Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia
Part 12
--Creio que não é, porque não póde de certo haver intenção de offender-me, em quem entra em minha casa na companhia do snr. Mauricio. Elle bem se lembra de que eu fui em pequena a companheira de sua irmã Beatriz, de que sou a afilhada de seu pae, e n'aquella casa, a que elle pertence, julgo que ainda ha, como d'antes, muito respeito por este laços de familia e de amizade...
--Ha, Bertha, ha e tão sancto como em outros tempos. E ha mais, ha a firme resolução de os fazer respeitar aos outros, como lá se respeitam.
--Abranda-te, leão! Não estou disposto a luctar comtigo, apesar d'esses olhares ferozes. Esta menina far-me-ha mais justiça, reconhecendo que eu não a offendi...
--Não fallemos mais n'isso--acudiu Bertha friamente.
--Mas é um caso de consciencia--insistiu o abbade.
--Então ninguem tão habilitado para o decidir como um sacerdote--tornou-lhe Bertha, com desdem.
Gargalhada do mano bacharel.
--Chucha! Ora mette-te com ella, anda.
--Em coisas do coração--redarguiu o padre galanteadoramente--são melhores juizes do que os sacerdotes, as _madamas_.
Bertha contrahiu a fronte com desgosto e respondeu-lhe com maior severidade:
--Quando ellas teem um pae, podem elles tambem ser juizes. E o meu ahi vem.
Effectivamente chegava Thomé da Povoa.
O honrado fazendeiro, que tinha a sua opinião formada a respeito dos fidalgos do Cruzeiro, franziu o sobrolho, assim que os avistou com a filha.
Nem a presença de Mauricio bastou para tranquillisal-o.
Thomé conhecia de pequenos os rapazes da Casa Mourisca e sabia até que ponto se podia contar com o que em Mauricio havia de bom, e receiar do que n'elle havia de mau.
Depois a physionomia de Bertha denunciava que a conversação dos fidalgos não tinha sido demasiadamente apropositada.
Nem convinha á boa fama de uma casa, em que houvesse raparigas, a assiduidade de qualquer dos tres manos do Cruzeiro.
Tudo isto actuava no espirito de Thomé durante os instantes que precederam a sua introducção na scena.
--Olá! v. exc.as por aqui! Grande honra! grande honra!
--É verdade, Thomé--começou o padre a dizer--entramos, como rapazes de escóla, sem pedir licença ao dono da casa; mas confiamos que não se nos leve a mal...
--Ora essa! Levar a mal porquê? V. exc.as quizeram talvez vêr por seus proprios olhos como esta abençoada terra, que d'antes se definhava nas mãos de um fidalgo, medra agora nas mãos de um lavrador?
--Justamente. E depois tivemos a felicidade de encontrar a menina Bertha, que é a maravilha d'estes sitios.
--Ah!--disse Thomé, com um meio sorriso, e voltando-se para a filha, que instinctivamente se aproximou d'elle:
--É verdade. Agora me lembra! Olha que tua mãe recebeu já aquellas meiadas. Se queres ir vêl-as.
--Vou, vou já--respondeu Bertha.
E cortejando levemente os tres rapazes, afastou-se d'alli.
--Até outra vez, Bertha--disse Mauricio, com voz affectuosa.
--Snr. Mauricio--correspondeu-lhe Bertha, e desappareceu por uma rua da quinta.
E pensava comsigo mesma:
--Agora... agora... já não sinto mêdo d'elle... nem de mim.
--Na verdade, Thomé, a sua casa está um perfeito paraizo e nem os anjos lhe faltam--disse o mano bacharel, depois que Bertha se retirou.
--O que eu posso affirmar--insinuou o abbade--é que não faltarão tambem em volta d'estes muros enxames de namorados. Que te parece, Mauricio?
--Bertha é digna de todos os respeitos--murmurou Mauricio, confuso.
--Bem, bem, quem diz menos d'isso? mas...
Thomé interrompeu o padre.
--Eu lhes digo, meus senhores, Bertha é filha de uma familia, em que todos trabalham, e pouco tempo póde ter para apparecer a namorados. Quando algum homem de bem se me affeiçoar á filha, não serei eu que lh'a recuse, se o coração d'ella estiver para esse lado; pois para freira a não quero. Emquanto aos enfeitados, que andam por ahi a zunir aos ouvidos das raparigas e a fazel-as doidas, Bertha sabe bem o que elles valem... mas, se por acaso a importunarem muito... eu sei como se dá cabo de um vespeiro.
