Part 2
Mas, ainda assim, havia compensação para nós na chegada da noite. Havia, porque de ante-mão contavamos passar essas horas, não muitas, que no campo precedem o deitar, n’uma conversa singella, e innocente; mas que d’essa singelleza e innocencia tirava os encantos que lhe sentiamos.
Á bocca da noite recolhiam os trabalhadores, os _maltezes_ como ali lhe chamam, do trabalho e entravam para uma d’essas cosinhas do campo, tão nossas, tão conhecidas de todos: e que não faltam em quinta alguma de certa ordem.
Esperava-os um bom lume e uma boa ceia, e sobretudo esperava-os, que era o que elles mais queriam, as historias do tio Joaquim, e as suas narrações cheias de verdade e de moral.
Quem era o tio Joaquim, o que fôra, que papel representava, são perguntas, que naturalmente hão de vir á bocca dos nossos leitores, se os tivermos, e a que não poderemos responder como desejâmos. Tinha apparecido depois de uma das nossas guerras civis, e tinha pedido trabalho a um dos fazendeiros mais ricos do logar. D’onde viera, se alguem lh’o perguntava podia contar com a seguinte resposta, que não poucas vezes lhe ouvimos repetir: importem-se com a sua vida e deixem-me, que nada tenho que lhes contar; baste-lhes saber o que sou hoje, e não o que fui; agrada-lhes o meu trabalho; estão contentes comigo, que teem com o resto. Sempre ouvi dizer, que homem que muito se occupa dos outros, é porque se não póde occupar de si.
Todos voltavam sabendo talvez menos do que até então sabiam; mas curados da sua curiosidade indiscreta.
E depois, o tio Joaquim era velho, tinha sido honrado sempre, ninguem como elle sabia guiar uma junta de bois, conduzir a rabiça d’um arado, ou fallar do tempo, olhando para as estrellas; na poda e na empa ninguem se lhe punha ao lado, e quando era necessario fazer um pé de lagar, ou erguer uma meda de pão, já era sabido que sempre o escutavam e lhe seguiam sempre os conselhos. No contar de historias não fallemos. O tio Joaquim era um livro aberto, como por ali diziam: e dava sota e az ao barbeiro do logar e ao mestre de meninos.
Este, contra as leis constitucionaes do paiz, ás quaes, aqui para nós, não era muito affeiçoado, accumulava ao seu mister de educador da mocidade, além dos empregos de escrivão de juiz de paz, escanhoador, tendeiro, agiota e outros encargos nem por isso muito compativeis, uma maledicencia sem egual. Pois cuidam que se atrevia a boquejar do tio Joaquim? Nem por sombras. Verdade é tambem, que lhe não fazia elogios, mas quando se tratava d’elle mudava logo de conversa, fazendo um tregeito desapprovador.
Diziam as velhas d’aquelles sitios, que eu não o sei ao certo pois nunca tratei de o averiguar, que o mestre Francisco, tal era o nome do professor, tinha tido n’outros tempos seus dares e tomares com o tio Joaquim, dos quaes tinha saido de cara a uma banda. Entretanto o silencio do mestre de meninos não influia pouco para a reputação favoravel do nosso bom velho, porque se dizia:—é tão boa pessoa, que o mestre Francisco não diz mal d’elle.
Pobre tio Joaquim! Assisti-lhe aos ultimos momentos e poude fazer idéa do que era a morte do justo. Sorria ainda, e já era cadaver. A hora do passamento foi para elle tão suave como o desprender da folha secca em manhã de outono. Momentos antes de fallecer voltou-se para o meu lado, e disse-me affavel e bondoso como sempre: _agora acabaram-se os contos. Lembre-se de mim, quando se lembrar d’elles, é a herança que lhe deixo_. Levou a mão ao peito, apertou um saquinho, que trazia pendente de um cordão, e que mostrava conter uma reliquia, voltou os olhos para o céo, pareceu procurar o rumo que a alma ia seguir em breve cortando o espaço, e expirou.
Foram as primeiras lagrimas, que derramei na minha vida; até então não sabia o que era morrer.
Guardei a herança. Bem ou mal administrada ella ahi vae em parte, tal como a memoria a conserva; mas não como me foi doada.
Havia um cunho tal de ingenuidade n’aquellas narrações, uma tal poesia e mimo de imagem, uma fluencia de dicção e uma propriedade de termos, que embora as procuremos imitar, não o conseguiremos nunca.
