Os contos do tio Joaquim

Part 8

Chapter 84,075 wordsPublic domain

São essas as horas mais talhadas para a meditação, para a saudade ou para o amor; são as horas das aspirações vagas, dos desejos indefinidos, das fantasias e das expansões; são as horas em que se eleva em nós, um que quer que é estranho e superior a tudo que nos cerca e com que de habito lidamos; em que o homem soffre e gosa, sente e crê, folga e padece; em que o desalento e a esperança se travam em lucta; em que o amor nos falla de prazer, a saudade da dôr e a imaginação do infinito; em que se vive muito e se deseja morrer; em que se sonha muito e se receia accordar; em que a virgem presente a primeira paixão, o homem o primeiro amor, a creança o primeiro momento de viver, o velho a ultima hora; em que o passado e o futuro se enlaçam, um descoroçoado e sceptico, o outro enthusiasmado e crente; em que o mundo é pequeno para a alma, e a alma acanhada para o sentimento.

Em tudo isto eu pensava n’essa hora, e tão absorto ía, que nem dava pelo caminho que levava: parecera-me até que se me ía fugindo a vida, como me parecia fugir o mundo, se o som compassado das ferraduras dos cavallos sobre as pedras da calçada, me não chamasse á realidade, marcando de continuo com a regularidade d’uma pendula, a extensão do espaço e o correr do tempo.

De repente, n’uma volta que fazia a estrada, os cavallos fitaram as orelhas e pararam: sobresaltado, como que acordei, procurando descortinar que causa fôra a que os assustára.

Iamos passar pelo cemiterio da terra, separado da estrada por um parapeito de pouca altura, e limitado, da banda d’onde vinhamos, pela casa do guarda; do lado opposto, por uma egreja antiga, abandonada e em ruinas.

Nenhum logar mais adequado, nem accessorios mais accordes podia a morte escolher. Tudo alli fallava do seu poder, tudo concorria para a sua magestosa severidade.

Ruinas, desamparo e tristeza. A casa do guarda, que primeiro se offerecia á vista, ennegrecida pelo tempo, com as portas e janellas carunchosas e escavacadas, deixando devassar o interior desguarnecido e miseravel: o cemiterio sem aninho nem cultura, sem monumentos, nem flôres, nem pedras, nem ruas, nem disticos, nem retabulos; algumas cruzes toscas, por entre matagaes de ortigas, algumas arvores esgalhadas de longe a longe, umas e outras roidas pelos vermes, enfraquecidas pelos parasitas, mutiladas pela podridão: e ao longe a egreja, de tempos remotos, com as cantarias de grosso lavor lascadas ou caidas, as paredes esburacadas e musgosas, as grades ferrugentas e quebradas, as janellas sem vidros, as ogivas interrompidas, as arcadas soturnas a perderem-se na escuridão e a adivinharem-se pelos buracos da fachada, frias, nuas, sós e tristes.

Apertava o coração e confrangia a alma; fazia mal aquella vista.

Não havia sido entretanto nem a egreja, nem o cemiterio, nem a casa do guarda que tinham feito parar os cavallos, mas o proprio guarda, que estendido sobre um poial, deante da porta se levantou para nos cumprimentar.

Parecia que a influencia sinistra d’aquellas paragens se estendera tambem áquelle homem: condizia com tudo que o cercava.

Era alto e ainda novo; mas o tempo e os pesares tinham-n’o curvado e encanecido. As feições eram duras, carregadas e tristes, as faces cavadas e cheias de rugas, a pelle tostada e aspera, os cabellos mal tratados e grisalhos, as barbas compridas, em desordem e grisalhas tambem; o corpo estava coberto de farrapos, a cabeça resguardada por um velho chapeu já sem abas e os pés mettidos n’uns tamancos muito usados, que quando se levantou repercutiram por um modo estranho batendo nas pedras.

Era como a personificação do desconforto ao pé das ruinas, como a desillusão da vida junto á morte.

O tio Joaquim, ao dar com os olhos n’elle, resmungou por entre dentes—até os brutos o temem;—correspondeu a um—boas noites,—que nos dirigiu, metteu o cavallo a meio trote, eu imitei-o, e dentro em pouco tinhamos perdido tudo de vista.

Dias depois vim a saber pelo tio Joaquim quem era o guarda do cemiterio, e qual a sua historia.

