Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica
Part 12
Como estreitos conhecia a geographia conjectural os mares descobertos por Christovão Colombo. Havia-os em Panamá, e alguns rios da America do Sul foram tomados primeiro por estreitos.[137] D’ahi a lenda que attribue a Fernão de Magalhães o ter tido já conhecimento, por um mappa, do estreito que descobriu. O que elle tinha era a lição dos mappas conjecturaes, era o culto pelas velhas theorias que faziam passar por estreitos as aguas do mar exterior para os mares interiores, e se elle descobriu o que os outros não acharam, se á Hespanha levou essa gloria, foi porque D. Manuel, cançado de não encontrar senão terra para o sul, entendeu que o novo continente se immergia ao sul, como ao norte, pelo polo. Magalhães perseverou, dizendo que penetraria no estreito, ainda que tivesse de sumir-se na região polar, onde ha o frio e a brisa;[138] depois a descoberta das ilhas do mar Pacifico ao sul da Asia, feita por Antonio de Abreu e os outros expedicionarios enviados por Albuquerque, mais o convenceu de que haveria ilhas tambem ao sul da America como as havia ao sul da Asia, e que entre essas ilhas havia de encontrar por força o famoso estreito que o conduziria pelo occidente á Asia.
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Tinha concluido este meu trabalho, e tratava já de lhe pôr o fecho, quando exigencias de uma missão official me levaram a Hespanha. Assisti no dia 11 de outubro de 1892, em Huelva, á ultima sessão do congresso dos americanistas, e, não podendo apresentar o livro que estava por completar, apresentei uma resumida indicação em francez das idéas que lhe serviam de fundamento. Acolhida com extraordinaria benevolencia, essa communicação teve a felicidade de encontrar echos sympathicos. O sr. Hamy, membro do Instituto de França, e dignissimo successor do grande Quatrefages, e o sr. Marcel, distincto geographo, deram noticia ao congresso, logo em seguida á leitura do meu resumo, e a mim em particular, de trabalhos seus que confirmavam plenamente a minha conjectura ácerca da descoberta do Brasil. A linha de demarcação de Tordesillas fôra origem de falsificações cartographicas inspiradas pelo zelo patriotico dos cartographos, falsificações pelas quaes Portuguezes e Hespanhoes procuravam fazer entrar dentro da zona dos seus paizes as terras que se iam descobrindo. Assim effectivamente o governo portuguez mostrava que não fôra platonicamente que pedira e obtivera as 370 leguas além das ilhas de Cabo-Verde. Tratou logo em seguida de explorar esse mar occidental, cujos segredos Colombo desvendára, e a viagem clandestina de Duarte Pacheco não era senão uma d’essas explorações, como foi com esses intuitos exploradores que Pedro Alvares Cabral muito de proposito se desviou do caminho que o devia conduzir directamente á India. Descoberto o Brasil, tratava D. Manuel de explicar ao rei catholico que essa terra não ficava fóra da sua zona, e tratavam os cartographos portuguezes de sanccionar essa affirmação, da mesma fórma que os cartographos hespanhoes procuravam incluir as Molucas na zona concedida ao seu paiz. Foi ainda a esse intuito que obedeceram Abreu e Serrão, enviados por Albuquerque a explorar os mares para além de Java e de Sumatra, e que nas suas audaciosas viagens não só tomaram conhecimento de um grande numero de ilhas que n’esses mares pollulavam, mas entreviram a Nova Guiné, e adivinharam a Australia.
Esta ultima affirmação é feita pelo sr. Hamy, e falta-me agora o espaço e o tempo para fazer entrar no quadro d’este livro essa importante e ainda hoje obscura questão do descobrimento da Australia.
