Part 5
Antonio chorou devéras, pouco se lembrava de seu pae; mas custou-lhe muito aquelle lance. E n’essa occasião mesmo deu mostras de boa alma que tinha, e que depois deixou vêr melhor lá para o diante, quando mudou de vida. Apesar de falto de dinheiro, não gastou comsigo nem um real da herança que recebera; uma parte empregou-a em mandar fazer um caixilho muito bonito para o retrato de seu pae, e o resto deu-o de esmolas aos pobres, pedindo-lhe que rezassem por alma do finado. Andou uns dias, que não parecia o mesmo, triste e regular no trabalho, depois tornou á antiga ou ainda peor se era possivel.
Quando tinha algum vintem de seu não paravam as patuscadas, as festas e os divertimentos; depois trabalhava pouco e de má vontade até arranjar dinheiro, e, mal o conseguia, eil-o que voltava á boa vida.
Mas, manda a verdade que se diga, esteve por vezes doente no hospital, viu-se em talas quando por ahi faltou o trabalho, vendeu, empenhou tudo, só não tocou, em occasião nenhuma, nem na fardeta, nem no retrato, que conservava á cabeceira da rabeca, onde dormia, como se fossem imagens do Senhor dos Passos ou orações do Justo Juiz.
Uma vez, vim a sabel-o ao depois, tinha-se-lhe acabado todo o dinheiro e não havia que fazer; o jantar havia de vir; mas d’onde, é que elle ainda o não sabia. Antonio foi procurar um ferro velho do logar e propôz-lhe a venda da enxerga: era o resto dos trastes, que tinha, e estava tão velha e tão suja, que nem uma de doze valia.
O ferro velho entrou, e mal deu com os olhos nas duas reliquias do pobre rapaz offereceu-se para lh’as comprar; mas inda bem o não tinha dito, já estava arrependido de o dizer, porque Antonio punha-o immediatamente no meio da rua com promessa de lhe fazer os ossos n’um feixe, se tivesse outra vez semelhante lembrança.
Assim passou algum tempo com a barriga ora em lua cheia ora em quarto minguante, até que uma gente, que para aqui veio lhe fez mudar o modo de viver.
Um velho tinha arrendado a quinta dos Fusis, para onde viera presistir em companhia de sua filha.
Elle andava pelos seus cincoenta annos: parecia homem de bem; mas casca grossa e pouco de graças; ella, mais bonita que uma imagem e mais bem posta que uma fidalga.
Quando íam no domingo á missa ou de tarde a espairecer por essas azinhagas, o velho de cabeça branca, corpo um tanto curvado, bigodes grandes, sobrancelhas espessas, parecer carregado e faces enrugadas; ella alta, esbelta, de olhos pretos e vivos, cabello castanho, faces córadas, feições alegres e cara de riso para todos, pareciam a noite e a madrugada, ou o inverno e a primavera que se combinassem para melhor parecer unidos um á outra.
Os rapazes todos derretiam-se para ella, mas o pae que não tinha cara de muitos amigos, impunha-lhes respeito e conservava-os de largo; e d’ahi ella assim mesmo sempre alegre, mas toda senhora, dava tambem a entender, que não estava resolvida a acceitar a côrte a qualquer badameco.
Antonio vio-a um dia e ficou perdido de cabeça; desde essa occasião começou vida nova: e o rapaz extravagante e vadio, começou a ser homem.
Era tempo, tinha quasi vinte e cinco annos.
Mas a vida que seguiu, foi tão differente da antiga, que não parecia o mesmo.
Os dias passava-os a trabalhar, as noites a aprender a lêr, porque o mestre do logar lh’o ensinava a troco dos domingos, em que lhe trabalhava no quintal, e as horas de sesta ou de jantar passeando pela frente da casa da menina Maria, que o enfeitiçára: mas para bem, que são os melhores feitiços.
E o caso é que o maganão do Antonio tinha bom gosto, por que mocetona mais perfeita não a havia n’estas tres leguas ao deredor. Ia-se desenvolvendo e medrando, que era um louvar a Deus, e não seria por sua parte, que podesse resultar má fama aos ares do logar.
Bonita já ella o era, mas enfezada e doentia por amor d’aquelle mau respirar que as cidades fazem; apenas porém desatou por ahi a passear e a espairecer, entrou a córar, que nem uma pera de Santo Antonio, e a encorpar que nem uma maçã bemposta.
