Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica
Part 7
Mas o que dominava sobretudo no espirito de D. Henrique era a anciedade da investigação scientifica e o ardor pela conquista dos grandes ideaes religiosos da meia edade, e é isso o que faz com que o espirito do infante só encontre depois na historia dos descobrimentos outro que com elle se irmane—o de Christovam Colombo. Essa allucinação em que ambos vivem é que os torna proprios para emprezas, que só com grande perseverança se podem realizar, e essa perseverança só a encontra quem tem um enthusiasmo absolutamente exclusivo. Quaes são as instrucções que levam sempre os capitães dos navios de D. Henrique? Procurar identificar os rios que descobrem com o Nilo dos Negros, que a geographia systematica dos antigos considerava como um braço do grande rio egypcio que vinha desemboccar no Atlantico. Julgam encontral-o ao ter chegado ao Senegal como depois o imaginam ainda no Niger, e talvez no Zaire tambem. E tão absortos estiveram por muito tempo os Portuguezes no seu respeito cego pelo saber da antiguidade, que ainda foi um piloto portuguez no seculo XVI que procurou commentar e explicar o Periplo de Hannon, sendo o seu commentario na Italia de todos o mais apreciado.[67] No proprio momento em que podiam justamente ufanar-se de sulcar mares nunca d’antes navegados, ainda se escondiam modestamente por traz da sombra de Hannon, o legendario navegador, que, tendo chegado a algumas leguas do estreito de Gibraltar, imaginou logo ter percorrido um immenso espaço de agua![68]
O outro desejo ardente do infante D. Henrique era encontrar as terras do Prestes João, esse mytho medieval que tomou mil fórmas, apparecia nas mais variadas terras, até que, ao condensar-se na realidade prosaica, appareceu transformado n’aquelle pobre _negus_ da Abyssinia, symbolo curioso da dissolução dos mythos, que no periodo poetico da humanidade se revestem dos mais extraordinarios esplendores, e que nos frios annos da prosa se reduzem ás mais chatas personalidades.
O Prestes João fôra a prolongação pela edade média da lenda da primitiva Egreja Oriental, que déra ao apostolo João, ao discipulo amado, ao evangelista mais querido da imaginação popular, a perpetuidade da existencia. Não acceitou a Egreja a lenda, mas ella permaneceu no Oriente, modificada, fluctuante, desdobrando-se o personagem que é seu protoganista, no apostolo e no presbytero.[69] Talvez porque n’uma das epistolas, conhecidas pelo nome de João, o apostolo, por esse nome se designa este _presbytero João_, que toma em parte o caracter do apostolo, em parte o caracter de um discipulo do apostolo, torna-se, por assim dizer, a gloria e o tormento da Egreja de Epheso; a gloria, porque essa Egreja se ufana de lhe pertencer o personagem privilegiado que herdou do venerado Mestre o amor e a predilecção do céu; o tormento, porque esse personagem é vago, confuso, indefinido, mal visto pela Egreja em geral, e fonte de possiveis heresias.
Mas entretanto corria a edade média com a sua louca anciedade pelo advento de um mundo melhor. Não se cumpriam as promessas do christianismo. Não chegára o reinado da justiça. Na terra atormentada por mil flagellos arrastava o homem uma existencia atribulada, calcado aos pés pelos poderosos, faminto, presa a cada instante da peste e da guerra implacavel e atroz. Não chegára a era millenaria, a era sublime em que Jesus voltaria, e em que, rodeiado dos seus martyres, como de uma legião sagrada da fé e do bem, reinaria sobre a terra até que ella desapparecesse subvertida no cataclysmo final.
