Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica
Part 5
Depois ainda é o bardo Myrdhinn que vae com mais nove bardos procurar a ilha Verde, que nunca foi submergida pelas vagas, a ilha dos pomos de oiro, onde no meio de uma aurora perpetua dança um côro eterno de bellos rapazes e de formosas raparigas.
Tudo se condensa, emfim, na lenda de S. Brandão. Esse encontrara a ilha onde os anjos que acompanharam Lucifer, mas não foram inteiramente seus cumplices, cantam os hymnos de esperança, e o aspero rochedo batido pelas vagas, onde Judas é consumido pelo eterno remorso; e emfim a terra promettida aos eleitos, a terra dos bemaventurados.
S. Patricio tambem percorre as solidões do Atlantico. Esse vae, segundo a lenda, quando a quaresma começa, para o seu _purgatorio_, n’uma ilha de que ninguem se pode approximar, onde ha uma caverna que os maus espiritos habitam, e onde se abrem duas estradas subterraneas, que vão ter uma ao Inferno, outra ao Paraizo. Esta ilha mysteriosa do _Purgatorio de S. Patricio_, como a ilha abençoada de _S. Brandão_, é um dos sonhos mais persistentes da edade média, e uma e outra lá apparecem nos mappas medievaes, nos sitios mais diversos, ás vezes applicando-se a ilhas verdadeiras, como acontece com o _Purgatorio de S. Patricio_, que alguns cartographos collocam na Islandia.
A imaginação celtica é a mais fecunda n’esta creação de terras phantasticas, e não podia deixar de ser assim, não só porque os povos d’essa raça são essencialmente imaginativos e sonhadores, como tambem porque n’essa Irlanda, collocada na extremidade occidental da Europa, a tão pouca distancia da America, aonde tantas vezes deviam chegar, como chegavam aos nossos Açores e á nossa Madeira, plantas e cadaveres de homens de desconhecido aspecto, não podia deixar de pullular a cada instante na alma do povo o pensamento da existencia de ilhas mysteriosas para esse lado, como muitas vezes tambem, quando um pescador mais audacioso se aventurava ao mar alto, quando o vento de leste lhe enfunava as velas, e o mar lhe parecia cantar no seu doce murmurio as suas maravilhosas lendas, elle seguiria caminho do Occidente, durante dias e dias, até que a fome o salteasse, ou até que o continuado panorama das vagas a seguirem-se ás vagas, sem fim, sem termo, fechando o horizonte, os desanimasse afinal[50]. Mas tambem na peninsula hispanica lendas semelhantes se formavam e pelas mesmas causas. Tambem aqui em Portugal sobretudo e no Algarve principalmente os pescadores, ao largarem a costa, sentiriam a tentação de penetrar nos mysterios do Oceano, e aqui tambem á volta, em noites de luar nas esfolhadas, ou no inverno ao lado da chaminé, fallariam, como se as tivessem visto, em ilhas extranhas, na das Sete Cidades, por exemplo, onde se tinham refugiado, quando os Mouros vieram á peninsula, sete bispos christãos com o povo das suas dioceses, proscriptos agora e encantados como as meigas irlandezas exiladas dos navegadores de Iona. E todas estas ilhas phantasticas, Antilia e Sete Cidades, ilha de S. Brandão e Purgatorio de S. Patricio, iam juntar-se ás ilhas conjecturaes dos sabios e ás ilhas tradicionaes da mythologia antiga para formarem esses archipelagos do sonho e da lenda que se desfizeram em fumo quando das aguas surgiram, envoltas no seu manto de verdura, ou na sua armadura de rochedos vulcanicos, palpitantes ainda com o fogo que lhes lavrava nas entranhas, ou carregadas com a immensa e luxuriante cabelleira das intactas florestas, as ilhas reaes e verdadeiras.