E não supponham, entretanto, que fosse buscar a figura ou a comparação a coisas de grande altura; ás sciencias, ou á historia: que ornamentasse o periodo com flores de rethorica, ou que procurasse guindar e alambicar a phrase, como tanta gente que por ahi vemos. Nada d’isso. Mais prudente e mais feliz, pois não commettia barbaridades, o tio Joaquim não saía dos limites das intelligencias dos seus ouvintes e ia buscar aos campos, ás flores, á agricultura, á mesma casa, (quantas vezes!) os _similes_ de que se servia. Tudo era comesinho e humilde, sem ser rasteiro, e muitas vezes alcançava elle o que não conseguem muitos litteratos de polpa depois de terem trabalhado deveras—o sublime na simplicidade.
Mas nem só o estylo tornava recommendaveis os seus contos: se assim fôra, não ousariamos nunca encetar similhante tarefa. A idéa moral, que d’elles se deprehendia facilmente, a simplicidade dos episodios, e as curtas dimensões, que elle lhes dava, faziam com que fossem por mais d’um respeito dignos de publicidade. Confiados n’isto mesmo tambem é que começâmos esta collecção, de que somos meros reproductores, cabendo toda a gloria se a houver, ao tio Joaquim, e o desdoiro todo áquelles, que estragando-a talvez, a vêem agora dar ao publico.
Entre nós, n’estes ultimos tempos sobretudo, a litteratura tem despresado um tanto o gosto popular.
Não acontece, porém, o mesmo em França, em Allemanha e nos demais paizes, em que, segundo nos consta, se cura d’estas coisas e se lhes attendem os resultados. Muitos homens de vulto, intelligencias eminentemente superiores, tem-se approximado das turbas, e as obras, que se tem publicado com este intuito, não são as que menos contribuem para a sua gloria.
Dois exemplos bastarão: Lamartine e Emile Souvestre: o auctor da Genoveva e Canteiro de Saint-Point, e o auctor de _Coin du feu_ e do _Philosophe sous les toits_. Ambos tem vindo por vezes conversar, como amigos e parceiros, com as classes rudes; ambos se teem por vezes esforçado para lhes fazer comprehender as suas idéas, e, tem conseguido verem-as admittidas e bemquistas na officina do operario, e na agua furtada do infeliz.
Sacrosanta missão da imprensa, como é admiravel e veneranda, quando evangelisa as turbas, dando consolação ao desgraçado e conforto ao que desanima! Como nos sentimos enlevar de respeito perante essa instituição maravilhosa, quando vemos os seus fructos sem vicio e sem defeito, alimentarem o que pede o pão do espirito, e darem refrigerio ao peregrino resequido d’este grande Saharah em que vivemos! É então, e não quando a vemos maculada pelas viltas e polemicas indecorosas, que devemos bemdizer os seus inventores, e pagar o devido tributo ao genio que similhante dadiva nos legou.
Mas não é esta a melhor occasião para similhantes dissertações; perdoem-nos o divagar intempestivo, e, se nol-o permittem, iremos ligar o nosso interrompido assumpto, no ponto em que o deixámos, ha pouco.
Os contos do tio Joaquim pertencem ao genero das obras de Emile Souvestre e deveriam tomar logar, pela natureza e não pelo merito, proximo d’aquella mimosa collecção que elle intitula—_Au Coin du feu_. Dir-se-hia mesmo, que inspirado por este bello livro, se não commettia um plagiato, resentia-se muito da leitura do auctor francez; porém o tio Joaquim nunca soube ler e por isso nem de longe poude cahir em tão feio peccado.
Não é a primeira vez que a ignorancia se apresenta como pretexto para a originalidade de muito escriptor publico. Não é para admirar, que este nosso que se estrêa, comece no mesmo ponto, d’onde muitos, que já são veteranos, não teem podido passar.
As historias que lhe ouvimos são em grande numero. Não apresentaremos n’este livro senão as que mais notaveis nos pareceram e que mais profunda impressão nos deixaram, procurando, quanto nos fôr possivel, aproximar-nos d’aquella engraçada ingenuidade, que tanto nos encantava, quando lhe ouvimos a palavra facil e singela.
Não conseguiremos de certo imprimir-lhes aquelle cunho de originalidade, que o narrador lhes dava. Oxalá que possamos ao menos, fazer com que os nossos leitores passem algumas horas entretidas n’esta leitura: e que, esquecendo-se embora da pessoa que lh’as apresenta, não se esqueçam de todo do velho tio Joaquim.
II
O romance d’um sceptico d’aldeia
De tantos contos, que ouvi ao tio Joaquim, foi o seguinte, que maior impressão me produziu.
Tinha morrido nos sitios um fazendeiro, que não gosava de boa fama, e ao lembrarem-se d’elle começaram os homens do trabalho a cortar-lhe um pouco na pelle.
