Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 15
Dirigiram-se alli por os sitios menos frequentados, e sem soltarem uma palavra.
Mauricio, a seu pezar, sentia-se dominado por uma commoção profunda. Não era só despeito, era já uma nascente repugnancia pelo acto que praticava. Envergonhava-se d'aquelle furtivo mister de espião.
Chegados ao local, o padre escolheu a posição de maneira que podessem vêr, sem serem vistos.
Por muito tempo nada descobriram; nem ouviram mais algum som além do melancolico gemer dos sapos, a distancia.
Mauricio, entre impaciente e satisfeito por o resultado nullo da espionagem, principiava a dirigir aos primos alguns ditos epigrammaticos, quando a mão do doutor lhe tapou a bôca, ao mesmo tempo que o padre se voltava para lhe recommendar silencio.
Effectivamente encostado ao muro da Herdade caminhava um homem, que a sombra da noite não deixava conhecer.
Chegando á porta, que devia estar apenas cerrada, empurrou-a e entrou, e fechou-a de novo sem fazer ruido.
Mauricio quiz correr atraz d'aquelle homem. Retiveram-n'o os primos.
--Espera, pateta! Deixa-o sahir, que eu te prometto que havemos de conhecêl-o.
--Que diabo queres tu fazer, maluco? Não vês que espantas a caça?
--Hei de vêr quem elle é!
--Pois sim, mas para isso é preciso prudencia.
--A porta ficou aberta. Eu vou...
--Vaes aonde? Ora tem juizo. Á sahida pilhamol-o.
Mauricio porém insistiu e os primos condescenderam em passar um cauteloso exame á entrada por onde o vulto desapparecêra.
Reprimindo a custo os impetos de Mauricio, o padre dirigiu a exploração, e mui de mansinho entreabriu a porta e entraram no pateo da casa; perto ficava a escada, por onde se subia para as salas.
Mauricio ia a transpôl-a, mas os primos impediram-n'o. D'aqui originou-se uma pequena altercação que, ainda que em voz baixa, foi percebida pelos cães que latiram furiosos.
De uma das janellas da casa partiu uma voz, perguntando:
--Quem está ahi?
Era a voz de Bertha.
Mauricio ia a responder-lhe, cheio de indignação, mas o padre tapou-lhe a bôca e obrigou-o a retirar-se.
Esta retirada foi feita com tal pericia, que não excitou mais attenção da gente da casa.
Tudo recahiu em socego.
A presença de Bertha foi para Mauricio a confirmação das suspeitas dos primos.
Por isso mais excitado e impaciente do que até alli, aguardava a sahida do mysterioso incognito.
O padre collocou-se em sitio apropriado para poder tolher a passagem ao visitador nocturno.
Perto de hora e meia aguardaram os tres. A final ouviu-se ruido na porta, e depois de algumas palavras ditas para dentro a meia voz, o homem espiado sahiu.
Ouviu-se atraz d'elle correr a chave na fechadura cautelosamente.
A vinte passos, pouco mais ou menos, de distancia da casa de Thomé, o personagem que tanta curiosidade excitava, viu o vulto de tres homens immoveis, que lhe estorvavam a passagem.
Mais perto d'elles, parou a perguntar-lhes:
--Tenho o caminho livre?
--Apenas depois de satisfeita a simples formalidade de se dar a conhecer--respondeu o padre.
--Á ordem de quem?
--De tres contra um.
--É direito que não reconheço.
E o individuo, desembaraçando um pouco os braços, que levava envolvidos em uma manta, parecia disposto a fazer face a uma d'essas aggressões, que não são raras em algumas das nossas freguezias ruraes.
N'este tempo porém Mauricio, a quem a voz d'este homem havia ferido desde as primeiras palavras que lhe ouvira, adiantou-se para elle, e ao vêl-o desembaraçado, exclamou:
--Mas... elle é Jorge!
Os primos soltaram uma risada.
Jorge, que o leitor já tinha reconhecido, vendo emfim quem eram os seus suppostos aggressores, deixou outra vez cahir a manta sobre os hombros e perguntou em tom de leve despeito:
--Então que brincadeira é esta?