Se ella reparava no rapaz, nem o sei eu, nem ha quem o jure, porque isto de mulheres, nem o demo as entende; mas que o não visse com maus olhos é de crêr, porque o Antonio, não tinha nada que se deitasse fóra e era um rapaz perfeito a mais não poder ser.
Cá por a terra não se fallava n’outra coisa e não havia tenda nem barbeiro, onde se não désse á taramella a tal respeito. Tudo em bem, que em mal não havia rasão, nem atrevimento para tanto, por que com Antonio ninguem brincava, e todos se pellavam de medo de um certo marmelleiro ferrado, que elle trazia e que não era palito para dentes, nem vime de passar creanças.
Tanto fallaram, tanto fallaram, que o caso foi aos ouvidos do pae, que já andava com a pedra no sapato por tanto rondar de porta e tanto encontrar o Antonio nas visinhanças da quinta.
Um dia, que acabava de fazer a barba, dois maltezes que estavam no barbeiro, e que o não conheciam, entraram com pé de conversa a respeito do tal namoro e deram a entender, lá por meias palavras que o Antonio se fazia com terra de casar com a menina Maria.
O sr. José Alves, assim se chamava o pae, não quiz ouvir mais nada; atirou com uma de trez para cima da mesa do barbeiro, e foi se como um raio a casa do Antonio.
Boas tenções não tinha elle. Ia fumando, e vermelho como um pimentão, saccudia um camolete que levava, que mais parecia um bastão de tambor-mór, do que uma vara de encosto. Se encontrasse o rapaz no meio do caminho, atirava-se a elle, e não o deixava em quanto lhe encontrasse osso inteiro.
Era um sabbado e quasi ao sol posto: o quarto estava escuro e Antonio, que voltára mais cedo do trabalho, tinha-se atirado para cima da cama, farto de lidar e sem poder comsigo.
Apenas por uma claraboia, que havia no telhado, entrava alguma luz, e essa ia bater de chapa no retrato, que estava á cabeceira; parecia pessoa viva, e até mettia respeito olhar para elle.
É de crêr que o sr. José Alves se não demorasse a bater á porta, atirou-lhe um encontrão e deitou-a dentro ás primeiras rasões.
Antonio ia a agarrar no pau, que tinha ao pé de si, e saltar na visita, quando reconheceu o pae de Maria e ficou varado; este ia para fallar, quando deu com os olhos no retrato e pasmou. As lagrimas saltaram-lhe dos olhos, e, sem mais satisfações, perguntou a Antonio, apontando-lhe para o painel:
—De quem é aquelle retrato?
—De meu pae, respondeu o rapaz.
—De Antonio, do meu velho amigo!—e em vez de se atirar á paulada ao namorado da filha, atirou-se a abraçal-o que parecia querer metter-lhe as costellas dentro.
O que causára aquella mudança, já o senhor adivinha o que foi, continuou o tio Joaquim concluindo a sua narração, o sr. José Alves era o tal camarada de Antonio, que trouxera o retrato, quando o rapaz ainda era um fedelho, e a quem o pae o recommendára á hora da morte. Tinha continuado a servir depois que passára pela terra a cumprir o testamento do moribundo: e de batalha, em batalha, esquecera-se do companheiro, do filho, e da promessa.
Antonio foi para casa do velho, entrou a administrar-lhe o que elle tinha e augmental-o com o trabalho e a boa vontade; o casamento que já era de gosto do sr. José Alves e a que a rapariga não dizia que não, fez-se d’alli a pouco... e lá tem vivido como Deus com os anjos até que o velho morreu, deixando a filha e o genro de posse da fortuna que o senhor sabe.
No dia seguinte, áquelle em que o tio Joaquim me contára esta historia fui aos _Fusis_ procurar o sr. Antonio Tavares e receber o dinheiro dos trigos.
Havia muito que não entrava n’uma quinta tão bem cultivada, nem via em fazenda alguma, n’aquelles sitios, tanta ordem, nem tão bom gosto.
Os systemas mais modernos, os instrumentos mais appropriados, as descobertas de maior importancia pratica, tudo ali estava aproveitado, com uma tal arte, que bem mostrava ter sido, coisa rara entre nós, a theoria unida á experiencia com muito criterio e bom resultado. A _dos Fusis_ poderia servir de _quinta modelo_, se os fazendeiros da terra, afferrados á rutina, cuidassem de modernismos ou tratassem de innovações.
