Os contos do tio Joaquim

Part 9

Chapter 94,046 wordsPublic domain

Succeder-lhe-ia em pouco o mesmo que a Estevam se da terra o não ouvissem; correram em seu soccorro com luzes e cabos, nadaram para onde se ouviam os gritos, e agarraram-no pelos cabellos, quando exhausto de forças ia mergulhar tambem.

—Quasi que não respirava.

A Providencia velava por elle, era a segunda vez que o salvava.

De manhã quando Manoel deu accordo de si, viu-se deitado n’uma esteira perto da chaminé, onde ardia um bom fogo, e ao pé d’elle um rapazito de dez a doze annos a vigiar lhe o somno: já não sentia a fadiga da vespera, e tinha recuperado as forças com o descanço; ia para se levantar e agradecer aos que o tinham salvado, quando a creança, pondo-lhe a mão sobre o hombro lhe disse:

—Não se levante, faz-lhe mal, a mãe não quer; e como elle teimasse, gritou:—mãe, accuda cá, o homem quer levantar-se, quer ir-se embora.

Á voz da creança abriu-se uma porta, e uma mulher, que teria trinta annos, quando muito, e que apesar de cançada pelo trabalho, ainda era formosa, appareceu no limiar.

Manoel apenas a entreviu, com o lusco-fusco da madrugada, que illuminava fracamente a casa, deu um grito, levantou-se cambaleando e enfiou pela porta meia aberta para a estrada.

Ella ao reconhecel-o tambem, encostou-se ao umbral da porta para não cair no chão.

Era Martha.

V

O céu tinha limpado de noite, o dia amanhecera sereno, e o sol aquecia bastante, apesar de ser no outono. E aquella estrada, então, que era um descampado!

A meia hora de caminho, andando sabe Deus como, com a cabeça pelos ares e a rasão quasi transtornada, Manoel teve de parar, ou, para melhor dizer, de cair n’um poial, que estava á beira da estrada debaixo de uma nogueira velha.

Se não estivesse já experimentado na infelicidade, o pobre homem, que pela sua má sina parecia ter nascido nas horas da desgraça, finava-se alli de todo.

Mas a canceira do corpo venceu a labutação do espirito; as horas, que levára de volta com o mar, o dia que passára e este que ia correndo sem comer; aquella vista e aquelle abalo, tudo junto deitaram-no como desmaiado sobre o poial onde ficou a dormir, a pensar, ou a esmorecer, que nem elle mesmo soube nunca o modo porque fôra, até que um velho visinho e que por mais de uma vez chegára ao humbral da porta a encarar com elle, o fez tornar a si batendo-lhe no hombro e perguntando-lhe se tencionava ficar para sempre alli estendido.

Manoel para aquellas bandas não sabia caminho nem carreira, e que o soubesse não tinha alma de o seguir. O velho compadeceu-se d’elle, porque pelo fato e pelo fallar, conheceu logo que era estranho ao logar; offereceu-lhe, para passar a noite, um bocado de esteira, para matar a fome um pedaço de pão e uma cabeça de sarda, e para companhia a sua pessoa e conversação.

Acceitou, e seguiu o seu hospedeiro como por demais: e, sem dar fé do que fazia, comeu, deitou-se, e dormiu a noite de um somno.

Só nos romances é que os heroes não dormem depois de fortes abalos; na vida vulgar, na vida de todos e de todos os dias, depois dos grandes padecimentos, vem o cançasso mesmo da dôr, e depois o somno, ás vezes mais profundo, mais descançado, do que nas occasiões triviaes.

Na manhã do dia seguinte Manoel acordava tranquillo e quasi feliz. Ao cabo de tanta lucta, de tantos lances, e de tão grandes golpes, aquelle remanso, que o velho lhe offerecia, aquelle apartamento do mundo, aquelle mesquinho oasis, entre um cemiterio e um ancião que para elle se inclinava e se debruçava sobre a cova; entre dois tumulos, mas sempre oasis para o seu mundo deserto de affeições e de esperanças, era o socego, o esquecimento, quasi a felicidade, felicidade da morte, mas ainda assim agradavel para os que nada esperam da vida.

