Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica
Part 6
É difficil o desenho d’esta notabilissima figura. Levanta-se contra ella agora uma campanha de improperios, em que os adversarios parecem querer applicar ao juizo severo e imparcial da historia os processos das campanhas jornalisticas das luctas contemporaneas. Tomou parte n’esta campanha o sr. Theophilo Braga, e é pena que o fizesse, porque o livro em que essas tendencias incidentemente apparecem é um dos mais notaveis que se lhe devem, a _Historia da Universidade_.[52] Fez-se echo simplesmente comtudo da maledicencia de um d’estes eruditos, que, descobrindo um facto minusculo que pode attenuar a gloria de uma descoberta, ou achar um ponto vulneravel no vulto de um heroe, vem triumphantemente para a rua soltar o _Eureka_ de Archimedes, declarando _urbi et orbi_ que vão demolir uma reputação firmada pelos seculos. Têem odios historicos tão violentos estes biliosos da erudição como os podem ter contra um poderoso adversario os mais fanaticos jacobinos da politica moderna. São perigosos homens assim, e o historiador imparcial tem de afastal-os serenamente como afasta os insultadores contemporaneos do insultado, que entornam com delicias o fel das suas calumnias nas paginas que enviam á posteridade. Seculos depois de desapparecer da face do mundo um homem eminente, apparecem deturpadores vehementissimos, em cujo espirito a vaidade de fazerem vingar um novo pensamento historico produz tão ruins consequencias como as pôde produzir seculos antes o odio de um invejoso, o despeito de um desprezado, ou a vingança de um vencido.
Era por acaso o infante D. Henrique um impeccavel? Mais ainda: era um vulto sympathico, affectuoso, altruista, um d’estes entes divinaes como o Christo, cuja doce bondade irradia na Historia, que nos captiva quando lêmos a sua Vida como devia captivar os que no seu tempo viveram, debaixo do influxo magnetico da sua meiguice, da sua amoravel candura? Não, de certo, e nem é esse infelizmente o caracteristico dos homens a quem se devem os grandes emprehendimentos. É terrivel o homem _unius libri_, diz o pensador antigo. Não o é menos o homem de um só pensamento e de uma só ambição. Bondoso, quando se trata de attrahir os outros, de os enfeitiçar e de os fazer escravos da sua idéa e instrumentos do seu plano; absolutamente despido de toda a caridade e de todo o affecto quando o instrumento deixa de servir, e quando o escravo pede em paga uma pouca de dedicação e um pouco de sacrificio. Um dos homens mais captivadores que tem havido foi Napoleão. Prendia, subjugava com o encanto da sua apparente bondade, inspirava dedicações fanaticas, mas nunca foi bom para os outros, nunca pensou na felicidade alheia. Entregue exclusivamente ao seu pensamento ambicioso, á grandeza da sua idéa gigante, absorvia-se todo n’ella, bastante habil para se não esquecer de captar aquelles de que precisava, o exercito, o povo, os principes, o Papa, as mulheres, os artistas, e incapaz de fazer um sacrificio a uma mulher, ou de ter dó de um velho! Impede isso por acaso que a historia não deixe de reconhecer a grandeza excepcional do seu genio e a obra maravilhosa que executou, e que ainda está de pé, porque a verdade é que o organismo da França é hoje ainda o que elle construiu, e portanto o organismo da Europa continental tambem que por elle se modelou?[53]
Ninguem pintou melhor o infante do que o sr. Oliveira Martins no seu admiravel livro _Os filhos de D. João I_:[54] duro, sem bondade, asceta do pensamento. E, se outra coisa fosse, poderia por acaso levar por deante uma obra em que era indispensavel a energia, a perseverança e a implacavel obstinação? Sympathicos são seus tres irmãos, D. Duarte, D. Pedro e D. Fernando, que o coadjuvam, que o admiram, que a elle se sacrificam. Mas D. Henrique é um solitario, como todos os que têem a allucinação de uma missão divina. Todo se abraza na embriaguez do mar, no sonho das vagas regiões longiquas, na procura da