Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica

Part 13

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[36] «Et dien (disent) que illec sont antipodes, c’est-à-dire, gens qui ont leurs pieds contre nos et pour ce qu’ils sont á l’opposite partie de la terre, aussi comme s’ils fussent subz nous et nous soubz eulx. Ceste opinion n’est pas á tenir, et n’est pas bien concordable á notre foy. _Car la loy de Jésus Christ a esté preschié par toute la terre habitable; et selon ceste opinion, telles gens n’en auraient oncques ouij parler, ne pourroient estre subgés à l’église de Rome. Pour ce, reprenne saint Augustin ceste erreur ou ceste opinion_, _lib._ XVI _«De Civitate Dei»_ Nicolau d’Oresme, cosmographo francez do seculo XIV, preceptor do rei Carlos V, _le Sage_.—Manuscripto cosmographico existente na Bibliotheca Nacional de Paris, com o numero 7487, _apud_. Visconde de Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, p. 142.

[37] Quoniam nullo modo scriptura ista mentitur, quæ narratis præteritis facit fidem eo quod ejus predicta complentur; nimisque absurdum est, ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem, Oceani immensitate trajecta navigure ac pervenire potuisse, _ut etiam illic ex uno primo homine genus institueretur humanum_. Lactancio _Divinarum institutionum_, liv. III, cap. IX.

[38] Qua propter inter illos tunc hominum populos qui per septuaginta duos gentes, et totidem linguas colliguntur, fuisse divisi, quæramus, si possimus invenire, illam in terris peregrinantem civitatem Dei, quæ ad diluvium arcamque perducta est, at que in filiis Noe per eorum benedictiones perseverare monstretur, maxime in maximo qui est appellatus Sem, quando quidem Japhet ita benedictus est, ut in ejusdem fratris sui domibus habitaret.—_Ibid._

[39] Cosmas Indicopleustas, _Topographia Christã_.

[40] _Ibid._

[41] Cosmas, Santo Isidoro de Sevilha, Anonymo de Ravenna, Raban Mauro, Honoré d’Autun, Hugo de Saint-Victor, Vicente de Beauvais, Brunetto Latini, Joinville. A noticia do famoso chronista de S. Luiz a respeito do Nilo, transcripta pelo visconde de Santarem no _Essai_, etc., tom. I, pag. 112, nota 3, não deixa de ser curiosa: «Ici il convient de parler du fleuve qui passe par le pais d’Egypte, et vient du Paradis Terrestre... Quant celui fleuve entre en Egypte il y a gens tous experts et accoustumez, comme vous diriez les pêcheurs des rivières de ce pays-cy qui au soir jettent leurs reyz au fleuve et es rivières; et au matin souvent y trouvent et prennent les espiceries qu’on veut en ces parties de par de ça (dans l’Europe) bien chierement et au pois, comme canelle, gingembre, rubarbe, girofle, lignum, aloes et plusieurs bonnes chouses. Et dit—on pais que ces chouses—lá viennent du Paradis terrestre et que le vent les abat des bonnes arbres, qui sont en Paradis terrestre.»

[42] «Para elle (Colombo) o Paraizo Terrestre correspondia ao castello de Kang—diz dos Persas, e devia achar-se n’um logar elevado e inaccessivel.»—Reinaud _Géographie d’Aboulféda_, tom. I, pag. 252. «A corrente do Orenoque é tão forte que Diogo de Lepe reconheceu por meio de um _escalfador_ que só se abria no fundo das aguas, no mar defronte da foz de Orenoque, que, n’uma profundidade de oito braças e meia, só as duas primeiras braças do fundo eram de agua salgada, e as outras de agua doce».—Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., t. I, pag. 314.

[43] Lemos n’um manuscripto cosmographico datando d’essa epocha (seculo VII) «_que a terra é da forma de um cone ou de um pião_, de forma que a sua superficie vai, segundo esse systema, elevando-se do sul para o norte.» Visconde de Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. II.—_Int._ pag. LX. A fórma ovoide era-lhe attribuida pelo philosopho grego Thalés, seguido por alguns geographos da edade média. Posidonius dava-lhe a fórma de uma funda, como Prisciano tambem.

[44] N’uma carta de 1498, publicada por Navarrete, tom. I, pag. 256, compara Colombo a terra com uma pera dividida ao meio, sendo uma parte redonda, e a outra terminada em cone. Esta carta vem tambem nas _Select letters of Christopher Columbus_, publicadas por Major, pag. 130. (Londres, 1847).

