Part 3
E assim, padre, com a morte de minha mãe perdia eu muito mais do que outros a quem semelhante desgraça succede. Esses ao menos esperam tornar a vêl-a na outra vida, e a morte sómente lhes é como separação de pouco tempo.
Para mim era o apartamento eterno. Aquella cova roubava-me minha mãe para sempre. Nada ali me podia fallar e a terra ficava muda, como os céus já de ha muito o eram para mim.
O que senti então, Deus o sabe, que eu nem o posso dizer nem mesmo sei o que foi. Era como a planta enfezada, que se lhe vê partir o extremo esteio, sem encontrar mão amiga que a ampare, e que desde então receia a menor aragem que a faça encurvar, ou o menor encontro que a derrube.
Cresci, cresci, e a descrença continuou a crescer em mim. Semelhava-se aos animaes na dureza; a muitos na ferocidade, a todos no embrutecimento.
Por estes tempos ainda se me apresentou occasião de emenda; mas regato que de principio erra o caminho, não é quando se lhe engrossa a corrente com as cheias que póde tornar ao leito; nem planta que de pequena vae torcida, póde, quando cria maior tronco, ganhar a direitura que perdeu.
Uma mulher d’aquelles sitios, que vivia recatada em companhia de sua mãe e resguardada por ella, como o fructo pelas folhas, reparou em mim uma vez e tomou-se de amores por quem não a merecia.
Estas coisas não se explicam. Porque ha de a violeta dar-se e florescer escondida, quando outras flôres por ahi, que menos merecem ser vistas, não se querem senão nos jardins a bom recato e bem cuidadas?
Porque ha de aquelle pedaço de ferro dos relogios de sol aqui do campo voltar-se sempre para o mesmo lado; ou porque ha de a flôr das boas noites abrir-se ao pôr do sol e cerrar-se quando elle nasce?
Porque ha de a mulher perder-se de amores pelo homem que vê pela primeira vez, e que muitas vezes a esquece depois?
São mysterios da natureza, que ninguem póde devassar, mas que nem por isso deixam de existir.
Joanna, é o nome d’essa infeliz que ahi me chora aos pés da cama, amou sem que lh’o merecesse, e o seu amor, em vez de me abrir os olhos, mais m’os cerrou ainda.
Comecei a querer-lhe tambem. Como foi não o sei: mas desde esse momento todas as tardes nos procuravamos, e todas as tardes repetiamos juras de um amor eterno.
Começaram a estreitar-se as nossas relações como duas plantas que uma á outra ligadas mais se apertam com o crescer. Já na aldêa se murmurava, e já se espalhavam rumores contra a pobre Joanna, que se amofinava e entristecia.
Um modo facil de remediarmos tudo era o casamento; porém eu que não acreditava na santidade d’aquella ligação, não queria, nem por sombras, cair em semelhante fraqueza.
Ella acreditava em mim como n’um livro aberto. Convenci-a da loucura de seus desejos, e da fé que me prestava, nasceu a descrença na fé em que se creara. A minha maldade crestou a innocencia d’aquella virgem, como o mau vento cresta a relva: e a apaixonada donzella conheceu que era mulher, e envergonhou-se de o ser.
Como a flôr que perde as folhas e as bellezas quando se lhe desenvolve o fructo, tambem ella perdeu as rosas nas faces e as canduras da alma, quando conheceu que ia ser mãe: e de pejo do que soffrera, encerrou-se na sua magoa, como certos vermesinhos se involvem no casulo que lhe serve de protecção.
Para ninguem podia já ser mysterio o seu estado: a pobre mãe, que via a perdição da filha, deixou-se finar de magoa.
E nem uma flôr desfolhámos sobre a sua sepultura; nem uma queixa soltou a infeliz, porque dôres d’aquellas, não ha palavras que as expressem, como não ha côres que possam representar o negrume da tormenta.
Nossas mães, que hoje estão no céu, quantas lagrimas não carpiriam juntas, ao attentar nos desventurados erros de seus filhos; mas por mais que sobre nós ellas cahissem, de nada poderiam servir, como nenhuma chuva póde fertilisar o terreno maninho, ou a charneca esteril.
Desde então, padre, a minha vida tem sido um penar continuado, um soffrimento sem cessar.
