Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica
Part 9
É no meio d’este grupo de marinheiros intrepidos, devorados da curiosidade do Oceano, que não pensam senão nas suas secretas maravilhas, que não sonham senão com prestigiosas terras, cercadas por todas as miragens do mar e por todas as miragens da phantasia, por todas as confidencias mysteriosas que as correntes pelagicas lhes trazem de remotos mundos, é n’este synhedrio de pilotos que não ignoram o que dizem os livros, mas que sabem sobretudo o que diz o livro immenso do mar, que apparece de subito a figura pensativa e ardente de Christovam Colombo. N’essas torres de atalaya, como que erguidas pela natureza no seio dos mares, debruça-se a mirar sofregamente o Oceano o rosto ardente do Genovez. Era o homem providencial, um d’estes homens em que se incarna fatalmente a idéa que fluctúa sobre uma geração revolvida pela ancia do desconhecido no mundo physico ou no mundo moral. Se o problema do Occidente preoccupa já todos os espiritos na Europa, nos Açores e na Madeira apresenta-se com dobrada intensidade. Não volta um navio do occidente que não se trate logo de saber se traz comsigo a noticia de um novo descobrimento. Por uma coincidencia singular quasi ao mesmo tempo apparece nos Açores um homem intelligente e sabio, Martim de Behaim, que se sente tambem arrastado pela invencivel convicção de que ha terras para o lado do occidente, e que é por alli o verdadeiro caminho da India. Esse homem tem na sua vida singulares relações com a de Colombo. Este casou com a filha do donatario de Porto-Santo, aquelle com a do donatario do Fayal; um foi á Guiné nos navios portuguezes, o outro foi em navios portuguezes até ao Zaire. Mas um é allemão, um diplomata, um burguez, um discipulo correcto e regular de um dos maiores sabios da Europa, Regiomontanus; o outro é um italiano, um sonhador, um irregular, um estudante incompleto. O primeiro encontra facil accesso junto aos principes e nas universidades, o outro não acha muitas vezes nos altos logares senão repulsas e desdens; mas este é um perseverante, um ardente, um allucinado, o seu convencimento é uma paixão que o absorve, que o devora. O que actua n’elle não é tanto o raciocinio como a visão. A alma do infante D. Henrique parece renascer n’elle. Passou de Sagres para o Porto-Santo o vulto do asceta. Secularisou-se apenas; já não é o monge militar, é o cavalleiro andante, mais affectivo, mais dulcificado pelo seu conhecimento do amor, mas tendo a mesma paixão pelos ideaes da fé e da sciencia. E como sempre são estes inspirados os que attraem por um magnetismo indizivel as idéas audaciosas que fluctuam no ar, como em D. Henrique se incarnaram todas as aspirações de um mundo que anceia por quebrar as grades do carcere em que a tradição o encerra, foi tambem em Colombo que se incarnaram todas essas idéas que pairavam na atmosphera do seculo XV, e muito especialmente na atmosphera açoriana e madeirense. Triumphou mais uma vez o sonho sobre a razão, a dilatação da phantasia inflammada sobre o trabalho mecanico e lento do raciocinio, o meridional expansivo e apaixonado sobre o septentrional fleugmatico e frio, e foi Christovam Colombo e não Martim de Behaim quem resolveu o segundo dos grandes problemas geographicos.
VIII
Christovam Colombo e D. João II
Quando Christovam Colombo, que viajára largamente, que estivera na Islandia e na Guiné, que estivera nos Açores, e que, casando com a filha de Bartholomeu Perestrello, tivera demorada residencia no Porto-Santo e na Madeira, combinou tudo o que lhe diziam os pilotos portuguezes, tudo o que os seus olhos viam n’essa terra da sua residencia, com o que encontrou nos livros, e sobretudo nos seus livros predilectos, os geographos antigos e a _Imago Mundi_ de Pedro d’Ailly, fixou-se no seu espirito, de um modo indelevel, a convicção de que era perfeitamente possivel chegar á Asia partindo dos Açores, e communicou essa idéa ao rei de Portugal.