Apenas soube, que eu ali chegára o sr. Antonio Tavares, mandou-me entrar para a casa de jantar, onde estava com a sua familia; Maria, que devera ter sido tão formosa, como o tio Joaquim o dissera: e duas creanças, que se tinham levantado da mesa e que brincavam ali para um canto.
A casa, posto que conservasse aquelle aspecto severo, que ainda se denota n’algumas fóra de Lisboa, que fosse de ladrilho, com as paredes revestidas d’azulejo até meio, e o tecto _em osso_, com as grossas vigas de castanho do emmadeiramento á mostra, era alegre, porque recebia muita luz de tres rasgadas janellas, que deitavam sobre uma horta. A mobilia era de pau santo torneado, e n’um grande armario meio aberto via-se boa louça da India, e algumas peças d’uma baixella de prata. No logar de honra dava-se com o retrato a lapis de Antonio e com um outro mais moderno, a oleo, que devia ser do sogro: uma santa, que não sei ao certo qual era e dois quadros de fructas ornavam as paredes.
Tudo reunido dava á casa de jantar um certo ar patriarchal, que infundia respeito e inspirava felicidade.
Antonio depois de me pedir que me sentasse, e de me offerecer um copo de vinho da lavra, levantou-se e foi a um contador buscar o dinheiro da compra, que já estava embrulhado e prompto desde a vespera; conversámos um pouco, e quando me despedia, pediu-me que o visitasse a meudo, porque estimaria vêr-me em sua casa.
—Voltarei, lhe prometti, e voltarei em breve: o tio Joaquim contou me a sua vida, e apenas o conheci, comecei a respeital o.
—Bondades suas e do tio Joaquim, que é muito velho, não ha razão para o que diz. Fui rapaz, fiz o que todos fazem, emendei-me a tempo, se é que não foi tarde: se alguma virtude tive, e essa mesma bem m’a têem pago aquelles,—disse-me olhando para Maria e para os pequenos,—foi não me esquecer no meio de todas as minhas doidices, que me tinham ensinado a _Honrar pae e mãe_.
VI
O fructo prohibido
I
Adeus, Rosa! Adeus! E adeus para sempre!
—Ai! para sempre, meu Estevam?
—Que queres que eu faça, dize?
—Sei-o eu, por ventura? Mas partir... e o mar?... É tão bravo!
—Não só no mar ha bravezas, na terra corre-se risco de maior: se eu ficasse!...
—O que fazias?
—Ou mettia uma navalha no Januario ou dava um tiro n’estes miolos.
—Jesus, homem, tentação do demonio é essa, cruzes! Parte, parte, meu Estevam, mas não te esqueças de mim.
—E tu?
—Eu! Sempre.
—Adeus!
—Não te verei ainda ámanhã?!... Antes do embarque?...
—Não, o que ha de ser seja, quanto mais estiver com demoras, mais me faltará o animo. Adeus Rosa, sê feliz.
—Adeus, Estevam, volta breve.
—Voltar para que? Para te vêr entregue a outrem, que virás a amar, se é que o não amas agora?... Para presencear essa vida de felicidade, que é a minha desgraça, o meu tormento; para comprehender que me illudiste, quando me juraste um amor eterno! Amores eternos de mulher, como as flôres d’este nome, que duram mezes, e que os primeiros sopros do inverno derrubam!...
—Deus te perdôe a injustiça que me fazes!
—Para que casas?
—E a maldição de meu pae?... Meu pae amaldiçoava me Estevam.
—E o nosso amor!
—Fica-me no coração, ha de me matar, descança.
—Antes tu morresses...
—Oh! Quem dera!
—Não fallemos mais em semelhante coisa. Para que has de dessimular ainda?
—Se eu pudesse rasgar este peito, que me opprime, se pudesse arrancar-lhe este coração que é teu, e o ha de ser sempre, se te podesse mostrar como elle padece, não duvidarias de mim.
—Queres que te agradeça talvez, queres que te bemdiga não é assim, queres que estime saber, que pertences a outro, não é verdade?
—Não, Estevam, quero que tenhas dó de mim, e que me esqueças!