Esse sonho das ilhas phantasticas podia não ser senão um estimulo para cavalleiros denodados que não temiam os encantamentos, logo que levavam comsigo as espadas bentas e a cruz do Salvador. Com o coração a bater-lhes um pouco, pallidos de supersticioso terror, mas incitados pelas tentações das sobre-naturaes aventuras, arrojar-se-hiam tanto os celtas da Irlanda como os celtas de Portugal aos mares mysteriosos em demanda das ilhas paradisiacas; outros encontraram tambem no caminho as ilhas infernaes, mas a lenda do mar Tenebroso essa é que deveras regelava o sangue nas veias do mais audacioso. Vinha dos antigos, e mais tambem dos Arabes. Como é que os poetas antigos, ao passo que devaneavam como Seneca no côro da _Medéa_, que para além do Oceano haveria terra incognita, suppunham que n’esses mares longinquos se perdêra a luz do sol e um manto espesso de trevas se desenrolava sobre as vagas? Como é que o arabe Edrisi, que suppunha que estavam no Atlantico as ilhas da eterna felicidade, suppunha tambem que era o Atlantico o mar tenebroso, onde os navios esbarravam uns nos outros e se despedaçavam em ignorados rochedos? É porque suppunham que, depois do mar Tenebroso, vinha o mar luminoso da India, porque imaginavam exactamente que o mar da India communicava com o mar Tenebroso? Tambem a sciencia não dava fóros de authenticidade ao mar Tenebroso como os dava ás terras incendiadas e ao mar em fogo da zona torrida. Era um dos fundamentos essenciaes da lenda do immenso pélago o ligar-se ainda com as estranhas idéas astronomicas dos que suppunham que para além dos mares tinha o globo um cinto de montanhas, e que detraz d’essas montanhas é que o sol se escondia durante a noite, pertencia a essa classe de phantasias a que pertencem os montes Ripheus e outras visões da desvairada imaginação dos sonhadores da geographia.
Mas ainda os Arabes trouxeram do Oriente um novo elemento legendario. O Oriente é a patria das estatuas encantadas, dos monstros de metal dotados de uma vida phantastica, e a esse mar, por tantas razões defezo, punham como sentinellas immoveis e terriveis as estatuas mysteriosas, como os leões de oiro que nos contos arabes defendem os palacios enfeitiçados. Mas ainda a tudo accrescia uma tradição que se baseava na verdade, e que não era menos desanimadora para os que tentassem romper o mysterio. Era a do mar de Sargaço, que não era desconhecido dos antigos, esse mar que os marinheiros de Colombo encontraram já muito para o occidente, e em que se julgava que as plantas enredadas enleiavam por tal fórma os navios que lhes paralysavam completamente os movimentos.
Essas idéas falsas, derivadas da sciencia mal comprehendida, e que povoavam os espiritos dos marinheiros d’essa epocha, são as mesmas que ainda hoje habitam no cerebro do povo ignorante, apesar da immensa propagação de dados scientificos verdadeiros, obtidos pela experiencia de todos os dias. No seu delicioso livro _Sull’Occeano_, o grande escriptor italiano Edmundo de Amicis conta-nos o que ouviu a bordo de um paquete que singrava para a America aos passageiros de terceira classe, emigrantes que iam trabalhar no Rio da Prata. Parece-nos estarmos a ouvir as palestras que se travariam entre os marinheiros do seculo XV a bordo das suas esguias caravellas. Apesar dos factos demonstrarem o contrario, ainda suppunham que, ao atravessarem a zona torrida, teriam de atravessar um mar incendiado. Suppunham que veriam claramente a curvatura da terra e o navio descer por ella como um bichinho em volta da superficie de uma laranja. Todos esses terrores pueris dos passageiros que os marinheiros hoje desdenham com um riso sarcastico, eram os que salteiavam o espirito dos seus antepassados nos seculos da edade média, eram esses terrores os que faziam recuar deante dos cabos africanos e deante das solidões do Atlantico os marinheiros que precederam Gil Eanes e que precederam Christovão Colombo, eram ainda os que acompanhavam os descobridores em cada nova exploração, porque só a pouco e pouco é que a luz se foi fazendo, só a pouco e pouco é que se foram desfazendo as idéas falsas da antiguidade substituidas pelos factos verdadeiros, e era necessario que fossem de uma rija tempera os marinheiros que recalcavam no fundo d’alma esses terrores, que fossem denodados espiritos os d’esses commandantes que assim partiam a arcar não só com os pavores da superstição, mas com as affirmações da sciencia e com as determinações da fé, e que fosse emfim um genio verdadeiramente transcendente o d’esse homem quasi divino, que teve a intuição sublime da verdade e a inspiração de um genio creador, que sonhou um mundo aberto inteiramente á luz, um mar sem trévas, a humanidade circulando sem peias em volta da terra seu dominio, e que logrou escrever na face das ondas com a quilha das suas caravelas essa epopéa maravilhosa que elle concebeu em Sagres e que foi a grande epopéa do Renascimento.
