Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica

Part 11

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Mas foram as correntes que levaram os navios, diz Gonçalves Dias na memoria em que procura refutar os argumentos de Joaquim Norberto, e a grande corrente equatorial arrastou os navios para a costa do Brasil.[116] Se Pedro Alvares Cabral tivesse chegado ao Pará, a sua ida teria uma explicação, porque a corrente segue de leste a oeste ao longo do Equador, mas, bifurcando no cabo de S. Roque, segue uma direcção tal, combinada com os ventos geraes, que uma esquadra, diz o almirante Monchez ha pouco fallecido, «não pode senão afastar-se cada vez mais da costa, quando quer dobrar o cabo da Boa Esperança, visto que de um lado os ventos permittem navegar para leste, do outro a costa afasta-se para oeste».[117] Se se appella para as correntes da costa, vemos, segundo o testemunho do mesmo almirante Monchez, «que durante a monção de SO levam para o norte»;[118] ora a monção de SO dura de abril a setembro, exactamente quando Pedro Alvares Cabral era, segundo se diz, arrastado pelas correntes para o sul.

Estes factos pareceram tão singulares ao almirante Monchez que não podendo explicar por elles a descoberta do Brasil, e não conhecendo os elementos politicos da questão, deduz o seguinte: «É pois quasi impossivel dar outro motivo plausivel da chegada de Cabral á vista de terra pelos 16° de latitude, a não ser um erro de caminho por esse navegador.»[119]

Esse erro tinha de ser constante durante 15 dias, e seria singular que só se désse quando trazia em resultado a descoberta do Brasil, ao passo que antes d’isso tinham passado, sem o mais leve engano, pelas Canarias e por Cabo Verde, e depois d’isso foram direitos ao cabo da Boa Esperança.

Confronte-se isto tudo, note-se que temos prova authentica de que em 1498, do anno immediato áquelle em que Vasco da Gama sahira de Portugal, foi Duarte Pacheco incumbido de ir descobrir terras a sudoeste, que o governo hespanhol tanto desconfia dos intentos de Portugal que espreita as nossas costas e tem navios promptos para seguir qualquer expedição portugueza que para o occidente se dirija, que D. Manuel, para desfazer suspeitas, trata logo de declarar que a terra descoberta a utilidade que tem é servir de porto de escala para a navegação da India, que trata tambem de disfarçar a distancia a que o Brasil fica de Cabo Verde, porque, tendo-lhe dito Pero Vaz de Caminha na sua carta que a nova terra ficava a 660 ou 670 leguas da ilha de S. Nicolau no archipelago de Cabo Verde, para os reis catholicos diz elle que fica a 400 leguas não da ilha mas do Cabo Verde que bem se pode suppor que seja o da costa africana,[120] de fórma que ficava assim o Brasil dentro da demarcação do tratado de Tordesillas, e veja-se se não é de uma evidencia absoluta que a descoberta do Brasil estava nos planos do governo portuguez, não porque soubesse a terra que ia encontrar mas porque não queria deixar aos seus rivaes o proveito de um caminho para a Asia mais curto do que o que Vasco da Gama acabava de descobrir.

Não vale a pena demorar-mo-nos nem um instante na refutação das lendas relativas a suppostos descobrimentos do Brazil, anteriores a Pedro Alvares Cabral. A lenda mais pueril é a que suppõe que, não só antes de Pedro Alvares ter aportado a terras de Santa Cruz, mas ainda antes de Colombo ter aportado a Guanahani, um Portuguez, João Ramalho, chegára a terras brasileiras. Baseia-se essa lenda n’um supposto testamento feito por esse João Ramalho, que foi efectivamente um dos primeiros colonos do Brasil, mas que se tornára, pela sua residencia entre selvagens, quasi tão selvagem como elles, testamento feito por elle em 1580, e em que declara que havia noventa annos que estava no Brasil, aonde chegára, por conseguinte, em 1490. Era portanto macrobio este venerando descobridor que não podia ter menos de 20 annos quando chegou ao Brazil, e, ainda quando o fosse, era singular o testamento de um homem, que, aos 110 annos, tendo perdido as noções da vida civilisada, com tanta precisão chronologica dizia que estava no Brasil não ha oitenta ou noventa annos, como seria natural que o fizesse e talvez ainda exaggerando a conta, mas rigorosamente ha noventa! Ora d’esse testamento não ha noticia senão a que dá um d’esses chronistas fradescos do seculo XVII, que tão facilmente, como é sabido, falsificavam datas e inventavam documentos. Mas o golpe mortal n’esta lenda infantil foi dado por um eminente escriptor brasileiro, o sr. Candido Mendes de Almeida, que depois de mostrar o absurdo da lenda e a ausencia de documentos em que se baseasse, publicou uma carta de um jesuita que, estando em 1559 na terra em que João Ramalho habitava, e dando conta aos seus superiores dos progressos da conversão dos indigenas, lhes fallava n’um Indio que lhe pediu que lhe dissesse quaes os dias em que devia jejuar, porque deixára de o saber desde _a morte de João Ramalho_, que era quem em vida lh’o dizia.[121]

