# Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia

## Part 14

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--E eu venero a memoria de meu pae, não o duvide; assim como venero o caracter e as opiniões de meu tio; porque venero todas as convicções sinceras. Mas o que eu não queria é que se sacrificasse mais do que deve. A sua vida, a sua felicidade tem o direito de dar esse sacrificio. Mas a vida, o futuro, a honra e a felicidade de seus filhos, isso não.

--A honra?! A honra é que eu quero salvar-lhes.

--E quem lhe diz que elles teem as suas convicções?

Os olhos de D. Luiz fuzilaram ao ouvir esta insinuação.

--Se meus filhos...

--Sei o que vae dizer--atalhou Gabriella--mas não diga, porque contradiz os seus proprios actos. Esmerou-se em dar educação a seus filhos, em desenvolver-lhes a intelligencia, e agora quer que elles não usem d'esse instrumento que possuem, e que para pensar lhe venham pedir licença? Não valia ensinar-lhes a raciocinar n'esse caso.

--A razão deve-lhes ter mostrado a verdade.

--A verdade... a verdade... Ora valha-nos Deus, meu tio; e quem sabe onde ella está? Pois todas estas mudanças que succedem no mundo de que procedem, senão de se julgar a cada passo ter-se descoberto que a verdade não está onde se suppunha?

--Vejo que a convivencia social lhe tem dado uma boa dóse de philosophia para bem viver no mundo. Mas que quer? Eu regulo-me ainda por as cartilhas velhas.

--E o que lhe ensinam a fazer as cartilhas velhas a favor de seus filhos? O que é que, em harmonia com ellas, tem tentado e tenciona executar?

--Dar-lhes o exemplo de como se soffre a adversidade, quando se tem brios, e um nome que respeitar.

--A nobreza não está em soffrer de braços cruzados a adversidade, quando elles se podem empregar nobremente em repellil-a; Jorge bem o comprehendeu. Esse illustrará devéras o seu nome da unica maneira por que n'estas circumstancias elle póde ser illustrado. O que é preciso é que a ociosidade de Mauricio lhe não annulle os esforços.

D. Luiz ia a replicar quando o padre procurador entrou a annunciar que o almoço estava na mesa.

O fidalgo aproveitou de boa vontade o ensejo para cortar o dialogo que evidentemente o incommodou.

Cedo estava a familia da Casa Mourisca reunida á mesa na sala do almoço, da qual d'esta vez a voz alegre e a jovial presença da baroneza parecia afugentar parte das sombras que de ordinario pesavam sobre ella.

E na noite d'esse dia Gabriella escreveu uma longa carta a uma das amigas da capital, em que lhe narrava por miudo os episodios da sua jornada, a sua recepção na Casa Mourisca e as impressões que recebera.

Esta carta terminava por as seguintes palavras:

«Do que te tenho dito parece-me que podes concluir que se desvaneceram aquelles projectos de sacrificio que trouxe d'ahi e com os quaes não te conformavas. O meu primo Jorge é um rapaz mais serio ainda do que eu o suppunha. Não fazes ideia. Affirmo-te que é incapaz de casar por interesse, e como o espirito d'elle anda muito occupado por calculos e combinações economicas, não é tambem provavel que se deixe tomar por o amor, e portanto não casa. Assim fico dispensada de sacrificar os meus queridos habitos de vida de Lisboa, ao que vinha devéras decidida para salvar esta familia com os meus capitaes, que mal sei gerir. Este rapaz se amar, o que não é provavel, ha de ser de alguma maneira extravagante, inesperada.

O outro é uma criança, que não se póde tomar a serio por marido.»

Por aqui se vê quaes eram as generosas tenções de Gabriella ao chegar á Casa Mourisca, e quaes as modificações que no decurso d'aquelle dia os seus projectos haviam soffrido.

XV

Ao outro dia pela manhã, estava Mauricio apparelhando por as proprias mãos o cavallo favorito, quando Jorge foi ter com elle.

--Tencionas ir hoje ao Cruzeiro?--perguntou Jorge.

--Talvez passe por lá. Porquê?

--Porque n'esse caso podias poupar-me o trabalho de lhes mandar convite especial para o jantar d'ámanhã.

--O jantar de ámanhã!?

--Sim; o pae insiste em celebrar com um jantar a chegada de Gabriella, e bem vês que não é possivel deixar de convidar os do Cruzeiro, ainda que, por minha vontade, os deixaria quietos no seu antro.