Mas o que fica assente de um modo incontestavel é que a participação dos Portuguezes no descobrimento da America foi efficaz e activa. Se o seu governo hesitou perante a temeridade de Colombo, se sacrificou demasiadamente aos conselhos da fria razão no momento em que era necessario um lance de audacia e um arrojo de visionario, logo, despeitados por esse momento de fraqueza, e estimulados pelo glorioso commettimento dos visinhos, precipitaram-se com verdadeira furia para esse occidente que tinham receiado desvendar e foram tambem como Colombo em procura da Asia pelos mares poentes. Uns e outros, Gaspar Côrte-Real ao norte e Cabral ao sul, esbarraram com a mesma barreira que detivera Colombo, barreira que os despeitava, que os indignava, que teimavam em considerar como uma longa cadeia de ilhas que se desdobrava, como um cordão de sentinellas ferozes e asperas, deante da Asia resplandecente, e que era afinal bem mais fulgurante de maravilhosas riquezas do que essa Asia decrepita e estagnada no seu somno de seculos. Por entre os gelos do Norte, por entre as suppostas ilhas ao Sul, procuravam todos, Hespanhoes e Portuguezes, o caminho de Cathay e de Cipango. Quando se fatigaram de tão vãs tentativas, quando se convenceram de que era um novo mundo que tinham deante de si, barreira inquebrantavel que lhes vedava por esse lado o caminho para o Oriente, a perspicacia e a audacia e a perseverança do portuguez Magalhães conseguiram desfazer essa ultima illusão, reconstituir no espirito humano a Terra inteira na logica da sua estructura, e conquistar para a Sciencia o morgado da Humanidade.
XI
Conclusão
Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente percorremos. Encontramos a sciencia antiga desvelando maravilhosamente alguns dos segredos mais importantes da cosmographia, mas estacionada n’uma solução do grande problema que se lhe affigurara satisfatorio, e que era comtudo um obstaculo invencivel para todo o progresso geographico. Depois de mil conjecturas phantasistas, pode-se dizer que um grande resultado se obtivera: o reconhecimento da esphericidade da terra. Mas o orgulho humano oppunha-se invencivelmente á hypothese que désse a essa Terra, e portanto á raça pensadora que a habitava, um logar inferior no concerto do universo. O sol continuou a girar acompanhado por todo o systema planetario e por todo o mundo stellar em torno da terra immovel e soberana. Era comtudo esse um terrivel escravo, porque bastava a sua ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse a vida; por isso tambem era natural que nos pontos onde o seu contacto fosse mais proximo o excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse tal intensidade á vida que a fizesse desapparecer na conflagração do abrazo. O mytho de Zeus e de Semele parecia traduzir este pensamento.
Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel fecundava, o queria ver de perto com todo o explendor do seu vulto, com toda a grandeza da sua omnipotencia, bastava a presença do amante para a reduzir a cinzas. Era em torno da zona média da terra que o sol descrevia o seu giro, era ahi portanto que se approximava da terra, e ahi forçosamente a vida desappareceria no incendio dos seus raios.
Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do homem. O mundo civilisado dilatava-se, graças aos esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais audaciosos que fossem, considerariam uma insania suprema transpor os limites das zonas defezas.
Para essas regiões que os mortaes não podiam pisar transportava a phantasia humana a residencia d’aquelles, que, libertos dos laços da vida mortal, podiam existir em condições negadas á fraca humanidade. Foi pois assim que para além do terminus da sciencia positiva, ou para o norte, ou para o sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança.
Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara procurando reatar o fio da civilisação, tomou como ideal supremo da sua sabedoria a sabia antiguidade.
Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos seus contemporaneos como eximios sabedores, para os seus novos discipulos eram perfeitamente oraculos, e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a deter o homem dentro dos limites consagrados. Assim como os Phenicios, fundeados por assim dizer á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro e depois o Atlantico, o infante D. Henrique de pé no posto mais avançado da costa europeia sentiu o desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio. Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu sonho querido, quebrou-se a barreira da zona torrida, e ampliou-se para o occidente o conhecimento do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam caindo uma a uma sem que os navegadores ousassem comtudo desmentil-as, senão nos pontos em que a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade. A Africa foi tomando os seus contornos verdadeiros, dobrou-se a sua ponta meridional, seguiu-se para o oriente, sem se encontrar o mar mediterraneo das Indias, a peninsula indostanica foi tambem reintegrada na sua verdadeira fórma, o Cathay da narrativa semi-legendaria de Marco Polo appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada, apesar de rica e sabia, o Cipango transformou-se no archipelago japonez, e as ilhas do meio-dia asiatico começaram a apparecer disseminadas nos mares como as pérolas dispersas de um collar que se despedaçasse. Foi essa a obra gigante dos Portuguezes.