O que nascia, pelo contrario, era a crença desanimadora ao anno Mil, annunciado como o anno em que o mundo acabaria sem ter tido a consolação suprema de vêr o reinado do Bem; mas o anno Mil passou sem trazer comsigo o cataclysmo esperado. Seria afinal verdadeira a promessa do reino millenario, do reino dos martyres, que o Apocalypse de João annunciou? E a idéa d’aquelle Presbytero João, que vive a sua longa existencia nos páramos do Oriente, testemunha millenaria do grande acto da Paixão, fluctúa no animo dos povos. Não será em torno d’elle que se agruparão os bons, os martyres, os fieis, e não será nas suas terras que estará irradiando uma perpetua aurora, tranquilla, suave, toda misericordia e paz, emquanto cá pelo Occidente parece que o sol se afoga todos os dias n’um occaso sanguineo, n’um horizonte perpetuamente em braza, entre os clamores dos miserandos que teem sêde de justiça e o tinir das espadas gottejantes de sangue, o crepitar das chammas dos incendios e o rugido dos mares e as gargalhadas da impiedade? E lá no Oriente, onde existe o Paraizo, começa-se a devanear tambem a existencia de outro Paraizo mais accessivel ao homem, se é que se não confundem n’um só Paraizo aquelle de que o homem foi expulso, e o outro em que o homem ha de entrar, quando lhe franquear a entrada o guarda a quem o confiaram Christo e o discipulo amado.
Essa lenda vaga, ou antes essa incerta aspiração, concretisou-se n’uma d’essas obras anonymas em que o sentimento popular se manifesta, em que os devaneios da sua alma são encorpados, desenvolvidos e ordenados por um trovador ignorado, por um narrador mysterioso, que é afinal de contas quem produz verdadeiramente a obra popular, que depois muitas vezes um grande poeta aproveita para uma obra immortal. Assim se formou a lenda do Prestes João com o seu reino de maravilhas, a do Judeu errante, a do dr. Fausto, a de D. João Tenorio, e a de mil outros, que não tiveram outro berço senão a redacção humilde e vulgar de um pobre sonhador ignorado, que desapparece entre o povo, a quem se attribue a gloria da concepção, e a obra do grande poeta que deu á lenda a fórma definitiva e litteraria que a tornou immortal. O modo como esta lenda se formulou foi na redacção de uma carta dirigida pelo Prestes João ao imperador de Roma e ao rei de França e em que lhes contava as maravilhas do seu reino, onde os homens viviam annos quasi infinitos, onde havia maravilhosas riquezas, onde os animaes e as plantas tinham um tamanho descommunal, e onde reinava a paz e a justiça.[70] O que deu origem talvez á carta, ou o que chamou para esse vago personagem do _Presbyter Johannes_ ou _Prestre Jean_ ou _Prestes João_ a attenção dos povos occidentaes, foi a vinda a Roma[71] de um estranho personagem, que se dizia patriarcha das Indias, que da Asia vinha effectivamente, e que dava noticia da existencia n’essas remotas partes, ou na verdadeira India, ou na propria Tartaria, de christãos convertidos por S. Thomé o apostolo, e que eram evidentemente christãos da heresia nestoriana, christãos dos ritos syriacos, sacudidos da Egreja Catholica, mas possuindo aquella tenacidade de resistencia, que faz com que ainda hoje, em pleno regimen papal e catholico, tenham na India os seus prelados e mantenham os seus ritos estes christãos primitivos.[72]
Assim parece effectivamente que devia ser: porque na carta do Prestes João diz-se que «cada anno, _quando S. Thomé vinha prégar a quaresma no seu reino_, elle fazia uma peregrinação ao tumulo do propheta Daniel, com dez mil clerigos, outros tantos cavalleiros e duzentos elephantes, que levam, não torres, mas castellos, para exorcismarem e combaterem os dragões que espreitam a caravana na passagem».[73] A lenda do Prestes João localisou-se por conseguinte na India, não, como seria natural, na India verdadeira, mas na India ultima, quer dizer, no extremo Oriente da Asia, onde todas as lendas se refugiavam, a India que ficava para além dos limites das conquistas de Alexandre, e onde o proprio heroe toma tambem um aspecto legendario, como se lhe bastasse tocar n’uma região nevoenta para que o seu proprio vulto em nevoas se envolvesse. Alexandre, já o dissemos, foi para a Europa medieval, como Virgilio, um ente sobrenatural, meio pagão e meio christianisado posthumamente, meio feiticeiro e meio conquistador. É elle, como dissemos tambem, que encerra os povos de Gog e de Magog por traz da famosa muralha, é elle que na sua carta a sua mãe Olympias, carta não menos apocrypha, é claro, do que a do Prestes João, lhe diz que encontrou a arvore do sol e a arvore da lua, e que lhes ouviu os oraculos.[74] É para além do Ganges tambem que os geographos da meia edade imaginaram povos que se sustentam só com o aroma das flores, lenda que vamos ainda encontrar em Camões. É no extremo Oriente que está o Paraizo, e junto do Paraizo, note-se bem, o antro em que S. Macario se escondeu para viver immerso em prece, depois de ter tentado debalde penetrar na morada dos nossos primeiros avós, e foi ahi que o encontraram _um seculo depois_, e sempre orando, tres monges gregos que tinham ido a essas longinquas partes do mundo para tentarem tambem ver o Paraizo de perto.[75] Avisados pelo exemplo de S. Macario, voltaram os tres monges para traz, mas S. Macario lá ficou orando e atravessando, absorto na prece, os seculos sem fim.