V
O infante D. Henrique e o povo portuguez
Nenhum povo estava tão fadado como os Portuguezes para esse emprehendimento maravilhoso na epocha em que elle se encetou. As cruzadas tinham despertado nos povos europeus o espirito da aventura. Era para o Oriente que se voltava esse ardor de conquista, não só porque era a terra classica de todas as opulencias, mas porque a conquista do Oriente fôra o sonho da antiguidade grega e romana e o culto mal comprehendido, mas profundo, pela antiguidade foi um dos caracteres predominantes da edade média. Alexandre o Magno era para elles o ideal do cavalleiro andante, imaginavam-n’o como um soberano cavalheiresco, segundo a formula feudal, como Virgilio, o dôce poeta, era um feiticeiro de legenda; mas a adoração por esse grande vulto vivia em todos os espiritos. Foi para o Oriente pois que se dirigiram os primeiros viajantes, os Rubruquis, os Plan du Carpin, os Marco Polo, quando as expedições guerreiras tiveram de parar deante da resistencia victoriosa dos sarracenos. Mas esses viajantes já tinham feito penetrar um pouco de luz na geographia systematica do seu tempo, e a humanidade evidentemente, despertada para o estudo e para a sciencia pela primeira Renascença do seculo XIII, ia procurar sondar o desconhecido que por todos os lados a envolvia.
O segredo dos mares occidentaes devia preoccupar sobretudo os povos que no occidente da Europa viam desenrolar-se diante d’elles a incommensuravel extensão das vagas oceanicas. Os povos do Norte, que tinham chegado até á ultima Thule, a regelada Islandia, não deixaram de aventurar-se por esses mares ignotos, e é incontestavel que, assim como chegaram á Groenlandia, tocaram tambem no continente americano. Se perseverassem na descoberta, se fossem seguindo ao longo da costa da America, emquanto encontrassem terra nas suas aventurosas jornadas, teriam roubado incontestavelmente a Portugal e á Hespanha as suas mais viridentes glorias! Á Hespanha, porque antes de Colombo teriam dado á civilisação esse vastissimo continente, a Portugal, porque antes do infante D. Henrique teriam reconhecido a possibilidade de se transpôr a zona torrida; mas não perseveraram, e assim legitimamente perderam a gloria que teriam podido conquistar. Que, afastando-se da Islandia, encontrassem uma nova terra ainda mais regelada e triste, que, proseguindo na sua viagem, chegassem a territorio mais risonho, não é coisa que nos espante, posto que demonstre mais uma vez a coragem d’esses audaciosos reis do mar. A gloria de Colombo não está em ter encontrado novas terras, está em não ter recuado deante dos dogmas da extensão quasi infinita dos mares, assim como a gloria dos Portuguezes não está em terem juntado novas terras ao peculio da civilisação, está em não terem recuado diante do dogma scientifico e religioso da impossibilidade de se viver na zona torrida e da existencia dos mil perigos e dos mil horrores que defendiam a sua approximação.