--Não é nada, primo Jorge--respondeu o doutor--quizemos apenas verificar uma suspeita.
--Uma suspeita?!
--Vamos, perdoa-nos a indiscrição, mas bem vês que ha poucos prazeres para uns peccadoraços como nós, iguaes ao que nos causa o vêr cahir um sancto nas mesmas fraquezas de que nos accusam.
Isto disse o padre, o doutor acrescentou:
--O que te pedimos de hoje em diante é menos severidade nos teus juizos e mais indulgencia para as miserias dos humanos.
Jorge principiou a irritar-se com as palavras dos primos; voltando-se para Mauricio disse-lhe com certa rispidez e quasi tremendo de indignação:
--Tu, que estás mais habituado do que eu a lidar com estes senhores, não me saberás explicar estes ditos, que não percebo, e ao mesmo tempo a significação da tua presença aqui, a tolher-me os passos, como um ladrão nocturno?
O silencio de Mauricio significava tambem muita indignação e cólera concentrada.
A presença de Jorge n'aquelle legar sómente a podia explicar aceitando a hypothese maligna dos do Cruzeiro; e na recordação da conversa que tivera com o irmão, a respeito da filha de Thomé, via agora um excesso de dissimulação e hypocrisia, que o revoltavam tanto mais vehementemente, quanto maior era o respeito que até alli lhe mereceu o caracter de Jorge.
Por isso a sevéra interpellação d'este fez rebentar em explosão aquella cólera mal reprimida.
--Escusas de te armares com os teus costumados ares de juiz e de censor, Jorge--exclamou Mauricio indignado--bem vês que, desde este momento, perdeste para mim todo o prestigio e toda a authoridade moral. Tive até hoje candura bastante para tomar a serio o teu caracter de prudencia e a tua lealdade, mas desde que vejo a hypocrisia, que havia em tudo isso, sou eu que domino e que tenho o direito de interrogar e de censurar.
--Enlouqueceste, Mauricio?--perguntou Jorge em tom quasi de piedade, que mais irritou o irmão.
--Que indigna e ridicula comedia andas tu a representar n'este mundo?--tornou este quasi allucinado--Na tua idade tens já coragem para tanto! Armares-te de severidades pedantes contra as minhas loucuras de rapaz, loucuras leaes a final de contas e a descoberto, loucuras, mas não vilezas, e occultares na sombra actos, que a mim, ao estouvado e perdido, fariam córar de vergonha. Oh! não te invejo o talento de comediante, Jorge.
--Mauricio, repara que não estás em ti.
--Sim, eu tenho esse defeito. Não sei medir as minhas palavras, não sei encobrir, nem disfarçar; tudo o que penso me vem aos labios. Hontem dizia que te estimava e respeitava, e era verdade; hoje digo-te que te desprézo e te lastimo, e é verdade tambem. Cuidas que não me recordo das tuas palavras e dos teus conselhos ha poucos dias? Invocaste o nome sagrado de nossa mãe, a memoria venerada de Beatriz, para quê? para exigires de mim uma promessa; dizias tu, que era a de respeitar a paz de coração de uma rapariga, que uma abençoára e a quem a outra quizera como a irmã; mas sob a capa d'essa promessa ia a de te deixar em paz no gozo das tuas aventuras nocturnas e dos teus amores traiçoeiros e escandalosos.
--Silencio!--exclamou Jorge, com um tom intimativo que cortou em meio as palavras do irmão.
--Podia perdoar-te todos os insultos feitos ao meu caracter; não posso consentir que calumnies quem não está aqui para se defender, e quem tinha direito a esperar encontrar em ti um defensor e não um calumniador. Ordeno-te silencio em nome de alguns restos de honra, que ainda te deixassem intacta as companhias devassas que frequentas.
--Que é lá isso, priminho, que é lá isso?--acudiram immediatamente os dois manos.
Jorge não se intimidou.