Diz um aphorismo, dictado talvez pela descrença, mas provado pela experiencia, que um dia de desgraça estreita mais amisades do que annos de ventura; contaram-se a sua vida, communicaram-se as suas infelicidades, e deram-se o nome de amigos.

Não eram interesseiros os protestos; e por isso, bem sinceros.

Até á morte do velho, Manoel viveu na sua companhia; enterrou-o, chorou sobre a sua sepultura, herdou-lhe a pobre habitação e o descubiçado emprego, e n’essa posse estava quando em companhia do tio Joaquim o encontrei.

VI

Haviam decorrido dois annos depois que viera do campo, e, com toda a sinceridade o confesso, nunca mais me lembrou em Lisboa, nem o guarda do cemiterio, nem a sua historia, que o bom do tio Joaquim me referira.

Tive de voltar áquelles sitios e seguindo o caminho por onde viera da feira, comecei a avivar recordações, a recontar de mim para mim aquellas horas tão felizes, tão descuidadas, tão folgazãs, que me tinham corrido por aquelles descampados, e a vêr por entre as moitas dos vallados, que a primavera perfumava de aromas e esmaltava de flôres, as saudades queridas d’aquelles encantados tempos.

Ao voltar da estrada quasi no mesmo ponto, em que os cavallos se haviam detido dois annos atraz, deteve-se tambem o que eu montava; obrigando-me a abandonar aquellas regiões do idealismo pela realidade de tempo e de logar.

Não conhecia os sitios, tive de me orientar, invocando reminescencias antigas, e confrontando paragens, para me certificar onde estava.

A egreja, a casa do guarda, o proprio cemiterio, pareciam remoçados pelo influxo de alguma divindade bemfazeja. Inspiravam ainda tristeza aquelles logares, mas uma doce e placida melancholia succedia-se agora ao desconforto e desalento, que ao attentar n’aquellas ruinas, nos arrefeciam a alma.

O musgo estendia por partes o seu luxuriante manto de verdura, contrastando com o negrejar das cantarias, e dando e ganhando esplendores com o realce. Bandos de pombos esvoaçavam em roda das escalavradas paredes, casando os arrulhos, beijando-se, perseguindo-se em revira-voltas graciosas, cortando os ares em todos os sentidos com elegantes curvas, affagando-se e brincando, espalhando sobre aquellas ruinas suaves perfumes de alegria e de amor. Perto a casa, alvejando por entre as latadas de jasmineiros e madresilvas, o velho poial limpo e rebocado sob um caramanchão de heliotropos, e até a nogueira velha parecia mais viçosa e risonha.

O cemiterio, que da pequena elevação, onde parára, se avistava todo, tinha as ruas limpas e orladas de alecrim e alfazema, as lapides mais desafogadas de matto, as cruzinhas mais negras, as arvores mais cuidadas, o chão recamado de flôres.

Tudo era novo para mim, mas tudo melhorára com a innovação, e despidas as rugas de uma velhice precoce ou de uma mocidade gasta e devassa, apresentava-se tudo agora com as louçanias de uma virilidade robusta, de uma existencia descançada, serena, quasi festiva.

Aquelle rejuvenescer estendera-se tambem ao antigo habitante, que havia visto outr’ora sujo, maltrapilho, alquebrado, velho até; e que via agora assomar á porta tão aceiado, tão esbelto, tão remoçado, que foi preciso que me cumprimentasse e que eu o ouvisse fallar, para perceber que era o mesmo.

Apeei-me e mais curioso de que uma mulher, ou do que qualquer homem dos que n’este vicio lhes levam as palmas, procurei indagar o porquê d’aquellas mudanças.