O remorso rala-me a alma: a lembrança d’aquellas santas atormenta-me de dia e de noite: a vista da mulher, que perdi, desvaira-me; e a idéa da minha filha, a filha querida da minha alma, a quem não posso dar nome perante Deus, porque não foi ainda purificada pela agua santa do baptismo dos peccados de seus paes, nem perante os homens, porque seu pae e mãe não se podem assim chamar á face de mundo, quasi que me enlouquece.
E a duvida a perseguir-me como um demonio agachado em logar santo, e eu a abrir-lhe os braços como a seara ao fogo que a vae consumir, e a cerrar os olhos á fé, como a toupeira á luz do sol.
A natureza com as suas grandezas todas, a flôr com o seu aroma e côres, a ave com o seu cantar, o céu com as suas estrellas, e o mar com as suas ondas de prata, tem sido harmonias perdidas, que só me fallam do acaso e que nada mais me fazem lembrar. Tenho cerrado os olhos á luz e a alma á razão. Não tenho procurado coisa alguma no passado nem esperado do futuro.
Tenho sido o navio sem rumo e sem norte, que navega á tona d’agua; o viajante perdido, que não encontra fim ao caminho, nem trilho para voltar a d’onde partira.
Para que viera a este mundo, quando por acaso m’o perguntava a mim mesmo, era o que não sabia dizer; e cansado de o perguntar sem resposta, mudo de pensamento como o mendigo de porta a que tem batido debalde. Tenho-me supposto feliz e tenho vivido como as feras; tenho-me julgado senhor de mim porque não tenho conhecido o Senhor de todos.
Mas ha dias tudo se mudou em mim. Minha pobre filha sahira de manhã, e esteve lá por fóra mais do que o costume. Perguntei-lhe o que fizera, porque se demorára: e a sua resposta foi como a luz da madrugada rompendo em descampado para o viajante perdido.
«Meu pae, me disse, quando sai, ouvi ali defronte uma musica tão linda, tão linda como ainda não ouvira em minha vida outra semelhante. Vi uma porta aberta e entrei para ouvir melhor. Era uma casa muito grande, muito grande, e onde estava muita gente de joelhos.
«A musica vinha de uma janella de grades, d’onde saiam tambem vozes de senhoras; e os que ali estavam pareciam tão entretidos, que nem deram pela minha entrada. Com medo que me reprehendessem por ter entrado sem licença, perguntei a uma mulher, que me parecia boa pessoa, quem eram os donos d’aquella casa tão grande e que tão ricos deviam ser.
«Admirou-se da pergunta e disse-me se lhe fallava devéras.
«Devéras, minha senhora, eu não conheço ninguem d’esta terra; vim ha pouco tempo para aqui com meu pae e minha mãe, e nunca saio de casa.
«Pois olhe, minha filha, esta casa é uma egreja, e seus donos são aquelles que além estão, pae e mãe dos homens e do céu.
«Olhei e vi uma senhora e um homem, que me pareceram tão bons, tão tristes, que desatei a chorar.
«Elle estava de braços abertos, como o papá quando me chama para o seu collo, e ella parecia-me minha mãe, mais bonita ainda, quando está ao pé da cama olhando para mim com os olhos arrasados em lagrimas, emquanto não adormeço.
«Eu queria-lhes fallar, meu pae, conheço que me haviam de dizer muitas coisas boas, mas como me tem dito que não quer que converse com pessoa nenhuma de fóra, tive medo que ralhasse comigo, fui-me embora; mas com tanta pena! Por minha vontade estava ali sempre a olhar para elles até que olhassem para mim, e me fallassem tambem.»
Como ella chorára, chorei eu então. Aquella voz infantil veio despertar-me a fé adormecida, como á mãe extremosa, quando a dormir, os choros do filho querido.
Desde esse momento um raio de luz allumiou-me as trevas, em que vivia. A flôr, a terra, o mar e o céu, tiveram vozes que me fallavam e que eu percebia.
A flôr erguendo-se para as alturas; a terra levantando ao romper do sol os vapores tenues da madrugada como rolos de incenso á Divindade; o mar erriçando o seu dorso de vagas ao signal da tormenta e coroando-se de espumas; o céu recamado de estrellas, recordavam-me a existencia de Deus, creador de tudo que me cercava, e que em tudo tinha estampado o sello de suas mãos como o artifice nas suas obras.