India, d’essa India triplice e maravilhosa, que, depois do livro de Marco Polo, sobretudo, toma as proporções phantasticas de uma d’essas cavernas das _Mil e Uma Noites_, illuminadas pelas fulgurações das pedras preciosas, pelo fulvo scintillar do oiro, pela nitida brancura da prata. Essa conquista do mar quel-a toda para si e isso lhe lançam em rosto os seus modernos detractores, como os bourbonicos lançavam em rosto a Napoleão não querer ser logar-tenente de Luiz XVIII e os republicanos não se contentar com o consulado electivo—queria-o para si e para a ordem de Christo que era a sua guarda pretoriana. Auxilia-o D. Pedro nas suas investigações, traz-lhe o fructo das suas viagens, auxilia-o D. Fernando na empreza de Tanger, d’essa cidade maritima que elle cubiça como um ponto de partida mais seguro para as suas expedições navaes; mas D. Fernando encontra n’elle um debil auxiliar quando vem a grave questão do seu captiveiro, D. Pedro, um indifferente, quasi um inimigo, na terrivel contenda em que estão em jogo a sua vida e a sua honra; é que todas as faculdades da sua alma estão concentradas na sua grande empreza. Mais do que o doge de Veneza elle casou com a vaga atlantica. Deu-lhe todos os affectos e toda a pureza da sua alma, as faculdades do seu espirito. Por ella captivou com as suas promessas e com as suas seducções quantos estrangeiros o podiam ajudar na sua empreza, por ella abstrahia de todas as ambições que não fossem a de conquistar para si, para a historia, para a fé e para a sciencia um immenso imperio ultramarino. É um monge militar isolado no seu castello sobre o Oceano, como os primeiros mestres do Templo, seus antecessores, nos seus castellos da Palestina. A sua Jerusalem é a Aryn que elle procura ainda, talvez, no meio dos fogos da zona torrida, o seu Santo Sepulchro é esse mar immenso, onde se sepulta o sol, e de que elle affugenta, com a prôa das suas caravellas, como os Templarios os Sarracenos com a ponta das suas lanças, os pavores da superstição, os erros da sciencia e as illusões da fé.
Que outros condemnem esse implacavel sonhador que fechou a sua alma aos affectos humanos para todo se concentrar na paixão por um ideal que a um tempo o illumina e o allucina! Que outros lamentem esse egoismo de namorado, que o torna surdo para todas as supplicas e inaccessivel a todas as dedicações, mas que nós Portuguezes lhe regateemos a gloria, e lhe amesquinhemos o caracter, e lhe neguemos a indulgencia que a fraca humanidade deve ter com os defeitos que acompanham fatalmente as grandes qualidades, quando a esse egoismo sagrado, a essa perseverança intransigente devemos o termos dado ao mundo a mais assombrosa conquista, e termos conquistado para nós uma gloria que ainda hoje illumina as nossas ruinas, e dá á nossa decadencia a purpura e o oiro de um pôr de sol explendido, isso é o que se não comprehende, e o que se pode considerar como uma das mais flagrantes injustiças e das mais negras ingratidões que podem macular um povo.
VI
Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico
Qual era o ponto de vista do infante, quando começou a dirigir para o sul as expedições? Era simples: Eratosthenes déra á Africa a fórma de um trapezio, sendo o lado septentrional banhado pelo Mediterraneo, o oriental pelo Nilo, o meridional pelo mar desconhecido, o occidental pelo Atlantico. Este lado era o mais pequeno. Pouco abaixo do estreito de Gibraltar a costa voltava para SSE, e ia juntar-se com a costa oriental. Era esta a doutrina geralmente admittida, e assim se representa a Africa na maior parte dos mappas medievaes. Outros, porém, seguiam a doutrina de Ptolomeu que prolongou a Africa, alargando-a na base: e então imaginavam uma costa ficticia ao sul que ligava entre si a Africa Oriental e a Occidental, mas parando em todo o caso para aquem do Equador, porque a zona torrida era sempre considerada inhabitavel, e para além da zona torrida ficava, segundo a theoria de Ptolomeu, a terra antichthona.