E fallando Thomé da Povoa não ficára immovel, mas pozera-se naturalmente em caminho da porta, e os tres seguiam-n'o, sem fazer observação alguma.
Só quando o viram parar no portão é que perceberam que o lavrador como que tacitamente os convidava para sahirem.
O padre não pôde deixar sem uma reflexão este procedimento.
--Agradecemos, Thomé, o incommodo que teve a ensinar-nos o caminho da porta para sahirmos.
--Os lavradores da nossa terra teem estes excessos de hospitalidade--secundou o doutor.
Thomé córou e respondeu com certa confusão:
--A minha cabeça!... Desculpem. Isto em mim foi distracção. Quando a gente não está bem em si, faz, sem reparar, coisas que muitas vezes lhe podem estar na vontade, mas que por delicadeza não faria, se pensasse melhor. Queiram desculpar.
--Está desculpado. Nós tambem não tinhamos mais que fazer aqui. O fim da nossa visita estava preenchido.
--Sim, tambem me quiz parecer isso.
--Adeus, Thomé--bradou o doutor--Deixamol-o entregue á sua vida patriarchal.
--E está um verdadeiro patriarcha, este bonacheirão do Thomé--disse o padre, batendo familiarmente no hombro do lavrador.
--Bonacheirão?--repetiu Thomé, encolhendo os hombros e com um meio sorriso--Isso é conforme. Ás vezes... Ahi está que, sendo eu amigo do mestre-escóla, como sou e ha tantos annos, estive ha mezes para o esmagar. E sabem porquê? Porque passava eu por a escóla e ouvi chorar uma criança, e pareceu-me que era o meu pequeno; não me socegou o coração sem que me affirmasse se era elle ou não. Entrei e vi o desalmado do Zé Domingues que m'o desancava sem dó nem piedade. Escureceu-se-me a vista, entrei furioso por alli dentro, e por um triz que não deixava o homem a pernear.
Os rapazes estavam já fóra da porta quando Thomé acabou de contar o caso, e acrescentou:
--Não que se tractava de meu filho, e isto de amor de pae e de mãe... É como nos animaes. Sabem aquella vacca malhada que eu tenho? Um borrego, com que uma criança brinca; pois haviam de vêl-a uma vez em que lhe tiraram a cria! Estava furiosa e arremettia como um toiro bravo. É preciso cuidado com isto de paes e de mães!--concluiu o fazendeiro, em tom sentencioso e emphatico.
E dando as boas tardes aos tres rapazes, fechou a porta, murmurando:
--O padre ainda não aprendeu com a corrida que levou da abbadia. E este Mauricio a acompanhar com elles! Valha-o Deus!
--Então que vos parece o snr. Thomé?--perguntou o bacharel cá fóra.
--Não está mau com a historia da vacca--disse o abbade, rindo.
Mauricio conservou-se silencioso.
--Tu a modo que vaes assim embaçado, ó Mauricio?--observou o bacharel.
--Estou arrependido de vos ter trazido commigo aqui--confessou Mauricio.
--Ora não sejas parvo! querias talvez que fizessemos muito gasto de excellencias com a filha do Thomé da Povoa?
--É uma rapariga de educação, e o pae...--ia a dizer Mauricio.
--E o pae--atalhou o padre--anda-me chiando muito alto, mas bom será que tenha mais cuidadinho comsigo.
--As ultimas palavras d'elle cheiraram-me a uma ameaça--observou o doutor.
--Eu nem dei por isso--respondeu o mano.
E os tres retiraram-se de mau humor.
XIV
Jorge, que ultimamente era menos assiduo em Casa de Thomé, sem que este pudesse atinar com a razão do facto, recebeu, na tarde d'aquelle mesmo dia, um bilhete do fazendeiro, pedindo-lhe que o procurasse na Herdade ás horas do costume. Jorge não faltou.
Thomé da Povoa recebeu-o com modos menos desenleiados do que os que lhe eram habituaes, e com ares de mysteriosa preoccupação conduziu-o a um gabinete mais retirado da casa, serrando a porta depois que entraram, com excepcional cuidado.
Jorge seguia-lhe com estranheza os movimentos.