O que é, porém, estranho é que ainda encontremos com relação ao Brazil a questão dos mappas. Porque mestre João diz a D. Manuel que, para saber o sitio d’essa terra, veja um mappa-mundi antigo que tem Pero Vaz Bisagudo, d’ahi se conclue que o Brasil já fôra descoberto, tanto que já o inseriam n’um mappa. É a eterna historia dos mappas conjecturaes, dos mappas em que appareciam ilhas que ninguem vira e que ninguem chegou a vêr, e aquella terra ao sul do Equador, a terra incognita austral, a terra antichthona ou o _alter orbis_. Pois não se vê realmente que as cartas muitas vezes acompanhavam as descobertas, e que, se em rigor era possivel que se fizessem descobrimentos que ficassem desconhecidos, o que era impossivel era que a noticia d’esses descobrimentos se propagasse de fórma que lhes inserissem os cartographos nos mappas os resultados, e que apesar d’isso ficassem desconhecidos dos escriptores, dos sabios e dos governos!

Cem vezes o repetiremos: os descobridores do seculo XV, cheios de respeito tradicional pela sabedoria antiga, não aspiravam senão a encontrar o que os antigos, no seu entender, conheciam perfeitamente, e por isso faziam esforços para adaptar o que descobriam e que encontravam aos mappas conjecturaes. Como veremos, o que procuravam agora era a terra antichthona, a que já se podia chegar desde o momento que se passára a zona torrida, mas que estava separada da nossa pela extensão dos mares. A essa terra antichthona suppunham chegar agora encontrando o Brasil, e era ao Brasil até que chamavam o _novo mundo_. Que Pedro Alvares Cabral julgára ter chegado á terra separada pelo mar do hemispherio septentrional é incontestavel, e por isso facilmente se convenceu, pelo que julgou deprehender dos gestos dos selvagens, que estava n’uma ilha, a que deu o nome, primeiro que o Brasil teve, de ilha de Vera Cruz.[122]

Julgamos porém ter demonstrado que esse descobrimento se liga intimamente com o de Colombo, é a sua consequencia, como era tambem, ao mesmo tempo, o da Terra-Nova por Gaspar Côrte Real. As descobertas portuguezas conjugadas com as de Colombo produziam a descoberta do Brasil. Os dois grandes problemas geographicos estavam resolvidos: a zona torrida não era inultrapassavel, e por isso Pedro Alvares Cabral, seguindo as pizadas de Bartholomeu Dias e de Vasco da Gama transpunha o Equador, entrava em plena zona torrida e ía tranquillamente ao hemispherio meridional. A extensão do mar oceano não era infinita, tinha o Atlantico outra margem, e Pedro Alvares Cabral ía com plena confiança procural-a. Sem os descobrimentos portuguezes nada faria Colombo, porque os Açores eram um ponto capital de partida para as expedições occidentaes, e porque os terrores da zona torrida e das suas proximidades, não lhe permittiriam seguir o parallelo que seguiu. Sem o descobrimento de Colombo nada faria Pedro Alvares Cabral, porque não ousaria ir tão longe para o occidente. A Hespanha e a Portugal devia o mundo essa transformação da sua geographia. Completal-a-hia a circum-navegação do globo e o encontro do caminho pelo occidente para a Asia, e, como se a Providencia quizesse d’essa forma sellar de um modo indestructivel a collaboração dos dois povos na obra mais importante da historia da humanidade, foi um capitão portuguez commandando navios hespanhoes que deu ao mundo o cinto argenteo do rasto das suas quilhas, foi Fernão de Magalhães que planeou dirigiu e iniciou a expedição, foi Sebastião d’El-Cano que a completou e concluiu, e para que n’essa consagração ultima e solemne da conquista definitiva da Terra pelo homem, não faltasse tambem a patria gloriosa de Colombo, a audaz, a pensadora e sonhadora Italia, ía Pigafetta na expedição que narrou, para que assim os tres povos latinos, que eram egualmente benemeritos da civilisação e da sciencia, tivessem n’esse coroamento da grande obra os seus representantes. Essa epopéa ultima que ía pôr o fecho ao trabalho épico de um seculo para sempre glorioso nos fastos da humanidade, foi um Portuguez que a dirigiu, foi um Hespanhol que a completou, foi um Italiano que a escreveu.