Tambem o Senhor, que se parecia ter esquecido de mim, ao vêr-me arrependido lembrou-se de que existia: quer me chamar á sua presença, como o pastor, que ao vêr melhorias na rez contaminada, que lançou a monte, procura, pelos cuidados e disvelos, livral-a das enfermidades e males.
Hoje, padre, que avisto a immensidade da morte sem receio, e a eternidade sem pavor, hoje que tenho fé no meu Deus e esperança na salvação, peço-vos, padre, a benção para o contricto, e absolvição para o peccador.
—Eu te absolvo, disse o padre com voz solemne, que por muito tempo me estrugiu aos ouvidos, e o Senhor de caridade vos perdoa por minha bocca.
N’este momento em lagrimas chegou-se a pobre Joanna ao leito do moribundo: e a filhinha, que a acompanhava, ficou debaixo dos jorros d’agua que corriam em fio dos olhos de seus paes.
O parocho attentou n’aquella vista, e como levado por idéa do céu, disse, abençoando a creança:
Eu te baptiso em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo; as lagrimas de teu pae e as de tua mãe, peccadores mas arrependidos, essas lagrimas de contricção, tão gratas a Deus, te sirvam de agua de baptismo. Vae em paz, és christã.
Logo em seguida tratou de casar aquelles dois, que pela alma e pelo amor já estavam casados; e acabada a cerimonia, a alma do agonisante, que nada mais tinha que a prendesse á terra, começou a soltar-se do corpo para voar á morada eterna.
Elle conheceu-o, e com voz difficultada pela agonia disse ao sacerdote:
—Abri-me essa janella meu padre, vou morrer, quero adorar ainda o Creador na sua obra.
Um de nós correu a satisfazer-lhe a vontade. Já era manhã, e o sol vinha apparecendo fronteiro a romper por entre labaredas de fogo; o padre estava de costas para a janella; o vulto recortava-se-lhe sobre a luz, e os seus raios pareciam formar-lhe um resplendor de santo.—E se o era!
Desviou-se para o lado, e um raio de sol veio bater de chapa na face do agonisante; parecia um signal mandado por Deus em prova de perdão.
Foi elle quem chamou de novo á vida o que parecia já um cadaver, e lhe deixou proferir com grande esforço estas ultimas palavras:
—Illuminae minha alma com a vossa divina graça, como me allumia agora o sol, que desponta no firmamento, perdoae-me Senhor!
Passados momentos, o padre rezava sobre o cadaver as rezas de defunctos, e no dia seguinte nós todos iamos com os olhos arrasados de lagrimas, conduzir á sepultura o cadaver d’aquelle a cuja morte tinhamos assistido.
III
A proposito da missa do dia
Entre os trabalhadores da quinta, havia um chamado Antonio, bom rapaz, é verdade; mas que tinha um defeito, de que se não corrigia.
Era mentiroso, como os que o são, e quando o não acreditavam, amontoava juras, qual mais tremenda ou de mais responsabilidade e respeito para um homem de bem.
E era pena; porque poucos havia tão laboriosos como elle.
Era conhecido pelo—gallo da madrugada—titulo bem justificado em vista do que se apressava em concorrer ao trabalho: e não poucas vezes os pobres beneficios, que o seu magro peculio lhe permittia fazer, vinham a constar, pelos outros e não por elle, muito em seu abono e boa reputação.
O tio Joaquim, conselheiro honorario d’aquella republica tinha-o reprehendido muito; mas aquelle maldito sestro não o queria o Antonio perder nem a bem nem a mal. Era o seu senão, que lhe acarretava não poucos dissabores e com o que não pouco prejudicava os outros.
Era n’um domingo, e depois da missa do dia, no adro da egreja estavam reunidos, em mó, os saloios d’aquelles sitios que tinham concorrido ao santo sacrificio. De fatos domingueiros, e varapaus ferrados, discorriam pelas novidades do logar, exactamente como os nossos elegantes á porta do Marrare, ou nas salas do Gremio.