II

Manoel começára de pequeno n’um navio mercante, e em pouco chegára a piloto pelo seu bom porte e bravura. Era um rapaz valente como as armas, destemido como poucos, desembaraçado como ninguem a bordo e que entendia da manobra ás direitas.

Não havia tempo nem mar que lhe mettessem medo: e por mais d’uma vez salvára o navio em casos apurados, pela sua presença de espirito.

Sempre alegre, sempre a cantar, parecia que não havia tristezas que com elle entrassem, nem penas que se lhe pozessem diante.

Tinham-lhe nascido os dentes no mar, calhára no navio, e fóra d’elle andava triste como o peixe fóra da agua; o pobre do rapaz, tambem, era engeitado, e vivia cá n’este mundo sem ninguem que lhe quizesse.

Chegou lhe entretanto occasião de deitar ferro em amor e de arranjar amarra de má morte, pois quebrou no primeiro temporal e que deixou abrir-se e naufragar o barco de encontro aos baixios da vida.

Manoel teria dezoito annos se tanto, quando uma tarde, indo em penitencia á egreja de Nossa Senhora da Penha a cumprir uma promessa que fizera em hora afflicta, encontrou a um canto da egreja, ajoelhada a rezar tambem, uma rapariga nova, bonita e toda coberta de luto.

Seguiu-a, soube onde morava, requestou-a e ajustaram casamento, que só dependia d’uma viagem redonda ao Brazil, em que o rapaz contava apurar os vintens de que precisava para pôr a casa. E assim, entre promessas e esperanças, viveram dois annos, que tanto medeou entre o dia em que pela primeira vez se tinham visto e aquelle em que ia partir para a malventurada viagem.

Foram os melhores da vida de ambos. Ái! quem tem vivido de illusões e de esperanças, sentindo um coração a afinar pelo seu no pulsar e no tremer, uma alma unir-se á sua cada vez a mais a mais até se confundir de todo; quem tem a registar esses dias em que o tempo vôa nos instantes dos colloquios para descançar, e demorar-se nos seculos que os separam; quem tem encontrado sempre na dôr e no prazer companhia e affeição, amor sempre, dedicação e sentimento, como só a mulher sabe ter, e a mulher que ama deve resignar-se para todas as provas, para todos os padecimentos, porque já antecipadamente tem gosado o maior quinhão de felicidade que a terra lhe póde dispensar.

N’este viver do ceu tinha passado Manoel dois annos, e tão breves lhe tinham parecido, que na hora da despedida dava a vida inteira por um dia só mais que fosse.

Mas era preciso. O navio partiu e o piloto acompanhou-o em corpo, deixando a alma em terra, e com a alma a esperança e a vida.

Nos primeiros tempos esteve como doido. Por mais d’uma vez o navio correu perigo sem que elle désse por isso, sem que aquella valentia d’outros tempos accordasse nos momentos d’afflicção; parecia barco sem leme ou alma penada sem sepultura: de nada dava fé nem a coisa alguma attendia. Depois o tempo gastou as maguas, as rugas ficaram no rosto, a saudade no coração; mas o marinheiro tornou a ser o que era, menos na animação e na alegria, que d’essas só Martha podia dizer o que era feito.

Teve má sina a viagem. Avarias, arribadas, empates de vendas, difficuldades de carga demoraram tres annos o _Corsario_ em vez dos seis mezes, que deviam de ser. Em Lisboa correu voz de que se perdera, e os proprios donos do barco descoroçoaram de o tornar a vêr.

Nos primeiros tempos Martha, sempre que podia, chegava ao escriptorio para saber noticias, depois foi-se demorando mais até que por fim deixou de apparecer. Bem sabia que Manoel, apenas saltasse em terra, correria onde ella morava: para que havia de perder tempo, de que precisava para viver e cuidar do enxoval?

Um dia soube que se perdera o _Corsario_ com toda a tripulação. Ficou por morta. Por dois mezes padeceu n’uma cama do hospital, depois melhorou pouco a pouco, até que saiu tão boa como d’antes e mais formosa ainda, porque a pallidez lhe augmentava a belleza.