Deu isso origem a que corresse a lenda do famoso mappa trazido pelo infante D. Pedro de Veneza, e em que estava traçado o cabo da Boa Esperança, e suppõe-se tambem que o estreito de Magalhães! A confusão é curiosa. O mappa que deu logar a essa lenda é um mappa já posterior aos primeiros descobrimentos dos Portuguezes, representa a Africa terminando n’uma ponta a que dá o nome de cabo de Diab, mas esse cabo está separado do continente africano por um estreito, onde havia, dizia a legenda, a treva absoluta. Parecia que era esse canal a ultima reliquia, que procurava sobreviver ainda, do mar Tenebroso.
Parecia-se esse estreito com o estreito de Magalhães, e, da mesma fórma que muitos confundiram a terra antichthona com a America, para lá lhe passaram o imaginario canal do sul da Africa.
Humboldt, que tão facilmente acceita o que pode redundar em nosso desfavor, ao passo que regeita tudo o que possa redundar em desfavor de Colombo, Humboldt, que não trata de saber se a Guiné a que chegou Bethencourt é a Guiné que os Portuguezes descobriram depois, apesar de acautellar os seus leitores contra os erros que podem resultar da confusão de nomes identicos que se davam a regiões muito diversas, tambem d’esta vez, reconhecendo que os mappas de Toscanelli, onde todos dirão que se encontram as Antilhas descobertas por Colombo, são mappas perfeitamente conjecturaes, não hesita em acceitar o mappa conjectural de fra Mauro, em que vem o Cabo de Diab, como mappa baseado em conhecimentos positivos.[55]
E comtudo fra Mauro nas indicações que acompanham o seu mappa, feito em 1454, é o primeiro a reconhecer os serviços dos Portuguezes, e a declarar que d’estes recebeu muitos mappas, que lhe tinham servido para a elaboração do seu.
«Muitos pretenderam, diz elle, e grande numero escreveram que este mar (o _Atlantico_) não pode ser _torneado_, nem navegado, nem ter habitantes nas suas praias como a nossa zona temperada e habitada; _mas é agora de toda a evidencia que se pode sustentar uma opinião contraria, principalmente porque os Portuguezes que o rei de Portugal mandou a bordo das suas caravellas para verificarem este facto, referiram, depois de se terem certificado elles mesmos, que tinham explorado esse continente pelo espaço de mais de duas mil milhas desde o sudoeste do estreito de Gibraltar_, que em toda a parte os recifes da costa não são perigosos, que as sondas são boas, que a navegação é facil, sendo as tempestades mesmo pouco perigosas. Elles levantaram cartas d’estas regiões e deram nomes aos rios, bahias, cabos e portos. Possúo um grande numero de borrões ou esboços d’essas cartas».[56]
Accrescenta elle, porém, _que nenhuma d’essas cartas resolvia a grande questão de se saber-se se podia fazer a circumnavegação da Africa_!
É fra Mauro que o diz, no proprio mappa, que prova, segundo Humboldt imagina, que o cabo da Boa Esperança era conhecido mais de quarenta annos antes de Bartholomeu Dias o dobrar!
Não se vê porém que a emenda conjectural nos mappas antigos é aqui evidente? Já estão os Portuguezes a duas mil milhas do estreito de Gibraltar, e a costa africana não volta bruscamente para leste. Não é bem natural suppor a probabilidade de terminar a Africa em ponta, visto que a occidental se dirige para SE, como a oriental se dirige para SO? Como o proprio Humboldt affirma e faz notar, depois dos descobrimentos os cartographos não se limitavam a inseril-os, mas accrescentavam ás regiões descobertas os seus complementos conjecturaes. E tanto assim é que, ao lado do cabo em que a sua phantasia roçou pela verdade, poz um estreito que não existia, que, depois de ter imaginado a Africa torneavel, continúa a dizer que não sabe-se se poderá tornear, e que, ao passo que fundamenta nas descobertas portuguezas a sua descripção da Africa Occidental, nada diz de quaesquer viagens que tivessem podido esclarecel-o ácerca da fórma que podia dar á Africa meridional!