Ninguem era, comtudo, mais proprio do que os Normandos para tentarem as aventuras maritimas; estavam porém demasiadamente ao norte, e, como ás suas aventuras presidia sempre, como ás dos Phenicios, não o amor da sciencia, mas o amor do lucro, ao chegarem ao cabo de S. Vicente, mais os tentava o caminho do Mediterraneo, onde havia tão seductoras prezas, do que o arriscado caminho do Mar Tenebroso. No seculo XIV os Normandos de França sentiram-se attraídos para os mares do Sul, até porque lhes chegára a noticia de que os marinheiros da peninsula hispanica para esse lado tinham encontrado as ilhas Afortunadas, mas a tentativa de Bethencourt não tivera nem poderia ter imitadores, porque não fôra extremamente prospero o seu resultado, porque as costas áridas do prolongamento de Marrocos, onde tinham encontrado a morte, essa Guiné, como lhe chamavam, Guiné que tinha por limite meridional o cabo Bojador, não promettia grandes proventos aos que lhe tentassem a exploração. A Inglaterra concentrava na conquista da França todas as suas attenções e todo o seu empenho e a França cuidava em defender-se e em completar a sua poderosa unidade. A Italia tinha duas potencias maritimas—Veneza e Genova—cujos navegantes davam lições aos outros povos, mas uns e outros tinham os olhos postos no Oriente, d’onde lhes vinha a riqueza, a gloria e o dominio. Genova é que lançava de quando em quando os olhos para o occidente, em Veneza appareciam ás vezes alguns espiritos que se deixavam tentar pelos mysterios do Oceano, mas as viagens audaciosas e pouco afortunadas dos irmãos Zeni venezianos e de Vivaldi e Doria genovezes, não podiam ser incitamento a que se proseguisse nas tentativas. Acontecia com as duas republicas maritimas o que depois aconteceu com Portugal quando regeitou a proposta de Colombo. Não se deixa o certo pelo duvidoso. Não se empenham vidas e thesouros em emprezas incertas, semi-phantasticas, quando se tem nas mãos, como Veneza e Genova tinham, o vasto commercio do Oriente, quando se tem quasi a certeza de que se está no caminho da India, quando se possuia já o resgate valioso da Mina como acontecia com D. João II. Para esses emprehendimentos que são o sonho da politica, são necessarios não os espiritos positivos, mas as imaginações exaltadas. É indispensavel que haja n’um cerebro esse grão de loucura que faz os grandes poetas e os grandes descobridores, que inspira os poemas que se escrevem—os poemas da phantasia, e os poemas que se executam—os poemas da acção, um homem como o infante D. Henrique, que herdára de sua mãe, como todos os seus irmãos, esse elemento romanesco que toda a mulher do Norte encerra no fundo da sua alma, por baixo da sua apparencia séria, austera e pratica de dona de casa e de mãe de familia, para conceber e levar por deante, n’um jorro de santa loucura, o poema das navegações, ou uma mulher cavalheiresca, romanesca tambem, sensivel e enthusiastica como a rainha Izabel, para comprehender a alma de Colombo, para se irmanar com ella, e para collaborar tão apaixonadamente n’esse ultimo poema de cavallaria, n’essa ultima producção da alma celtica, n’esse ultimo romance do Santo Graal que se chamou Descoberta da America.
Restavam os reinos da peninsula hispanica, mas todos esses, á excepção de Portugal, se achavam empenhados ainda nos ultimos arrancos da sua lucta contra os Mouros. No oriente da Hespanha, nas Baleares sobretudo, havia a tentação de sondar o mar desconhecido, mas diante do cabo Bojador ainda se recuava. Tel-o-hiam dobrado comtudo se tivessem perseverado no intento, mas era essa perseverança que não podia deixar de faltar a um povo que não tinha para isso outro estimulo que não fosse o da curiosidade, que mais se deixaria tentar pela Africa mediterranea do que pela Africa atlantica. O povo que estava deveras em circumstancias de tentar os grandes emprehendimentos era sobretudo Portugal.