Perto d’ella morava um rapaz, operario diligente e de bons costumes, novo tambem, laborioso e honrado: encontraram-se um dia na escada, e cumprimentaram-se. Ella percebeu no visinho semelhanças do Manoel; chorou muito, mas pensou no operario toda a noite; de manhã, para espairecer saudades, estava na janella ainda de madrugada, e vio o quando ia para o trabalho; depois foi continuando a vêl-o, depois... as recordações de Manoel começaram a sumir-se-lhe pouco a pouco da lembrança, como o navio, em que partira, fôra desapparecendo ao longe, pouco a pouco, nas aguas do mar.

III

Entretanto o _Corsario_ entrava a barra, de pannos largos em tarde de primavera, como cysne nadando em lago de jardim. A marinhagem debruçava-se nas amuradas, e com os olhos namorava a terra, a que a prendia o coração. O sol baixava, e a cidade estirada por esses montes fóra recortava-se sobre o fundo azul da serra de Monsanto, onde se reflectiam, já muito obliquos, os raios do poente.

Todos ou quasi todos têem visto Lisboa do mar e todos se tem enlevado em suas formosuras; mas nem todos sabem o que é vêr a terra onde se nasceu, onde se passou o melhor tempo da vida, onde estão amisades e amores, saudades e memorias, depois de mezes passados entre mar e ceu, a perderem-se e confundirem-se um no outro: e de vastos, que são, a apertarem-nos, a apertarem-nos a mais a mais o coração e a alma.

Para Manoel nem cidade, nem montes, nem rio, nem sol, nem ceu, nem coisa, que n’este mundo houvesse, valiam a pena d’um olhar; uma casinha sómente, uma mulher e um amor, eram tudo, em que pensava, o que unicamente lhe prendia a attenção.

Para que de mais longe podesse vêr, apenas passára as torres, subira a uma gavia e d’ali esbugalhava os olhos para terra, como quem por elles queria que a alma fosse em procura de Martha. Mal o navio deitara ferro, atirou-se a um escaler, e agarrado aos remos, porque a seu vêr ninguem os puchava com tanta ancia e tanto d’alma, voára, que não corrêra, até ao caes, onde d’um pulo saltou em terra.

Mas dados que foram os primeiros passos com os restos d’aquelle impeto que vinha de dentro, Manoel estacou e ficou pregado ao chão. Tremiam-lhe as pernas, esmorecia-lhe a vista, estonteava-lhe a cabeça, e o coração, esse, batia-lhe no peito, como azas de andorinha em horas de temporal.

Que seria de Martha? Morrera talvez: esquecel-o-ia, o que fôra peior; porque nem a poderia chorar. Iria encontral-a casada, perdida!... Instantes de incerteza como aquelles envelhecem tanto, como annos sem descanço. Fraquejou por um momento, cobrou animo depois, como o navio, que resiste a um furacão: e, quasi de corrida, deitou para o sitio em que a deixára n’outros tempos.

Tinha-se mudado, era já um mau agouro; as recordações do passado deviam prendel-a áquella casa, se a abandonára fôra porque esquecera tambem essas recordações.

Manoel sentia apertar-se-lhe o coração ao bater á porta e ao dar com a cara d’uma visinha antiga que occupava aquella habitação.

Perguntou por Martha e soube o que succedêra accrescentado ainda em cima pelas coscuvilhices de senhoras visinhas.

Disseram-lhe que os amores de Martha estavam mais adiantados do que o deviam ser para corresponderem ao seu bom porte d’outro tempo, e que se deixára a rua fôra porque todos ali a conheciam e todos murmuravam da sua vida; que na nova habitação podia estar mais á vontade, por isso a escolhêra; finalmente, e para encurtar razões, tantas coisas que fariam perder a paciencia, a quem a tivesse bem callejada, quanto mais a quem tinha sangue na guelra e o ciume a ferver-lhe lá por dentro.

Ouviu, como se estivera sonhando, parecia-lhe tudo impossivel. Martha, a sua Martha ser-lhe infiel, era para dar em doido. Tanto lh’o affirmaram, todavia, que o quiz experimentar, e, como o condemnado que vae para a forca, seguiu para a morada nova da sua antiga amante.

Era já noite, elle caminhava encostado ás paredes, e como quem receia cair. A dôr tambem embriaga, e o marinheiro, que por tantas vezes resistira ao vinho e á aguardente, fraquejára áquelle padecer; era outro homem, as palavras da velha tinham no mudado de todo.