Nada ha mais estranho do que o que succede com os Portuguezes n’esta questão dos descobrimentos. Quando elles os fazem, toda a Europa os applaude, affluem a Portugal aventureiros que querem tomar parte nas nossas expedições, e navegar nas nossas caravelas. Ninguem se lembra de dizer que já sulcaram esses mares, ou que já foram a essas terras. Os Normandos, longe de fallarem em pretenções suas, aconselham a quem queira fazer expedições para esses lados que tome pilotos em Portugal, porque aqui os encontra sabendo bem aquellas derrotas. Os papas concedem-nos o dominio d’essas terras baseado nos direitos de primeiro occupante, os reis de França e de Hespanha, tão ciosos das suas pretenções, reconhecem esse direito sem a minima objecção e até castigam os seus subditos que tentam violal-o, os navegadores de toda a Europa, _os taes que nos tinham precedido_, o que fazem é tentar surrateiramente seguir-nos e apanhar aos nossos pilotos, comprando-os muitas vezes, os segredos da derrota, os cosmographos e os cartographos com os nossos viajantes mantêem relações seguidas, e nas suas relações e nos seus mappas se baseiam para traçar o que já está descoberto e para conjecturar o que não está; tão corrente é na Europa a historia das navegações portuguezas que, estando ainda bem fresca a memoria d’essas primeiras aventuras do mar, e tendo Colombo residido nas ilhas descobertas pelos Portuguezes, allega, quando na sua primeira viagem se quer guiar pelo vôo dos passaros, que foi assim que os Portuguezes descobriram as suas ilhas,[57] e D. Henrique chama para Sagres o cartographo malhorquino Jayme, e comtudo os seus escudeiros ufanam-se de terem descoberto o Rio do Oiro, e com elles se regosija o infante e se regosija o cartographo, sem que este se lembre de allegar que já por um seu patricio, ou por um seu parente, ou por elle mesmo, talvez, como chega a suppor o sr. D. Cesario Fernandez Duro, esse rio fôra descoberto![58] E seculos depois é que apparecem as estultas pretensões de se querer demolir essa gloria toda em proveito de um desconhecido, mas baseadas em tão frivolos argumentos que bastou que o visconde de Santarem passasse uma revista á cartographia da meia edade, ás suas chronicas, aos seus documentos, aos seus tratados e aos seus livros de sciencia, para que a inanidade de semelhantes affirmações se apresentasse com uma evidencia esmagadora!
Vão pois os navegadores portuguezes caminho da India que é desde o principio o alvo dos seus esforços. Contam que, antes de chegar ao Equador, voltarão para leste, e ha uma coisa só de que n’esse momento D. Henrique duvida, é que o mar das Indias seja um mar mediterraneo. Se o acreditasse, como bem diz Humboldt, não faria a tentativa. Antes, porém, de se aventurarem para além do cabo Bojador, encontram Gonçalves Zarco e Tristão Teixeira Porto Santo e a Madeira, Gonçalo Velho Cabral os Açores.
Muitas vezes os pescadores portuguezes poderiam ter encontrado algumas d’essas ilhas, e possivel era tambem que os nossos navios commandados pelos pilotos genovezes que D. Diniz chamára a Portugal, tivessem arribado a esses archipelagos. Eu mesmo já acceitei um pouco essas doutrinas sustentadas por Major, e a que dava certa apparencia de verdade o modo como Azurara conta o descobrimento. Fil-o, porém, antes de ter estudado mais profundamente a cartographia da meia edade, antes de ter visto como esses cartographos conheciam os phantasticos archipelagos do Oceano Atlantico, e fixavam nos seus mappas as ilhas de S. Brandão, da Antilia, das Almas, do Purgatorio, sonhadas pela imaginação celtica dos povos occidentaes da Europa. Não navegaram os Portuguezes n’um Oceano que imaginavam deserto, mas sim n’um Oceano onde as ilhas pullulavam. Quando a alguma chegavam, não suppunham tel-a descoberto, mas tel-a simplesmente encontrado. Depois de terem descoberto todas, ainda continuaram a procural-as, e hoje mesmo ainda na Madeira se suppõe que a ilha das Sete Cidades se tem conservado escondida, longe das estradas maritimas, por traz de alguma dobra do ainda mysterioso Oceano.