Actuou por acaso, de algum modo, no espirito de Colombo a viagem que elle fez á Islandia, e onde poude ter conhecimento das viagens dos navegantes escandinavos do seculo XII, que chegaram á Groenlandia e até á America do Norte, que elles denominaram Vinlandia? Não, decerto. Que tinham que vêr esses paizes do Norte com o seu sonho da Asia encontrada pelo occidente?
Que houvesse para além da Islandia mais ilhas e mais terras, não era caso de espanto. Hoje que conhecemos toda a terra sabemos a importancia que isso tinha, então nenhuma se lhe ligou, nem nenhuma se lhe ligara no seculo XII. As descobertas não têem importancia pelo que hoje se reconhece que teriam, mas pela que tinham realmente na occasião em que se fizeram. O problema era, como dissemos, o seguinte: atravessar o Oceano Atlantico em toda a sua largura. Passar da Islandia á Groenlandia e da Groenlandia ao Vinland era façanha muito menos importante do que a que praticaram os Portuguezes descobrindo os Açores.[98]
Seriam por outro lado as instancias de Colombo ao governo portuguez que levaram el-rei D. Affonso V a perguntar a Toscanelli em 1474 se suppunha que se podesse chegar á India caminhando-se pelo occidente? É possivel que não. Como sabemos, esse problema já atormentava as imaginações dos que se preoccupavam com as questões geographicas, e era assumpto de vivos debates. A concessão feita em 1473 por D. Affonso V a Ruy Gonçalves da Camara e que já aqui mencionámos, leva-nos a suppôr que o fidalgo portuguez não a obteria tão simples e tão despida de auxilio governamental sem ter instado com o rei para obter um subsidio ou um apoio mais efficaz do que a concessão platonica das pelles de urso, que Ruy Gonçalves obteria se matasse os ursos. Logo veremos que havia esses pedidos, e que D. João II em occasião importante lhes prestou ouvido mais attento. Foi, decerto, então que el-rei perguntou a Toscanelli o que pensava a este respeito, e que recebeu de Toscanelli a resposta de que Colombo, ancioso tambem de conhecer a opinião do sabio geographo, não deixou de ter conhecimento, porque o proprio Toscanelli lh’a communicou.
Que facil ensejo tinha Humboldt de demolir a gloria de Colombo, como pretendeu demolir a dos navegadores portuguezes! Se ha carta que possa mostrar que as Antilhas eram conhecidas antes de Colombo é a carta de Toscanelli. O grande geographo italiano conhece o caminho como conheceria o caminho da sua casa. Sabe a distancia a que fica a Asia, os archipelagos que o navegador ha de encontrar no caminho, e tudo isso vae para o mappa como se fosse traçado á vista das terras! E os archipelagos lá estavam effectivamente como os Açores, como a Madeira, como as ilhas que se descobriram e as que se não descobriram. Acontecia ás ilhas o que acontece ás prophecias. Com um pouco de boa vontade sempre ha algumas que, mais ou menos, parece que saem certas.
Nós porém é que não vemos as coisas com os olhos da parcialidade, e applicamos a todos o são preceito de Humboldt que elle tão pouco respeita. As cartas da edade média são excellente elemento de estudo quando se analysam com criterio, quando se não perde de vista o pensamento de que ellas encerram o que realmente se descobriu e o que os sonhadores conjecturavam que se podia descobrir. Os navegadores d’esse tempo é que não sabiam as maravilhas que praticavam, e a sua aspiração não era encontrar terras desconhecidas, era encontrar as terras adivinhadas. Se os Açores e a Madeira estivessem em mappas anteriores, os Portuguezes exclamariam com enthusiasmo: São estas mesmas! O maior prazer d’esses navegantes, quando chegassem á Antilha ou á ilha de S. Brandão, seria bradarem com orgulho e com ufania: Encontrámos a ilha de S. Brandão, encontrámos a Antilia, como Fernão Telles ía pelos mares fóra com a esperança de encontrar a ilha das Sete Cidades. Este é que era o criterio que os Portuguezes applicavam á descoberta das costas africanas. Todo o seu desejo era confirmarem o periplo de Hannon e as theorias da antiguidade. Foi para elles um desapontamento reconhecerem que um rio que descobriram era o Senegal, completamente ignorado pelos antigos, em vez de ser o Nilo dos Negros, cuja existencia a sabia antiguidade affirmava, e que os Portuguezes só aspiravam a confirmar.