—Esquecer-te, eu! E a minha existencia de até hoje, que foi sempre tua, e a minha fé no futuro, que estava em ti, e a minha vida toda, que te pertence; queres que esqueça tudo?... Se não fôra minha mãe!...
—Tua mãe!
—Sim, minha mãe, pobre e santa velhinha, que não tem no mundo mais do que eu, que lhe queira e que a ampare. Minha mãe, que eu mataria se morresse; minha mãe, a unica que me tem tido amor na terra!...
—A unica! Talvez...
—Olha, Rosa, escusas de fingir, para quê? Não vale a pena. Ámanhã por estas horas já estarei d’aqui bem longe. Só o que te peço, como um ultimo favor, como uma esmola, é que te lembres de minha mãe, que lhe enxugues as lagrimas, que chores com ella,—não te ha de custar muito, sabes tão bem illudir!—e que depois uma e outra vez te lembres de que te amei... e muito.
—Pela alma da minha te juro, ha de ser minha mãe.
—Obrigado, Rosa. Adeus!
—Não me queiras mal.
—Não poderia, ainda que quizesse.
—Não queiras, Estevam, não, que t’o não mereço, perdôa-me e... não te esqueças de mim!... Meu pae, que nos vê, foge Estevam, elle encaminha-se para este lado.
—Adeus!
Passava-se este dialogo no pateo da quinta de _Valle do Freixo_ no dia de S. João, ao amanhecer.
Houvera um bailarico de primor, a que tinham concorrido os rapazes e as raparigas das visinhanças e com elles os paes, as mães e os tios.
Era um poder de gente, que passára a noite a cantar, a dançar, a pular, a rir, a comer, a beber, a respirar alegria: a provar que os cuidados lhes não pesavam na consciencia, nem o mau humor no espirito.
Fôra um dos mais brilhantes bailaricos de que havia memoria.
O dono da quinta pozera uma grande meda de vides á disposição da fogueira, e uma pipa de vinho ás ordens dos concorrentes; mandára cozer varias amassaduras de pão, frigir um por ahi além de peixe; transplantára dois alfobres de alface para quatro alguidares, juntando-lhes tambem quatro cestos vindimos com a fructa do tempo, e sobre tudo a boa vontade e o contentamento a resplandecerem-lhe na physionomia, convidando todos a divertirem se.
Infelizmente, porém, nem todos podiam estar alegres. N’aquella multidão buliçosa duas creaturas havia tão tristes, tão attribuladas, que cortava o coração olhar para ellas: parecia que tinham vindo assistir, não a uma festa, mas a um enterro.
E na verdade, ali enterravam vinte annos de esperança e de amor: n’aquella noite se viam em despedida, e só Deus poderia saber se essa despedida seria eterna.
Rosa e Estevam tinham vivido juntos desde creanças e tinham-se acostumado a amar, antes, ainda antes de saberem o que era amor. Conheceram o que era quando começaram a padecer; porque é no soffrimento que elle desabrocha, como as rosas de mais apreço nos seus berços de espinhos.
Juntos balbuciaram as primeiras palavras, juntos aprenderam a lêr, juntos iam á escóla, juntos voltavam ás tardes, e juntos passavam as noites brincando no campo e discorrendo alegremente, como duas avesinhas chilrando proximas na mesma arvore.
E encontra-se o que quer que seja de gorgear de passaros no palrar infantil, que borboleteia de assumpto em assumpto, soltando de quando em quando notas agudas de admiração, ou modulando trilos narrativos de tanta viveza e simplicidade.
Disseram em commum as primeiras orações, e muitas vezes os surprehendia o passeante enternecido, de joelhos e mãosinhas erguidas para o céo, repetindo em côro:—«Perdoae-nos, Senhor, as nossas dividas...» dividas, de um ninho surprehendido entre as giestas, ou de uma innocente mentira a denunciar-se logo pelo rubor da candura e pelo borbulhar de duas lagrimas de arrependimento, se por ventura os interrogavam.
E que lindo grupo, quando estudavam juntos a lição do mestre, ou a reza que a mãe lhes ensinára, sentadinhos no limiar da porta, um repetindo entre incertezas e duvidas; outro escutando com toda a attenção e com ares concentrados, como quem comprehendia a gravidade da sua posição de professor: mas ambos a reverem-se um no outro e a casarem torrentes de luz, que lhes chispavam d’aquelles olhos brilhantes, vivos, buliçosos, humidos de alegria e languidos de sentimento.