Vê-se pois que aquelles ares do Paraizo espalhavam ainda nos seus arredores umas fragrancias divinas. Parecia que da eternidade promettida a Adão e Eva tinham ficado uns resquicios para os que do Paraizo se approximassem; era para alli portanto que a imaginação popular levaria o reino paradisiaco do Prestes João.
Mas as viagens de Marco Polo vieram dar uma nova physionomia ao mytho do Prestes João, approximando-o da realidade, tornando-o um personagem curioso, mas não rodeiado d’aquelle immenso prestigio anterior. Ou porque effectivamente, como sustenta o grande sinologo Pauthier, elle encontrasse christãos nestorianos na Tartaria, na provincia a que Marco Polo chama Tanduc, que Pauthier identifica com a provincia chineza de Ta-Thung, e esse facto explica-o Pauthier pela entrada de nestorianos persas na Mongolia ou no Thibet, onde teriam feito conversões, e onde effectivamente o soberano chinez lhes permittiu que erigissem um templo, ou porque, como sustentava Stanislas Julien, outro sinologo tambem notavel, Marco Polo tivesse confundido com christãos os budhistas que nas regiões que elle atravessava tinham uma das mais importantes sédes da sua religião, e que ao ver a theocracia do Grão-Lama o imaginasse um padre-rei christão, e o Prestes João por conseguinte, é certo que elle declara ter encontrado christãos regidos por um padre, que descendia em linha recta do Prestes João, que era o seu sexto descendente e que se chamava Jorge.[76] D’elle diz João de Monte-Corvino que o conheceu e o converteu á fé catholica, e Rubruquis tambem declara que na Tartaria encontrou nestorianos que viviam debaixo das leis do Prestes João.
Embora tudo o que se narrava nos livros de Marco Polo estivesse envolvido nos véos do maravilhoso, é certo que esta semi-realisação do _Presbyter Johannes_ estava longe de corresponder ao ideal que d’elle se formára. O personagem legendario não encontrava positivamente n’um descendente chamado Jorge, subdito do Grão-Khan e chefe de uma especie de tribu nestoriana, uma encarnação satisfatoria. Continuou portanto a fluctuar por todo o Oriente, e, como de certo havia noticia vaga da existencia de um povo christão para os lados da Ethiopia, foi para esse lado que se transferiu a localisação da lenda, pois que a India, na edade média, como dissemos, abrangia, pode-se dizer, toda a Asia, parte da Ethiopia, e a indeterminação da residencia do rei legendario caracterisava-se bem com a denominação que se lhe dava de Prestes João _das Indias_.