Essa ingenuidade portugueza, que serviu depois para os seus detractores, manifesta-se tambem na exploração das costas africanas. Nenhum navegador suppõe que chega a terra desconhecida. Todos imaginam que não fazem senão encontrar terras cuja existencia não era ignorada pela sapientissima antiguidade. Os nomes de Ptolomeu, de Strabão, de Eratosthenes, de Plinio, de Pomponio Mela e de Solino continuam a ser nomes oraculares para aquelles que estão demolindo o castello de cartas da sua vã e ephemera sciencia. Marco Polo está sendo tambem um dos seus idolos. Chegando ao Senegal julgam ter encontrado o Nilo dos Negros, porque estão ainda convencidos da verdade da velha doutrina, que separa o Nilo em dois grandes braços, um dos quaes se dirige para o Atlantico e o outro para o Mediterraneo. O que os espanta e ao mesmo tempo os exalta é o não encontrarem monstros, as ondas tenebrosas, os montes ardentes, toda a guarda avançada da implacavel zona torrida. Para que primeiro arcassem com esses receios foi necessaria toda a energia do infante D. Henrique, mas a pouco e pouco foram-se familiarisando com esses mares que tão terriveis se suppunham anteriormente, e eram elles que davam a fra Mauro as informações tranquillisadoras que elle insere nas annotações ao seu planispherio.
No ponto de vista em que nós nos collocamos, e que suppomos ser absolutamente verdadeiro, quer dizer desde o momento que sustentamos que o serviço immorredouro que Portugal prestou á civilisação e á sciencia foi o ter demolido a noção consagrada da zona torrida inhabitavel, e que a prova de sobre-humana audacia que os Portuguezes déram foi a de transpor sem hesitação os limites d’essa zona torrida, percebe-se que nos seria completamente indifferente que se provasse que navegadores estrangeiros tinham precedido os nossos nos mares que ficam para além do Bojador. Isso não faria senão levar um pouco mais adeante o ponto de partida das expedições portuguezas indubitavelmente gloriosissimas, e cuja honra Humboldt confessa que nos cabe sem contestação, as expedições á região equatorial.[59] Mas a verdade irrefragavel é que esse limite, que os Portuguezes transpozeram, foi sem duvida alguma o cabo Bojador. Como Humboldt nota, com perfeita razão, o horizonte geographico vae-se alargando a pouco e pouco, e a verdade é que, uma vez ampliado, não se estreita de novo. Para o lado do occidente os primeiros limites foram os do mar Egeu, depois o do meridiano das Syrtes, depois o das columnas de Hercules, depois para o norte o extremo meridiano da Europa, para o sul o da costa africana.[60] Vemos que a mansão da felicidade suprema acompanhou a ampliação d’esse horizonte, primeiro no Oasis do Egypto, depois na Cyrenaica, depois na costa africana, a pequena distancia das columnas de Hercules, depois nas Canarias. Não ha saltos n’este progresso forçosamente methodico. Logo que se transpõe um limite maritimo a navegação prosegue.