--Eu os convidarei. D'esses me incumbo. E a outra parentela?

--Mandar-se-hão cartas.

--Um jantar na Casa Mourisca! Ó sombras dos nossos antepassados, folgae!

--Estremecei, dize antes, que mais razão teem para isso.

--Estes velhacos não deitaram hontem de comer a este pobre animal--observou Mauricio, afagando o cavallo.

--Seria uma prova de affeição que lhe dariamos se lhe proporcionassemos occasião para mudar de dono--murmurou Jorge, sorrindo.

Pouco depois, Mauricio montava e partia a trote para o Cruzeiro.

A casa do Cruzeiro, solar dos asselvajados primos de Mauricio, ficava no extremo da povoação, exhibindo nos campos que a cercavam uma agricultura preguiçosa e mesquinha, e dominando um vasto tracto de mal cuidadas bouças, onde os senhores da propriedade perseguiam implacaveis as lebres e perdizes, que alli se acoutavam.

Causava lastima o estado de decadencia a que a má administração e a vida dissipada dos senhores do Cruzeiro tinham levado aquella casa, de cuja passada grandeza já nem se descobriam vestigios.

Na actualidade não era mais do que um velho casarão ennegrecido, mal vedado aos ventos e ás chuvas, onde cada dia realisava um novo estrago, que nunca mais era reparado. Por fóra e por dentro a mesma absoluta carencia de confortos; porque não sentia a necessidade d'elles a robusta organisação de qualquer dos proprietarios; afeitos á vida dos montes, ás longas caçadas e ás luctas com os rigores do tempo. O solo árido, os celleiros vazios, a abegoaria deteriorada, os curraes desertos, a cultura perdida... era desolador o aspecto do solar do Cruzeiro! Parecia havel-o fulminado um d'aquelles tremendos anathemas de que rezam os livros sanctos, os quaes feriam de esterilidade igual as entranhas da mulher e as entranhas da terra. Os pinhaes, cortados sem methodo nem prudencia, cahiam sacrificados ás penurias monetarias do morgado, que ia a pouco e pouco transmutando em vinho toda a propriedade. As aguas vendidas para acudir a iguaes urgencias abandonavam as terras á sêde que as fazia infecundas. Umas apparencias de movimento agricola, que ainda se divisavam na quinta, eram-lhe mais fataes do que beneficas, e podiam comparar-se ao fervedouro das larvas nas carnes em decomposição. N'aquelle vasto corpo, que se decompunha, tambem se agitavam seres que viviam dos seus detritos.

Trabalhava-se alli para destruir e não para semear ou edificar. O desbarato com que os proprietarios sacrificavam os seus bens, attrahia os ávidos visinhos, como córvos sinistros em volta do cadaver exposto na estrada.

Era meio dia, quando Mauricio se apeiou no espaçoso pateo da casa, onde reinava o silencio das ruinas. Apenas se ouvia o latir de uma matilha encerrada nas lojas e impaciente por ir bater as mattas e bouças. O aspecto que feria a vista de quem entrava era de uma propriedade inteiramente abandonada; alli apodrecia um arado inutil; além oxydavam-se os metaes de inactivos instrumentos de lavoura; a agua empoçada das ultimas chuvas estancava, cobrindo-se de uma crusta esverdeada; as ortigas e parietarias vegetavam em plena liberdade, nas junturas das lageas e nos buracos das paredes. Nos telhados cresciam em verdadeira floresta as hervas parasitas; fragmentos de louça, de garrafas, velhos arcos de pipa, farrapos, montões de caliça pejavam, desde tempos immemoriaes, a superficie do pateo. Manchas verdes de musgos e de lichens, que a humidade desenvolvera, cobriam a fachada do edificio, por onde havia muitos annos não passára a brocha do caiador.

Mauricio subiu as escadas d'esta casa humida e entrou nos corredores que estavam tão desertos como o pateo. Passeavam por elles imperturbadas as gallinhas e as pombas como em terreno familiar, e occasiões havia em que pela porta meia aberta dos aposentos se insinuava curiosa uma cabeça suina. Só os criados não appareciam; a ociosidade dos amos era contagiosa. Conhecedor da topographia da casa, Mauricio foi ter direito ao quarto dos primos que procurava.

Dormiam ainda os dois mais novos, emquanto o morgado andava labutando com alguns lavradores visinhos no destroço do que ainda lhe restava.