--Não me assustam as suas ameaças. Sei agora o que significa esta espionagem e aquellas gargalhadas cynicas e alvares de ha pouco. Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem é de estranhar o conceito que formam das intenções dos outros de que julgam pelas suas. O que lamento é vêr-te associado a esta empreza, Mauricio, porque, faço justiça ao teu caracter, deve repugnar-te intimamente o passo que déste.
--Em vez de sermões, priminho, não acha que seria melhor explicar-nos o que veio fazer a horas mortas a esta casa?
--Não sinto a necessidade de explicar as minhas acções diante de taes juizes. Pouco me importa a estima em que teem a minha reputação os senhores do Cruzeiro. Resignar-se-hão portanto a prescindirem das explicações que pedem.
Os dois riram-se maliciosamente. Jorge proseguiu:
--Entendo esse riso. Conheço-os. Sei que depois da espionagem se segue a calumnia; mas o meu desprezo é muito grande para transigir. Calumniem.
--Ora essa! Nós sabemos guardar um segredo. Socega.
--Sei qual é o alimento com que se nutre a sua ociosidade. Não importa. Á vontade, meus senhores, teem a estrada livre e contem que não serei eu que os estorvo n'aquella que costumam seguir, porque não a frequento.
Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar; depois, voltando-se para Mauricio:
--Repara que já desceste o primeiro degrau da infamia; espiaste; agora vê se desces o segundo, calumniando. Ha n'aquella casa uma familia tranquilla e respeitada, ajuda agora esta gente a manchal-a de lama, ajuda; o insulto é facil para quem não precisa de se abaixar muito para a apanhar.
Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional prudencia a correcção que lhes infligira as palavras de Jorge e limitaram-se a acompanhal-o de risadas quando elle se retirou.
Mauricio estava já sentindo remorsos do que dissera ao irmão. Este adquirira sobre elle o seu antigo ascendente.
--Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui--disse Mauricio, arrependido.
--Sim? Parece-te isso? Pois vae pedir perdão ao mano--tornou-lhe o padre, rindo com desdem.
--Parvo!--exclamou o doutor--Querem vêr que engoliu a arara?!
--Deixa lá, então que queres? a innocencia tem d'estas canduras.
--Mas vocês ainda acreditam?...
--Ora adeus, adeus! Vae-te deitar e vê se nos arranjas umas indulgencias do mano Jorge.
E os primos deixaram Mauricio, e partiram zombando da candura d'elle.
Mauricio voltou a casa desgostoso de si e com o espirito fluctuando entre o remorso e a suspeita.
XVI
Amanheceu alvoroçada e ruidosa a Casa Mourisca no dia destinado para o jantar, em homenagem a Gabriella.
N'aquelle tranquillo e silencioso edificio, que parecia constantemente absorvido nas recordações dos seus tempos de gloria, notava-se um movimento excepcional.
O velho fidalgo não quizera faltar ás tradições de hospitalidade que a familia lhe legára.
Ordenou que, embora á custa de qualquer sacrificio, se celebrasse a chegada da sobrinha, segundo o velho estylo, convidando-se para jantar os representantes da mais preclara nobreza dos arredores.
Ainda que a tristeza e misanthropia, de que era victima, o trouxessem, havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras épocas, o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se á impertinencia de lhes abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pratica que lhe impunham os brios de fidalgo creado nos habitos de grandeza e liberalidade de um solar de provincia.
Jorge tentára ainda oppôr algumas sensatas reflexões a esta dispendiosa exhibição de uma opulencia mentida; mas encontrou o pae inflexivel.
Frei Januario, que antevia a perspectiva d'um d'aquelles regalados jantares, que se tinham ido com os dizimos, com os foraes, com as luctuosas, com os conventos, com as milicias e com muitas outras coisas igualmente despertadoras das suas clericaes saudades, frei Januario, dizemos, sentia em si uns jubilos de criança, que nem podia nem procurava disfarçar.
Eloquente como nunca, corroborou a opinião do fidalgo, fazendo-lhe bem sentir o deslustro que soffreria o brazão da casa se não se observassem essas praticas senhoris dos tempos passados, e dando como faceis de aplanar todas as difficuldades que, á primeira vista, apresentava o projecto.