Diga se a verdade; as Marias e as Joannas não deixavam de influir n’aquellas reuniões, porque não poucos eram os que ali compareciam levando em mira fallar ás suas requestadas, ensaiar requebros, ou ajustar entretenimentos para as horas de sesta ou para as tardes dos dias santos.
O nosso Antonio tambem não faltava á reunião, e já por mais de uma vez fizera das suas, sem consequencias de maior, pelo pouco credito que tinham n’aquelle mercado campestre as notas do nosso caramboleiro.
Havia no logar uma rapariga que se podia chamar uma perfeição, e que fazia tanta differença das suas companheiras, como a rosa de musgo das rosas carrasqueiras dos vallados.
Era gentil e mimosa, não tinha as côres de saude, nem aquelle acerejado do sol, ou fórmas robustas e quasi viris da raparigada do campo; mas era mais esbelta, mais pallida, mais clara e com uns olhos tão negros, tão negros, que lhe saiam da alvura do rosto, como dois diamantes negros engastados em esmalte branco.
Vivia arredada e em recato, e não apparecia em arraial ou festa, senão de anno em anno e quasi por milagre.
Chamavam-lhe—a fidalga,—e o nome casava tanto com a sua distincção de maneiras e garbo de porte, como o soar das ave-marias com os descampados das serras.
Como já se deve suppôr, os fragatas da terra tinham pretendido as honras de arrojado; mas debalde, porque os rejeitava, e quasi todos descoroçoados tinham desistido da empreza.
Digo quasi todos, porque dois ainda lhe arrastavam a aza, um, (aqui em segredo,) era attendido e bem olhado; o outro, mais feliz, nem fallar n’isso é bom, mordia-se de raiva pelos desdens que soffria, e pelo pouco em que eram tidos os seus requebros e paixões.
A escolha de Emilia tinha sido acertada, porque o José da Avó era o mais guapo moço d’aquellas duas leguas em redor. Desempenado e direito como uma vara de abrunheiro, valente como um pau de carrasco, generoso e de brio, como nenhum: nem o mais pintado lhe levava as lampas em trabalho de fazenda, em jogos de pau, ou em balharicos de domingo.
E cantigas! Sabia-as elle cantar, como os que as sabem; entoava uma desgarrada ou sustentava um desafio, mais afinado e a preceito do que muitos d’esses italianos em segunda mão, que os empresarios nos impõem como notabilidades cantantes.
O outro pretendente não era muito cheio de não presta: mas ao pé do José da Avó ficava a perder de vista, o que não admira; porque vasados n’aquelles moldes não havia muitos no logar. Elle porém, como não queria attender á razão, damnava-se jurando pela pelle do ditoso preferido.
Este era o estado da questão na manhã do tal domingo, e os dois rivaes conservavam-se a distancia respeitosa no meio de dois grupos distinctos.
Tinha saido já quasi toda a gente da egreja, quando Emilia se retirou, sem que lhe faltassem commentarios, emquanto passava por meio dos grupos.
—Olha a delambida! soltou d’ali uma das raparigas mais feias da terra, parece que vae com o rei na barriga, nem olha para a gente.
—Era o que faltava, a fidalga!
—Vae toda enlevada no seu José, tem medo que lh’o tirem do lance.
N’isto o nosso Antonio, que não queria ficar atraz, tambem se intrometteu na conversa, dizendo com modos de quem estava corrente com os mysterios d’aquelle circulo:
—Pois faz elle bem em perder o seu tempo, porque ainda não ha muito que vi o Miguel de conversa com ella á porta de casa, e pelos geitos que a coisa levava, não era a primeira vez que se fallavam.
—Ora tu sempre tens uma lingua!
—Um raio me parta se minto; tinha-me calado e feito vista grossa, mas agora ferveu-me o sangue quando a vi assim como quem queria deitar lama para a cara da gente.
As palavras de Antonio não tinham caido no chão. José, desconfiado como todos, estivera de ouvido á escuta e não perdera nem syllaba. N’outra occasião voltaria de certo as costas ao maldizente, mas d’esta vez mudava o caso de figura: o ciume acreditava a voz do mentiroso e a tremer chegou-se ao pé d’elle, perguntando-lhe com voz indecisa:
—Juras que é verdade o que acabas de dizer?