O somno do padre e do doutor não era para ceder á primeira chamada. Ainda depois de lhes bater á porta, Mauricio continuou a ouvil-os ressonar em um duo assustador.

A final respondeu a voz rouca de um d'elles com um som inarticulado, que claramente expressava o mau humor que lhe assistia ao despertar.

--Sou eu, abram--disse Mauricio, continuando a bater.

Respondeu-lhe uma praga, e depois outra voz acrescentou:

--A porta está aberta. Levanta a tranqueta e entra.

Mauricio assim fez e entrou para a sala, que servia de aposento commum dos dois manos.

Havia dentro uma atmosphera quente, abafadiça e viciada de fumo de cigarro que suffocava.

A sala era ampla, mas de um desarranjo e desconforto indescriptivel.

Dois catres de ferro ao lado um do outro, uma cadeira sem fundo, sustentando a bacia e jarro mutilados, servia de lavatorio, a roupa pendurada em cabides fixos na parede mal caiada e salitrosa, ou cahida pelo chão, o espelho pendente dos caixilhos da janella, velas de sebo meio gastas mettidas em garrafas, cuja superficie era adornada de gordurentas stalactites, e em palmatorias de metal pintado de lagrimas verdes pela oxydação; a um canto o deposito da roupa suja, em outro o arsenal, composto de espingardas, rewolvers, paus ferrados, chicotes e cassetetes; além os arreios de cavalgadura; na mesa, ao pé da cama, os restos das grosseiras iguarias da ceia da vespera, alguns usados baralhos de cartas, de mistura com umas insignias pobres e desprezadas da vestimenta do padre, tudo ennodoado de azeite e de vinho, e pontas de cigarro por toda a parte.

Os dois achavam delicias n'este viver, que chamavam escolastico, e que diziam avivar-lhes recordações dos seus tempos de estudante.

Bem poderia comtudo o aposento ter mais um grau de limpeza, sem que n'isso tivesse de despir a feição de desordem, caracteristica a um quarto de rapaz solteiro.

Quando Mauricio abriu para traz as portas das janellas, os dois primos saudaram com uma jura a luz do dia, que foi incommodar-lhes com os seus raios a retina preguiçosa. Depois de um ruidoso e prolongado bocejo, o doutor sentou-se na cama com os olhos mal abertos e os cabellos cahindo-lhe em desordem sobre a testa; e o padre, meio amuado, voltou-se para a parede, no intento de encetar outro somno.

--Que vida de inuteis vadios esta!--exclamou Mauricio, puxando para o meio da sala a mais desoccupada e limpa cadeira que encontrou, e pondo-se ás cavalleiras n'ella.--Ao meio-dia!

--Isso! Vem para cá fallar da vida de vadios. Olha se me convences de que te afadigas muito a trabalhar.

--Em todo o caso já vim de minha casa até aqui e tu, ao que parece, ias no meio de um somno e lá o padre então... esse vae, pelo que estou vendo, no principio d'outro.

--Mas como diabo te deu para vires por aqui tão cêdo?

--Cêdo? Olha que é meio-dia! Mas... vim encarregado de uma missão.

--De quem?

--De meu pae.

--De teu pae?! Para nós?!

--É verdade. Estou incumbido de vos convidar a todos tres para jantar ámanhã.

O padre deu uma volta na cama, ao ouvir este convite e fitando Mauricio com olhos espantados, ainda que mal abertos, exclamou com voz rouca de somno:

--O tio Luiz dá ámanhã um jantar?!

--Sim, senhor. Em obsequio á Gabriella, a baronezinha de Souto-Real, que lá está desde hontem de manhã.

--Ora essa!--acrescentou o padre, e tornou a voltar-se para a parede.

--Bravo!--applaudiu o doutor--isso já me cheira melhor do que a tal historia do Jorge feito guarda-livros. Aquelle Jorge com'assim ha de ser sempre d'essas ratices. E dize-me cá: que tal está agora a Gabriella?

--Não me pareceu mal; ainda que, para te fallar a verdade, não lhe dei muita attenção.

--Sim, tu andas agora distrahido com a...

N'este ponto interrompeu-se subitamente, e dando uma palmada no travesseiro, a qual lhe fez cahir na cama a cinza inflammada do cigarro que principiou nos lençoes uma centesima combustão, exclamou:

--É verdade! que me ia esquecendo? fizemos uma grande descoberta esta noite, homem!