O tio Joaquim desde que se fallára no finado, fôra gradualmente entristecendo; e pela primeira vez na sua vida caiu-lhe a colher da mão, quando ia começar a comer.
Os maltezes, que estimavam devéras o velho narrador começaram a preoccupar-se com similhante tristeza, e, antes de acabar a ceia, já estavam todos em roda d’elle, a perguntar-lhe o que tinha.
—A morte do Manuel Simões fez lembrar um caso, a que assisti, ha tempos, quem sabe se o Manuel padeceria tanto como o outro, que eu vi morrer.
—Conta-nos isso, tio Joaquim?
—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.
Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:
Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro, afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores. Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos cabellos e barbas dos freguezes.
Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se passava pelos sitios.
Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não poucas vezes acogulada de mentiras.
De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr, que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de Christo.
E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os braços de fóra, quando estava presente.
—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho, conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar, casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.
O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a desfaz, por que não a tem feita.
Era n’um domingo de manhã e a loja do mestre Ignacio estava a deitar por fóra. O dono da casa tinha acabado de talhar umas poucas de carapuças e encaixava-as nas cabeças para que as talhára, quando entrou o padre prior. Calou-se logo o velho e deu um ponto na bocca; porém o padre, que lhe sabia da balda, e que desconfiou da alhada, começou a fazer-lhe a cama, quasi do feitio que acabei de lhes contar, e por modos taes, que deixou o pobre do homem em lençoes de vinho.
Os que por ali estavam, que não eram muito affectos ao dono da casa, e que por vezes tinham apanhado tambem a sua maquia, começaram a rir, e aos ditos, mais ajudando ainda para o deixar em tallas.
Elle já dizia mal á sua vida: para mostrar que não ia muito do vivo ao pintado, já tinha assente um formidavel lanho na cara d’um pobre trabalhador, que lhe caira nas unhas, e promettia continuar quando um novo freguez, que entrou na loja o veiu tirar do aperto em que se via, pondo ao mesmo tempo uma rolha na bocca de todos.
Nem mais um abriu bico. Parecia uma mó de creanças, que estando a fazer grande algaraviada em casa de escola, vêem chegar o mestre armado de palmatoria e com modos de dar a torto e a direito. Ficam logo calladinhos, que nem ratos; mas ainda bem o mestre não tem dado costas, tornam á mesma, ou ainda a peior, fazendo uma ingresia infernal.
Assim foram os nossos amigos. Alguns d’elles até pareceram que viam lobo, e tanto se lhes puzeram os cabellos em pé, que o mestre teve de dar mais vezes novo fio ás navalhas, porque já não queriam cortar nem por um Christo: elle mesmo, apesar de pouco medroso, sentiu seus calafrios, quando deu de rosto com o recem-chegado.
Este não era nenhuma cara de metter medo, mas tambem não mostrava ser de muitos amigos. Entre os trinta e os trinta e cinco, os cabellos já se lhe começavam a encher de brancas, e a cara de rugas. Parecia triste; e sem dar nem uma palavra esteve na loja até que lhe chegou a sua vez, barbeou-se e saiu, cumprimentando todos á saída como o tinha feito á entrada.
Levou comsigo a callada. Apenas voltou para a azinhaga mais proxima começaram todos a desenferrujar a lingua, como se tivessem medo de que lhes ficasse lesa com o tempo, que estivera sem bulir. E como de razão, foi o mestre Ignacio, quem atirou primeiro a sua bola.
—Excommungado d’uma figa! Cruzes demonio, e embirrou com a minha loja o maldito.
—Parece que anda em peccado mortal!
—Podera não, se elle desde que veio para estes sitios não foi ainda á missa.
—E que olhos que deita para a gente? Pae do céo! É capaz de nos dar quebranto!
—Sim, que o não deu outro dia a uma jumenta da Felicia, que desde que elle a viu não teve uma hora de saude.
—Quem a Felicia?
—Não a jumenta; se elle é lobishomem!
—Callem-se lá, leva de má lingua, parece-me que já é de mais; estarão vocês tão limpos de consciencia, para assim poderem entrar pela terra alheia, como se fosse roupa de francezes?
Era a voz do bom prior. Apenas tinha começado a ladainha, procurára logo pôr-lhe cobro, mas foi trabalho de malhar em ferro frio. Era um dize tu, direi eu, que promettia não ter fim. Todos queriam molhar a sua sopa; porém quando um carreiro velho, que era pessoa acreditada na loja, affiançou que o tal estrangeiro tinha embruxado a burra da tia Felicia e que era lobishomem, ficaram todos passados em pontos de admiração por um instante, e n’essa occasião mesmo, é que o prior poude socegar aquella algaravia.