—Se é! os diabos me levem se minto; eu por mim não queria causar-te nenhuma aquella; mas assim como assim mais tarde ou mais cedo havias de vir a sabel-o; e, verdade verdade, ella não te merece.
—Basta, lhe retorquiu o pobre José, e foi-se como um raio até onde estava o supposto arrojado.
Inutil é dizer que tinha sido tudo isto enredos e obra de Antonio. Soltára as primeiras palavras como por demais, sustentára o dito por capricho, mais tarde para que não suppozessem que tornára com a falla ao bucho por medroso.
Do outro lado do adro uma floresta de paus se levantava no ar, e já as navalhas estavam fóra das algibeiras; os dois tinham-se travado de razões, e como palavra puxa palavra, tinham passado dos ditos a vias de facto e malhavam um no outro como se fosse um monte de milho.
Ambos tinham partidarios, e por conseguinte a lucta assumiu proporções maiores; porém por muito encarniçada que fosse entre os partidos, parecia um brinco de creanças á vista d’aquella em que os dois se tinham travado. Davam como quem se despedia do mundo, e como quem desejava vêr estendido no chão o seu contrario.
Ao principio arrancaram dos paus e começaram a atirar as primeiras pancadas, que quasi todas cairam em cheio; até que Miguel, depois de ter jogado umas poucas de sortes ao seu adversario, e como ambos estavam _descobertos_ e só queriam dar, dissimulando uma pancada á cabeça, lhe dirigiu o pau por meia volta no ar ás pernas. Quando lá chegou já o seu adversario o tinha procurado aparar, porém tanto em mal, e tão puxada d’alma ia a contraria, que o pau colhido no meio, não o aguentou e partiu-se; e o outro não encontrando resistencia no corpo de José, porque elle já lh’o tinha furtado, foi de encontro ás pedras do adro e partiu-se tambem.
Vendo-se desarmado, Miguel não perdeu tempo: correu sobre o inimigo com uma navalha e baldeou-o logo no chão jorrando sangue por uma ferida no ventre.
O assassino, apenas commettido o crime, tomou as de Villa Diogo, e a desordem começou a apaziguar-se com a chegada dos cabos da terra, que tratavam de remover o ferido e de prender os combatentes.
O causador de tudo isto tinha, logo que viu tomar ao caso uma feição que lhe não suppozera, procurando socegar o motim, confessando a sua mentira, porém já era tarde, n’aquellas alturas qualquer intervenção seria inutil; teve pois de assistir arrepelando-se, dizendo mal á sua vida, áquella triste scena, e promettendo, com mil juras que não mentiria nunca mais; ajudou soluçando a levar o ferido para sua casa na maca, que tinham ido buscar, e accusando-se todo o caminho de ter sido elle, e só elle, o culpado de tudo que succedera.
Nos tres dias, que succederam á catastrophe, não se fallou n’outra coisa nos serões da quinta. Conhecia-se que o tio Joaquim por vezes tinha vontade de fallar, porém tão sincero lhe parecia o arrependimento de Antonio, que sempre desistia do intento. Uma noite, porém, o nosso mentiroso, já esquecido das juras que fizera, começou, por uma coisa que nada valia, a invocar os santos todos do Paraizo em seu testemunho, e a pedir raios e coriscos para castigo se mentisse.
O velho narrador d’essa vez saltou lhe no gallinheiro, dizendo com aquella placidez de espirito, que tão habitual lhe era:
—Este Antonio faz-me lembrar o João da Tenda, que vivia lá em baixo ao pé das casas do mestre Raymundo e que por dez réis de mel coado fazia juras e protestos ás carradas. Em mal lhe deu o vicio, coitado!
—O que lhe aconteceu, tio Joaquim?
—O que foi, o que foi?
—Conte, conte; ha tanto tempo que lhe não ouvimos uma historia!
—Pois bem, soceguem, que lhe não faltarei hoje, e não será por culpa minha se esta lhes não agradar.
O pobre do Antonio tinha pedido misericordia com um olhar de supplica: mas o velho compromettera palavra e não havia de se esquivar á promessa.
—Diz lá o rifão: «quem compra e mente na bolsa o sente;» como diz tambem: «homem de boa lei tem palavra como rei», isto era quando os reis tinham palavra, se alguma vez a tiveram, que d’essas coisas não sei eu, e quando não faltavam ao que promettiam.