Não se imagine portanto que é simplesmente um rei christão perdido no meio da onda musulmana e do paganismo que se procura, o que se procura é o reino maravilhoso das lendas millenarias, é a terra estranha onde tudo floresce com extraordinario viço, onde o oiro, a prata e as pedras preciosas fulguram por todos os lados, onde se vive como que n’um antecipado Paraizo. Procuram-n’o logo na Africa, ao pé de Marrocos,[77] e não havia n’isso contradicção com o nome que se lhe conservava de Prestes João das Indias, porque, segundo a antiga geographia systematica, podia bem ser que a Ethiopia se ligasse com a Asia, e que já n’essas terras ainda proximas de Marrocos principiasse o reino maravilhoso do Prestes João.
É essa anciosa curiosidade que domina no espirito dos Portuguezes, é ella que os arroja aos grandes feitos, ás pertinazes investigações. Como das investigações astrologicas com as quaes se procurava ler nas conjuncções dos astros o segredo dos destinos humanos saía a astronomia, como nas locubrações dos alchimistas se foram desvendando os segredos da chimica, assim na procura ardente do reino do Prestes João se foi desvendando, por tantos seculos escondido, o segredo da geographia africana, o da sua fauna, da sua flora e da sua ethnologia. Logo n’uma das primeiras viagens um audacioso portuguez, João Fernandes, se internou no sertão africano, e por lá andou mezes inteiros, convivendo com os indigenas, aprendendo a sua lingua, estudando os seus costumes.[78] Devia-lhe ter corrido um calafrio nas veias quando abandonou os seus companheiros para se immergir no desconhecido. Ia encontrar talvez os povos monstruosos da tradição scientifica, os troglodytas, os himantopodas, os virgocosgigs, e ao lado d’elles os dragões de terrivel aspecto e o basilisco de halito pestifero, passeiando pelos mattos meio inflammados a sua estranha corôa de horrifico soberano. Era perfeitamente um cavalleiro andante que se arrojava a um mundo encantado, como esses heroes de novellas de cavallaria que ousavam emprehender as mais incomprehensiveis façanhas. Mas tudo elle ousava para conseguir chegar emfim ás terras paradisiacas em que o Prestes João reinava, e, quando elle voltou, depois de longos mezes, não trazia noticias nem de monstros horrendos, nem de reinos maravilhosos, mas trazia, o que valia mais que tudo isso, o conhecimento exacto da Africa interior, a revelação para a sciencia de um mundo ignorado, de arvores soberbas, que não eram a phantastica _mandragora_, mas o baobah agigantado e verdadeiro. Supprimia a flora sobrenatural, mas ampliava os dominios da flora verdadeira; acabava com a fauna phantastica, mas alargava os dominios da zoologia verdadeiramente scientifica. E, da mesma fórma que os alchimistas, ao procurarem nas suas longas vigilias a pedra philosophal, encontravam o segredo das combinações chimicas, assim estes audazes alchimistas do Oceano, ao procurarem o Prestes João, que era a pedra philosophal dos sonhos geographicos da meia idade, encontravam um mundo inteiro, que valeu mais para a riqueza scientifica e para a opulencia do commercio do que todos os reinos fabulosos banhados por phantasticos Pactolos e scintillantes de oiro e de pedraria.
Quando o infante D. Henrique morreu, já os Portuguezes tinham conhecido o cabo Branco e o cabo Roxo, e o cabo Verde e as ilhas que d’este cabo tomaram o nome, e os rios Senegal e o Gambia e o Casamansa. Os terrores da zona torrida tinham desapparecido, posto que se não tivesse chegado ainda ao Equador, mas era evidente já que o mundo não alterava o seu aspecto com a approximação da equinoxial, e que os monstros não existiam senão na imaginação dos geographos, que se não encontrava senão a variante negra da raça humana, e que os novos passaros que appareciam, depois classificados pelos zoologos como _remora_, _phenicoptero_, _bucerus_ _africano_ ou _pristis_, enriqueciam as collecções ornithologicas, mas não a teratologia. E estas conquistas positivas deviam-se ao enthusiasmo e á sede do ideal. Nada se faz grande no mundo sem esse grão de loucura, que desequilibra um pouco o genio dos grandes poetas e dos grandes descobridores. A pedra philosophal transmuda deveras o cobre vil em oiro, porque é ella, como symbolo de todos os ideaes phantasticos, que faz da quebradiça argila de que se formou o homem o bronze em que se fundem os ousados pensamentos, que transforma no oiro das grandes almas o minerio banal dos espiritos vulgares.
