida, homem!
--O primo D. Luiz devia procurar mais distracções--acudiu a vigesima descendente de um dos guerreiros de Ourique.
--Ainda bem que a priminha Gabriella o veio tirar do seu lethargo--acrescentou outra, ramo infructifero de arvore igualmente illustre.
O titulo de baroneza raros o concediam a Gabriella, porque era de origem suspeita para aquelles pechosos aristocratas.
D. Luiz respondeu com um forçado sorriso aos comprimentos, dizendo:
--Devem procurar-se as distracções, quando o espirito não se dá bem com as ideias tristes. Mas isso não succede commigo. Já não posso viver sem esta escura companhia dos meus pensamentos. O esforço para fugir-lhe mais me afflige.
--Ora essa! Sentir-se um homem bem com a tristeza! Ora essa!--estranhou o ex-miliciano.
--São contradicções apparentes--disse Gabriella para o tio.--As saudades teem d'isso. Por isso lhes chamaram «gosto amargo e pungir delicioso.»
--Quem é que lhes chama isso?--perguntou uma fidalga de oculos, um pouco sentimental e litterata, que estava ao pé de Gabriella.
--Foi Almeida Garrett--respondeu esta, sorrindo, como quem suspeitava que não ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante.
Effectivamente a historia litteraria de Portugal parára para ella em José Agostinho de Macedo.
--Almeida Garrett!!--repetiu um dos mais intractaveis realistas presentes que ouvira a resposta--eu conheci um d'esse nome, que era secretario ou coisa assim do duque de Palmella n'aquelles bons governos do Porto em 1834, isso era um liberalengo dos quatro costados.
Na linguagem pittoresca d'este sujeito, a palavra liberalengo era a mais eloquente expressão com que s. exc.ª conseguia traduzir todo o desprezo que lhe mereciam as ideias e os homens de 1820 e 1832.
--E perdeu-o de vista depois?--inquiriu Gabriella com leve ironia.
--Sim, perdi. Eu conheci-o por acaso.
--Então não o conheceu orador no parlamento, ministro, poeta, prosador e chefe de uma revolução litteraria?
O fidalgo abriu os olhos, prolongou os labios e sacudiu a cabeça, dizendo:
--Olhe, prima; eu, a respeito de parlamento.... Temos conversado; não sei se me entende. De ministros tambem não quero saber, porque tenho receio de que me digam que nos governa o filho do meu sapateiro. Agora a respeito de poetas... se quer tambem que lhe diga, eu nunca tive quéda para sonetos. Lá chefe de revolução estou convencido de que elle seria, porque para guerrilheiro estava talhado.
A baroneza deu muita razão a este seu primo e foi para um grupo de raparigas, que passaram a interrogal-a sobre a ultima moda do talho dos vestidos.
Annunciou-se emfim o jantar. Houve geral reboliço na sala, e a companhia seguiu mais ou menos anarchicamente para o banquete.
Frei Januario tinha meditado maduramente a ordem de collocação dos diversos convivas, segundo as regras da etiqueta em que elle era mestre. E como n'este ponto ninguem lhe contrariasse os planos, havia-se sahido muito á sua vontade da tarefa.
Assumindo pois as funcções de mestre de ceremonias, começou a designar a cada convidado o logar que lhe competia.
Infelizmente, porém, nem todos foram doceis ás indicações do padre, e sobre tudo os rapazes que, sem lhe darem attenção, iam sentar-se onde muito bem queriam, e ao pé quasi sempre de alguma prima, que não desgostava da visinhança.
Isto transtornou completamente os estudos do padre, que tivera mais que tudo era vista a separação dos sexos e das idades; mas debalde protestou contra a anarchia que invadira a mesa.
Quem, porém, acabou por o perturbar foi D. Luiz, quando do alto da mesa e com a hospitaleira cordialidade, que conseguiu affectar, exclamou:
--Queiram sentar-se á vontade. É bom que os velhos se misturem com os moços para temperar os ardores da juventude com a prudencia dos annos. Outras desigualdades não ha aqui a attender.
Esta ultima parte fez torcer o nariz a um ou outro fidalgo que tinha motivos para se suppôr mais preclaro do que os primos, mas não houve protesto formulado, e todos obedeceram ao convite do dono da casa.
O padre esteve em risco de perder o appetite.
Valeu-lhe porém a judiciosa reflexão que lhe fez ao ouvido o collega, dizendo:
--Sentemo-nos, que bom logar é todo aquelle onde se come bem.
Jorge ficou aos pés da mesa e portanto fronteiro ao pae.