Talvez pelo respeito, que todos por aquelles logares me tinham, consegui de Manoel a confissão da sua vida na parte que não conhecia, e em que se operára aquella transformação.

Em resumo foi o seguinte:

Tempos depois da morte do seu antecessor, Manoel acordára uma noite ao bater-lhe á porta o acompanhamento de um enterro, que, como todos sabem, costumam no campo, ser fóra de horas.

Atraz do caixão vinham chorando a viuva, o filho do finado, e alguns visinhos, que os acompanhavam.

E... para que hei de torturar a curiosidade dos meus leitores, se é que a despertei em alguns, a viuva era Martha e o filho, aquella creança que vigiára o somno de Manoel.

Encontravam-se pela terceira vez, mas d’esta finalmente para não mais se apartarem senão no tempo consagrado ao luto. Martha contou-lhe como o Miguel não morrêra das facadas, como se tinham casado depois, e como de Lisboa tinham vindo para aquelles sitios viver na companhia de um tio do marido, dono da fazenda onde foram depositar o nosso naufrago.

Viram ambos n’aquelle inesperado encontro ao pé de um cadaver, a vontade da Providencia que os reunia emfim depois de tantos azares. Esta conclusão, que nem por isso depunha muito a favor da sua logica, pois que o encontro mais naturalmente provinha da occupação de Manoel, recebeu sobejo apoio na mutua affeição, que nunca se sumira de todo e que renascia agora mais valente e duradoira.

Martha justificou-se a seu modo, e uma torrente de lagrimas rematou-lhe a peroração talvez artificial, mas de grande effeito para o seu auditorio. Manoel enterneceu-se, acreditou-a, e chorou tambem. E, regada com as lagrimas de ambos, desabrochou rapida a flôr do hymeneu.

Casaram, não tiveram muitos filhos, não tiveram mesmo nenhum, mas o Miguelsinho, a quem o padrasto estimava como a si proprio, foi cimento mais que bastante para aquelle templo modesto de felicidade conjugal.

Quando Manoel acabava a sua historia, apparecia Martha á janella chamando-o e lançando uns punhados de milho a um rancho de gallinhas, que andavam pela estrada defronte da porta; e por uma azinhaga proxima assomava o Miguel tocando umas vaccas e umas ovelhas, que recolhiam do pasto.

—É feliz!... Disse-lhe eu tão senhor de mim e com uns ares tão sentenciosos e profundos como se fizera uma grande descoberta.

—Sou, graças a estes, e (levando-me á porta do cemiterio para me indicar uma cruz abraçada por uma corôa de perpetuas), graças tambem áquelle que me perdoou o meu crime.

—Ainda pensa em semelhante coisa?

—Se penso, quiz matal-o!

Uma hora depois voltava para Lisboa, se não contricto ao menos pensativo. Aquelle espectaculo tinha-me valido por duzias de sermões.

É verdade que Manoel dizia o que sabia, por experiencia propria: e a maior parte dos nossos padres, não sabem o que dizem.

IX

Como se ganha uma demanda

Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez mal vestida de farrapos.

Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por meio dos olivaes.

Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados rapazes d’aquelles lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes d’este mundo.

Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente, mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa.

Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a supportar o irmão nem mais um dia.

Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho que já pensava em o mandar a Coimbra!

Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um arado, e pernas para se segurar n’um cavallo.

José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho debaixo da sua direcção.

Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra. Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais no jogo de bolla do que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira.

Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se havia feito, que o proprio pae se temia d’elle.

Ninguem podia ter-lhe mão, não ouvia conselhos, nem fazia caso do que lhe diziam para bem. Um dia que seu irmão Raymundo se lembrou de lhe fallar a preceito para vêr se o fazia chegar á rasão; Joaquim, que não vinha em si, deu-lhe uma sova, que o deixou em lençóes de vinho.