Mas a elles tambem se devia o encontro de um novo posto de observação, de uma atalaya estimulante perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres, ia Colombo mais adeante sonhar mundos desconhecidos nos penhascos dos Açores. Era d’alli que via as caravelas de outros sonhadores como elle, a quem só faltava o genio e a perseverança, demandar alguma ilha mysteriosa para além do Oceano, ou os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra um dos vagos sonhos da antiguidade. O alargamento da terra seguiu a sua ordem logica; os Phenicios chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo, de Carthago a Cadiz e descobriam o Atlantico, os Portuguezes de Sagres desvendavam o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo da Boa Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam o mysterio do mar oriental, e aportavam a Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e para o oriente as investigações finaes. De Sagres tambem, singrando para o occidente, iam poisar nos Açores; estava reservado aos Hespanhoes, guiados por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar a America ao mundo.
O que era necessario, porém, era ligar essas duas grandes emprezas. Por circumstancias verdadeiramente providenciaes foram os representantes dos dois povos ligados na mesma empreza, que ataram as fitas soltas das grandes explorações oceanicas, e esse enlace supremo foi Magalhães que o começou, foi Elcano que o concluiu.
Assim nas descobertas como em todas as emprezas do espirito humano é a evolução que se manifesta. Não procede por saltos a natureza, tudo se liga e se concatena. A missão dos grandes homens está exactamente em serem os elos d’essa cadeia. As tentativas infructiferas, dispersas, quasi inconscientes dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos de Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos pescadores e marinheiros portuguezes que procuravam arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que as aproveitava, o cabo Bojador dobrava-se e os Açores e a Madeira sahiam do seio das ondas. As tentativas infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses ligava-as a mão poderosa de Colombo, e dava assim um novo fusil á cadeia dos descobrimentos e a America apparecia. E por isso os povos quando encontram na sua historia um d’esses homens insignes, sem renegar os seus esforços collectivos, nem deixar de lhes reconhecer a importancia, saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios que souberam dar uma realidade positiva aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, as radiosas incarnações da Consciencia da humanidade.
FOOTNOTES
[1] Tom. I, secção 1.ª, pag. 285.
[2] Publicado por Dumont no _Corpo Diplomatico_, tom. III, parte I, pag. 200. E além d’esta as bullas de Calixto III, de 14 de maio de 1455 e de Xisto XV, de 21 de julho de 1481, e a famosa divisão dos mares entre Portugal e a Hespanha por Alexandre VI, e os tratados entre Portugal e Hespanha, em que sempre se reconheceu o direito que tinhamos á costa africana pela prioridade do descobrimento, e a deferencia com que a França sempre reconheceu o nosso direito, mandando Luiz XII restituir uma caravela portugueza vinda da Mina, tomada pelos francezes, e prohibindo Francisco I, a 28 de junho de 1532, que fossem navios francezes á costa da Guiné, em attenção aos tratados! V. Visconde de Santarem: _Recherches sur la découverte des pays situés sur la côte occidentale d’Afrique au delà du cap Bojador_ etc., § VII, pag. 67 e segg. E em 1513, publicou-se em França, um livro intitulado: _Nouveau Monde et navigations fectes dans les pays et iles auparavant inconnues_, e cujo primeiro livro se intitula _Livro da primeira navegação pelo Occeano para a terra dos Negros da baixa Ethiopia por ordem do illustre senhor infante D. Henrique, irmão de D. Duarte, rei de Portugal_. E esse livro reimprimiu-se em 1516! E note-se que Francisco I não se desinteressava na questão dos descobrimentos, e os marinheiros francezes procuravam seguir as nossas pisadas. É conhecido o famoso dito do rei de França, que queria saber qual o artigo do testamento de Adão que deixava parte do mundo aos reis de Portugal e de Hespanha. Podendo pôr embargos, era de estranhar que o não fizesse.