A Jorge, que lhe suscitava algumas objecções, o egresso sómente respondia:
--Tenha paciencia, snr. Jorge, a nobreza obriga!
--Obriga a ser nobre, que é ser leal, sincero, honrado, sem affectação, sem prodigalidade, e sem sumptuosidades que se sustentem á custa alheia.
--Á custa alheia?!
--Emquanto esta casa tiver uma divida é á custa alheia que vive, gere dinheiro de outros e não lhe é airoso gastar em festas e banquetes o que precisa para remir-se primeiro e para prosperar depois.
--Uma casa de fidalgos não é uma casa de commerciantes. Que estes, que não teem um nome a respeitar, se não mettam em cavallarias altas, entende-se. E é até muito para sentir vêr por ahi fazer o contrario, como se vê! Mas agora quem tem brazão na porta e retratos nas paredes...
--Quem tem brazão e retratos, e vive como n'esta casa se tem vivido, arrisca-se muito a ter de vender um dia brazões e avós, por preço modico, ao commerciante que teima em metter-se em cavallarias altas, e que tem a felicidade de não cahir do cavallo abaixo.
--Adeus, elle ahi vem com as suas! Eu já lhe disse, não percebo que ideias são essas com que o menino me anda ha tempos. Ora para o que lhe havia de dar! O filho mais velho de uma casa como esta, aparentado com as primeiras familias do reino, com marquezes e duques da melhor linhagem, tudo nobreza antiga e da que não admitte duvida a fallar como qualquer d'esses bacharelitos que veem de Coimbra, mações nos ossos e republicanos na alma! Uma coisa assim!
Apesar da repugnancia que sentia pela festa ordenada por o pae, Jorge julgou prudente superintender nos aprestes d'ella, para obstar a que fossem dirigidos pelos alvitres do padre procurador.
Um d'estes alvitres fôra o de se pedir emprestadas ás proprias familias convidadas diversas peças de baixella, de que estava desprevenida a cópa da Casa Mourisca.
Este ridiculo expediente era pelo padre tido na conta de engenhosa tactica, porque, explicava elle: cada familia, conhecendo apenas a prata que lhe pertencia, havia de suppôr que toda a mais era da casa, que em tempo fôra das mais bem providas n'esta especie. Por tal fórma, não se tornaria notada a falta, e cada qual se daria até por lisongeado em haver merecido do proprietario esta prova de confiança.
Jorge não se deixou convencer, apesar do persuasivo da logica; e em despeito de vehementes protestos do padre, exigiu que o serviço se fizesse sómente com o pouco ou muito que houvesse em casa.
O padre appellou para o fidalgo, que nisto porém decidiu a favor do filho.
Os convidados para o jantar eram todos da mais genuina fidalguia da provincia. Por muitas d'aquellas veias andava globulo de sangue, que já pertencêra a Fuas Roupinho ou a Egas Moniz e que por um mysterio physiologico, que só se dá n'aquella esmerilhada casta, conseguira transmittir-se inteiro de veias para veias, atravez de vinte gerações, com o fim providencial de manter inabalaveis os brios da raça.
Era um gosto seguir pelos seculos fóra a linha, pela qual alguns dos presentes procediam muito direitamente de qualquer notavel heroe das origens da monarchia. Havia tal que tinha tirado a limpo o numero de ordem que lhe competia n'aquella illustre enfiada de morgados, e que deixava evidente, por um _autem genuit_ nobiliario, ser o vigesimo ou o decimo-setimo rebentão de sua preclarissima cêpa. Bom fôra que elle se tivesse entregado a esses calculos, por não ser provavel que apparecesse, no succeder dos tempos, outro espirito de igual alcance, que ousasse mergulhar em tão transcendentes e uteis computações; e assim ficaria a humanidade privada de uma noção valiosissima.
Embora estivessem um tanto enfesadas e pêcas quasi todas aquellas vergonteas, sempre derivavam de uma profunda cêpa; e quem não havia de preferil-as a ramos embora cheios de viço, cujas raizes estivessem á flôr da terra?