X

Os Côrte-Reaes—Americo Vespucio Fernão de Magalhães

Se antes da descoberta de Colombo, se tinham arrojado por mais de uma vez navegadores açorianos para os mares do Occidente, com muita mais razão o fariam, logo que esse importante acontecimento se realisou. Evidentemente as viagens haviam de multiplicar-se.

O esforço dos Açorianos e muito especialmente dos Côrte-Reaes dirige-se então sobretudo para o Norte. Desde que Colombo chegou ás Antilhas, que elle tomou por archipelago asiatico, e a Cuba que elle tomou então por um pedaço de terra firme asiatica, opinião em que por muito tempo persistiu, os navegadores de todos os paizes e principalmente os que, antes de Colombo, como os Açorianos, já se occupavam de descobertas para o occidente, haviam de procurar seguir-lhe as pisadas e procurar, o que elle não conseguira, encontrar as terras maravilhosas de Cipango e do extremo oriental das Indias. A convicção geral era que para o sul é que se conseguiria esse _desideratum_, e já vimos como Pedro Martyr d’Anghiera soltava com um enthusiasmo quasi irritado esse grito: Para o sul! para o sul!

Era esse effectivamente o caminho que todos em geral seguiam. Colombo e os Pinzon ou foram mais para o occidente, ou foram para o sul. Mas isso não queria dizer que a idéa da navegação pelo norte não entrasse tambem em muitos espiritos.

O mappa de Toscanelli, aquelle famoso mappa que era provavelmente o que estava nas mãos de Pero Vaz Bisagudo, obedecia aos principios do geographo que o desenhára e que tinha a convicção de que ao occidente havia um prolongamento da Asia, que defrontava com o continente europeu e africano desde a Islandia até Guiné. Se, indo ao centro, Colombo encontrára effectivamente a Asia, como suppunha, mostrava portanto que era verdadeira a conjectura de Toscanelli, restava confirmal-a completamente. Foi isso que levou Pedro Alvares Cabral e muitos outros navegadores, ou ás occultas ou a descoberto, a dirigirem-se para o sul, foi isso talvez o que levou os Côrte-Reaes para o Norte.

Lembram-se os leitores de que uma das supposições da geographia systematica dos antigos era que o mar Baltico tinha saída para o oriente e que ía ligar-se com o mar Indico. Strabão dizia que «o facto de que certos navegadores viessem por mar da India á Hyrcania não é considerado como certo, mas que isso seja possivel, Patroclo nol-o assegura.»[123] Pomponio Mela conta muito positivamente que Metellus Céler, sendo proconsul das Gallias, recebêra de presente de um rei germanico uns Indios que, açoitados pela tempestade, tinham vindo da India á Germania «vi tempestatum _ex Indicis æquoribus abrepti_.»[124] Discutiu-se muito no nosso tempo se estes homens, que eram, ao que parece, e no caso de ser verdadeira a noticia, de uma raça differente da européa, não seriam afinal de contas senão Esquimaus arrojados, como a barcos tantas vezes succedêra e tem succedido, das costas americanas ás costas irlandezas, escocezas ou allemãs. O que é certo é que a idéa de haver communicação entre a Europa e a India pelo norte, indo-se, porém, do occidente para o oriente estava enraizada no animo de muitos geographos antigos.