Que impressão produziria a opinião de Toscanelli não no animo de D. Affonso V, que tinha outros pensamentos e outras ambições, mas no de D. João II, logo que subiu ao throno, e começou a pensar sériamente nos descobrimentos? Não muita, e de certo contribuiria para isso, bastante, o proprio movimento maritimo dos Açores. É bem natural que os mareantes que voltavam d’essas expedições de tentativa exaggerasem o espaço de mar que tinham percorrido, sem encontrar signaes de terra. Demais as idéas geographicas dos antigos ainda dominavam muito os espiritos. O systema geographico de Ptolomeu e dos seus adeptos não fôra alluido todo e de uma vez só. Ia caindo aos pedaços, mas ficava de pé o que se não demolia directamente. Ora uma das idéas favoritas da geographia antiga era a grande extensão dos mares. Suppunha-se que de toda a terra só a septima parte estava fóra das aguas. Colombo sustentava a opinião contraria, dava razões de equilibrio, mas não conseguia facilmente derrubar o preconceito.
Accrescente-se ainda que tudo parecia indicar que os Portuguezes se achavam no caminho verdadeiro da India. Qual era a opinião antiga? que a costa africana occidental, _antes de se chegar ao equador_, voltava para o oriente e ia ou á Africa Oriental ou á Asia. Se as viagens portuguezas tivessem mostrado que esse facto se não dava, e, ao mesmo tempo, a zona torrida fosse inhabitavel, estavam perdidas todas as esperanças, mas as viagens portuguezas tinham demonstrado exactamente que não havia zonas inhabitaveis, logo podia-se proseguir com afoiteza, que mais longe ou mais perto havia de se chegar ao fim do continente africano e havia de se voltar para a India. Corria-se o perigo de se entrar na zona glacial antarctica? Embora! Como era natural, passava-se de extremo a extremo. Desde que se descobrira que a zona torrida não era inhabitavel, conhecia-se que não havia zonas inhabitaveis, e que se poderiam atravessar as zonas glaciaes como se estava atravessando a zona torrida.[99]
E note-se que a idéa de que teria de se dobrar um cabo quando se chegasse ao fim da peninsula africana, estava tambem em todos os espiritos, e era a conjectura natural da geographia. As peninsulas, sabia-se bem, terminam geralmente em promontorios. Portanto o empenho de D. João II estava todo concentrado no proseguimento das descobertas africanas. Não podia elle, diz-se, se tinha confiança, como sabemos que tinha, não no projecto do Genovez, mas no seu talento, e nos seus conhecimentos maritimos, confiar-lhe duas caravelas? Não, porque isso era completamente contrario ao seu systema de exploração. As tentativas dos Açorianos e dos Madeirenses, protegia-as o governo, fazendo-lhes larguissimas concessões nas terras que descobrissem, mas não as subsidiava, nem consentia tambem que elles interferissem nas descobertas reservadas para si. As terras concedidas eram-n’o com a condição de não serem nos mares da Guiné.
Ah! Se Christovam Colombo armasse duas caravelas á sua custa, ou conseguisse que um capitalista o _commanditasse_, com que facilidade elle obteria de D. João II todas as concessões que desejasse! Foi uma felicidade para o mundo que Colombo não tivesse dinheiro para a empreza, nem socios capitalistas. Se os tivesse, quando percorresse tanta extensão de mar sem encontrar terra, quando visse a perspectiva de perder completamente o seu dinheiro ou o dos seus socios, talvez não ousasse proseguir, e decerto lh’o não consentiriam os que representavam a bordo os interesses dos armadores. Para se levar a effeito essa obra grandiosa era necessario que estivesse empenhada no triumpho a honra de uma nação!