Acabava de atravessar um periodo em que todas as suas faculdades tinham sido vivamente excitadas, e em que empregára todas as suas forças e toda a sua actividade. Havia dois seculos que unificára o seu territorio e que expulsára os Arabes. Desde que o fizera, voltára naturalmente as suas attenções para o Oceano, e o grande rei, que mais cuidára da organisação pacifica do seu povo, D. Diniz, empenhara-se essencialmente em nos dar marinha, animando a mercante, protegendo a pescadora, desenvolvendo a de guerra, já providenciando para que se podessem fazer navios, já indo buscar a Genova, a grande nação marinheira do Mediterraneo, os navegadores que podiam dar aos nossos mareantes os conhecimentos technicos que lhes faltavam. Como se tivesse a previsão de que ainda a Portugal caberia tentar a ultima empreza cavalheiresca da edade média, não se conformára com a suppressão dos Templarios, e fundára para os substituir a ordem de Christo, cujos cavalleiros tinham de vir a ser os Templarios do mar, cujo habito e cuja commenda foram a «estrella dos bravos», cujas phalanges intrepidas foram a Legião de Honra das nossas maritimas victorias.
Logo as primeiras expedições atlanticas mostraram que rumo Portugal queria seguir, mas as discordias intestinas e as ambições dos reis adiaram o proseguimento das tentativas. Não se resignavam os nossos soberanos a manter o seu reino em tão estreitos limites, mas Castella engrandecera-se tanto que não nos era facil a dilatação. Foi o contrario que esteve para succeder, foi Castella que esteve a ponto de absorver Portugal; na lucta desegual empenharam-se então todas as nossas forças vivas; toda a energia da nossa organisação, toda a furia do nosso patriotismo local despertaram para essas pelejas homericas. O perigo imminente fez com que a patria se retemperasse na grande corrente democratica. A nacionalidade portugueza luctou com a poderosa Castella como Anteu com Hercules, cobrando novas forças sempre que tocava no solo portuguez. Em 1385 como em 1640 foi o povo que salvou a bandeira. A gente dos concelhos, indo, _ventres ao sol_, na energica phrase de Fernão Lopes, combater contra os cavalleiros vestidos de ferro, manifestava na peninsula hispanica uma nova força social, a mesma que dera aos _yeomen_ inglezes a victoria sobre a cavallaria feudal da França, e aos montanhezes suissos a victoria sobre a cavallaria aristocratica de Carlos o Temerario. Nunca houve uma efflorescencia tão notavel de bravura e de talento, de genio aventuroso e de dedicação patriotica, nunca estiveram em tão continua vibração todos os nervos e todos os musculos de um organismo nacional. Quando acabou a lucta, depois de ter insculpido nos annaes gloriosos da patria os nomes de Trancoso e de Atoleiros, de Aljubarrota e de Valverde, de D. João I e de Nuno Alvares Pereira, a geração que praticára esses feitos estava ainda vibrante de energia, o cerebro que concebera a reorganisação nacional estava scintillante de idéas. Foi então que Vasco de Lobeira devaneou o _Amadis de Gaula_, que Fernão Lopes fez trasbordar nas suas inimitaveis chronicas a exuberancia poetica da alma nacional, que os architectos e os canteiros fizeram desabrochar no campo da peleja a flor maravilhosa da Batalha, que o infante D. Henrique sonhou a epopéa dos descobrimentos.
Quando uma nação acaba de se empenhar n’uma lucta aventurosa de muitos annos custa-lhe a voltar de novo ás occupações serenas da paz. Ha em todos os espiritos uma sede de aventuras, uma necessidade absoluta de occupar a sua energia. É por isso que vemos, depois das grandes luctas do principio d’este seculo, os generaes francezes e os officiaes de marinha inglezes procurar em todo o mundo emprego para a sua actividade. Encontramos até no Oriente officiaes de Napoleão pondo a sua espada ao serviço de monarchas indianos, na Europa e na America officiaes de marinha inglezes a commandar as esquadras insurgentes nas luctas da independencia americana e da liberdade europêa. Assim no seculo XV vamos achar cavalleiros portuguezes á cata de aventuras na Inglaterra e na França e até na mais remota Allemanha. Sem fallarmos em D. Alvaro Vaz de Almada, cujos serviços mereceram na Inglaterra a altissima recompensa da ordem da Jarreteira e do condado de Avranches, nem no infante D. Pedro, e em Soeiro da Costa, achamos nas guerras de França, no cêrco de Arras, por exemplo, cavalleiros portuguezes, cujo nome ficou desconhecido, entrando em combates singulares deante dos muros da praça assediada.[51] É esta necessidade de dar vasão a esta superabundancia de energia que leva D. João I, incitado por seus filhos, á expedição de Ceuta, é um povo n’essas disposições que o infante D. Henrique vae encontrar apto para as audaciosas explorações do Atlantico.