Assim que se encontrou ou se suppoz encontrar a costa asiatica indo-se pelo occidente, a communicação tanto se podia fazer pelo norte, como pelo centro, como pelo sul. Effectivamente as costas asiaticas, como o suppozera Toscanelli, estendiam-se de norte ao sul, desde a Islandia até á Guiné. Era evidente que a expedição do norte tentava os açorianos. Logo que Gaspar Côrte-Real em 1500 encontrou terras, imaginou, como Colombo, ter encontrado terras asiaticas, e uma carta de Pespertigo, embaixador de Veneza em Portugal, é, para esclarecer esse assumpto, muito curiosa.

Diz elle: «Tambem crêem (os _Portuguezes_) estar ligada (_a Terra dos Côrtes-Reaes_) com as Antilhas que foram descobertas pela Hespanha, e com a terra dos papagaios (_Brasil_) ultimamente achada pelos navios d’este reino que foram a Calicut.»[125]

Humboldt que teve conhecimento d’este documento, espanta-se muito com elle. «No mez de outubro de 1501, diz o sabio escriptor, sabia-se já em Portugal que as terras do norte cobertas de neves e de gelo são contiguas ás Antilhas e á Terra dos Papagaios novamente encontrada. Esta advinhação que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, como ligação continental entre o Brasil descoberto por Vicente Vanez Pinzon, Diogo de Sepe e Cabral e as terras geladas do Lavrador _é muito surprehendente_.»[126]

A surpreza de Humboldt vem apenas da pouca importancia que elle dá á interferencia portugueza no descobrimento da America. Desde o momento que elle ignora as tentativas dos Açorianos para chegarem a terras occidentaes antes de Colombo, as tentativas que fizeram depois, desde o momento que elle não conhece as expedições clandestinas dos Portuguezes para encontrarem ao sul as terras asiaticas que Colombo não achára, desde o momento que attribue a um méro acaso a descoberta do Brasil por Pedro Alvares Cabral é evidente que não pode achar a concatenação de todos estes esforços, de que provém o presentimento da ligação de todas essas terras descobertas separadamente. Era sempre a Asia que todos os descobridores julgavam encontrar, ilhas da Asia ao sul, terras da Asia ao norte. N’um mappa publicado recentemente pelo sr. Harnin, o brilhante apologista dos Côrte-Reaes, se diz que viram n’umas terras a que não chegaram «serras muito espessas, pollo quall segum a opiniom dos cosmófircos se cree ser a _ponta d’asia_.»[127]

A prioridade do descobrimento da Terra do Lavrador e da Terra Nova por Gaspar Côrte-Real está hoje tão completamente demonstrada, depois que o sr. Harnin e o sr. Patterson publicaram os seus excellentes trabalhos, que nos parece escusado insistir na refutação das pretenções dos dois Cabots, venezianos ao serviço da Inglaterra. É realmente curioso e estranho, que as descobertas portuguezas, apenas são feitas, encontram logo echo em todo o mundo, e as descobertas estrangeiras, que destruiriam as nossas, tanto em segredo se fazem, que só depois se suppõe reconhecel-as por uma referencia vaga ou por um documento apocrypho. Apenas Gaspar Côrte-Real volta da Terra Nova, apressa-se Pedro Pascaalijo, embaixador de Veneza (de Veneza, que é a patria de Cabot) a communical-a ao seu governo, Alberto Contino ao duque de Mantua. Das viagens de João Cabot só se deprehende que podia ser que tivessem existido, por uma d’essas referencias vagas que temos mencionado. Mais ainda. Henrique VII de Inglaterra, em cujo proveito fizera Cabot a sua expedição, dá a 19 de março de 1501 a mais larga e avultada doação que é possivel imaginar-se a tres negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz Assehepurat e John Thomaz, associados com os açorianos João Fernandes, Francisco Fernandes e João Gonçalves, para que fossem explorar, descobrir, povoar e dominar todas e quaesquer terras nos mares oriental, occidental, austral, boreal ou septentrional, garante-lhes que, se alguns estrangeiros ou outros individuos ousarem navegar para as partes onde elles forem, sem licença, serão punidos, embora invoquem qualquer concessão que lhes tenha sido feita, etc. É uma verdadeira concessão ingleza, positiva e ao mesmo tempo minuciosissima, sem restricções nem peias, como de quem quer que as coisas se façam e não regateia os meios, mas, se João Cabot se tivesse antecipado a estes mercadores e em proveito do rei de Inglaterra, era absolutamente disparatada semelhante concessão, que só se pode fazer, quando os lezados, se os houver, pertencerem a paiz estrangeiro, e possam, portanto, ser tratados como inimigos.[128]