Para o sul o cabo Não foi por muito tempo o limite, depois o Bojador. Transpoz-se esse limite em 1433? logo affluiram a Portugal estrangeiros curiosos d’essa novidade, e logo D. Henrique tratou de se assegurar da posse das terras que vae descobrir. Depois da expedição de Antão Gonçalves e de Nuno Tristão em 1441, vão embaixadores portuguezes ao papa Eugenio IV a pedir-lhe as bullas necessarias, e já com Antão Gonçalves na viagem immediata vae o allemão Balthazar, que vem da côrte do imperador Frederico III correr estas novas aventuras.[61] E comtudo desde 1415 se empenhava o infante em explorações maritimas, sem que reclamasse do Papa quaesquer concessões, sem que os estrangeiros se interessassem por essas tentativas infructiferas. Tudo muda de 1433 por deante. Porque? porque se rompera evidentemente mais uma das barreiras que tinham successivamente detido a marcha da humanidade, porque se tinham transposto mais algumas das columnas que formavam o portico do mundo sobre o desconhecido, columnas de Briareu primeiro, columnas de Hercules depois, estatuas das ilhas Khalidat dos Arabes, emfim.
Em 1436 chegou Affonso Gonçalves Baldaya ao Rio do Ouro, ou o que elle suppunha que era um rio, e que não era afinal senão um braço de mar, e, dando-lhe esse nome, conformou-se mais uma vez com o respeito pela tradição antiga, que affirmava que para o lado das ilhas Afortunadas, como dizia Pindaro nas suas Olympiadas, rios que conduziam ouro entravam no Oceano.[62] Assim os Arabes davam o nome de rio do Ouro a muitos, situados muito áquem do cabo Bojador, assim os Catalães chamavam rio do Ouro a um rio que encontravam para além do cabo Não e proximo das Canarias, tanto que no proprio mappa em que se affirma que Jayme Ferrer procurara o rio do Ouro, o traçado da costa não vae além do cabo Bojador.[63] Podia haver mais evidente prova de que o Rio do Ouro catalão não é o Rio do Ouro portuguez? Não fallemos sequer em que o Rio do Ouro de Jayme Ferrer é, como o descreve o manuscripto de Genova, com que se pretende dar authenticidade ao facto,[64] um rio largo em que podem fundear náus potentes, emquanto o Rio do Ouro de Affonso Gonçalves Baldaya nem rio é sequer, e n’elle, segundo affirma o almirante Roussin que o estudou hydrographicamente, só canôas podem entrar.[65] Basta vermos que os mappas em que se baseia a pretenção, param no Bojador, como no Bojador pararam os navegantes a quem depois se quiz attribuir a gloria de o ter transposto.
Em 1441 descobria Nuno Tristão o cabo Branco, em 1443 os ilheus de Arguim, em 1445 acabava-se de descobrir a costa do Sahará e entrava-se na costa da Senegambia, e n’este meio tempo entravam já em Portugal com abundancia os escravos africanos.
Nodoa é esta com que se pretende manchar a gloria dos nossos descobrimentos, como se n’essa epocha em que os proprios brancos ainda tinham, pode dizer-se, roxos os pulsos dos grilhões com que lh’os algemára a servidão da gleba, n’essa epocha em que tinham escravos os proprios mosteiros e as egrejas, se podesse ter ácerca da liberdade do homem as idéas largas que, só uns poucos de seculos depois, e a muito custo, se implantaram na legislação dos paizes mais cultos. E é curioso que sabios escriptores accusem o infante de ter sido o responsavel pela escravatura negra, como se não fosse tão facil ás virtuosas nações, cujo credito elles defendem, eximir-se a seguir tão mau exemplo! como se ao Papa, que representava a suprema lei moral da sociedade de então, não coubesse o dever de conceder as terras, mas de prohibir os escravos! como se não fosse evidente que o mesmo faria qualquer nação que nos precedesse, e que o facto de não apparecerem escravos pretos na Normandia no seculo XIV é mais uma prova contra as suas pretenções! E comtudo a prioridade na escravisação das populações africanas essa é que os Normandos podem reclamar sem contestação, porque, bastantes annos antes de se venderem nas praças de Lagos os escravos da costa africana, já o normando João de Bethencourt, rei das ilhas Canarias, vendêra na Hespanha os seus subditos.[66]