Como é que aquelle grande espirito de Christovam Colombo não inflammou no seu enthusiasmo o espirito, que passa tambem por ter sido grande, de D. João II? Enganou-se a historia no seu juizo? Era, afinal, o rei D. João II um espirito vulgar, ou pelo menos um espirito absolutamente pratico e forte em todas as questões da vida positiva e real, mas desdenhoso de tudo o que excede os limites do seu horizonte? ou por acaso não tinha elle pelas coisas geographicas o interesse real que manifestava, ou não tinha d’ellas o conhecimento que se lhe attribue? Não, não, nada d’isso. D. João II foi realmente um dos grandes principes do seu tempo, um dos soberanos que estavam mais á altura de comprehender os grandes projectos dos descobrimentos. O proprio Colombo o diz a cada instante, Toscanelli farta-se de o affirmar: o rei de Portugal era o soberano que melhor entendia de coisas geographicas, o nosso grande rei! diz Colombo ás vezes. E comtudo Colombo não conseguiu captival-o. É quasi incomprehensivel esse facto, mas talvez se explique um pouco se analysarmos os caracteres de um e de outro.
Ha, naturalmente, duas especies de organismos entre os homens da mais alta esphera: os desequilibrados e os equilibrados. Á primeira pertencia Christovam Colombo, á outra D. João II. D. João II era um d’estes fortes espiritos, perfeitamente assentes n’uma base segura, que têem a perspicacia, a energia, as concepções arrojadas mas nunca desmandadas, espiritos capazes de formarem um plano e de o desenvolverem serenamente, completamente desembaraçados da rotina, amando e acolhendo as innovações, mas não sem as sujeitarem ao criterio do seu lucido juizo. Homens assim, n’este jogo da existencia têem as cartadas atrevidas mas calculadas, nunca se entregam aos irreflectidos caprichos do azar. O perigo não os assusta, e affrontam-n’o quando é necessario, mas não o procuram por uma vã fanfarronada de cavalleiros andantes. Soldado, ninguem o foi como D. João II: em Arzilla escureceu a fama dos mais denodados cavalleiros, em Toro a ala que elle commandava internou-se no mais denso das fileiras dos castelhanos e destroçou-as, emquanto a ala commandada por seu pae era desbaratada pelo inimigo, mas depois de subir ao throno nunca mais teve uma guerra, nem entrou n’uma peleja. As guerras de Portugal tinham de ser com o Oceano, os combates do rei com a sua nobreza rebelde. É um organisador e não um aventureiro, o que o não impede de querer a grande aventura da India, mas prepara-a, organisa todos os elementos de successo, antes de jogar a cartada decisiva.
A razão é a faculdade que domina o seu espirito, a imaginação é a escrava obediente. É inaccessivel aos vagos terrores que tão facilmente assaltam os nervosos e os phantasistas. Uma noite, e já depois d’elle ter cercado de cadaveres o seu throno, no cumprimento implacavel da sua missão centralisadora, sente baterem de noite mysteriosamente á porta do quarto onde dormia com sua esposa. Levanta-se e vai ver quem é. Ninguem, mas ao longe uns passos mysteriosos, como que um vago deslisar de sombras. Jaz em silencio e na escuridão da meia-noite o palacio todo. Vive-se n’uma epocha de crenças e de superstições. É algum dos espectros das suas victimas que o vem chamar para a expiação? D. João II sorri-se com este pensamento, vai, segue o passo mysterioso, vai até aos sotãos em sua obstinada procura, só, com a sua espada e uma luz, e quando os servos, acordados pelos clamores da rainha, correm em sua busca, vão encontral-o n’um desvão, sondando com a luz os recantos sombrios, impassivel e sereno como quem não comprehende sequer os pavores da superstição.