Thomé, com um gesto denunciador do esforço que n'aquelle movimento fazia sobre si proprio, entrou no assumpto com visivel repugnancia:
--Snr. Jorge--principiou elle--sei que é meu amigo, e que tem o juizo e a prudencia de um homem feito, apesar de novo como é; por isso vou fallar-lhe com a franqueza de um homem de bem e de um amigo.
--Nem o Thomé sabe conversar de outra maneira. Diga.
--Pois bem. A coisa é esta... Eu antes queria não fallar n'isto, mas... emfim... se o negocio ha de ir a mais... e succeder por ahi alguma desgraça... emfim... a tempo é que é evitar o mal; quanto ao depois...
--Mas de que se tracta?
--Snr. Jorge. É um pae que lhe falla. Tenho uma filha e emfim preciso de vigiar por ella, emquanto não tem marido que a zele e proteja... não é verdade?
Jorge não pôde ouvir sem se perturbar estas palavras e, interiormente inquieto, sem bem saber porque, murmurou:
--De certo, mas...
--Ora bem. O snr. Jorge é rapaz sisudo e pacato, mas emfim sempre ha de saber o que são dezoito, dezenove ou vinte annos, hein? Pode-se ter o juizo muito claro, vêr as coisas como ellas são, mas... isto de sangue novo... parece que ferve e depois é como uma doença, e como uma febre, a cabeça desarranja-se e não ha conselhos que a concertem. Pois não é assim?
Jorge córou ouvindo estas considerações de Thomé, que lhe pareciam dirigidas, olhou para elle com desconfiança e respondeu confusamente:
--Talvez seja; porém...
--Ora então segue-se que o melhor é livrar-se a gente de trabalhos e fugir das occasiões, para que depois se não diga: «Ai, porque se eu soubesse; ai, porque o que eu devia ter feito era...» Entende-me?
--Entendo, Thomé, mas, a final a que quer chegar?--interrogou Jorge, cada vez mais sobresaltado.
--Ora eu lhe digo. A minha Bertha é uma rapariga de juizo.
A confusão de Jorge redobrou. O rosto tingiu-se-lhe de rubor, em que Thomé não reparou.
--É--proseguiu o fazendeiro--tenho a certeza d'isso, mas é rapariga, e emfim teve uma educação bem bonitinha; e Deus me perdoe se fiz mal em lh'a dar; ora eu, com quanto seja um rustico, sei o valor que teem certas coisas, e que quem se costumar a ellas com ellas sonha. Isso é que é verdade! E nem eu me admirava de que a pequena tivesse sua inclinação para rapazes da cidade. Era natural, já digo. Mas aqui não veem elles, os da terra são assim meios... meios... emfim rapazes de lavoura, como eu fui; muito bons para raparigas como era a minha Luiza. Ora agora o que por ahi ha, são, e perdoe-me dizer-lhe isto, uns fidalguinhos que não teem que fazer, e que passam o seu tempo a inquietar as raparigas da terra. D'esses é que eu tenho mêdo! E se quer que lhe falle a verdade, cá em relação á minha pequena, ha um sobre todos de que eu muito me receio.
--Quem é?--perguntou Jorge, ainda não senhor de si.
Thomé hesitou por algum tempo, mas a final, como tomando uma resolução, respondeu:
--É seu irmão Mauricio.
--Mauricio!--repetiu Jorge, contrahindo a fronte.--Pois acaso tem elle dado já motivos para suspeitar?...
--Poucos; isto em mim é mais mêdo do que outra coisa. Hoje porém já me não agradou o que elle fez.
E Thomé narrou a Jorge a scena da manhã, acrescentando:
--Ora dos do Cruzeiro não tenho eu mêdo. Bertha conhece-os e é o que basta para ficar livre de perigo; mas com o snr. Mauricio já não é assim. Apesar das suas doidices, não se póde deixar de se gostar do rapaz, porque o fundo é bom e generoso, e depois... conhecem-se ha muito... e elle é estouvado e um rapaz bonito... e ella... ella tem dezoito annos... Emfim, snr. Jorge, isto anda-me cá a pezar, e por isso pedia-lhe que visse se obrigava seu irmão a deixar-me em paz a rapariga, porque nada de bom póde resultar d'aqui.
Jorge sentia apertar-se-lhe o coração ao ouvir aquella confidencia. Era pois certo que Bertha amava já Mauricio!
--Thomé--respondeu elle, sem trahir a sua agitação--socegue. Eu fallarei a Mauricio. Não creio que elle fizesse com intenção o que me diz; mas em todo o caso concordo em que é preciso evitar a tempo peores occorrencias. Faço justiça a Bertha; mas quero que meu irmão seja o primeiro a respeital-a. Eu lhe fallarei, creia.