[3] _Histoire de la première descouverte et conqueste des Canarias faite dés l’an 1402 par messire Jean de Bethencourt, escrite du temps mesme par F. Pierre Bontier et Jean Le Verrier, prestres domestiques dudit sieur de Bethencourt, conseiller du roy en la cour du parlement de Rouen_, cap. LIII, pag. 95. (Paris, 1830).
[4] _Ibid._, pag. 4.
[5] _Ibid._, cap. LIV.
[6] _Ibid._, pag. 102.
[7] Palavras de Innocencio VII, escriptas em 1406 a João de Bethencourt e citadas na relação dos capellães a pag. 197, cap. LXXXIX.
[8] Este erro gravissimo deu origem a todas as falsas reivindicações francezas, apezar de ter sido completamente desfeito no proprio seculo XV. Chamava-se primeiro _Gianya_, _Gineva_ ou _Gynoya_ ou _Guiné_ á terra proxima de Marrocos, que se suppunha habitada pelos negros, e com a qual se fazia commercio. Era esta a Guiné que ficava a doze leguas das Canarias, «do outro lado da ilha de Fuerteventura», como dizem ainda os capellães de Bethencourt. Azurara, quando chama _Guiné_ á costa do Senegal descoberta pelos Portuguezes, desculpa-se de ter já chamado assim, para empregar a linguagem commum, a outro paiz onde tinham estado primeiro os Portuguezes, e que era d’este muito distante. Essa _primeira Guiné_, ou _Guiné antiga_, reclamou-lhe o senhorio o rei de Castella, D. João II, que escrevendo de Valladolid a D. Affonso V de Portugal, a 19 de abril de 1454, dizia-lhe: «Otrosi, rey muy caro, e muy amado sobrino, vos notificamos que, viniendo ciertas caravellas de ciertos nuestros subditos e naturales vecinos de las nuestras ciudades de Sevilla y Cadiz con sus mercaderias _de la tierra que llaman Guinea, que es de nuestra conquista_, e llegando cerca de la nuestra ciudad de Cadiz á una linea estando en nuestro señorio e jurisdicion, recudieron contra ellos Pallencio, vuestro capitan etc.»
Esta Guiné, cuja conquista o rei de Castella dizia pertencer-lhe, fazia parte do reino da Africa, sobre a qual os reis de Castella diziam ter direito, herdado dos Godos. Quando o nome de Guiné ficou pertencendo á região que hoje o tem, quer dizer a que está para além do Cabo Bojador, os reis de Portugal tomaram sem contestação nem cedencia de Castella o titulo de _senhores de Guiné_, baseado no direito de primeiros descobridores que ninguem lhes impugnou. E a Guiné antiga perdeu essa denominação. Ahi está o segredo da confusão que deu origem ás pretenções tão absurdas dos Normandos e dos Catalães.
[9] «Toscanelli distingue en outre les îles que l’on rencontrera sur la route, _que estan situadas en este viage_, par exemple l’Antilia, d’avec les îles qui sont proches de l’Inde continentale, par exemple Cipango et les îles avec les quelles trafiquent les négocians de différentes nations.»—Humboldt.—_Histoire de la géographie du nouveau continent_, tom. I, sec. 1.ª, pag. 228.
[10] Ácerca das tres Indias, e das differentes denominações com que apparecem na edade média, veja-se sobretudo o magnifico _Essai sur l’histoire de la cosmographie et de la cartographie pendant le moyen-âge_, etc., pelo visconde de Santarem, tom. I, pag. 136, 251, 182, 394, tom. II, pag. XXXVIII, 189, 223, tom. III, pag. 28, 420, 346, 371, 161, 199, 217, 274, 161, 240, 442, 360, 370, 195. (Paris, 1849). Os nomes das differentes Indias são variadissimos, Barbara, Deserta, Primeira, Segunda e Terceiro, Magna e Parva, Superior, Inferior e Exterior, Intra Gangem, Ultima, Arenosa, etc. Sabendo-se o que eram estas differentes Indias, como abrangiam a Tartaria, a Arabia, a China, e até a Ethiopia, espantar-se-ha menos o leitor de que os Portuguezes procurassem na Africa o _Prestes João das Indias_. Essa lenda tambem mudou de local como o nome de Guiné e a designação de Ethiopia, mas pode-se dizer que nunca saíu de alguma d’essas Indias.