--Qual foi?

O padre, ao ouvir as palavras do irmão, deu um salto para sentar-se na cama, e preparando tambem um cigarro, disse, fitando Mauricio com um sorriso alvar:

--Olha lá, ó Chico. Vê como contas a coisa, porque o Mauricio é nervoso; não sei se sabes.

--Mas de que se tracta?

--De um caso muito engraçado. Rimos a perder. Mas ainda havemos de rir mais, porque a historia promette dar de si.

O padre, meio estendido pela cama fóra para pedir lume ao irmão, confirmou o dito d'este com um gesto e um grunhido.

--Mas digam lá o que foi--insistia Mauricio.

--Hontem á noite--principiou o doutor--fui eu aqui com o Lourenço á espadelada do Martinho. Aquillo não esteve de todo mau. Bem boas raparigas, e a luz conveniente. Mas, alli pelas onze horas, appareceram uns apaixonados armados de varapaus, e com uns certos modos, que principiaram a fazer ferver-me o sangue.

--Eram os mesmos da feira do mez passado--acudiu o padre--mal fiz eu em não ter quebrado os ossos ao Gaudencio, quando o deixei atordoado na estrada.

--O certo é--proseguiu o mano doutor--que os homens começaram a fazer-se finos, e eu que vi o Lourenço já a fumegar, previ logo o caldo entornado e fui procurar o marmeleiro que deixára atraz da porta, para o que desse e viesse.

--Não era preciso. Para aquelles basto eu só--annotou o padre, sugando com força o cigarro, que teimava em não arder.

--Meu dito, meu feito--continuou o outro--nós a sahirmos e elles comnosco. O Lourenço pôz logo dois fóra do combate; eu arquei com o terceiro, que me derreou o braço esquerdo, mas a quem escangalhei a cabeça; o ultimo fugiu-nos. Era o João do Pinhão.

O padre interveio:

--Eu, que lhe ando com sêde, disse logo para o Chico: «Vamos d'aqui cortar-lhe o caminho e dar-lhe uma lição.» E tomamos pela quelha do regedor.

--E viemos sahir mesmo defronte da porta do Thomé! por traz da prêsa. Sabes?

--Sei muito bem.

--Ora o homem não appareceu.

--Mas appareceu cousa melhor--acudiu o padre.

--Havia de andar peia meia noite e nós sem fazer bulha ainda escondidos na sombra. Percebes?

--Mesmo defronte da casa do Thomé--insistiu o padre.

--E depois?--interrogou Mauricio impaciente.

--Depois...

A mulher é um catavento, Que com os ventos varia; Seu amor dura um momento, Tolo é quem n'ellas se fia.

Cantarolou o doutor.

Mauricio olhou interrogadoramente para o padre.

--Meu caro priminho--disse-lhe este--põe as tuas crenças de môlho e prepara-te para arrancares um punhado de cabellos; um ou dois.

--Mas que queres dizer com isso?

--Quero dizer que a porta do Thomé abriu-se sorrateiramente e sahiu de lá um patusco... Trai la rai lai lai.

--É impossivel!--exclamou Mauricio com indignação, comprehendendo as malignas allusões do primo.

--Qual impossivel?--confirmou o padre--Não ha impossiveis n'este mundo. Desengana-te, menino.

--Mas teem a certeza de que se não illudiram?

--Ora se temos. Era um homem em corpo e alma.

--E viram quem era? Conheceram-n'o?

Os dois irmãos, a esta pergunta, trocaram entre si um olhar e um sorriso de velhacaria.

--Com certeza, não; mas suspeitamos--respondeu o doutor.

--Quem é?

--Alto lá! Nada de ferver em pouca agua. Isso fica para segunda observação. Por ora não possuimos ainda a certeza. Porém já mais de uma noite temos encontrado o tal ratão, de quem suspeitamos, não muito longe do sitio, e já andavamos com a pedra no sapato.

--Ó Chico, olha que o Mauricio não está bom. Estes golpes repentinos...

--Qual! Se eu não acredito uma unica palavra do que vocês estão para ahi a dizer--tornou-lhe Mauricio, erguendo-se e passeiando na sala agitado.

--Não que a cousa é muito para se não crer--disse o doutor, principiando a vestir-se--uma rapariga de dezoito annos, que vem do collegio, ter um apaixonado?... Sim, o caso é tão raro!