Ninguem se atreveu a retrucar. Todos tinham os seus podresitos mais ou menos, que o parocho sabia; e por isso todos metteram a viola no sacco, quando lhes foi com as mãos á cara, fallando lhes nas suas culpas. Porém o mestre Ignacio, que não era homem de se atrapalhar com qualquer coisa, quiz vêr se fazia frente ainda, e se podia continuar amolando o caso.
—Mas perdôe a sua palavra honrada, sua reverendissima bem sabe que desde que veio para aqui este homem ainda nem appareceu na egreja, nem em logar de reza, ou em festas da freguezia.
—O que tem o mestre com isso? Todos fallam, fallam sem saberem o que dizem, o caso é dar á lingua. Esse homem não é nenhum hereje, eu sei quem é. Se não vae á egreja, talvez que a egreja vá ter com elle. O mestre bem sabe que não é esta a primeira pessoa de quem se duvida; outros havia que nem por muito irem á egreja, passavam por christãos de lei.
O padre tinha dado no vinte. O barbeiro ficou sem tugir nem mugir, porque se lembrava da fama de judeu que por aquelles sitios tivera, e que lhe ia acarretando mais de uma carga de pau; os outros, que viram as barbas do visinho a arder, foram deitando as suas de molho, esgueirando-se á formiga, apenas acabaram de fazer a barba.
O remedio do parocho não produziu effeito; por que, dias depois, já tornavam á mesma: agora se tinham razão julguem-n’o lá pela historia do tal homem, que mais tarde vim a saber.
O freguez com que tanto se estomagára o mestre Ignacio, tinha vindo para aquelles logares havia dez annos pelos tempos das vindimas. Alugára uma casita pequena, que fica mesmo defronte da egreja, onde está agora o Manoel Ferrador, e que tem vae por meia duzia de geiras de pertenças: para ali se mettera com mulher e filhita que trazia comsigo.
Parecia gente morta, não saiam nunca, salvo a mulher, que de manhã cedo ia aos seus arranjos: e não procuravam dar-se com pessoa alguma da visinhança. E lá n’isso faziam bem, que a maior parte das vezes estas velhas onzeneiras e visinhas palradoras vão ás casas dos outros para darem fé do que lá se passa, e para depois á porta da rua, á tarde ou pela manhã, cortarem pelas vidas alheias como ferro de arado por terra mechida de fresco.
O que é verdade porém, é que este seu systema, não lhe tinha creado amigos, nem levantado uma reputação de encher as medidas. Todos murmuravam d’aquelle modo de viver, e estavam de alcatêa sempre para vêr se achavam fio á meada.
Tinham reparado por vezes que a pobre mulher, que parecia boa pessoa, saía quasi sempre com os olhos inchados e como quem acabava de chorar; mas por mais que se pozessem á escuta não tinham topado nunca signaes de ralhos ou resingas: antes se poderia dizer, se o dono da casa não tivesse tão má fama, que viviam como Deus com os anjos.
Uma noite, alta noite, já tinham cantado os gallos, morava eu então ao pé da freguezia, ouvi tocar a Nosso Pae fóra, levantei-me e fui acompanhar o viatico. Era para casa do mesmo homem, que tinha visto, pela primeira vez, na loja do mestre Ignacio, e que estava para dar a alma a Deus.
Como o caso não era para se estar com pannos mornos, o parocho tratou de começar a confissão, e nós quizemos sair do quarto, para deixar o doente mais á sua vontade, como é costume. Elle porém não o consentiu, e, fazendo-nos signal para ficar, disse-nos com modos que me não passaram ainda:
—Grandes foram os meus peccados, se esta historia lhes poder aproveitar, que a oiçam todos; porque só assim servirei a alguem.
Não havia que dizer, e de mais a mais o demo da curiosidade apertava comnosco. Ficámos, e na verdade disse coisas para se ouvirem.
O quarto estava allumiado por uma lamparina a tremelicar e a dizer adeus. A luz, que espalhava pela casa tinha um tanto de soturna e de aterradora. Á cabeceira estava o padre, a alvejarem-lhe as roupas e cercado por um não sei que, mais do céo do que da terra; a seu lado, o moribundo, estendido na cama, e estorcendo-se na agonia.
Têem visto lá para o Minho, ao pé dos castanheiros, uma videira que levou um córte na cepa, e que em vez de enleiada aos troncos da arvore, se lhe roja pelo chão, quasi a morrer, como uma cobra, que leva com uma pedra na cabeça? Pois assim me parecia aquella vista, bem triste que ella era!