Foi tambem a ultima que seu pae lhe aturou. O bom do velho apenas viu chegar seu filho querido, o seu ai Jesus, que fôra sempre uma joia, e do qual ninguem dizia senão mil bens, em braços, e que soube quem fôra o auctor de tão grande maldade, jurou que nunca mais lhe poria os pés em casa homem de tão mau coração.

Deitou luto em signal de o ter perdido e respondia a todos que lhe perguntavam porque vestia de preto:—é por meu filho Joaquim, que morreu.

Este jurou que se havia de vingar de seu irmão, ao qual attribuia a má vontade do pae, e foi cada vez a peior, passando todo o santo dia na taberna ou no jogo.

Entre os seus companheiros de perdição havia um, que sobre elle tinha mais poder; mesmo por ser o mais depravado. Era João Simões, capaz de lêr de cadeira na patifaria e de passar por doutor na pouca vergonha.

Contribuira mais do que ninguem para estragar o rapaz e fôra quem lhe ensinára melhor o mau caminho. Joaquim, tambem, não resava por outro breviario, e o que João Simões lhe dizia—era para elle um evangelho.

Andavam por aquelles tempos no lugar alguns homens a desenquietar trabalhadores para o Brazil, promettendo-lhes mundos e fundos de felicidade, quando lá estivessem, e passagem paga no navio para os que quizessem ir. João, que entrava em todos os negocios de má condição, travou conhecimento com os taes meliantes, e fez-se dentro em pouco um dos mais espertos alliciadores da companhia.

Como estava corrente com tudo que se passava, pois bem sabem que a occupação do vadio é entreter-se com as vidas alheias, viéra a ser em pouco tempo o perdigueiro de melhor faro para levantar a caça. Conhecia os que tinham menos dinheiro, os que mais desejavam ganhal-o com pouco trabalho, os que tinham melhor embocadura para o vicio, e os que menos duvidavam de abandonar terra e parentes.

Onde deitava a rede tirava peixe, já era sabido. Ninguem como elle acertava tão bem.

Apenas José dos Santos pôz seu filho fóra de casa, logo João tencionou seduzil-o para embarcar, e sem grande difficuldade conseguiu convencel-o de que era o melhor partido que tinha a seguir.

Como elle jurava nas palavras do seu mestre, acreditou em tudo quanto lhe dizia, protestando entretanto, que se fosse desgraçado grande vingança tiraria de seu irmão Raymundo, o causador de tudo, lá no seu modo de vêr. João entretendo-lhe a furia foi acompanhal-o ao embarque, encarregando-se não só de tratar de quantos negocios porventura viesse a ter; mas ainda de realisar os planos vingativos contra o irmão.

Tornou-se assim depositario de todos os seus odios.

João incumbindo-se d’esta vingança, trabalhava tambem por sua conta, pois jurára pela pelle de Raymundo, desde que este o tratou desabridamente, e lhe voltou costas n’um arraial.

O desgosto de vêr seu filho tão mal encaminhado levou o pobre pae á cama: e Raymundo teve de deixar os estudos em meio para vir junto do velho, governar a casa e tratal-o na doença.

Entrementes que estava cuidando em seu pae tomou-se de amores com uma rapariga da terra; e como era boa de caracter e boa de reputação, apesar de pobre, casou-se em breve, ganhando todos com o casamento. Elle porque alcançára uma esposa extremosa, José dos Santos porque ganhava uma enfermeira sollicita, tão desvellada e tão carinhosa como a melhor filha.

Porém quando o mal é de morte triste remedio lhe podem dar o saber dos medicos, ou o cuidado dos enfermeiros. A ferida do doente era mesmo no coração, não tinha cura. Apesar da maneira porque Joaquim para com elle se houvera, estimava-o porventura mais ainda do que ao seu obediente e bom Raymundo.

Caprichos do sentimento, que mais nos fazem prender a affeição, a quem menos nol-a merece; o velho, embora comsigo mesmo o negasse, dera parte maior do seu coração ao filho perdido.