--Muito bem--respondeu Thomé, apertando-lhe a mão.--Eu estava certo de que me daria essa mesma resposta.
Jorge acrescentou:
--Demais, Mauricio pouco se demorará aqui. Espero que em breve parta para Lisboa.
--Bom será. Talento tem elle para o poder aproveitar na vida, e aqui o que ha de elle fazer? Depois a companhia d'aquelles primos!...
Jorge separou-se de Thomé, sem que se occupasse n'aquella noite do assumpto habitual das suas conferencias.
Ao sahir, mais cêdo do que o costume, atravessou uma sala aonde Bertha costurava á luz de um candieiro.
Ao vêl-o passar, Bertha estendeu-lhe familiarmente a mão, dizendo com um sorriso affectuoso:
--Retira-se muito cêdo hoje; durou pouco a lição.
--Ás vezes é quando mais se aprende--respondeu-lhe Jorge, com mal disfarçada ironia.
--E até quando?--proseguiu Bertha, parecendo não attentar no sentido da resposta.--Ha já bastante tempo que não o viamos.
--Até... até cêdo.
--O snr. Mauricio vejo-o mais vezes... ainda hontem ahi passou.
--Sim--disse Jorge com um malicioso sorriso--Mauricio tem essa habilidade, de ser visto todos os dias por as mulheres bonitas da terra.
Bertha olhou admirada para Jorge; feriam-n'a aquellas respostas sêcas e sarcasticas, que não esperava ouvir-lhe.
--Então dá-se ao trabalho de se mostrar a todas?--perguntou ella sem desviar os olhos.
--Sim, provavelmente--tornou Jorge no mesmo tom--e parece que todas se dão ao trabalho de lhe apparecer.
--Ah!
E Bertha calou-se; fixou os olhos na costura e pareceu até esquecer-se da presença de Jorge na sala.
Este finalmente despediu-se, estendendo a mão a Bertha.
--Boa noite, Bertha.
Sem levantar os olhos da costura e portanto sem lhe corresponder ao gesto de despedida, Bertha respondeu:
--Boa noite, snr. Jorge.
--Offendeu-se--pensava Jorge ao retirar-se--então ha fundamentos para as apprehensões de Thomé. Juizo de rapariga a final! Cabeça doida, que não espera que o coração se declare e alimenta paixões com reminiscencias de romances. Pobre Thomé! É o que elle a final colhe dos seus sacrificios para a educar. Eu logo o suppuz...
As reflexões de Jorge succederam-se e encadearam-se n'este teor. Crescia n'elle mais do que nunca a sua irritação contra Bertha.
--Mas que tenho eu com Bertha?--reconsiderava elle--para me importar com isto? A final são pequenas fraquezas de rapariga e... Mas a amizade que consagro ao pae obriga-me a intervir. Mauricio é um louco, e ella já vejo que não tem mais prudencia do que outra qualquer rapariga da sua idade.
E esta ideia de Bertha ser sensivel aos galanteios de Mauricio era o que mais que tudo o incommodava.
E Bertha? Que ficou pensando, com a cabeça inclinada sobre a costura, mas com a mão parada e o olhar pensativamente fixo?
--Porque é esta severidade de Jorge para commigo?--pensava ella--Não posso já duvidar. Ha n'elle não sei que prevenção contra mim. Ou não me falla, ou falla-me d'este modo. Um motivo leve não póde ser, porque Jorge é, ao que dizem, um rapaz de tão bom senso, que de certo por uma insignificancia não me tractaria assim. Mas que faria eu? Nada; se em mim ha loucuras, ficam-me no pensamento e ahi quem as vae devassar?... E que fossem?... E que as achassem?... Eu podia dizer-lhes: Sim, estão ahi, mas eu bem sei que estão, e ahi mesmo as suffoco e venço. Não sou responsavel perante ninguem do que se passa em mim só. Entre mim e Deus é que essas coisas se julgam. Quando me revelar, quando me trahir, que me peçam contas então. A que vem estas severidades? Que fiz eu a este generoso rapaz? Imaginará elle que o galanteio de Mauricio me terá fascinado? É um caracter tão serio, que talvez por isso me condemne. Fascinar-me! Mauricio!!... Ao principio talvez; agora porém vejo que se vão desvanecendo essas phantasias de criança, nascidas e robustecidas nas minhas horas de solidão no collegio, e que senti alvoroçarem-se ao chegar aqui, e ao vêl-o. Mauricio não é o caracter de que eu me posso receiar. E ainda bem. Mas Jorge por que me quererá mal? Lembra-me que meu pae me disse que, se elle não fosse meu amigo, não me dizia que o era... E elle ainda m'o não disse.