[45] Os geographos arabes consideravam Gog e Magog como filhos de Japhet, devemos accrescentar que era esta a doutrina mais seguida.

[46] É interessante o que diz ácerca d’estes povos o sur Vivien de Saint Martin nas suas _Recherches sur les populations primitives et les plus anciennes traditions du Caucase_, pag. 40 a 47. (Paris, 1847). M. de Sacy considera a muralha de Alexandre como sendo a noção vaga da muralha da China.

[47] Ha poucos annos ainda se publicou, em Hespanha, um livro do sr. Junquera _Origen de los americanos_, em que se sustenta essa doutrina. N’ella se baseia um dos romances, e dos menos bons, _Oak openings_ do grande romancista americano Fennimore Cooper.

[48] Mela, III, c. VII.—Solino diz que a terra d’essa ilha está sempre vermelha.—Plinio colloca-a perto da Taprobana.—_Hist. Nat_. VI, 22.

[49] «Colloquei, diz Toscanelli na carta que escreveu a Colombo e referindo-se ao mappa que mandou ao rei de Portugal, defronte (das costas da Irlanda e da Africa) direito a oeste o principio das Indias com as ilhas e os logares a que poderia abordar.»

[50] Todas estas lendas irlandezas, em abreviada exposição, se podem ver no excellente livro de mr. de Villemarqué _La Légende Celtique_, especialmente na _Introducção e na Lenda de S. Patricio_.

[51] Os cavalleiros portuguezes estavam no exercito do duque de Borgonha, que defendia Arras, e foram ao combate commandados pelo sire de Cottebrune; os seus adversarios, pertencentes ao exercito de Carlos VI, eram commandados pelo bastardo de Bourbon. Veja-se a nossa _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 267, nota (2.ª edição).

[52] _Historia da Universidade_, tom. I, cap. III, pag. 137. (Lisboa, 1892.) A discordancia em que estamos n’este ponto com o illustre professor não nos impede de reconhecermos que o seu livro é monumental. O erudito, a cuja opinião elle se encosta, é João Teixeira Soares, aliás um açoriano benemerito, mas um dos taes que se deixam arrastar pelo prazer de demolir uma gloria consagrada.

[53] Veja-se o retrato de Napoleão traçado primorosamente por Taine nas suas admiraveis _Origines de la France contemporaine_.

[54] _Os filhos de D. João I_, cap. III, _A villa do infante_, pag. 59 e segg.

[55] Humboldt, _Histoire de la géographie du nouveau continent_, tom. I, pag. 334 e segg.

[56] Apud Visconde de Santarem, _Recherches sur la découverte_, etc., pag. 113 e 114.

[57] Citado por Humboldt na _Histoire de la géographie du nouveau continent_, tom. I, pag. 246.

[58] No _Boletim da Sociedade de Geographia_ de Madrid do anno corrente.

[59] «Mais avant les Portugais aucune nation de l’Europe ne semble être allée au délà de l’Équateur». (_Histoire de la géographie_, etc., tom. I, pag. 290).

[60] «L’horizon géographique s’agrandit peu à peu de la Mer Égée au méridien des Syrtes, de là aux Colonnes d’Hercule et hors du détroit avec Hannon vers le sud, avec Pythéas vers le nord». (_Hist. de la géogr._, tom. I, pag. 32). O horizonte ampliado por Pythéas nunca mais se restringiu, porque é que havia de acontecer o contrario ao horizonte ampliado por Hannon, se este viajante tivesse ido mais longe do que a costa de Marrocos?