Mas a origem da lenda aponta-a com segurança o sr. Ernesto do Canto. Está na adulteração da versão latina de uma das cartas de Pascaaligo. Diz que «os selvagens têem nas orelhas umas argolas de prata _che senza dubbio pareno sia facti a Venetia_. E, dizendo isto, quer o embaixador dar uma idéa do aperfeiçoamento d’aquella arte selvagem. O traductor diz tranquillamente: _cælaturam Venetam in primis præ se ferentes_. E assim, por uma traducção de má fé ficou estabelecido que antes dos Portuguezes alli tinham estado Venezianos. E quando Pascaaligo affirma que a terra descoberta por Gaspar Côrte-Real até ahi _nunca_ fôra vista por ninguem, Madrijuan traduz: terra até ahi _a quasi_ todo o mundo desconhecida.[129]

Mas, apesar d’isso, essas terras do norte figuraram por muito tempo nos mappas como _terras dos Côrtes-Reaes_. Na Terra Nova, no Canadá, no golpho de S. Lourenço conservaram-se nomes portuguezes que se reconhecem atravez da adulteração, como _Por_ Baye bahia da _Torre_, _Mira_, _Minas_, _Porto-Novo_, transformado em _Port-Novy_, e o nome de Lavrador por tanto tempo consagrado difficilmente se pode attribuir a outra linguagem que não seja a portugueza. Felizmente são escriptores americanos e dos mais notaveis que defendem a gloria portugueza e justificam as nossas reivindicações.[130]

Na segunda viagem Gaspar Corte-Real singrou mais para o norte, mas nunca mais voltou. Foi em sua busca seu irmão Miguel Corte-Real, mas tambem se perdeu entre os gelos, voltando as caravelas que acompanhavam a sua. E é de ver que, longe de procurarem terras para o sul das que primeiro tinham descoberto, e que seriam de certo mais attrahentes e tentadoras, era sempre para o norte que seguiam, tão radicado estava no seu pensamento o desejo de procurarem a Asia, a Asia opulenta, por aquellas gelidas paragens septentrionaes, de fórma que a procura d’essa passagem do noroeste que fez tantos martyres nos tempos modernos e glorificou tantos navegadores illustres, foi tambem pelos Portuguezes primeiro tentada com audacia mais notavel ainda por serem meridionaes que nem tinham visto talvez em toda a sua vida neve, mas que orgulhosos de terem provado que não era inhabitavel a zona torrida queriam a todas as zonas declaradas inhabitadas pelos antigos, ampliar a sua demonstração, e quando Franklin, o heroe moderno, que esse ao menos sempre vivera em regiões onde o frio é um inimigo constante que se conhece e com que se lucta, ia deixar n’essas ignotas regiões o seu cadaver e dos seus e o casco esmigalhado do seu navio, encontrou talvez enterrada em eternos gelos a caravela de Miguel Corte-Real, e branquejando entre as neves á luz crepuscular do sol dos polos os ossos dos audaciosos Portuguezes que, na epocha aurea da sua gloriosa expansão, não queriam deixar um só recanto do mundo a que não levassem a ousadia do seu genio e o ardor das suas explorações.

Por muito tempo perseverou na exploração do Norte a gente açoriana e minhota. A lista dos descobridores não pára nos Côrte-Reaes. João Alves, Fagundes e outros exploraram essa costa, ainda depois dos francezes e inglezes terem tentado tambem ir exploral-a. Houve até tentativas de colonisação, e esses mares foram por muito tempo theatro de actividade dos pescadores portuguezes. Hakluyt ainda notou que eram Portuguezes e hespanhoes os que mais se occupavam da pesca do bacalhau. Navios portuguezes estavam, em certas occasiões, cincoenta ou sessenta.[131] Mas depois cahiu sobre tudo isto a mortalha da decadencia, que, não recobre ao menos a mortalha do esquecimento.