Estas reflexões foram interrompidas pela entrada de Thomé, que, satisfeito pela promessa de Jorge, já não sentia nuvens a escurecer-lhe o pensamento.
Jorge chegou a casa antes do irmão.
Era noite de luar, tepida noite de outomno, languida e serena, como a podem desejar os mais exaltados devaneiadores. Havia uma limpidez no céo, uma quietação nos bosques tão completa, que parecia que a natureza toda parára em suspensão a contemplar o solemne progresso da lua pelo firmamento, que inundava de luz.
Era uma d'estas noites em que só a custo se troca o ar livre dos campos pelo ar confinado do gabinete, em que se hesita ao cerrar as janellas aos raios da lua que invadem a sala, para os substituir pela luz vacillante da lampada, que alumia as vigilias do estudo.
O proprio Jorge, habituado como estava ao trabalho, cedeu ás seducções d'aquella noite e deixou-se ficar sob as arvores da quinta. O peito precisava de ar livre que o desopprimisse.
Os carvalhos e castanheiros seculares temperavam a claridade da lua, coando-a atravez da folhagem, de que o inverno os não despira ainda. Uma luz mysteriosamente discreta penetrava no bosque; raros sons interrompiam aquelle silencio, além do rumor longinquo e monotono das fontes e cascatas.
O pensamento de Jorge perdêra a placidez habitual; como que despertavam n'elle os instinctos de juventude, povoando-lhe de visões o campo da phantasia, de ordinario occupado por mais severas imagens.
Os seus calculos, os seus projectos de futuro, os problemas de administração, que lhe absorviam o pensamento, cederam agora o logar a ideias menos positivas, a meditações vagas, a quasi devaneios, em que raras vezes a sua razão se deixava arrebatar. Primeiro dominou-o a magia do passado; evocou do silencio dos tumulos aquelles dos seus antepassados, que trouxeram com todo o esplendor o nome que hoje era seu, os que mais alto elevaram o ennegrecido brazão que honrava ainda a frontaria d'aquelle solar em ruinas. Depois, saudades mais pungentes, d'essas que ainda trazem vestigios de lagrimas, como restos da sua natureza de dôr, de que só o tempo as vae privando, occuparam-lhe o coração e o pensamento. A sombra da pallida e estremecida irmã, que a morte arrebatára quando mais seduzia com sorrisos e afagos, a sombra de Beatriz, que era a mais querida e mais dolorosa recordação d'aquelles rapazes e d'aquelle velho, parecia surgir ao mysterioso apello da noite, e vaguear, como uma apparição phantastica, por entre essas arvores que menina a viram e menina a protegeram do sol abrazador dos campos.
Jorge ainda não esgotára as lagrimas consagradas á memoria da irmã. Tinha-as nos olhos, quando a tinha no pensamento a ella.
Pouco e pouco, por uma insensivel transição, a imagem de Bertha substituiu a de Beatriz.
Differentes eram as impressões que esta nova imagem lhe produzia, differentes e indecifraveis quasi.
Já vimos que antagonismo de sentimentos havia no coração de Jorge em relação á filha de Thomé da Povoa.
Como luctavam a involuntaria attracção que por ella sentia, com a reflectida resistencia que lhe oppunha. Lidava por levantar obstaculos ao progresso do violento affecto que lhe ia tomando o coração, e a seu pezar via que esses obstaculos eram inuteis. Inventava defeitos que lhe desprestigiassem o caracter de Bertha, accusava-a de vicios de educação que ainda lhe não reconhecêra, fingia-se convencido da leviandade d'aquella pobre rapariga, e com toda a austeridade do seu caracter sisudo lavrava contra ella a sentença condemnatoria; mas no fim de tudo isto achava-se cada vez mais subjugado; revoltava-se-lhe debalde a consciencia contra esta fraqueza, em vão revelava com maneiras rudes e quasi hostis para com Bertha este desgosto de si mesmo que estava experimentando... o effeito era cada vez mais pronunciado.