--Vocês não conhecem Bertha.

--Tu, sim, que a conheces. Papalvo de olhinhos fechados que ainda anda a sonhar por este mundo com princezas encantadas--observou o padre, tirando de entre a roupa da cama um volume de Paulo de Koch, com que adormecêra na vespera.

--Então lá por que um homem sahe de noite de casa do Thomé, já não póde ser senão por amor de Bertha. É boa!--insistia Mauricio, contra a sua propria convicção.

--Sim, meu menino, sim; isso tudo e o mais que tu quizeres--respondeu-lhe o padre, apertando outro cigarro.

--Veremos o que tu pensas, assim que vires o tal homem--tornou o doutor.

--Ora mas digam-me: Pois não ha tanta gente em casa?

--Pois ha, ha.

--Então...

--Então tem vocemecê razão--concluiu impertinentemente o padre.

--Muito bem--propôz o doutor.--Para sahir de duvidas queres tu vir comnosco bater a mata esta noite para conhecer o coelho?

--Quero, sim.

--Muito me hei de rir esta noite!--exultou o padre, saltando abaixo da cama.

--Mas promettes não assassinares a pequena na furia do teu ciume?

--Não creio verdadeira a vossa supposição, mas se o fosse...

--Que farias? Ora dize lá--perguntou o padre, piscando um olho emquanto esperava a resposta.

--Achava essa mulher tão desprezivel que...

--Pumba! Ora ahi temos outra. Na verdade ha nada tão desprezivel como uma mulher que abre a porta a qualquer pessoa de preferencia ao menino Mauricio, a joia dos namorados!--ponderou zombeteiramente o padre.

--Não quero dizer isso, mas...

--Pois, meu menino, prepara-te para o desengano, e volta ás priminhas dos Barrocaes, que essas são fieis.

--Ora, mas digam-me vocês uma coisa--insistia Mauricio--quem querem que seja o homem que possa estar já com Bertha n'esse tom de familiaridade?

--Não entremos n'essa questão. A seu tempo cahirão as cataratas.

--Já digo, eu não acredito.

--Pois nosso Senhor te dê sempre essa commoda incredulidade; antes de casar e depois de casar.

E entre os tres ficou pactuada para aquella noite uma espionagem cerrada á casa de Thomé, com o fim de reconhecerem a mysteriosa visita.

Mauricio passou o dia todo pensativo e preoccupado com a revelação que os primos lhe fizeram.

Ainda quando Bertha não tivesse adquirido grande preponderancia sobre os pensamentos de Mauricio, bastaria a ideia de que outro o preterira no coração de uma mulher, a quem elle havia dedicado um olhar de galanteio, para devéras o irritar.

Mas, de justiça é que se diga, o amor, a paixão, a inclinação, o capricho, ou como mais rigoroso nome tenha, o sentimento de Mauricio para Bertha attingira a maxima intensidade, a que podiam subir os affectos d'aquelle caracter voluvel. Se não amava ainda devéras, é certo tambem que nunca amára melhor. Bertha demais possuia sobre as outras mulheres, que nas épocas successivas haviam reinado na imaginação d'este rapaz, o prestigio das recordações de infancia, a distincção de tracto adquirida na educação da cidade, e até a desaffectada reserva com que lhe tinha acolhido o galanteio.

As reflexões de Jorge contra aquelles amores, a perspectiva das repugnancias de familia, dos obstaculos a vencer, dos preconceitos e paixões com que luctar, longe de extinguirem a chamma em que elle procurava abrazar-se, antes mais a activavam.

A ideia de um amor entre dois corações jovens, amor constante em despeito do antagonismo, das animadversões e dos odios das familias; esse eterno e poetico thema de tantas obras de arte, era sympathico á phantasia de Mauricio, que, seduzido por ella, chegou a convencer-se de que estava destinado a ser mais um exemplo do caso; estimulo este sufficiente para o apaixonar.

Jorge estranhou-lhe o ar pensativo, mas não o interrogou.

A baroneza, usando dos privilegios de mulher nova e elegante, costumada a não refrear a sua curiosidade feminina, interpellou-o directamente:

--Não voltaste muito amavel do teu passeio matinal, Mauricio. Que foi isso?

--Perdoe-me, prima. Isto é uma das muitas mudanças de colorido que, sem que se saiba porque, se opéra no humor de uma pessoa.

--Hum! Não andará ahi influencia do coração?