[61] Ha bullas de Eugenio IV, de Nicolau V, de Martinho V, de Calixto III, de Xisto IV. A bulla de Calixto III, confirmando as de Martinho V e Nicolau V, declara que o descobrimento das terras de Africa Occidental o não possam fazer senão os reis de Portugal. A bulla está no Archivo Real da Torre do Tombo no _Livro dos Mestrados_, fl. 151 e 168. Veja-se a minha _Historia de Portugal_, tom. III, pag. 248, nota 1, (2.ª edição). A bulla de Nicolau V, que já citámos, de 8 de janeiro de 1454, concedia a el-rei de Portugal, ao infante D. Henrique e a todos os reis de Portugal, seus successores, todas as conquistas de Africa _com as ilhas nos mares adjacentes_ desde o cabo de Bojador e de Não e de toda a Guiné com toda a sua costa meridional. (Arch. Real da Torre do Tombo, maç. 7 de bullas, n.º 29, e maç. 33, n.º 14). Por isso, D. João II, quando fallou a Christovão Colombo a 9 de março de 1493, lhe disse, que se regosijava tanto mais com a sua conquista, quanto tudo quanto elle descobrira pertencia de direito a Portugal. Humboldt, _Histoire de la géographie du Nouveau-Continent_, tom. I, sec. 1.ª, Nota E, pag. 331. E effectivamente por algum tempo se discutiu se os descobrimentos de Christovão Colombo eram ou não de _ilhas nos mares adjacentes_ á costa africana. E não acham curioso que, se Francezes ou Hespanhoes ou Italianos, antes de nós, tivessem passado para deante do Bojador, acceitassem e reconhecessem e fizessem respeitar por leis e decretos o direito que nós tinhamos de não consentir que se fizessem descobrimentos n’esses mares, ou, no caso de se fazerem, o direito que tinhamos ao menos, á posse d’essas terras descobertas!!

A proposito d’esse cavalleiro allemão Balthazar, que acompanhou Antão Gonçalves, diz o auctor d’este livro: «Antão Gonçalves voltou a Portugal com os negros, e Balthazar o cavalleiro allemão que o acompanhava tornou para a sua terra, onde foi naturalmente a maravilha de todos os que o escutavam, e um novo Sindbad para os pasmados Germanos. A narração das tempestades, dos perigos, dos estranhos costumes dos Azenegues devia occupar bastantes serões de inverno nos velhos castellos allemães junto da vasta lareira, emquanto gemesse lá fóra o vento e cahisse a neve cobrindo de alvo manto o solo endurecido.» _Hist. de Portugal_, tom. III, pag. 252 (2.ª edição).

[62] _Olympiada II_, 127.

[63] Como se pode ver no 1.º mappa do Atlas do visconde de Santarem, que é exactamente o mappa catalão de 1375.

[64] _Habet_, diz o manuscripto de Genova, _latitudinem unius legue et fundum pro majore navi mundi_.

[65] _La plage de sable, qui, comme on l’a dit, forme presque entiérement l’embouchure du Rio d’Ouro ne permet pas de penser que ce lieu puisse recevoir des bâtiments du plus faible tirant d’eau, il ne peut probablement admettre que des canots._ Roussin _Mémoire sur la navigation aux côtes occidentales de l’Afrique_, pag. 96.

[66] Observação já feita pelo visconde de Santarem nas suas notas á edição da _Chronica de Guiné_ de Azurara. Veja-se tambem o magnifico capitulo da _Vida do principe Henrique_ do illustre escriptor Richard Major, capitulo intitulado _The slave trade_.

[67] Este commentario vem publicado na collecção de Ramusio.

[68] O sabio francez Letronne n’uma memoria publicada no _Journal des Savants_ de agosto de 1831, diz o seguinte: «L’hypothése d’un prolongement indéfini de la côte occidentale d’Afrique, à partir d’une latitude voisine de l’Équateur, était fondée sur la direction de la côte d’Afrique depuis la rivière de Nun jusqu’au cap Bojador _que l’expédition d’Hannon n’avait pas dépassée_.»

[69] «Ha ainda um personagem duvidoso, diz Renan, este _presbyter Johannes_, especie de socio do Apostolo, que perturba como um espectro toda a historia da Egreja de Epheso e causa aos criticos bastantes embaraços.» _L’Antechrist_, pag. XXIII, trad. do sr. Theophilo Braga, que cita este trecho nas _Lendas Christãs_, cap. V, _As lendas do primado da Egreja_, pag. 213 (Porto, 1892). Este livro do sr. Theophilo Braga é na verdade excellente e foi-me de um grande auxilio n’este estudo ácerca das viagens da lenda do Prestes João. A não ser o livro de Marco Polo e os artigos do illustre sinologo Pauthier, que consultámos directamente, as fontes que citamos são as que o sr. Theophilo Braga aproveitára e indicára. Folgamos de prestar esta homenagem ao nosso illustre confrade, porque, apesar de estarmos muito em desaccordo com alguns dos pontos de vista d’este seu novo livro, não deixamos de reconhecer que é mais uma prova do muito talento e da muita erudição do seu auctor.