E era exactamente o que havia de estranho e de louco nas expedições portuguezas que chamou para aqui os aventureiros e os ousados. Os Venezianos como Cadamosto, os Genovezes como Usodimare, vem aqui buscar simplesmente emprego para a sua actividade de marinheiros; os Malhorquinos como Jayme de Malhorca vem para um centro de actividade scientifica, mas esse Valarte que vem do fundo do Norte, das remotas regiões da Suecia, vem em demanda do ideal, esse loiro Scandinavo, que traz no olhar o azul dos seus lagos e no rosto a candidez das suas neves, vem procurar a estas regiões de aventura a barca dos cysnes dos Eddas que o ha de levar atravez dos mares da lenda ás regiões dos sonhos. Para esses e para muitos outros Portuguezes, como o velho Soeiro da Costa, como esse Alvaro de Freitas que tanto acaricia a idéa de ver de perto o Paraizo terreal,[79] é um romance de cavallaria que se está pondo em acção na patria de _Amadis de Gaula_. São os Templarios resuscitados que investem com o mar como os Templarios antigos com as ondas dos sarracenos, e o manto branco da ordem de Christo que fluctua ao sopro do vento, e a bandeira com a cruz vermelha que palpita na popa das caravelas com os bafejos do Oceano são os ultimos symbolos d’esse idealismo da idade média cavalheiresca que vae dissolver-se na epocha burgueza que já apparece no horizonte dos tempos. E esse rijo cavalleiro, ascetico, tenaz, que do alto do promontorio de Sagres lança os seus legionarios á conquista do desconhecido, ao cair prostrado pela morte, sem ter ainda encontrado o edeal que lhe absorvera a existencia, desapparece da scena do mundo, deixando resolvido um dos grandes problemas da existencia humana na terra, no mesmo momento em que outro cavalleiro andante, esse deveras o ultimo, Christovão Colombo, o Genovez, já vagueia, sonhador e pensativo, nas praias do Mediterraneo, escutando esse rumor de gloria e de aventura que vem do Occidente, e revolvendo na imaginação juvenil a solução de outro problema geographico, que ainda ficava em aberto, e que ia dar ao homem emfim a Terra inteira por dominio.
VII
Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America
Emquanto os Portuguezes proseguiam intrepidamente para o sul no caminho da zona torrida o que se fazia para o Occidente? Era possivel, era natural, que a descoberta do Porto Santo, da Madeira e dos Açores satisfizesse completamente a curiosidade portugueza? Os que defendem as duas versões ácerca do descobrimento dos dois archipelagos commettem uns e outros um erro capital; uns suppondo que os Portuguezes não os encontraram senão porque antes d’elles lá tinham aportado outros navegadores, de cujas informações os nossos se aproveitaram, os outros imaginando que antes das descobertas portuguezas se considerava como completamente vasia de ilhas a vasta extensão do Atlantico. Descobertas positivas não as podia ter havido, porque ás terras que podessem ter-se descoberto aconteceria o que succedeu ás Canarias, que logo foram cubiçadas e disputadas. O que havia era o sonho celtico das ilhas mysteriosas no seio do Atlantico, e em busca d’esse sonho quantos navios teriam corrido, sem que das suas tripulações voltasse ás costas européas nem sequer o cadaver do cão da frota legendaria de Brékan. Mas essas ilhas phantásticas estavam profundamente radicadas no animo dos homens da edade média, e a ilha de S. Brandam tinha para elles existencia tão real como o reino mysterioso do Prestes João. Ah! quem a encontrasse, quem arribasse a uma ilha qualquer no meio da vastidão dos mares, como voltaria contente e triumphante do seu achado, doido de alegria por ter conseguido emfim fixar n’um ponto do Oceano alguma d’essas ilhas que fluctuavam no mar da lenda, filhas da miragem do mar como da miragem do sonho; ilhas phantasticas como o navio phantasma da lenda hollandeza, que todos suppunham avistar ao longe, recortando na tela de oiro e purpura do horizonte o fino perfil das suas arvores, ou a ondulosa curva das suas montanhas!