Com o decorrer dos annos não houve remedio senão ir gradualmente rareando aquelles doces encontros. Demais, tendo morrido a mãe de Rosa, esta ficára governando a casa e em companhia de seu pae, que não era para graças. Continuaram a vêr-se, a fallar-se; mas ás furtadellas, e quasi que ás escondidas.
Rosa crescera, e ao desenvolver-se tinha ganho cada vez maiores perfeições. Fizera-se mulher, mas mulher tão formosa, tão delicadamente formosa, que confortava a alma admiral-a.
Não parecia do campo, nem mesmo da terra.
Devem ser assim aquellas phantasticas visões, que, aljofradas por milhares de perolas do orvalho da manhã, se esboçam na atmosphera ao romper do sol por entre as nevoas da aurora.
Delicada flôr, que a mais terna aragem encurvava, parecia quebrar-se no andar. Resvallava pelo chão, deixando apenas uma suave fragancia a denunciar a sua rapida passagem, e uma indefinida sensação na mente dos que a viam.
Por aquellas visinhanças não havia noticia de creança tão mimosa.
Era branca; mas branca como o alabastro e como os lyrios, e na suave pallidez da physionomia lia-se o sentimento d’aquella organisação franzina e nervosa. Os cabellos negros como o azeviche, assetinados e brilhantes, poder-lhe hiam servir de manto, quando os desatasse ondeando pelas costas abaixo e dobrando ainda no chão; os olhos como dois diamantes negros, sempre velados por uma doce melancholia rasgavam-se-lhe no meio de duas palpebras escurecidas pelas sobrancelhas finamente desenhadas, e orladas d’umas pestanas compridas e densas, que davam ao olhar, já de si bem triste, mais tristeza ainda amortecendo-lhe o brilho, quando raramente o illuminava.
Quem attentasse n’aquelle rosto sempre sentido, sempre scismando como que n’outro mundo, sempre voltado para o céo, sentiria, se de todo não tivesse a alma cerrada á compaixão, uma lagrima de sincera piedade cair dos olhos extaticos. Rosa era uma creatura que lembrava aquelles mysterios, os enlaces dos anjos com as formosas filhas dos homens, nas primeiras eras do mundo.
Estevam tambem se desenvolvera, e se formára um guapo e gentil rapaz.
Nas bem proporcionadas fórmas lia-se-lhes a força; no rosto franco e expansivo, a lealdade e o valor. Não havia idéa de que nunca em sua vida tivesse abusado da força: mas não constava tambem que tivesse recuado nunca. Não procurava o perigo, mas não se temia d’elle; era dotado de verdadeira coragem, fria, reflexiva, inabalavel.
Estes dotes, porém, não eram de tal natureza, que podessem captivar o pae de Rosa, homem de lettras gordas, e mais para o dinheiro do que para o sentimento.
Tinha casado com a senhora Placida, depois de lhe namorar os pintos e não a physionomia.
Vivera feliz a seu modo, porque tivera os commodos da vida, e não comprehendia felicidade possivel, sem dinheiro ao canto do bahú, pão na arca, vinho na adega e azeite na talha. Todo esse palavreado de amor e paixão era engrimanço, que espremido não deitava nada; nem julgava que boas razões pagassem dividas ou enchessem barriga.
Um seu visinho e compadre, homem dos seus quarenta puxados, casca grossa como elle, pé de boi, mas abastado, e com fama de entender do negocio e da lavoira, tinha conversado com o sr. Feliciano Gomes, assim se chamava o pae de Rosa, a respeito d’esta, affirmando-lhe que se não dava de tomar estado se encontrasse mulher tão perfeita como a filha. Feliciano, que ha muito andava com o olho n’uma courella do compadre Januario, e que por mais d’uma vez futurára comprar-lh’a, alegrou-se com a idéa de arredondar a sua propriedade, á custa de tão pouco.
Tratou pois de desvanecer algumas duvidas, que ainda esvoaçavam no espirito modesto do sr. Januario, convencendo-o de que lhe sobravam perfeições para captivar o coração mais rebelde, que por ventura palpitasse em peito de mulher.
—Mas, eu sei lá, homem?... Já não estou muito rapaz...
—Melhor é isso, não tem edade para loucuras.
—E se a rapariga me não quizer?
—Era o que faltava, compadre, deitava-lhe os braços abaixo e nunca mais lhe punha a vista em cima!