[70] Esta carta vem publicada na _Cosmographie et histoire naturelle fantastique du moyen-âge de Ferdinand Denis_.

[71] Por 1122, no pontificado de Calixto.

[72] Ainda na ultima concordata celebrada entre Portugal e a côrte de Roma ácerca do padroado da India tiveram de ser resalvados os direitos christãos do rito syriaco.

[73] Theophilo Braga, _Lendas Christãs_, pag. 227.

[74] Veja-se a _Nota explicativa do symbolo da arvore do sol e da arvore da lua_, escripta pelo sr. Felix Lajard, e communicada ao visconde de Santarem que a publicou no fim do III volume do seu _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., pag. 506.

[75] Rosweid, _Vitæ Patrum_.—_Vita S. Macari Romani servi Dei qui niventus est juxta Paradisum._ Andrea Bianco no seu famoso mappa de 1436 põe o Paraizo n’uma peninsula, e junto do Paraizo um grande edificio com esta designação: _Ospitium Macari_.

[76] G. Pauthier _Le pays de Tanduc et les descendants du Prêtre Jehan_.—_Revue de l’Orient, de l’Algérie et des Colonies_, tom. XIII, pag. 287. (Paris, 1861). Publica primeiro o capitulo LXXIII, da Relação de Marco Polo, que se intitula: _Cy devise de la province de Tanduc, et des descendants du Prestre Jehan_, a que se segue depois o commentario.

[77] Ainda não tinham passado os portuguezes do Cabo Branco, estava-se apenas no anno de 1441 e já o infante encarregava Antão Gonçalves de saber alguma coisa ácerca de Prestes João.

[78] Um distincto escriptor francez, Eyriés, que escreveu a biographia de João Fernandes na _Biographie Universelle_, diz que elle fôra o primeiro Europeu que penetrára no interior da Africa e que as particularidades da relação que elle trouxera apresentavam uma grande analogia com as da relação de Mungo-Park. A respeito dos serviços prestados á botanica pelos Portuguezes vejam-se os estudos de primeira ordem do sr. conde de Ficalho, _Plantas uteis da Africa Portugueza_, (Lisboa, 1884), a _Flora dos Lusiadas_, (Lisboa, 1880), a _Memoria sobre a Malagueta_, (Lisboa, 1878). A respeito dos nossos serviços á ornithologia, vejam-se as interessantissimas communicações feitas pelo notavel sabio portuguez o sr. Bocage a Andrade Corvo, e por elle publicadas nas notas á sua edição do _Roteiro de D. João de Castro_.

[79] Alvaro de Freitas ia na expedição commandada por Lançarote, almoxarife em Lagos, e n’um momento de enthusiasmo declarou que estava prompto a seguir o seu chefe até ao Paraizo Terreal. V. a minha _Hist. de Portugal_, tom. III, pag. 271.

[80] Tristão Vaz Teixeira, foi na grande expedição de 1445, de que fazia parte Soeiro da Costa. Alvaro Fernandes tornou-se celebre sobretudo pelo descobrimento da Serra Leôa.

[81] Alvaro Fernandes, por exemplo, foi de uma vez do Cabo Verde á Serra Leôa, e depois Cadamosto e outros exploraram cuidadosamente a costa intermedia, fazendo então viagem como se faz, quando se quer estudar uma costa. «A nossa navegação diz o viajante italiano, sempre foi de dia, lançando ancora todas as tardes ao sol posto com dez ou doze braças de agua.» _Navegações de Cadamosto (traducção portugueza)_ pag. 51.

[82] _Histoire de la géographie_, etc., tom. II, pag. 56 e 57.

[83] _Os Côrte-Reaes_, pag. 61. (Ponta-Delgada, 1883).

[84] _Ibid._, pag. 57.

[85] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).

[86] Veja-se Herrera, _Historia general de los hechos castellanos en las islas y tierra firme del mar oceano_, tom. I, cap. II e III, pag. 4 a 6. (Madrid, 1601).

[87] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 24.

[88] Publicado no _Archivo dos Açores_, tom. I, pag. 22.

[89] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrtes-Reaes_, pag. 62.

[90] Publicado pelo sr. Ernesto do Canto, nos _Côrte-Reaes_, pag. 63.