Note-se: hoje ainda, depois de tantos seculos de decadencia, nós somos o povo da aventura. Indolentes na patria, amanhando sem enthusiasmo um solo uberrimo que se desentranharia em maravilhosos fructos se lhe dessemos francamente todo o trabalho dos nossos braços e todo o pensamento do nosso cerebro, discursadores declamatorios, sem iniciativa nem acção, mudamos completamente apenas transpomos as barras dos nossos rios. Apertados entre as montanhas e o mar, é nas montanhas que temos a nossa força de resistencia, é no mar que temos o nosso vigor de emprehendimento. Os nossos montanhezes intrepidos são ainda hoje os lidimos descendentes dos companheiros de Viriato, os nossos pescadores são deveras os filhos audaciosos dos marinheiros de Gil Eanes. Lá fóra a transformação é mais completa ainda: fizemos o Brazil, e estamos continuando a dar ao seu desenvolvimento os elementos da nossa actividade exotica; estamos fazendo a Africa portugueza, e os vestigios dos nossos aventureiros mercadores são encontrados com espanto no interior da Africa; nos Estados-Unidos temos uma colonia trabalhadora e autonoma que se não deixa absorver pelo povo americano; nas ilhas Sandwich a immigração portugueza rivalisa em importancia com a immigração ingleza; em Demerara constitue o fundo da população branca trabalhadora. A alma celtica palpita ainda hoje nos nossos peitos, como palpitaria então n’esse seculo XV, que foi o nosso seculo aureo, depois das luctas homericas de Aljubarrota, quando o povo trasbordava de vida e de enthusiasmo, prompto para todas as luctas, sazonado para todas as aventuras.
A dynastia reinante reflectia perfeitamente o estado da alma popular. O rei era um bastardo, um filho do amor, e de um amor de D. Pedro, o rei mais violento e mais apaixonado que nunca se sentou n’um throno! O sangue borgonhez de seu pae cruzara-se com o sangue normando de sua esposa, e d’ahi nascera aquelle grupo admiravel de principes robustos e intelligentes, educados por sua mãe n’aquelle retiro sagrado das principescas familias medievaes, n’esses quartos forrados de tapeçarias de _haute-lice_, em que pareciam á noite, á luz vacillante das tochas, tomar vida phantastica os heroes das scenas de cavallaria traçadas nos pannos de raz, ouvindo os graves conselhos da mãe, pura, séria e heroica, embalados com a poesia das canções de gesta e com as aventuras dos romances de cavallaria, e, quando saíam do regaço materno, não vendo em torno de si senão rostos energicos de homens como seu pae, como Nuno Alvares, cuja vida inteira era um poema de heroismo, e que, ao viajarem no seu reino, dirigiam quasi sempre os passos para a campina sagrada, onde se estava erguendo sobre as columnatas esguias essa maravilhosa abobada d’onde parecem chover os altos pensamentos, e o altar-mór onde se accendia nas vidraças coloridas o sonho vago e radiante de uma visão paradisiaca.
Tal era o meio onde tinham forçosamente de brotar os grandes emprehendimentos. Foi d’esse meio que saiu a expedição de Ceuta, que não bastava para satisfazer a insaciavel cubiça de aventuras d’esses principes, que não viam em torno de si senão homens em cuja alma as suas aspirações encontravam echo ou estimulo. Assim D. Pedro foi pela Europa fóra procurar emprego para a sua energia e para a sua cubiça de saber, D. Fernando devaneou desde logo o proseguimento da conquista africana, D. Henrique, estudioso e reflexivo, sonhou a conquista do mar.