Os primos do Cruzeiro, um de cada lado da mesa e perto da cabeceira, continuavam a sorrir provocadoramente e a fazer rir os outros.
Ao passar perto de Jorge, para tomar logar, a baroneza murmurou-lhe:
--Falla-se muito de ti, Jorge.
Jorge fez um signal de quem estava informado do facto, e respondeu sorrindo de uma maneira especial:
--Talvez se falle mais e mais alto d'aqui a pouco.
O jantar não desdizia do puritanismo d'aquella sociedade.
Era um jantar á portugueza e digno de portuguezes, que não querem: _nostrum regnum ire fore de Portucalensibus_.
A Casa Mourisca, bem explorada, ainda deu para ostentar um esplendor, que se nada era em comparação com o dos magnificos festins, que em tempos passados a animaram, não envergonhava o seu brazão perante os fidalgos presentes que, pela maior parte, o tinham tanto ou mais deteriorado.
Os criados suppriram com diligencia o numero, de modo que o serviço correu regular.
Emquanto se servia a sôpa e não se havia encetado as libações, reinou na sala aquelle silencio momentaneo, proprio da occasião.
Só se ouve o tocar das colheres nos pratos, e o sôrvo mais ruidoso de alguns convivas, que se não constrangem. O appetite satisfaz-se, dão-se tregoas ás conversas. Depois retiram-se os primeiros pratos, enchem-se os copos, repousam os commensaes, e de visinho para visinho trava-se a meia voz um dialogo cortado, sobre assumptos insignificantes. Depois o tinir das louças e dos crystaes, o vapor oloroso das iguarias, os effeitos excitantes dos vinhos animam o espirito; o tom das conversas eleva-se, o visinho fronteiro intervem, cresce a confusão, os risos misturam-se com as palavras, a timidez dissipa-se, cada qual sente-se com um arrojo que desconhece, vencem-se reservas e resistencias que pareciam insuperaveis, reina a vida na sala do banquete.
Por estas diversas e successivas phases passou o jantar em casa de D. Luiz. No meio d'elle, berrava-se politica alli, jogavam-se epigrammas acolá, segredavam-se requebros em outro ponto, e dava-se largas á maledicencia em quasi todos.
Jorge conservava-se serio e reservado, como estivera toda a manhã.
Mauricio fazia esforços para mostrar-se despreoccupado, porém mal o conseguia.
Para o fim do jantar percebia-se pelo tom de algumas risadas e pelo theor de algumas conversas, que os restos da garrafeira da Casa Mourisca não tinham desmentido os seus antigos creditos, firmados em tantas façanhas.
Os primos do Cruzeiro sobre todos fallavam em um tom de voz, que mais do que uma vez attrahira as geraes attenções e fizera contrahir o sobr'olho a D. Luiz.
A cada momento as allusões a Jorge, que elles entremeiavam nos seus informes discursos, tinham obrigado a maioria dos olhares a convergirem para o filho mais velho de D. Luiz, que os arrostava com uma serenidade desprezadora.
Encetaram-se os brindes. Brindou-se a baroneza, brindaram-se na pessoa dos seus chefes as familias illustres alli presentes, brindaram-se os caudilhos do partido realista, brindou-se em honra da sancta causa, em honra da imprensa fiel, em honra das velhas instituições, em honra do throno e do altar e de muitas outras coisas.
Frei Januario, para mostrar o seu fervor, esgotava o calix a cada brinde, e aproveitava os intervallos para fazer com os collegas, a meia voz, os seus brindes particulares.
Já quando os animos estavam um pouco excitados por estas successivas libações, o primo padre levantou-se, e com os olhos injectados e o gesto um tanto transtornado, disse:
--Meus senhores, tenho notado que o primo Jorge está com um ataque de melancolia, de que não póde livrar-se. Os brindes que aqui se teem feito ainda o não desanuviaram. É verdade que se brindaram familias antigas e coisas velhas, e o passado não é lá das ideias mais alegres. Eu por isso vou propôr um brinde menos soturno, a vêr se o distraio. Bebo á saude do Thomé da Herdade e da sua familia, com particular menção da menina Bertha, a quem Deus faça muito feliz, assim como a todos quantos lhe querem bem.
Este inesperado brinde produziu grande sensação. A parte moça da companhia, prevenida como estava, principiou a suffocar os risos e a fallar ao ouvido dos visinhos; os velhos abriam os olhos espantados ou indignavam-se com o desconchavo de brindar uma familia plebeia depois de outras de tão apurada raça. A consequencia foi que ninguem correspondeu ao brinde e os calices ficaram na mesa intactos. Seguiu-se um silencio profundo na sala.