—N’isso é que eu não consentia!... Pobre Rosita!
—Então quem ha de mandar em minha filha se não fôr eu? Quem póde saber o que lhe convém?
—Olhe, compadre, se a pequena tiver alguma inclinação...
—Sem minha licença? Não faltava mais que vêr! Ensinava-a por uma vez.
—Veja lá o que faz, homem, não quero que a rapariga padeça por minha causa!
—Qual padecer, nem meio padecer. Estou vendo-a já saltando de contente, quando lhe disser: não sabes, o visinho Januario quer casar comtigo. Foste feliz...
—Isso ha de ser. Não lhe hei de faltar com coisa nenhuma.
—Pois para as mulheres é o que é preciso: dinheiro para gastarem nos trapos, e andam satisfeitas.
—Parece-lhe por conseguinte que serei seu genro?
—Se me parece! Já o é desde hoje, toque lá e deixe tudo por minha conta.
—Lembre-se de que eu não quero ir contra a vontade d’ella...
—Qual vontade, nem meia vontade, compádre Januario; o dito dito, e até ámanhã.
Esta conversação foi o começo das tristes aventuras dos dois amantes, que apresentei aos meus leitores, e cuja historia, n’uma noite bem invernosa, ouvi ao tio Joaquim.
Emquanto Januario ficava scismando na sua vida futura e saboreando d’ante-mão a posse da rapariga mais guapa d’aquelles sitios, Feliciano recolhia rindo-se e esfregando as mãos, o que n’elle denotava o maior signal de contentamento.
Acabava de fazer um excellente negocio. Trocára a filha por uma courella de dez alqueires de semeadura: isto é, uma mulher que tinha que sustentar por uma terra que dava de comer.
E o olival das _queimadas_, e a quinta da _cortiça_, e o casal do _petisco_, e as terras do _Penetra_, e a horta da _allamôa_, e tantos outros bens e haveres, que constituiam a fortuna de Januario!
Claro estava que tinha tido uma tarde feliz.
Rosa ficou surprehendida ao vêr entrar seu pae em casa risonho e cantarolando, coisa de que não havia memoria; e sem lhe passar pela cabeça qual era o motivo de semelhante transformação, sentiu-se alegre tambem.
Havia muitos annos que seu pae lhe não mostrava physionomia tão prasenteira, nem lhe fallava com tanto agrado.
De repente deu-lhe uma pancada o coração, quando Feliciano, voltando-se para ella, lhe perguntou com certos modos em que transpareciam alegria e finura mal contidas:
—Que te parece o compadre Januario?
—Que me ha de parecer, meu pae, dizem que é tão boa pessoa!...
—Sim, sim, bem se sabe isso, boa pessoa, assim como quem diz pedaço d’asno; não é pelas bondades, que eu te pergunto.
—Então meu pae?...
—Não olhaste para elle nunca com os teus olhos... de vêr?
—Eu não senhor.
—Pois é preciso que olhes, entendes-me? disse-lhe Feliciano derrubando as sobrancelhas e deixando cair a viseira: talvez te agradem mais esses alfenins lambidos, que por ahi se andam a desfazer? Pois estás muito enganada comigo, percebes?...
E ao passo que ia fallando engrossava a voz e fazia cara de arremetter. Rosa tremia como varas verdes, e, com os olhos arrasados de lagrimas, encommendava se mentalmente a todos os santos do seu calendario.
Mal teve forças para balbuciar um:—sim senhor, meu pae,—e, cambaleando, foi fechar-se no seu quarto, deitando-se em cima da cama a soluçar convulsa, como quem se despedia d’este mundo.
No dia seguinte, ao almoço, parecia que voltava do cemiterio, Feliciano, porém, que se não apercebia facilmente d’estas mudanças, ou que, se as conhecia, fingia bem o contrario, repetiu o interrompido assalto.
—É preciso que vás pensando no casamento, estás uma mulher, ouviste?
Bem quizera a pobre da rapariga não ter ouvido; mas era impossivel dessimular.
—Eu, meu pae; estou assim bem, eu não quero casar!...
A resposta não se fez esperar muito. Feliciano soltou uma torrente de imprecações, acompanhamento estrepitoso de uma bofetada não menos estrepitosa, que já cortava os ares ainda bem a rapariga não acabára de dizer que não queria casar.