Os dotes physicos tinham, é verdade, soffrido um pouco com os extremos e cuidados empregados para conservar a crase aristocratica d'aquelle sangue livre de toda a mistura que o derrancasse; os dotes intellectuaes, em geral, resentiam-se do cordão sanitario, de que os chefes d'aquellas familias as haviam cingido para precavêl-as da infecção de ideias novas, propagadas pelos livros e jornaes da actualidade. Mas lá estava o fermento da fidalguia, que era o essencial, e que suppria bem a saude e a illustração.
Algumas familias, que cedendo um pouco ás exigencias da época, não tinham trancado de todo os portões dos seus solares a certas innovações, eram por esse facto olhadas com desconfiança por os puros, que as accusavam de eivadas pela lepra do seculo.
Emquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre da Casa Mourisca grupos variados e caracteristicos. As senhoras de idade madura, tias e mães, sentadas em semi-circulo em um dos angulos da sala, narravam pausadamente umas ás outras as occorrencias domesticas relativas ao intervallo de tempo em que se não tinham visto; exaltavam os dotes pessoaes do filho primogenito e as prendas da menina da casa.
Finalmente combinavam enlaces matrimoniaes entre os seus filhos e sobrinhos, de maneira que o sangue dos descendentes sahisse ainda mais rico em essencia aristocratica, se é que era susceptivel de maior apuro.
Os chefes de familia, passeando na sala, ou formando grupos nos vãos das janellas, lidavam na sua tarefa de vinte annos: a de demonstrar que o que perdêra a causa realista fôra a traição e o suborno; e, arvorados em prophetas, entoavam trenuos sob a imminente dissolução social, periphraseando os artigos de fundo da _Nação_ e do _Direito_.
A abolição dos morgados e vinculos, definitivamente decretada poucos annos antes, fornecia forte alimento para aquellas jeremiades; os dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos filhos, desbaratando-lhes a legitima com a sua imprevidencia e prodigalidade, lançavam agora á conta da lei o que era a consequencia logica da sua má administração.
As raparigas fallavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer dos primos presentes, em cujo numero se continham os namorados de cada uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poeticas e vaporosas castellãs, que na meia idade premiavam os campeadores na liça, os guerreiros na volta dos combates, e os menestreis e pagens que lhes endereçavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham perdido muito da poesia do typo primitivo. Vivendo em uma época em que não havia campeões, guerreiros, nem trovadores para premiar, limitavam-se as meninas a acceitar a côrte dos primos, tambem muito pouco parecidos com os seus cavalleirosos avós, e com a maior candura, que póde medrar na provincia, roubavam umas ás outras os noivos e os namorados.
Algumas havia alli mais revolucionarias, que tinham conseguido introduzir o piano em casa e com elle as musicas da moda, obtendo uma ou outra vez dos paes a concessão de dar uma partida, onde a nata da nobreza provinciana dançava os _Lanceiros_ como qualquer sociedade de artistas.
Os rapazes reunidos no terraço fumavam e atiravam a rewolver aos troncos das arvores ou ás avesitas que poisavam nos ramos.
A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios; se alguns haviam descido até ao ponto de irem a Coimbra fazerem á sciencia a honra de a estudar, poucos d'esses mostravam as habilitações adquiridas, exercendo qualquer mester social. Seria dobrar o desdouro. Commettida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos filhos dos commerciantes e lavradores, devia-se pelo menos seguir o exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitára a circumstancia aggravante de servir depois para alguma coisa.
Formava grupo á parte frei Januario em animado colloquio com outros dois padres, tambem appensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos na defeza dos legitimos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros livres.
Mauricio, na companhia dos rapazes no terraço, entre os quaes se achavam os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas diversões, mas sem perder certo ar de melancolia, que lhe ficára das scenas da vespera.
Jorge attendia a todos, mas n'elle era ainda mais evidente do que em Mauricio a preoccupação de espirito.
Desde a vespera os dois irmãos não haviam trocado uma palavra. Gabriella notára-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado entre elles.