Ao voltar da esquina da rua indicada, viu de longe n’uma janella um vulto, que o coração conheceu, antes que os olhos o podessem adivinhar. Era Martha, dizia-lhe o que sentia em si e os estremecimentos do seu amor.

Mas quando, esquecido de tudo, ia soltar um grito e correr para a que tanto amava, um outro vulto que parára debaixo da janella, depois de ter fallado para cima e de lhe terem respondido, entrou a porta que lhe franqueavam e que pouco depois se cerrava sobre elle.

Martha desapparecera da janella e em breve aquella casa ficára sepultada nas trevas, como o pobre Manoel no desalento e desconforto.

Já não tinha que duvidar, não era sonho, estava realmente accordado, os seus olhos não o enganavam; esperou entretanto, ora correndo como um perdido, ora parando como quem ia desfallecer, ora soltando palavras sem sentido, ora rugindo como uma fera, espumando como um possesso.

Perto da meia noite abriu se a janella, Martha appareceu de novo, o mesmo vulto saiu e encaminhou-se para onde estava Manoel, este como fóra de si, não vendo senão sangue partiu para elle, com a faca de marinheiro aberta: ouviram-se dois gritos, um corpo baquear no chão e uma voz de mulher, que pedia soccorro.

IV

Momentos depois já Manoel estava prezo: tinham acudido aos gritos de Martha, e tinham-no encontrado com a faca ainda aberta defronte de um corpo caido no chão, e a golphar sangue por duas feridas profundas.

Era mais do que o bastante.

O depoimento da visinhança, o proprio testemunho de Martha, tudo concorreu para que o condemnassem.

Levaram-lhe porém em conta o bom passado, os negociantes respeitaveis, donos do navio a attestarem o seu bom porte, uma tripulação em pezo de honrados e velhos marinheiros encanecidos pelo tempo, e crestados pelos soes da linha a dizerem: que elle tambem fôra honrado.

Os jurados, santas creaturas, commoveram-se com aquelle espectaculo; o advogado do réo, rapaz de esperanças, vociferou contra as leis de sangue, e discorreu como uma bocca de ouro sobre a alienação mental e as circumstancias attenuantes; o juiz sensibilisou-se tambem, e todos enternecidos condemnaram o réu... a dez annos de grilheta.

Para um homem como Manoel, similhante affronta seria peior do que a morte, se no estado em que se achava, elle a podesse apreciar.

Depois que commettera o assassinato tinha ficado como louco, ou peior ainda, porque parecia idiota.

Um golpe d’aquelles, uma mudança d’aquella qualidade!

Quando esperava colher o fructo de uma vida trabalhosa e honrada nos braços da sua Martha, vêr-se de repente criminoso, assassino e deshonrado; toldarem-se-lhe na cerração as estrellas, que o guiavam n’esta vida, o astro do amor, e o astro da honra: eram provações de sobra para deitarem por terra castellos mais fortes, e almas ainda mais valentes.

Manoel não morreu, mas fraquejou para sempre. O mesmo d’outros tempos nunca mais tornou a ser. Nunca mais o viram rir, cantar não o ouvio mais ninguem: e as rugas, que se lhe cavaram no rosto, tambem se lhe entalharam no coração.

O amigo da humanidade, que inventou as prisões em commum e a grilheta, foi de certo um grande perverso. Só a um requinte de malvadez se póde attribuir um invento que envolve e reune no mesmo castigo, na mesma atmosphera de perversão, innocentes e criminosos, pois que assim comparados uns com outros se podem chamar: e que não contente com isso lhe accrescentou a grilheta, _exposição ambulante_, aperfeiçoamento da que, em tempos de barbaridade, se applicava as mais das vezes a victimas do que a réus.

A influencia desmoralisadora d’aquelles dez annos não alcançou todavia o antigo piloto: quasi que nem os percebeu, tudo era para elle extranho, inexplicavel, incomprehensivel; um pesadello que durava muito, e de que esperava accordar um dia.

Entrára na cadeia de vinte e um annos; saia sexagenario, eis toda a differença. Aquelles dez annos valiam-lhe por quarenta; e, mocidade, alegria, sentimento, coração, vida, enthusiasmos d’outro tempo, crenças e aspirações, tudo deixara ao sair, com a grilheta que depozera.