De toda a sua raça o homem a quem mais se assemelha pelas tendencias nobres do seu espirito é o infante D. Pedro, mas este possuia uma qualidade que arredondava todos os angulos do seu caracter, que amaciava todas as durezas do seu pensamento: a bondade feminil, que elle herdara de sua mãe, D. João II tinha a violencia do bisavô, sem ter ao seu lado a mulher propria, como Filippa de Lencastre, para attenuar as asperezas da indole do matador do conde Andeiro. D. Leonor era uma nobre e intelligente senhora, não adquirira comtudo influencia sobre o seu terrivel marido, porque não era amada. Mas a alta razão, a comprehensão de todos os grandes emprehendimentos, a cultura que o punha a par do seu seculo, a reacção contra as tradições medievaes, que eram a sombra povoada de visões, quando elle sonhava uma sociedade radiante de luz e de sciencia e dominada pela Ordem: tudo isto tinha D. João II. D. João II era a Renascença que principiava com os ideaes de Platão e o culto da sciencia antiga seriamente estudada e seriamente comprehendida, e Colombo, que mais do que ninguem ia contribuir para a Renascença, era comtudo pelas tendencias do seu espirito o ultimo representante d’essa meia edade bellicosa e mystica, que, antes de se sumir para sempre, legava ao mundo que nascia a realisação do seu ultimo sonho cavalheiresco.
Imagine-se agora Colombo tratando com D. João II, que o ouve, que o attende, que percebe que não tem deante de si um homem vulgar, mas que desconfia, que hesita deante d’aquelles projectos meio mysticos, meio scientificos, deante d’aquella exuberancia de palavras e de pensamentos que não quadra ao seu espirito nitido, e conciso. Colombo é um italiano, com aquella prodigalidade de palavras e de formulas obsequiosas, caracteristicas da raça. O que era elle? um sabio ou um charlatão? Se do sublime ao ridiculo apenas vai um passo, como Napoleão dizia, de um homem de genio que traz uma idéa fecunda a um charlatão que traz um elixir tambem a distancia não é grande. Colombo, profundamente convencido, era prodigo de promessas e não menos de exigencias. Os thesoiros que elle encontrasse no Cathay destinava-os, segundo dizia, á conquista do Santo Sepulcro. Ora a conquista do Santo Sepulcro era, sem desfazer nos sentimentos christãos de D. João II, _le cadet de ses soucis_. Christovam Colombo enganara-se na porta. Essas declarações eram optimas para D. Affonso V, detestaveis para D. João II. Tudo quanto cheirasse a cavallaria andante, a cruzadas, e a romances em acção, encontrava em D. João II um antagonismo ferrenho. E percebe-se que assim fosse, desde o momento que fôra tudo isso que estivera quasi arruinando Portugal, que fôra tudo isso que fizera a desgraça de D. Affonso V e que era a esses bellos sonhos que D. João II devia o ter ficado, como costumava dizer, por morte de seu pae, rei das estradas de seu reino.
Ainda havia um facto que não podia produzir boa impressão em D. João II. Arrastado pelo ardor das suas convicções, como acontecia com Toscanelli, Colombo dizia conhecer a distancia exacta a que ficava Cipango de Portugal. Ora D. João II era um espirito bastante positivo para perceber o que havia de absurdo em semelhante calculo, e a segurança manifestada por Colombo mais ainda o punha em guarda contra os seus projectos.
Hoje que os factos mostram como Colombo tinha razão, todos imaginam que só o espirito de rotina podia fazer com que elles fossem regeitados. E comtudo, examinando-os bem comprehende-se que espiritos positivos não acceitassem. Colombo suppunha por exemplo que a relação entre a terra e o mar era de 7 para 1, quando a verdade é que essa relação é de 1 para 2,7, ou mais exactamente de 29 para 82.[100] Quaes eram as razões em que elle se baseava para suppor que a Asia estava proxima da Europa? Sobretudo as que deduzia das affirmações da sciencia antiga. Segundo Ctésias a India formava metade da Asia, Plinio suppunha que era só por si o terço da superficie do globo, Nearcho sustentava que eram necessarios quatro mezes de caminho para se chegar á extremidade oriental da India, e Strabão que até esse extremo oriental ninguem poderia conduzir um exercito. O geographo a que Colombo se encostava para avaliar a distancia que tinha a percorrer não era Ptolomeu, era Marino de Tyro. Ptolomeu sustentava que a terra habitada entre o meridiano das ilhas Afortunadas e o meridiano de Sera, quer dizer da China, era de 177°¼, portanto o espaço de mar a percorrer era de 182°¾, visto que o parallelo tem 360°. Marino de Tyro sustentava que a porção de terra habitada era de 225°, portanto o espaço de mar a percorrer limitava-se a 135°; mas Colombo fazia conjecturas que ainda diminuiam este espaço. Effectivamente dizia elle que Marino não chegára á extremidade oriental da Asia em 15 horas (calculando-se as longitudes em tempo, e correspondendo cada hora a 15°) porque a extremidade oriental da Asia ficava muito além do ponto marcado por Marino. Portanto a distancia de mar entre a extremidade oriental da Asia e as ilhas de Cabo Verde era não de 9 horas ou 135°, mas de menos de 8 horas ou de menos de 120°.