O primo do Cruzeiro, sem se intimidar, perguntou:
--Então que é isto?! Ninguem me secunda?
E corria a vista em redor da mesa com expressão ironica, que, a seu pezar, se desvaneceu ao encontrar a vista de Jorge, que, pallido de intima commoção, tambem se erguêra e levantára o calice para responder:
--Secundo eu, primo--disse elle, corn um leve tremor na voz--e creia que da melhor vontade o faço. Brinda-se uma familia honrada, laboriosa e justa. A ninguem deve repugnar o brinde, e muito menos a mim, a quem motivos particulares obrigam a veneral-a.
--Ah!--murmurou provocadoramente o padre, sentando-se com ares de victoria.
Um meio sorriso passou por os labios de alguns dos espectadores d'esta scena.
--Levante-se!--ordenou Jorge ao padre com intimativa--ouça-me de pé, que eu também estou de pé para secundar o seu brinde.
É singular! O padre ergueu-se, como se não pudesse resistir ao olhar indignado e imperioso de Jorge.
--Repito--continuou este--brindo aquella familia honrada, porque é honrada e porque motivos particulares me levam a veneral-a. E para lhes não dar occasião de sorrirem outra vez, ou de afagarem a vibora venenosa, que ahi soltaram, eu lhes explico as minhas palavras. Se ouvirem verdades que lhes firam o orgulho de fidalgos, lancem a culpa da vexação a quem m'as provocou. Meus senhores, eu acordei um dia com a firme resolução de luctar contra esta torrente que nos arrasta e afoga a todos, apesar dos nossos brazões, dos nossos solares, dos nossos pergaminhos e das nossas galerias de retratos. Todos quantos aqui estão podem contar das glorias passadas e da decadencia e das humilhações presentes. E nós como todos. Eu era novo, tinha diante de mim a perspectiva de uma longa vida, pensava no futuro e não podia resignar-me á ideia de morrer assim cobarde e ingloriamente. Reagi, encontrei felizmente em meu pae o auxilio preciso, e, authorisado por elle, tomei sobre meus hombros a tarefa de sustentar as ruinas vacillantes d'esta casa. A empreza porém era mais difficil do que a suppozera. Tolhia-me os movimentos a rede complicada, em que a errada gerencia de muitos annos embaraçára a administração. Cada passo dado para salvar-nos era mais um para a total ruina. Devem comprehender bem isto os que me escutam, porque a sorte das nossas casas é quasi a mesma. De todos os lados, para onde nos viramos, surge-nos a usura, o dolo e a má fé. N'estas circumstancias só me podia valer a experiencia dos negocios, e essa faltava-me, o credito, e quem m'o reconheceria e aceitaria? o capital, e por que preço poderia obtel-o? Perguntem ao nosso antigo administrador, aqui presente, o preço por que elle o encontrava. Pois bem, senhores, um homem chegou-se a mim n'estas condições e pôz á minha disposição, leal e desinteressadamente, a sua experiencia, o seu credito e o seu capital. Graças a este homem, era-me possivel libertar-me, sem baixeza, da usura que havia tantos annos nos devorava, applicar vantajosamente os capitaes obtidos e encetar um systema, lento mas seguro, de administração que preparasse o caminho para um futuro resgate d'esta casa. Graças a este homem, sorriam-me as esperanças de poder dizer um dia ás cinzas dos nossos antepassados, que eu tambem respeito, que repousassem em paz na sepultura, pois não viriam estranhos disseminal-as; e á memoria querida de minha mãe e de minha irmã que os que ellas amaram não desertariam cobardemente dos logares que lhes eram caros e que as viram morrer. Mas contra o generoso auxilio d'este homem havia velhos preconceitos de familia, mais apaixonados do que justos; era-me pois impossível recorrer a elle abertamente. Entre as prevenções e a gloria da minha casa não hesitei porém. A consciencia dizia-me que não devia hesitar. Resolvi acolher o offerecimento leal, mas tive de occultar na sombra da noite actos que não se envergonhariam da mais clara luz do dia. Quando precisava do conselho experiente d'esse homem, procurava-o de noite e clandestinamente. Os diffamadores, que correm nas trevas á procura de alimento para a calumnia, surprenderam-me. Medindo as acções dos outros pela sua capacidade moral, suppõe-lhes sempre um motivo infame. O homem de quem lhes fallei tem uma filha. No que ha de mais puro e mais sensivel nas familias, é ahi que a calumnia gosta de ferir. Essa pobre menina foi pois a victima escolhida. Agora se querem saber o nome do homem honrado, a quem devo experiencia, credito e capital, dir-lhes-ei que se chama Thomé da Povoa, a filha é Bertha, a afilhada de meu pae; os calumniadores são esses que propõem o brinde, lançando no calice a peçonha de sua natureza de vibora; mas brinde que eu de novo secundo sem receio nem hesitação.