[11] Gosselin _Recherches sur la géographie systématique des anciens_, tom. I, pag. 140. É firmando-se na auctoridade de Herodoto que este sabio affirma que o grande Oasis do Egypto tinha outr’ora o nome de _ilha dos Bemaventurados_.
[12] O mappa-mundi de 1417, conservado no palacio Pitti, por exemplo, indica duas Taprobanas, Ceylão e Sumatra. Quando não era Sumatra exclusivamente Taprobana, era a uma das duas ilhas que esse nome se dava. D. João de Castro no prologo do seu _Roteiro de Lisboa a Goa_, quando falla a El-Rei de Portugal nos dominios que tem, diz: «como Taprobana que os antigos criam ser outro mundo nouo, reconhece seu alto nome e lhe paga pareas» e accrescenta em nota: «_Taprobana é agora chamada Samatra_» a pag. 14. A essa Taprobana tambem se refere evidentemente Camões no seu famoso verso:
_Passaram inda além da Taprobana_
Tendo no tempo de Camões chegado os Portuguezes já ao Japão, era bem natural que, havendo a Taprobana-Ceylão e a Taprobana-Sumatra a esta ultima se referisse o grande poeta indicando o limite ultrapassado pelos Portuguezes. O famoso mappa da cathedral do Hereford colloca a Taprobana defronte do golpho Arabico. Prisciano no seu poema geographico põe a Taprobana no mar oriental juntamente com a ilha phantastica do Ouro. No tratado _De moribus brachmanorum_ que se attribue a S.ᵗᵒ Ambrosio citado por Klaproth na sua _Lettre sur la boussole_, pag. 53, põe-se a Taprobana em Ceylão, ilha que tem magnetes que attrahem os navios que teem pregos de ferro e não os deixa mover. N’alguns mappas da edade média põe-se a Taprobana deante da bocca do Ganges.
[13] A _Aurea Chersoneso_ de Ptolomeu e de Marino de Tyro corresponde sem duvida á peninsula de Malaca, mas o mappa de La Salle por exemplo colloca a _Aurea Chersoneso_ no Indostão.
[14] _Mémoire sur le pays d’Ophir, oú les flottes de Salomon alloient chercher de l’or_, nas _Mémoires de littérature de l’Académie royale des inscriptions et belles-lettres_, tom. XXX, pag. 83 a 93, (Paris, 1764). Este paiz de Ophir tem uma terrivel parecença com as ilhas de Chryse e de Argyra, e do Sol e dos Homens e das Mulheres que apparecem nos mappas conjecturaes. N’alguns mappas Ophir tambem apparece como ilha. Querer determinal-o não será querer tomar muito ao pé da letra as indicações vagas da Biblia?
[15] A idéa adoptada na edade média, que vinha da antiguidade e que durou até ao seculo XVI, é a das duas Ethiopias de Homero, a que fica entre os dois Nilos, e a que se liga com os Mauritanos. S. João Damasceno, dividindo os habitantes da terra segundo as areas dos ventos, dizia: «Ad Africum Ethiopes et occidentales Mauri, ad Favonium Herculis columnæ, etc.» _De fide orthodoxa_, tom. I, pag. 69. _Apud_ Visconde de Santarem _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 32. Assim é corrente que a baixa Ethiopia começa para os escriptores medievaes nas proximidades da Mauritania, quer dizer, pega com a Guiné primitiva, com a Guiné de Bethencourt. O titulo dos reis de Portugal mostra bem que Ethiopia quer dizer simplesmente _Africa_. Assim diz o titulo: Rei de Portugal e dos Algarves, d’aquem e d’além-mar em Africa... (Este Algarve na Africa era Ceuta e Tanger, etc.) senhor de Guiné (no sentido que esta palavra tomou depois dos descobrimentos) da conquista navegação e commercio da _Ethiopia_ (Africa meridional e oriental) Arabia, Persia e _India_ (tambem na significação da meia-edade, abrangendo a Asia Oriental). É curioso que um escriptor moderno, de grande merecimento, transcrevendo um trecho de um escriptor já do seculo XVII, em que se diz que um navio que ia para a Ethiopia foi levado pelas correntes para o Brazil, com isso muito se espanta. Não se lembra que a região da Ethiopia comprehendia até a Africa occidental que ficava para além da Guiné.