[91] É o proprio Humboldt, que, referindo-se ás epochas do encontro das ilhas diz: «Ces époques sont, pour l’écueil des Formigas, 1431; pour l’île Santa Maria, 1432; pour San Miguel 1444; pour Terceira, San Jorge et Fayal, 1449; pour Graciosa, 1453. La découverte des îles les plus occidentales, Flores et Corvo, paraît antérieure à 1449, mais cette date est moins précise». _Hist. de la géographie_, etc., tom. II, pag. 105.

[92] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 61.

[93] Assim de João Vaz Côrte Real não hesito em referir que se dizia que foi elle quem descobrira a ilha Terceira e a de S. Jorge e que por isso recebera a capitania das duas ilhas (!) Cabo Verde e o Brazil (!!). Tambem a respeito da força de João Vaz conta com a maior seriedade, e como facto authentico, uma d’estas lendas que atravessam os seculos, com as suas variantes, ácerca de homens famosos pela sua força muscular. Assim diz, que, estando João Vaz Côrte Real no Algarve a passeiar na sua quinta, veiu visital-o um castelhano muito forçoso, que tranquillamente, passando n’uma alameda de marmeleiros, os foi arrancando de um e de outro lado, pondo-lhes as raizes ao sol, João Vaz não fez a mais leve observação, mas apanhando os marmellos, apertou-os na mão e esmagou-os completamente não lhe ficando na mão senão o bagaço. É uma variante da historia do ferrador, um Mauricio de Sarce ou um D. Pedro II de Portugal. O rei ou o principe partia com a maior facilidade cada ferradura que o ferrador lhe apresentava, dizendo-lhe que não era boa, e o ferrador calado. Quando o alto personagem, pagando generosamente a sua ostentação de força, deu uma moeda de ouro ao ferrador, este partiu-a dizendo que não era boa. Como se vê, é o conto popular sempre com a mesma forma, repetida por um escriptor crendeiro, cujo testemunho tem comtudo servido para que escriptores serios percam o seu tempo com umas das suas lendas!

[94] _Os Côrte-Reaes_, pag. 36.

[95] _Ibid._, pag. 35.

[96] _Os Côrte-Reaes_, pag. 19.

[97] Arch. Nac. da Torre do Tombo, liv. 49 de D. João III, fl. 243, verso. Transcripto nos _Côrte-Reaes_, pag. 121 a 125.

[98] Não ha razão seria para que a Groenlandia pertença á America e não lhe pertençam os Açores. Da Islandia, que é a ultima parte da Europa, á Groenlandia, vão 240 leguas, de Portugal a S. Miguel 247. Portanto, se os islandezes descobriram a America porque chegaram á Groenlandia, com mais razão se pode dizer que descobriram os Portuguezes a America porque chegaram aos Açores. É perfeitamente pueril estar a discutir quem foi que tocou primeiro nas terras americanas, a gloria consiste em não ter hesitado em atravessar centos e centos de leguas de mar com o fim de chegar ao Oriente pelo caminho do occidente.

[99] Diz Pedro Nunes: «E perderam-lhe (_os Portuguezes_) tanto o medo (_ao mar_): que nem ha grande quentura da torrada zona: nem o descompassado frio da extrema parte do sul: com que os antigos escriptores nos ameaçavam lhes pode estorvar: «...Tirará nos muitas ignorancias: e a mostraram ser a terra mór que o mar (_o erro de Colombo_): e auer hi antipodas: que ate os Santos duvidaram: e que nam a regiam que nem por quente nem por fria se deyee de abitar.» _Tratado que o Doutor Pero Nunes, cosmographo del Rey nosso senhor fez em defensão da carta de marcar: võ o regimento da altura._ Reg. 1. (Lisboa, 1537).

[100] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., tom. II. Nota _H_, pag. 369.

[101] Veja-se a interessante obra de Navarrete, tom. I, pag. 300.

[102] Strabão, II, pag. 83, 113 e 116. Itaque, diz Strabão na formosa passagem em que prophetisa a America, compluribus verbis persuadere nititur Eratosthenes nisi Atlantici maris obstaret magnitudo, posse nos navigare in eodem parallelo, ex Hispania in Indiam per universum id quod reliquem est, demta dicta distantia (hoc est longitudinæ terræ habitatæ) quæ totius circuli trientem excedit». Strabo, liv. I, pag. 113-114. Assim, excedendo as terras habitadas a terça parte do parallelo, o mar a percorrer é um pouco inferior a ⅔ e menos de 240°, mais de 236°. A differença imaginada por Eratosthenes e Strabão e a distancia verdadeira não é grande.