Mas o que me cortou o coração foi vêr a triste senhora lavada em lagrimas aos pés da cama, de joelhos, abraçada a uma creança que teria quando muito tres annos, e que, adivinhando o que ali se passava, tambem carpia, gritando quasi sem parar:
—Não quero que o pae morra, não quero que o pae vá para o céo!
Era uma dôr d’alma, e tanto me impressionou aquelle espectaculo, que, palavra a palavra, me lembra do que ouvi n’aquella casa.
—Meu padre, dizia o moribundo com voz sumida, conheço que a minha hora chegou, e preciso partir para essa jornada tremenda, limpo de culpas e cheio de arrependimento. Grande me vae esta empreza, mas com o perdão de Deus e vosso auxilio, espero leval-a ao cabo.
—Descance: a misericordia do Senhor é infinita, e se os meus soccorros lhe poderem servir, aqui estou d’alma e coração, como é meu dever, para lh’os ministrar.
—Ouça-me pois, meu padre, e na historia da minha vida veja a razão da minha desgraça.
—Para todo o peccado ha remedio na egreja; falle, e não se arreceie.
O moribundo começou assim:
—De ruim semente fraco fructo poderia sair, e meu pae, Deus lhe falle n’alma, andou n’este mundo, mais cuidando da vida em que vivia, do que da outra em que devia durar eternamente.
No seu tempo, d’involta com os livros bons, havia misturadas, como o joio com o trigo, essas más obras vindas de França, e algumas mesmo d’aqui, que prégavam a falta de religião e o despreso pela Divindade.
Pelo menos elle assim o acreditava, e esse effeito lhe tinham produzido. Mais tarde vim a saber que valiam muito, mas que não era para gente rude, que não as percebia, que só lhes apanhava o mau, mais facil de colher, deixando de parte o bom, que andava mais escondido.
O mesmo acontece ao podador novato, que deita fóra a vara do vinho, deixando em vez d’ella as outras que devia cortar.
Mas lá diz o rifão: quem não sabe é como quem não vê; e meu pae, andava tanto ás escuras, que fugia da luz da graça, como lobo do povoado.
Assim me creei, e assim vivi tambem até agora, e Deus sabe quantos desgostos me tem custado esta minha triste cegueira!
Pobre de mim! Não me lembrava de que o homem anda cá n’este mundo como o arado em terra de semeadura. Se o lavrador não tem mão na rabiça ou se descuida do trabalho, eil-o ahi vae corrido com os bois, como o homem com as paixões por terras e ribanceiras, enterrando-se aqui a mais não poder andar, resvalando além a não deixar rego.
Assim me ensinára meu pae, com magua bastante de minha mãe, que se finava e padecia; e assim ía creando meus filhos, se o lavrador sagrado, que lá de cima nos vê, me não encaminhasse, lançando mão do arado, que ameaçava partir-se de encontro aos barrancos d’este mundo.
Ainda em creança, os rapazes do sitio fugiam, quando procurava brincar com elles. Chamavam-me o _diabo pequeno_, e temiam-se de mim como do fogo. Eu em paga escarnecia-os por irem á egreja, ou dava-lhes pancada de cego quando fugiam de brincar comigo.
Todavia soffria immenso por me vêr sósinho.
Os entretenimentos de creança, que tanto agradam nas primeiras edades, não eram para mim, que vivia como o espargo no monte, á ventura e ao desamparo.
É voz do povo: só se veja quem só se deseja, e rifão bem verdadeiro. Tambem o é que a solidão nos dá maus conselhos e causa os maus pensamentos.
A planta lançada á terra sem cultura e sem cuidados, vegetando em mau torrão, crestada das geadas e dos soes, e sacudida dos ventos; se cria vigor e robustez, tambem ganha espinhos para os troncos e amargo para os fructos.
Entregue só a mim, conhecia que o coração se empedernia e apertava, ficando de rija tempera, sem se dobrar á compaixão nem ao amor do proximo. Se eu era assim, a culpa não era minha de todo; mas o castigo, esse aguentei-o em cheio.
Muito em creança me faltou minha mãe. E a triste consolação de a acompanhar á sepultura, de rezar por ella na egreja, de lhe derramar lagrimas e agua benta sobre a cova, foram coisas que a minha má sina me prohibiu.
Entrar na egreja, eu, e provar fraquezas dobrando-me a pedir ao Senhor! Não o podia, era de vil, e não de um espirito forte e desamparado de credulidades de velhas. Ir sobre uma pouca de terra, onde alguns ossos ficavam e a carne se apodrecia, recitar orações, em que não acreditava, era loucura que não devia praticar!