[16] Na primeira viagem, Colombo, chegando a Cuba, disse: _Es cierto que esta es la Tierra-Firme_, Diario de 1 de novembro. Na segunda viagem confirmou essa opinião, e fel-a jurar solemnemente pelos marinheiros a 12 de junho de 1494. Humboldt _Histoire de la géographie du Nouveau Continent_, tom. I, pag. 310, _nota_.
[17] Vejam-se no principio do segundo volume do magnifico livro de Humboldt as indicações relativas aos mappas d’esse tempo que separavam umas das outras as diversas porções da America.
[18] No seu tratado publicado em latim na edição Reich com o titulo _De facie in orbe Lunæ_, tom. IX, pag. 923.
[19] Sobre as differentes theorias relativas á fórma da terra veja-se o _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. I, pag. 14, 223, 410, tom. II, pag. XV, XVII, 32, 252, 258, 10, LIX a LXI, 18, 26, 35, 94, 107, 215, etc., etc., tom. III, pag. 81, 102, 212, 223, 460, 499, etc.
[20] Santo Agostinho, S. João Chrysostomo, Lactancio, preconisaram a theoria da _terra quadrada_ declarando-a conforme com o Evangelho, os mappas medievaes como o de Cosmas Indicopleustas do seculo VI, Gervais de Tilbury do seculo XIII, Nicolau d’Oresme do seculo XIV, Guilherme Fillastre do seculo XV. Umas vezes inscreviam-n’a no circulo formado pelos mares, outras vezes pelo contrario, a terra em si é redonda, mas a figura que está inscripta é quadrada.
[21] Note-se bem que este é que é o systema de Ptolomeu, o que predominava, apesar de tudo, nos espiritos mais esclarecidos. Pedro agora vae refutal-o, substituindo-lhe uma outra theoria scientifica, menos em desaccordo com as affirmações orthodoxas.
[22] _Petri Alphonsi Judeo Christiani Dialogi_, p. 15, apud. Visconde de Santarem, _Essai sur l’histoire de la cosmographie_, etc., tom. III, pag. 320 a 324.
[23] «Se as extremidades da Ethiopia nos offerecem figuras extranhas de homens e de animaes, pouco nos devemos espantar: é o effeito do excessivo calor que alli reina, porque a acção do fogo é maravilhosamente propria para fazer tomar ás partes exteriores de todos os corpos uma infinidade de configurações diversas.» (Plinio, _Historia Natural_, tom. V, cap. XXX.)
[24] Macrobio, _In somnium Scipionis_, tom. II, cap. IX.
[25] Orosio, _Ormesta mundi_.
[26] Santo Isidoro de Sevilha, _De Lybia_.
[27] Bedo, _De Elementis Philosophiæ_, tom. IV, pag. 225.—«... _Pars enim illius torridæ parti aeris subjecta, ex fervore solis torrida est et inhabitabilis_, etc.»
[28] S. Virgilio, bispo de Saltzburgo. Veja-se a este respeito a _Historia litteraria de França_, tom. IX, p. 156.
[29] Raban Mauro de Moguncia, _De Universo_.
[30] Alberti Magni Germani, _Philosoph. principii, Liber cosmographicus de natura locorum_, fl. 14_b_ e 23_a_.
[31] Roger Bacon, _Opus majus_, pag. 183.
[32] _Conciliator differentiarum philosophorum_, Diff. LXVII.
[33] _De Universo_, liv. XII, cap. IV, pag. 172.
[34] _Speculum naturale_, part. 1.ª, liv. IV, cap. XVII.
[35] _De mirabilibus Indiæ._