Muitas vezes em piedosa e apaixonada analyse se desculpava d’esta parcial fraqueza. Era a ovelha desgarrada, que cuidados maiores requeria do pastor, era a terra maninha que pedia melhor cultura, era a arvore desviada, que chamava mais attenção para lhe emendar o erro.

A lembrança do filho era o tormento, e a enfermidade mais perigosa, que o definhavam. O barbeiro-sangrador do logar, e o cirurgião visinho tinham feito repetidas juntas sem atinarem com a rasão do mal. Resolveram por fim, que padecia do interior, e acertaram sem saber.

José dos Santos ria-se dos entes de rasão dos dois physicos, e sujeitava-se resignado ao tratamento que lhe applicavam. Seu filho, sua nora, até o netinho de peito, todos se acercavam d’elle inquietos e suspeitosos da verdadeira causa do mal. Porém tão callado se conservára o doente, que não tinham passado de conjecturas.

Á hora da morte apenas se lhes desvaneceram as duvidas, porque, conhecendo como estava, chamou-os a todos, lançou-lhes a benção, e depois erguendo os olhos ao céu, exclamou:

—Compadecei-vos tambem d’elle, Senhor, tocae aquella alma perdida, com um raio da vossa divina graça... Se algum dia tornares a vêr teu irmão, meu Raymundo, dize-lhe, que lhe perdoei tudo, e, que ao despedir-me do mundo, lhe deitei, cá de tão longe mesmo, a minha benção de pae.

Casa onde entra doença, não é o dinheiro que a aguenta: a molestia de José dos Santos foi a ruina d’aquella familia. Durára perto de dois annos o padecer do velho; custára muito áquella organisação robusta o desprender-se do mundo, luctára como um homem; o desgosto, porém, vencera-o por fim.

Tudo estava empenhado, quando o antigo lavrador falleceu: foi mister pedir dinheiro para o enterro, e Raymundo amanheceu um dia sem pae, sem haveres, e com o filho e a esposa para sustentar.

Demais a familia promettia-lhe augmentar-lhe, porque Leonor, sua mulher, estava gravida de tempo: e tanto que em poucos dias deu á luz uma filhinha, formosa como um serafim, e córada como uma rosa de primavera!

Diz-se que os filhos são a riqueza do pobre. Triste ironia!—Para o que padece de necessidade a vista das creanças sem pão é tormento mil vezes maior do que a propria fome. Quantos não sacrificariam a vida de bom grado, se em paga soubessem que garantiam a existencia dos seus!

Supplicio, que se não descreve, é vêr os innocentes, menos soffridos e porventura mais sinceros, não disfarçarem a fome e chorarem pedindo pão.

Emquanto a desgraça o perseguia, Raymundo, sem desanimar, ia trabalhando sempre, amparado pela força de vontade e pelo sentimento do dever.

Pelo contrario a fortuna, caprichosa como sempre, sorrira para Joaquim cujos negocios lá pelo Brazil iam de vento em pôpa.

João Simões, que com elle se correspondia regularmente, não descançava de lhe acirrar os odios contra seu irmão, o qual para de tudo o privar, até lhe roubára a benção paterna, fazendo com que o velho á hora da morte amaldiçoasse o filho mal procedido.

Como já se disse, succedera o contrario; mas o Simões, que era uma alma damnada, queria vingar-se de Raymundo, e não recuava, por conseguinte, deante de uma mentira, ou duas que fossem.

Ao mesmo tempo encarecia lhe a prosperidade da casa e os grandes negocios, que José dos Santos fizera nos ultimos tempos: dizia-lhe, que seu irmão ficára disfructando uma grande fortuna, que se fingia pobre para não fazer partilhas, e que se Joaquim lhe mandasse procuração para tratar d’esse negocio, em breve lhe mostraria, se era ou não verdade, que seu irmão queria enganar toda a gente com a sua mentirosa pobreza.