--E eu--exclamou a baroneza, imitando-o; mas por ninguem mais foi seguida, porque uma nova occorrencia veio absorver as attenções.
D. Luiz, que revelára a mais profunda estranheza desde o principio da scena, provocada pelo fidalgo do Cruzeiro, crescêra em agitação á medida que as palavras de Jorge iam tendo para elle um sentido mais claro.
As ultimas fizeram-lhe passar o rosto por uma serie de mudanças, cada uma d'ellas denunciadora de uma paixão violenta.
Ao nome de Thomé da Povoa, á ingenua e leal declaração de Jorge, os olhos do irritado fidalgo faiscaram e um rubor fugaz e intenso correu-lhe nas faces, succedendo-lhe uma pallidez profunda.
Quando o filho terminou de fallar, foi elle quem, por sua vez, se ergueu na cabeceira da mesa.
A commoção que o dominava não lhe permittiu desde logo o uso da palavra.
Todos os olhares se desviaram para aquelle velho, pallido, vestido de negro, severo e mudo, que, com as mãos apoiadas sobre a mesa e o olhar fulgurante, seguia com a vista por todos os espectadores d'esta scena.
A final com a voz tremula e meia abafada, mas que a pouco e pouco se foi animando, o velho fidalgo começou, dizendo:
--Meus senhores, quando ha dias os convidei para virem a esta casa solemnisar a honra que eu recebia da hospedagem da minha sobrinha, estava persuadido de que esta casa ainda era minha. Não sabia que, abusando da confiança que eu depositára n'elle, um filho meu, o mais velho, o primeiro representante, no futuro, do nome e das glorias da sua familia, havia empenhado a um dos criados d'ella o solar em que nascêra. Soube-o agora. Peço-lhes humildemente perdão de os haver, pela minha ignorancia, sujeitado a esta baixeza. Desde este momento estamos todos aqui em situações iguaes, todos somos hospedes do Thomé da Herdade. Em outros tempos, nos festins e saraus das nossas casas, os criados subiam disfarçadamente as escadas, para virem das ante-camaras e corredores espreitar para as salas, fascinados pelo esplendor que n'ellas viam; permittia-se-lhes isso. Hoje porém, senhores, se aqui nos demorassemos, vêl-os-iamos subir com outro intento, para vigiar que nas expansões do nosso jubilo não deteriorassemos as alfaias, a mobilia, a baixella e a casa, que já lhes pertence. A esta espionagem não me sujeito eu. Meus senhores, as minhas obrigações de dono da casa terminaram. Hospede como os outros, tomo a liberdade de seguir o caminho que a dignidade me impõe. Cada um consulte o mesmo conselheiro.
E D. Luiz, curvando-se diante de todos que o escutaram espantados, sahiu da sala sem dar tempo a que o interrogassem ou detivessem.
Frei Januario foi o primeiro que pressurosamente o seguiu.
O resto da companhia parecia immobilisado nos seus logares.
Jorge, com os cotovêlos apoiados na borda da mesa, conservava o rosto escondido entre as mãos.
Gabriella foi quem se subtrahiu primeiro áquella influencia paralysadora.
--Parece-me que, depois do que se passou, dá-se a triste necessidade de nos separarmos. O tio Luiz está muito agitado, e preciso dar-lhe tempo para serenar e vêr as coisas sob um aspecto mais racional do que aquelle em que a paixão lh'as apresenta agora. Por isso...
A reticencia foi seguida de um arrastar de cadeiras, prova de todos haverem comprehendido a conveniencia da retirada.
Formaram-se ainda na sala alguns grupos, conversando sobre o facto.
Os primos do Cruzeiro foram os primeiros a retirar-se. O padre ainda manifestou desejos de pedir a Jorge uma satisfação pelos insultos que elle lhe dirigira, mas intervieram terceiros que o dissuadiram.
Os fidalgos velhos tentaram procurar D. Luiz para o acalmarem; mas foi-lhe dito por frei Januario que o fidalgo não podia recebel-os.
Pouco e pouco foram os convidados abandonando a Casa Mourisca, e os caminhos que d'ella partiam eram momentos depois cobertos de cavalgadas, liteiras e carroções, em que aquellas nobres familias regressavam aos seus solares.
As occorrencias singulares do jantar foram entre ellas assumpto de conversa em toda a jornada. Todos, com quanto criticassem a esquisitice do velho D. Luiz, que tão pouco urbano se mostrou com os seus hospedes, eram accordes em attribuir a principal culpa a Jorge.