[103] Esta carta foi publicada pelo sr. Teixeira de Aragão na excellente _Memoria ácerca do descobrimento da America_ que escreveu para o volume consagrado pela commissão portugueza do centenario de Colombo a esta grande solemnidade. É datada de Aviz de 20 de março de 1488. Trata Christovam Colombo por nosso especial amigo.

[104] _Os Côrtes-Reaes_, pag. 65, nota 123. A carta de doação a Fernão Dulmo vem publicada no mesmo volume de pag. 64 a 69.

[105] «No me admiro tengais, diz-lhe Toscanelli na sua segunda carta, tan gran corazon _como toda la nacion portugueza, en que siempre ha habido hombres señalados en todas emprezas_.

[106] A carta é de maio de 1505, citada por Navarrete no t. III pag. 528, e Humboldt, t. III, pag. 260.

[107] Veja-se a minha _Historia de Portugal_, t. IV, pag. 272.

[108] Foi Humboldt que fez notar a differença entre as duas versões da mesma bulla, _Hist. de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag. 52, nota.

[109] A filha de Izabel a Catholica desposára o filho d’el-rei D. João II, o principe D. Affonso que morreu de uma desastrada quéda de cavallo a 13 de julho de 1491.

[110] Humboldt, _Histoire de la géographie_, etc., sec. II, t. III, pag 55.

[111] _Quadro elementar das relações politicas e diplomaticas de Portugal com as diversas potencias do mundo_, t. II, pag. 390 Lisboa, 1844. O tratado vem publicado _in extenso_.

[112] Pedro Martyr d’Anghiers, _Oceanicas_, dec. VIII, cap. 10.

[113] Foi o duque de Medina-Sidonia que se offereceu para ir com as suas caravelas em perseguição dos portuguezes, e a 2 de maio de 1493 pediam os reis catholicos ao duque que as tivesse prestes, a 12 de junho e 27 de julho affiançavam a Colombo que não havia motivo para se desconfiar do rei de Portugal, doc. n.ºs 16, 50 e 54 publicados na _Collecção de viagens e descobrimentos_, citados pelo sr. Teixeira de Aragão a pag. 18 da sua _Breve memoria sobre o descobrimento do Brazil_.

[114] O trecho da _Esmeralda_ é o seguinte: «Como no terceiro anno do vosso reinado do anno de Nosso Senhor de mil quatrocentos noventa e oito donde nos vossa alteza mandou descobrir a parte occidental, passando além do grande mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme com muitas grandes ilhas adjacentes a ella, que se estende a setenta graus de ladeza da linha equinocial contra o polo arctico.» _Esmeralda_ liv. 2.º, cap. I, transcripto pelo sr. Teixeira de Aragão na sua _Breve Noticia_, etc., pag. 47. D’este trecho deduz-se que Duarte Pacheco foi mandado descobrir para o occidente em 1498, o que não faz senão confirmar o que temos dito, mas não que Duarte Pacheco descobriu o Brasil. Nem elle diz que _achou e navegou_ essa terra, mas sim que essa terra _é achada e navegada_, e isto em 1505.

[115] _Roteiro geral do globo_, tom. XI, sec. 1.ª, pag. 2 (Lisboa 1839). Mouches, _Les côtes du Brésil_, sec. II, pag. 8 (Paris, 1864).

[116] N’uma das sessões do _Instituto Historico Geographico do Brasil_, o imperador D. Pedro II propoz como assumpto de discussão «se a descoberta do Brasil foi intencional ou devida ao acaso». Joaquim Norberto fez uma memoria interessante sustentando que a descoberta foi intencional, Machado de Oliveira fez uma memoria de uma futilidade inexcedivel e de uma grosseria imperdoavel que nem merece que d’ella nos occupemos, Gonçalves Dias sustentou com argumentos broncos, mas com vigor de estylo, mostrando-se muito talentoso e muito erudito, que a descoberta fôra occasional. Joaquim Norberto replicou e muitissimo bem. O unico argumento de algum peso que Gonçalves Dias apresentava era o da corrente equatorial que corre de léste para oeste. É esse exactamente o que o sr. Baldaque da Silva destróe technicamente e de um modo completo.

[117] _Les côtes du Brésil_, pag. 115, nota _a_.

[118] _Ibid._, pag. 12.

[119] _Ibid._, pag. 116, nota _a_.