O que é verdade é, que se o mentir prejudica a honra e o corpo, não menos prejudica a alma estar, por dá cá aquella palha a fallar no santo nome de Deus, e no dos santos, que não são pontos com que se brinque.
Nenhum, dos que aqui estão, vae incommodar o patrão para coisas que não valem a pena, e muito menos por conseguinte devem ir bater á porta dos patrões mais subidos, para de mais a mais os tomarem para testemunhas e parceiros de coisas que não só não valem a pena, mas que são mentiras ainda em cima. E depois, quando se apanha fama de mentiroso, não ha quem nos acredite por mais que deitemos os bofes pela bocca fóra, e ainda mesmo que fallemos a verdade. Mau é dizer-se que o cão é damnado.
—Mas se fôr para fazer bem, não se deve mentir tio Joaquim?
—Para tudo ha remedio. Uns homens que perseguiam outro, perguntaram a um santo, que encontraram no caminho, se tinha visto passar o malfeitor.
O bom do santo tinha-o visto, não havia muito; mas nem o queria denunciar, nem mentir tambem: já vêem que elle estava n’esse caso, e que se devia vêr a perros.
—É verdade, é verdade, e que respondeu?
—Que por ali não passára; e como estava com as mãos nas mangas, apontou para dentro d’uma d’ellas, por onde de certo o tal homem não podia caber.
—Ora! exclamaram alguns dos circumstantes, como admirados.
—Parecia santo saloio, tornou d’alli um _ratinho_, ultimamente embaçado na compra d’uma enchada.
—Nada que não, respondeu lhe logo o vendedor, que o percebera á legua, não tinha alma de beirão, que lá diz o dictado: no bom beirão corpo e alma pequenos são.
Talvez a questão se azedasse mais se o tio Joaquim os não interrompesse logo gritando: leva de rumor, vamos á historia do João da Tenda.
Quando vim para esta terra, já vae n’um par de annos, tinha elle uma lojasita lá no largo de baixo, mesmo á esquina da estrada real. Era um pequeno modo de vida, que bem cultivado podia produzir bastante; mas como havia descuido no amanho a colheita foi infeliz.
N’estas coisas de negocio a reputação de homem de palavra se não é ouro de lei vale-o bem; e d’esta riqueza o bom do João era mais pobre do que Job.
Ninguem se fiava n’elle e o credito diminuia cada vez mais. Direito em contas e honrado era: porém aquelle sestro maldito de mentir por dá cá aquella palha, a mania de fazer juras e protestos, que nunca se realisavam, fazia com que lhe roessem a corda na maioria dos ajustes, sem que tivesse direito de se queixar, porque não era mais do que pagar-lhe na mesma moeda.
Assim iam os tempos e o negocio corria-lhe por agua abaixo.
Para maior desgraça, no sitio onde não havia senão a loja do João, veio estabelecer-se uma outra e tirar-lhe a freguezia.
Era do José Fernandes, que ainda hoje lá a tem no mesmo logar, e que sabendo o valor do dictado—cara alegre ganha vontades,—tratou, emquanto o seu visinho andava de maus modos, porque os tempos iam maus tambem, de chamar freguezes, tratando-os ás mil maravilhas, e desfazendo-se em bons serviços.
João tinha uma filha, a menina dos seus olhos, e uma flôr de enche-mão. Mais guapa rapariga não havia de certo por aquella meia duzia de leguas em redor; e se tivesse nascido na cidade, se lhe tivessem debastado as grossuras dos campos com a plaina das fidalguias, metteria de certo a um canto essas arrebicadas, que para ahi vem passar os verões e que parece que se estão mesmo a desfazer.
É bem certo, que não ha panella sem testo, e para vasilha de tão fina loiça, é preciso que a tampa lhe não desmereça da qualidade.
E assim era o arrojado de Joaquina: rapaz bem feito e espigado, forte de corpo e affeiçoado de rosto, um d’estes de quem não ha nada que deitar fóra.
Como é de crêr, entendiam-se que era um regalo, e morriam um pelo outro. E que bem acertado por elles eram! Joaquina, delicada e fina como uma rosa de toucar, ou uma flôr de madre-silva: Domingos, forte como um zambujeiro e direito como um prumo.