Conseguiu por fim o que desejava: e mal teve a procuração em seu poder, começou a perseguir o desgraçado Raymundo a quem já devia bastar o seu mal.

A justiça não costuma estar em casa para receber os pobres; João Simões dispunha de dinheiro, e entendia de demandas, fazia o que queria. Taes artes teve, de taes manhas se soccorreu, que conseguiu em pouco, que passassem um mandado de penhora contra Raymundo, como cabeça de casal em nome de seu irmão: emquanto este, lembrando-se com saudades da patria ia liquidando os seus negocios, para poder regressar quanto antes. Tinha ganho algum dinheiro; mas não tinha contrahido amisades: e estava rico; mas só e triste.

Mudára de vida completamente: aquelles annos tinham-no amadurecido, mas tambem o tinham cançado e gasto. Estava velho antes de tempo, precisava descançar e não ha como a terra da patria para alliviar penas de velhice e melancholias de coração. Havia bem pouco que chegára, quando nós o encontrámos, fugindo da tempestade, e orientando-se por entre campos.

Eram recordações, eram saudades, que o tinham demorado, seguindo por aquellas visinhanças, parando diante d’uma arvore, descobrindo-se diante d’uma cruz, apeando-se muitas vezes para ir ajoelhar diante d’uma pedra.

Tudo lhe fallava á memoria, tudo lhe fallava ao coração.

Aqui passára tanto tempo espreitando seus companheiros, que o procuravam, e elle escondido; ali tivera o primeiro encontro apaixonado; mais em baixo estivera com seu pae; mais além descançava este em horas de calor, ou esperava os trabalhadores das suas fazendas, ao recolherem, para lhes perguntar noticias do trabalho.

E uma pedra para junto da qual viera correndo um dia a fugir do cão do tio Fernandes, esconder-se no regaço de sua mãe, toda em sustos de principio; tão enfurecida mais tarde apenas soube que fôra elle, quem desafiára o cão!

Mundo de melancholicos e piedosos phantasmas, mundo, que o alheava á realidade, que o apartava do presente, tão só, tão vasio, tão sem significação, para lhe abrir francas, patentes e compassivas as portas do passado, tudo ali se transformava para elle, e em cada cousa cuidava vêr uma feição querida, uma lembrança, uma alegria ou uma dôr.

Por vezes lhe rebentaram as lagrimas dos olhos, por vezes sentiu-se suffocado, por vezes desejou, emballado pela doce harmonia da saudade, adormecer de todo no dormir, em que já descançavam seu pae e sua mãe.

E, que o explique quem melhor o pensou, nas occasiões, em que o sentimento é em nós mais placido, mas tambem mais profundo; nas horas de amor duvidoso, de aspiração indefinida, de descontentamento irremediavel e infundado, parece que se levanta entre nós o desejo de outra vida, de outro mundo, de outra existencia, não sabemos qual, mas que nos parece ter já vivido, e para o qual nos persuadimos, teremos de voltar.

N’essas horas de extranho e amoravel sentir, como desterrados de regiões bem diversas d’estas, desejamos vêr terminado o desterro e immediata a hora de regressar.

Foi o approximar da tempestade que o distrahiu d’estas melancholicas cogitações; deitou os olhos em roda e não conheceu o sitio. Tinha-se perdido no caminho. Novas estradas, novas mudanças tinham-lhe transformado o mappa, que a memoria lhe estampára no coração, via-se a meio de olivaes e as arvores confundiam se já com as sombras da noite.

Seguira, sem dar por isso, o melhor caminho, a estrada nova, e que por conseguinte não era do seu tempo. Não podia estar longe o povoado, mas a chuva cada vez apertava mais, e o cavallo já não queria andar assombrado com o fuzilar continuo dos relampagos, e atturdido com o ribombo temeroso dos trovões.