Deserto o Oceano? Não. Estava povoado, pelo contrario, de muito mais ilhas do que as que se encontraram! E quando o infante D. Henrique mandou os seus navegantes procural-as, é porque tinha a convicção profunda de que existiam, e os seus audazes marinheiros o que julgavam era seguir o sulco espumoso do barco do santo irlandez, como quando seguiam, segundo a phrase de Colombo, o vôo das aves que os conduziam a terra, cuidavam seguir talvez, alados mensageiros celestes que os conduziam ás ilhas de promissão, ou pelo contrario demonios encarnados em passaros, que os arrastavam ás ilhas infernaes.
Os que trazem com ufania, como uma conquista para a historia, a lenda da ilha da Madeira descoberta antes de Zarco, ou a dos Açores antes de Velho Cabral, partem da errada supposição de que esses ignotos descobridores deram grande novidade aos Portuguezes dizendo-lhes que havia ilhas no Oceano! Bem convencidos estavam d’isso, mas a questão era encontral-as. Feliz o paiz que as descobrisse! Não as largava facilmente! A posse tranquilla e indisputada da Madeira e dos Açores prova bem que ninguem punha em duvida o direito de prioridade que os Portuguezes se arrogavam.
O que faziam porém os colonos d’essas novas ilhas, tudo gente marinheira e aventurosa, que não ficava socegada no pequeno pedaço de terra em que se achava confinada? N’elles se condensava, pela sua posição especial, pelo espirito mais aventuroso que a essas ilhas os levou, a tendencia emigrante dos Portuguezes. Não é essa tendencia a que ainda hoje domina nos habitantes d’essas ilhas? Não foram sempre os Madeirenses e os Açorianos os que predominaram na colonisação portugueza? Não foram elles, sobretudo, que fizeram o Brazil colonial? Não são os Açorianos quasi exclusivamente os Portuguezes que vamos encontrar na America do Norte, em Boston, e até na California, e, o que é mais estranho ainda, á beira da rede dos lagos que separam os Estados Unidos do Canadá, sendo tão numerosa a colonia portugueza de Erié, que alli se publica um jornal portuguez, chamado o _Erié_ tambem? Não são os Madeirenses que nós vamos encontrar em Demerara, nas ilhas Sandwich, e que estão formando, em Angola, o nucleo das colonias do plan’alto de Mossamedes? E se isto acontece hoje, no nosso periodo de decadencia, de repouso, quando esse instincto emigrante é perfeitamente atavico—não era bem natural que acontecesse de um modo muito mais independente n’esse periodo de vigor e de febre descobridora, e quando os que habitavam a Madeira e os Açores não eram os que lá tinham nascido, mas sim os proprios que as tinham descoberto, ou os que primeiro, idos de Portugal, as tinham colonisado?
Na descoberta africana logo encontramos os Madeirenses. Entre os mais audaciosos descobridores conta-se Alvaro Fernandes, sobrinho de João Gonçalves Zarco, e com elle o seu companheiro de seu tio no descobrimento do archipelago, Tristão Vaz Teixeira.[80]
E acabemos por uma vez com a accusação que se nos fez de que nos limitámos a uma navegação costeira, e de que receiavamos sair para o mar alto! Como se pode dizer isso de um povo, cujos primeiros descobrimentos exactamente no mar alto é que se fazem, cujos _coups d’essai_ são as viagens em que encontram a Madeira e sobretudo os Açores, cercados de um mar tempestuoso e terrivel, ainda hoje considerado como o de mais aspera educação para o marinheiro, e que estão mais avançados para o occidente do que a propria Islandia, essa _ultima Thule_, onde parou por tanto tempo amedrontada a navegação antiga?