Só não perdera um sonho atroz, que quasi todas as noites o perseguia, e que, salvo pequenas mudanças, era sempre o seguinte:

Navegava a bordo do _Corsario_. De repente o Oceano transformava-se em largo mar de sangue: debruçado na amurada via-se lá em baixo a braços com um homem, que lhe ia roubar a sua Martha, innocente como os anjos, pura como a estrella da manhã, serena como o alvorecer de estio em alto mar, e que d’entre nuvens no céu lhe sorria amor. A lucta continuava encarniçada, elle fóra de si puchava pela faca; mas, por mais diligencia que fazia, só alcançava Martha, o seu contrario escorregava-se d’entre os braços escapando-se-lhe aos golpes. Depois o mar de sangue envolvia-o todo, ia já a affogar-se, e a voz de Martha eccoava-lhe aos ouvidos clamando; assassino, assassino. As ondas passavam-lhe por cima da cabeça, o marulho das aguas, o sussurro do vento casavam-se com uma voz confusa, que lhe baqueava nos miolos, dizendo-lhe: _não matarás_.

Nos primeiros tempos, em que saiu, ainda teve esperanças de voltar á vida antiga; mas todos, que procurava, se affastavam d’elle com terror. Desesperado, momentos houve em que lhe passou pela cabeça vingar-se de uma sociedade, que castigava n’elle um crime mais dos outros do que seu, e seguir a estrada do mal, já que lh’a lembravam, e já que lhe tornavam todas as outras impraticaveis; mas o principio do bem e as idéas que recebera com a educação, predominaram sempre.

Custára-lhe muitas noites d’insomnias e de phrenesi, horas de amargura, em que chegou a desejar a vida da cadeia, occasiões em que a ideia da morte lhe trabalhou muito na cabeça.

Uma noite, pelas onze horas, vagueava pelo caes do Sodré depois d’um dia passado em inuteis pesquizas de trabalho, e em repetidas e semelhantes recusas. O céo estava carregado, o vento soprava em lufadas da barra, o rio estava revolto, as aguas negras, a escuridão negrejava em tudo. Debruçado sobre o caes, remontou-se pelo pensamento áquella tarde em que, onze annos antes, desembarcára no mesmo sitio. Como tudo tinha mudado. Que alegrias então, que tristezas hoje! A agua começou a namoral-o debaixo, o desalento a convidal-o em roda, ia a precipitar-se, um braço susteve-o, uma voz exclamou: cobarde!—Era o braço de um antigo companheiro, a voz d’um velho amigo, marinheiro como elle; mas muito mais pobre, muito mais velho, e que pedia esmola encostado ao parapeito do caes.

Aquella palavra e aquelle exemplo fizeram-n’o renunciar para sempre ao suicidio. Para não ser cobarde muitas vezes em temporal desfeito se resolvera a morrer, agora, para que lh’o não chamassem, resignava-se a viver. Era maior o sacrificio, mas para o compensar estava a ideia de que podia ser util ao velho Estevam: e a companhia d’um amigo que lhe apparecia nas proximidades da sepultura.

E... porque não havia de concorrer tambem?

A esperança, que mesmo sem fundamento algum, ainda lhe dizia que vivesse, e o acompanhava, como sempre, nos mais atormentados lances?

No dia seguinte, com o peculio que por seu trabalho juntára na cadeia, comprava um velho barco de pesca, e ambos tomavam posse da propriedade commum não contentes, mas resignados, baptisando-a—_Desgraça_,—pelo muito que ambos haviam padecido.

Se o trabalho faz minorar e esquecer as maguas, nenhum modo de vida se creou melhor para o esquecimento do que a vida do pescador. A lida continua e a lucta permanente com o mar e com o vento, a vigilia, o emprego de todos os sentidos, trazem o que n’ella se emprega sempre voltado para o seu trafego e sempre estranho ao mundo com o qual só de leve trata: e d’ahi para Manoel aquelle labutar tão semelhante ao de outros tempos, aquella vida, reflexo da outra, reflexo pallido em que o rio substitue o mar, em que o barco substitue o navio, mas que nos lances e no trato, tanto lh’a recordava, era um paraiso, depois d’aquelle inferno porque passára.

Estevam, que o infortunio lhe offerecera por companheiro, serviu-lhe de amigo e de auxilio durante tres annos, em que gradualmente se lhe foram esvaecendo da lembrança os desgostos e as desillusões.