Note-se porém que fôra Ptolomeu que corrigira os calculos de Marino de Tyro, e que a opinião de Colombo tinha portanto contra si a do geographo mais afamado da antiguidade. Comtudo Colombo aferra-se á sua opinião, e quando está na America julgando estar na Asia, persiste, e até se apoia nas opiniões dos navegadores portuguezes, dizendo: «E agora que os Portuguezes navegam tanto, acham que Marino foi exacto.»[101]
E note-se ainda que Colombo avaliava o grau em 56 milhas e ⅔, baseando-se nos calculos do geographo arabe Al-Fragan, e confundindo assim a milha italiana com a milha de Al-Fragan, de fórma que o grau ficava tendo apenas pouco mais de 14 leguas. Toscanelli, na sua famosa carta de 1474, avaliava o espaço a percorrer de um modo differentissimo. D. João II ver-se-hia de certo embaraçado para avaliar quem tinha razão, e regeitaria então sem hesitar o projecto de Colombo se soubesse que de todos os geographos da antiguidade o que menos se enganára fôra Eratostenes que calculára a distancia entre o promontorio Sacro, quer dizer o cabo de S. Vicente e a Sera, quer dizer a China, em 240 grau. A distancia verdadeira é 230.[102]
Junte-se a isto a opinião contraria do seu conselho scientifico, que a manifestava não só porque todas as corporações sabias têem uma tendencia innata para repellir as idéas novas apresentadas por quem não pertence ao seu gremio scientifico, mas tambem porque as propostas de Colombo tinham, como acabamos de ver, muitos pontos vulneraveis. Faziam parte do conselho dois judeus, Rodrigo e Josef, que de certo conheciam bem o arabe, e aos quaes talvez não escapasse o erro da interpretação do geographo arabe Al-Fragan na medição dos graus. A rejeição da proposta de Colombo era portanto inevitavel.
E comtudo D. João II, se não tinha a imaginação apaixonada do infante D. Henrique, que se deixaria de certo seduzir pelo enthusiasmo do italiano, tinha o espirito bastante elevado para reconhecer que não era Colombo um aventureiro vulgar. Apenas elle saíu do nosso paiz, teve um baque no coração, e, passando por cima de tudo e da opinião dos seus conselheiros, e das tendencias naturaes do seu espirito, escreveu-lhe a famosa carta em que o chamava.[103] Porque não veiu Colombo? Porque saíra bastante irritado com o parecer naturalmente desdenhoso do conselho scientifico do rei, ou porque os seus amores com D. Beatriz Enriquez, a mãe de Fernando Colombo, o retiveram em Sevilha? Julgamos mais verosimil a primeira hypothese. O resentimento de Colombo era tão profundo que não duvidou accusar D. João II de uma acção que elle bem sabia que era absurda em primeiro logar, que seria indigna de um homem cujo caracter elle não podia deixar de respeitar.
E comtudo a historia tem repetido essa accusação, injusta, mesquinha e disparatada! Colombo accusou D. João II de o ter repellido, mas de ter aproveitado ao mesmo tempo as suas indicações para mandar dois navios em busca da Asia pelo occidente, e que esses navios, açoitados por uma tempestade, tinham sido obrigados a voltar para Lisboa.
Em primeiro logar era evidente que a viagem de descoberta não podia começar senão em Cabo Verde ou nos Açores. Se uma tempestade occasional os tivesse feito voltar a Lisboa, poucos dias depois de terem d’aqui saído, não era caso para descoroçoar. Só passado o meridiano dos Açores é que principiava a expedição.