Entretanto o Brasil, considerado uma ilha, continuava a ser explorado por Gonçalo Coelho, por Christovão Jacques, Fernando de Noronha, etc., e tambem pelos hespanhoes Pinzon e Solis e pelo veneziano Cabot. N’algumas das expedições portuguezas[132] foi como piloto Americo Vespucio; do seu nome fez Ylacomilas na sua _Cosmographiae introdutio_ o nome do novo continente, e por esse facto se lamenta a injustiça da posteridade, que esqueceu o nome do grande descobridor Colombo para glorificar o nome do fanfarrão cosmographo.

É esta questão que rapidamente vamos tratar.

Colombo morreu julgando sempre que chegara á Asia e o mundo partilhava a sua opinião. Quando Pedro Alvares Cabral encontrou terra ao sul do Equador, já se não poude acreditar que se estivesse nas visinhanças do Cathay e do Cipango. Não o permittia a latitude. Quando as explorações successivas fizeram reconhecer que se estava realmente n’um grande continente, o que se imaginou, o que se entendeu, porque a tudo presidia a lembrança das theorias da antiguidade, foi que se estava em terra antichthona, e por isso, como diz D. Manuel na sua carta ao rei catholico, muitos lhe davam o nome de Novo Mundo.[133] Era effectivamente _alter orbis_, a quarta parte da terra, com a qual nada tinham as ilhas asiaticas e o continente asiatico que Christovam Colombo descobrira.

Quando os Portuguezes em 1501, suppunham que as Antilhas, o Brazil e a Terra Nova constituiam uma terra unica, suppunham que essa terra era a Asia. Quando depois de 1501 se viu que o Brazil se prolongava muito para o sul, entendeu-se que as Antilhas e a Terra Nova faziam parte da Asia, mas que o Brazil constituia a quarta parte do mundo, o _alter orbis_, o Novo Mundo, a terra central de Ptolomeu.

Portanto não se fazia uma injustiça a Colombo, nem talvez a Cabral, só aos capitães das expedições em que Americo Vespucio navegara, porque essas expedições é que tinham identificado o paiz novamente descoberto com a antiga terra de Ptolomeu, mas Americo o cosmographo, que espalhara a noticia, foi que colheu o proveito, e o _novo mundo_ descoberto, não por Christovão Colombo, que nem acceitaria semelhante gloria, mas pelas expedições de que fazia parte Americo, recebeu o nome de America,[134] sem que Colombo, se ainda estivesse vivo, podesse ou quizesse protestar.

De certo, depois, quando se reconheceu a verdade, quando se percebeu que Novo Mundo era tudo, seria de perfeita justiça restituir a Colombo o que a Colombo era devido, mas já se tomara o habito da nova denominação, demais a mais euphonica e agradavel, e America ficou sendo o todo, quando ao principio só fôra America uma parte.

Não temos ensejo agora de discutir a questão das verdades ou das mentiras de Americo. Parece-nos comtudo que tem sido injustamente maltratado o cosmographo florentino. É-lhe muito adverso o visconde de Santarem, que a seu respeito publicou um livro celebre,[135] mas o visconde de Santarem não tinha conhecimento das expedições clandestinas portuguezas, conhecimento que torna hoje mais verosimil a viagem em que Americo Vespucio encontrou, indo para o occidente, Pedro Alvares que voltava da India, e que fôra considerada pelo visconde de Santarem apocrypha.

Reconhecida a existencia da terra central, era indispensavel procurar meio de se chegar á Asia. As expedições portuguezas levavam todas o fito de encontrar um estreito que as conduzisse aos mares asiaticos. Essa idéa do estreito era predominante nos espiritos do tempo. Era assim que se fazia a communicação entre os dois mares, e era por estreitos, segundo a cosmographia antiga, que se fazia a communicação entre o mar exterior e os golphos que elle formava, que eram, como dissémos, o mar Persico, o Indico, o Mediterraneo e o Caspio.[136]