Se para Manoel podesse ainda haver felicidade, quasi que aquelles tres annos se poderiam dizer felizes.

Desde a tarde em que saltára em terra, entre receios e esperanças, nunca mais encontrára alma onde derramasse as amarguras, que trasbordavam da sua, nunca tivera ninguem que o comprehendesse, nem que avaliasse a sua dôr. O companheiro de grilheta, que lhe haviam jungido, era um scelerado, com tantas mortes e tantos crimes, que horrorisava ouvil-o, e ainda mais vêl-o rir das maguas de amor. Ás queixas de Manoel, respondia com imprecações, e se elle insistia, dava-lhe para que o deixasse com semelhantes pieguices.

Depois que o soltaram, nunca nem um só, dos que d’antes o tratavam, lhe mostrou boa feição, todos fugiam do _grilheta_, alcunha que lhe tinham posto e que lhe recordava a antiga condemnação.

Porque, clamem embora os philosophos, a rehabilitação moral para o criminoso pobre é impossivel, para o rico é inutil, ninguem lhe toma contas nem do passado nem do presente: o miseravel, porém, traz a corrente presa toda a vida, todos lh’a notam, todos lhe apontam para ella, e embora elle diga: _vejam o que hoje sou_; todos lhe tornam: _vemos o que foste hontem_.

Por isso aquelle companheiro, que o comprehendia, aquella solidão que o não accusava, aquelle mar e aquelle ceu, que lhe lembravam o perdão e o infinito, foram como um calmante para a sua dôr, como uma estação de descanço na sua jornada de padecer.

Estação, que durou pouco e que uma borrasca desfez, n’uma tarde, em que já recolhiam da pesca, seguindo pelo Tejo acima, a procurar abrigo n’alguma d’aquellas enseadas naturaes, que o rio abre, nas proximidades de Sacavem.

A _Desgraça_, apezar do vento á popa, seguia pouco, e arfava muito porque havia força de corrente, e a vasante ia com grande rapidez.

Principiava a escurecer e o vento a carregar com a noite, alguns trovões ouviam-se ao longe, e um temporal rijo se apparelhava para em pouco. O barco já não dava pelo leme, e a cada momento se enchia d’agua;—ir para diante era quasi impossivel, e á primeira onda mais rija, o casco já velho, podia abrir-se de popa á prôa. Posto que não conhecessem a praia, em risco de bater n’alguma pedra, tentaram atravessar, e encalhar quanto antes, depois de esforços sobrehumanos para luctar com o temporal; mas quando aproavam para terra uma rajada mais forte lhes levou a vella, e uma onda apanhando o bote pelo costado, metteu-lhe a borda debaixo d’agua, e virou-o logo.

Só os que têem vivido parte da sua vida no mar é que avaliam bem quanto custa ao marinheiro deixar as taboas, em que tem navegado, sejam ellas de bote catraio ou de navio d’alto bordo. Para Manoel e para Estevam o barco era a fortuna, a familia, o mundo inteiro, que as aguas lhes queriam roubar.

Agarrados a elle, mal se via já, trabalharam quanto poderam para vêr se o salvavam; mas, baldados esforços, o que conseguiam n’um quarto de hora, perdia-lh’o n’um segundo uma onda mais valente. E as forças a faltarem-lhes, e a respiração a difficultar-se-lhes, e os braços a renderem-se-lhes.

—Já de noite—não podendo mais, tiveram de o largar, e por um instincto de conservação, que nos não deixa nunca, cuidaram de se salvar nadando para terra. Não era cedo: acontecia-lhes o que succedera ao barco, e quando mais cresciam para a praia, animando-se e clamando um pelo outro, porque não se podiam vêr, mais os affastava a corrente, que seguia com uma velocidade de espantar.

Estevam não luctou por muito tempo. Mais velho e mais cançado, uma onda abafou-lhe o ultimo grito, e galgou-lhe por cima da cabeça, entrando-lhe pela bocca aberta convulsivamente n’um extremo resfolegar. Manoel com o desespero de afogado, reuniu todas as forças, e n’um extremo alento enterrou um braço no lodo da praia, para que a agua o não levasse, procurando já por instincto conservar a cabeça ao cimo d’agua para gritar, e tomar a respiração.