O que tinha acabado de ouvir a Thomé augmentára-lhe aquella inquieta lucta de espirito.
A ideia de inclinação reciproca de Bertha e de Mauricio irritava-o e affligia-o.
Não eram as consequencias do facto que o assustavam. Jorge não acreditava na sinceridade das affeições de Mauricio; sabia quanto ellas eram fugazes e estava convencido de que a proxima partida do irmão bastaria para desvanecer essa paixão nascente.
E comtudo não lhe sahia do pensamento aquillo. Torturava-o aquella ideia, não lhe permittia repouso.
A consciencia de Jorge aventurava, muito a mêdo, a vaga explicação d'este enigma psychologico que se estava passando n'elle, mas Jorge recusava dar attenção áquella voz.
Ha casos assim, em que nem comnosco somos sinceros, em que se faz mais evidente do que nunca esta especie de dualidade unificada em todo o individuo, porque guardamos discretamente de nós um segredo nosso, e luctamos comnosco em opposição declarada.
A dominios tão intimos da consciencia seria porém irreverente levar a luz da analyse; aguardemos que a ulterior evolução de affectos melhor nos revele o segredo que ia no coração de Jorge.
Era já noite avançada quando chegou aos ouvidos do pensativo rapaz o ruido de uma porta que se abria; pouco depois passava Mauricio pela extrema do bosque, cantando distrahidamente:
Além, n'aquella avenida De platanos e salgueiros, Foi que em teus beijos primeiros Bebi a primeira vida.
A luz do luar batia-lhe em cheio na figura e não o deixou passar incognito.
Jorge, reconhecendo-o, chamou-o em alta voz.
Mauricio parou surprendido.
--Quem me chama?
--Sou eu.
--Tu?! Jorge!
--Sim, pois quem havia de ser?
Mauricio caminhou ao encontro do irmão.
--Transportas-me de surpreza em surpreza! uns dias a seguir da janella do teu quarto o caminhar das nuvens, outros a errar á meia noite por entre as sombras dos bosques! Em que havia de dar a arithmetica!
--Cheguei ha pouco. Abafava lá dentro. Vim para aqui esperar-te, porque desejava conversar comtigo.
--O tom é grave e serio; é de crer que o assumpto corresponda.
--Não te enganas. É bastante serio o que tenho para dizer-te.
--Penetremos então na sombra druidica d'este bosque, para augmentar a solemnidade da scena.
--Peço-te que deixes para outra occasião as tuas observações joviaes; repito-te que é serio o que tenho a dizer-te.
--Pois aqui me tens serio como o assumpto. Falla.
Jorge guardou ainda por instantes silencio. Sob os passos dos dois irmãos ouvia-se estalar as folhas sêcas que alastravam o chão.
--Mauricio--principiou Jorge a final--Thomé procurou-me hoje para fazer-me um pedido.
--Hum!--atalhou Mauricio com meio riso--não me enganei, previ logo que se tractava d'isso.
--De quê?
--Fizeram-te queixa de mim, não é verdade? Pintaram-me como um lobo voraz rondando e assaltando o curral da tenra ovelhinha, creada com tanto mimo e recato? e tu, na tua inexperiente imaginação de rapaz serio, viste logo um drama pavoroso em tudo isso e distribuiste-me n'elle o papel de tyranno. Confessa que tudo isto é verdade.
--E estimaria bem que não fosse.
--É o que eu digo. Olha, Jorge, eu sou mais novo do que tu, mas, vivendo mais da vida commum da sociedade, não estou tão sujeito a vêr as coisas sob o colorido particular do prisma, atravez do qual as vêem os que, como tu, trazem quasi sempre o pensamento tomado por altas e abstractas especulações. Com a maior franqueza te confesso que Bertha me agrada, que todos os dias procuro vêl-a, que, se lhe fallo, não perco tempo a dizer-lhe que o anno vae bom para as colheitas ou que hontem esteve mais calor do que hoje; não tenho razões para suppôr que as minhas visitas a importunem. Esta é que é a verdade; mas d'aqui a realisar o typo de Lovelace ou D. Juan Tenorio, incumbindo a ella a parte de Clarisse ou de Elvira, vae muita distancia. Estas coisas, se tu não andasses tão alheado dos negocios terrenos, devias saber que são da pratica commum, em qualquer parte, onde se encontra uma rapariga bonita e um rapaz que se preza de saber apreciar o bello. Ora agora vê lá se ha motivo para o terror tragico que te infundiram.