XVII
Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza.
A indignação de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas paixões paternas, quasi lhe censurára a precipitação do passo que déra.
Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. Não podendo já duvidar da innocencia do irmão; como perdoaria a si proprio as suspeitas e insultos com que o ferira?
Do vão da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa.
Mauricio ergueu emfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestigios de lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava, caminhou agitado para Jorge.
--Jorge--disse elle, intima e sinceramente commovido--se ainda se não esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a affeição, que por tanto tempo te mereci.
Jorge apertou-lhe a mão com affecto.
--Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crêl-o. Affligem-me alguns dos teus desvarios, principalmente porque sei que elles estão em contradicção com os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeição não é isso motivo. Para mim és n'esses momentos, como uma criança que se vê a dormir á beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos, e não cólera nem aversão.
E os dois rapazes abraçaram-se com effusão.
--Vamos--disse a baroneza, intervindo--a situação precisa de que se pense n'ella seriamente. As pazes estão feitas, em boa hora; pensemos agora como gente de juizo.
--Antes de mais nada, Jorge, o que ha de verdade em tudo isto?
--O que eu disse.
--Vê bem; falla-me com franqueza. Eu não acreditei no que de ti se espalhou. Concederia que Jorge podésse praticar uma loucura, mas uma acção indigna, um abuso de confiança, sabia que não. Porém não ha em toda esta historia alguma coisa que não disseste ainda? Bertha é para ti completamente indifferente? Esta é que é a questão.
Só a muito custo Jorge pôde disfarçar a turbação em que a pergunta de Gabriella o lançou, mas respondeu com apparente serenidade:
--Bertha é uma rapariga, que por todos os motivos respeito.
E com mais custo ainda, acrescentou:
--E nada mais.
--E para Mauricio o que é Bertha?--continuou a baroneza, sorrindo ao voltar-se para o primo mais novo.
Não obteve logo resposta.
--Bem vêem--insistiu ella--que ha uma coisa que eu não posso ainda explicar. Assisti á vossa reconciliação, signal de que tinha havido uma desintelligencia. Qual foi pois o motivo d'ella?
--Uma das minhas loucuras--respondeu Mauricio a final--cedi a um movimento de paixão, encontrando-me com Jorge hontem, quando elle sahia da casa de Thomé da Povoa, e soltei expressões, que parece que ainda me estão queimando os labios.
--Então, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciumes. Segue-se que amas Bertha. E é devéras esse amor?
A fronte de Jorge contrahiu-se levemente ao ouvir a pergunta, e emquanto aguardava a resposta do irmão.
--Se responder pelo que penso d'elle--disse Mauricio--juro que é.
D'esta vez um ligeiro sorriso deslizou nos labios de Jorge.
--Isso quer dizer--tornou a baroneza--que respondendo pelo que pensas de ti, receias muito que não. Pois, meu caro priminho, a occasião exige que se ponham de lado caprichos e brinquedos de criança, e que se siga com sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. Não estámos em tempo de brincar. Dá-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge podem ser destruidos de encontro á resistencia do tio Luiz. Eu nem posso calcular o que resultará de tudo isto. E portanto....
Interrompeu-a n'este ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para chegar ao quarto de D. Luiz, que desejava fallar-lhe.
--N'este caso esperemos o resultado d'esta entrevista para adoptar um partido--dizia ella, apressando-se em satisfazer os desejos do tio.
Em caminho para o quarto de D. Luiz, a baroneza notou nos corredores e nas salas intermedias um movimento extraordinario, que não sabia a que attribuir.
Os criados iam e vinham apressurados, communicavam ordens uns aos outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas, e transportavam differentes objectos, como se se tractasse dos preparativos de uma jornada.
Nos aposentos de D. Luiz achou Gabriella o fidalgo em pé no meio da sala, emquanto frei Januario, de joelhos junto de uma arca, introduzia n'ella algumas peças de roupa, que aquelle lhe ia indicando.
--Eu não sei o que v. exc.ª vae fazer, snr. D. Luiz--murmurava no entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de má vontade, suando em bagas--isto não tem pés nem cabeça. Olhem agora, sem commodos nenhuns... assim de um momento para outro....
D. Luiz, sem responder ás reflexões do procurador, continuava a indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.
Gabriella dirigiu-se a elle:
--Mandou chamar-me, meu tio?
--Ah! mandei, sim, Gabriella. Desculpe importunal-a. Mas tenho que lhe pedir um favor--respondeu D. Luiz com forçada placidez.
--Mil que sejam.