Não deixava porém a baroneza de desempenhar pela sua parte, com superior sciencia, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra de quem tinha logar a festa de familia. Ia de grupo a grupo, tendo uma amabilidade certeira para cada individuo, e conseguindo desvanecer com as inebriantes inhalações de lisonja a superciliosa desconfiança que os seus ares de côrte da actualidade despertavam n'aquelles espiritos, escrupulosos respeitadores da côrte velha.
Houve uma circumstancia que excitou a curiosidade da baroneza. Notára ella que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro haviam conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre que este lhes voltava costas, trocavam uns com outros risos mal suffocados. Da roda dos rapazes communicára-se o mesmo effeito á das raparigas, por intermedio dos colloquios de alguns namorados, e dentro em pouco viu-as olharem tambem para Jorge com certa estranheza, e cochicharem e rirem umas com as outras, quando livres da observação d'elle.
A mysteriosa confidencia passava de labios para ouvidos com rapidez tal, que momentos depois estava nas visinhanças de Gabriella.
Não pôde a curiosidade d'esta tardar mais tempo em informar-se do que assim agitava a sociedade moça, e que até já havia deixado estupefacta mais de uma respeitavel matrona, que por acaso fôra partícipe do segredo.
--O que é que se diz por ahi, priminha?--perguntou a baroneza á rapariga mais proxima--corre de certo alguma noticia estranha, porque as vejo todas em alvoroço.
--E com razão. Então não sabe? O primo Jorge tem um namoro!
--E o caso é para taes espantos?
--Pudera não! Então não conhece o primo Jorge, já vejo. Ainda não houve quem lhe merecesse um comprimento, que não fosse de simples ceremonia. Todos iriam jurar que era impossivel que elle gostasse de alguem. E vejam lá.
--É porque pertence á especie rara dos que amam só uma vez, e dos que amam de maneira tal que não podem sem remorsos amar por passatempo.
--Pois será. Mas vejam aonde foi elle cahir!
--Então quem é ella?
--A Bertha. A filha do Thomé!
--Fico na mesma, priminha.
--Não conhece o Thomé? O Thomé da Herdade. Um lavrador que foi criado do tio Luiz e que está hoje rico.
--Ah! bem sei, então é uma rapariga do campo.
--Envernizada na cidade, onde o pateta do pae a mandou educar. Chegou ha dias a casa.
--E Jorge conhecia-a?
--Em criança, sim. Depois julgo que se não viram senão agora.
--E quem descobriu essa paixão?
--Viram-n'o sahir umas poucas de noites de casa d'ella.
--Jorge?!
--É verdade. Os primos do Cruzeiro viram-n'o, e parece até que o primo Mauricio.
--Ah! Mauricio?!
--Sim, e o mais bonito é que esse tambem pelos modos tinha suas pretenções, por passatempo já se sabe, olha o outro! a esse então tudo lhe serve. De maneira que hoje estão que nem palavra dizem um ao outro.
--Isso já eu notei; mas custa-me a crêr que Jorge...
--E a todos. Pois aquelle sonsinha...
--Não é isso o que eu dizia. O que eu acredito é que, sendo o que me diz verdade, Jorge ama devéras essa rapariga, e elle não tem caracter para abusar de alguem. Deus sabe o que de tudo isso póde resultar.
--Quer dizer a prima que é capaz de casar com ella?
--Sim, estou convencida de que se elle a ama, formou já essa tenção e ha de cumpril-a.
--Tinha que vêr a prima Bertha da Povoa!
--Eu lhe digo, para a menina talvez tivesse que vêr, para mim, que já estou costumada a esses espectaculos, seria a coisa mais natural do mundo.
Assim informada do que se passava na sala, Gabriella observou com mais attenção Mauricio e Jorge, e estudou nas physionomias de ambos os vestigios d'aquelle mysterio.
Era manifesta a frieza que os separava n'aquella manhã. Evitavam-se tanto, quanto podiam. As frontes d'um e d'outro estavam contrahidas, e os sorrisos gelavam-se-lhes nos labios, sempre que queriam forçal-os a apparecerem.
--Será verdade que Jorge ame essa rapariga? N'esse caso deve ser uma paixão bem séria a d'elle--pensava Gabriella.