Mauricio soltou um meio riso de descrente, respondendo:

--O coração! O meu coração é modesto. Não aspira a dominar. Nunca lhe conheci essas tendencias.

--N'isso mesmo que dizes d'elle se está a perceber que ha espinho lá dentro.

--A prima ha de perdoar-me a franqueza; mas já vejo que tem o defeito do seu sexo, que é não poder imaginar que haja sobre o caracter e a boa ou má disposição de um homem outra influencia que não seja a de uma mulher.

--E quando os homens se occupam tão pouco de coisas graves, como... certos que nós conhecemos, a lei não deixa de ser verdadeira.

--Engana-se; vê? Os homens da minha indole são exactamente aquelles que estão menos sujeitos á influencia que diz. Aceitamos a infidelidade e a inconstancia feminina como um facto natural e com que já contavamos, porque em nós nunca se desenvolvem aquellas illusões que levam muitos espiritos a endeusar a mulher. Estamos prevenidos para todas as occorrencias, porque nunca nos esquecemos da fragilidade d'esses delicados objectos, que amamos só por que são frageis e delicados. As grandes desillusões e os profundos desespêros são para os que fazem do amor um culto e sonham a mulher de uma essencia superior. Persuadem-se de que é de crystal a bola de sabão matizada que os seduz, e portanto ficam muito desconsolados quando ella se lhes desfaz no ar.

--Cada vez confirmo mais a minha supposição. Eras bastante delicado para me poupares a essa theoria de mau gosto sobre a mulher, se não estivesse fallando em ti o despeito por uma causa recente.

A exactidão da observação da baroneza feriu Mauricio no riso e fêl-o balbuciar, córando:

--Peço perdão se a minha franqueza a offendeu, porém...

--Não te canses a desculpar-te. Eu até achei graça a essa profissão de scepticismo, já muito meu conhecido, mas que não sabia que tambem nascia nos bosques, onde julguei que se haviam refugiado as boas crenças desde que emigraram das cidades. Ámanhã espero que estarás mais senhor de ti.

--Estou a sangue frio, creia.

--Veremos com mais vagar esse coração. É-me isso preciso para os meus planos.

--Os seus planos?!

--Então já te esqueceste de que eu estou aqui principalmente por tua causa?

--Ah! sim, agradeço-lhe o cuidado; mas estou receiando ter de dar-lhe muito que fazer.

--Veremos.

A noite chegou e bem vagarosa para a impaciencia de Mauricio.

Pouco mais seria de Ave-Marias, já elle instava com os primos do Cruzeiro para que fossem pôr-se de vigia.

--Isso não vae assim!--diziam elles--Pois que cuidas tu? Não sabes que o passaro é dos que só voam de noite? Falla-nos lá para as onze horas.

Mauricio illudiu em todo este tempo a sua impaciencia, tentando provar aos primos com argumentos novos, que lhe tinham occorrido em casa, a impossibilidade de ser para Bertha a visita nocturna da Herdade.

Os primos respondiam rindo só com phrases equivocas, que Mauricio não comprehendia.

--Olha cá, ó Mauricio--perguntou o mano doutor--em tua casa sabe-se do teu namoro com a filha do Thomé?

--Ahi vens tu com o namoro!...

--Pois seja o que quizeres; da tua affeição, se achas mais bonito; mas sabem?

--Apenas o Jorge me fez a esse respeito algumas reflexões.

--Ah! o Jorge fallou-te n'isso?

--Ha dias. Pelos modos o Thomé queixou-se-lhe...

--Ai, o Thomé queixou-se ao Jorge? Sim senhor, tem graça. Que te parece, ó Lourenço?

--É bem bom! e então o Jorge deu-te conselhos, hein?

--Sim, disse-me alguma coisa; que era preciso cautela, que não era prudente o meu proceder...

--Ah!

--E quasi me fez prometter que desistiria.

--Ah! fez-te prometter isso?

--Quasi.

Os dois não podiam suster o riso.

--É impagavel aquelle Jorge!--repetia de quando em quando o padre.

--Vocês bem sabem o genio d'elle.

--Ai, sabemos. Pois nós bem sabemos... o genio d'elle. Ah! ah!...

E os risos redobravam.

Mas a noite chegára emfim e cerraram-se cada vez mais as sombras sobre os caminhos do campo. Mauricio pôde finalmente acompanhar os primos ao logar da espia.

