Part 15
—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez seja esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos irmãos e infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu filho, animo.
Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem em mó, e se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas outras; assim os frades se apinhavam junto ás portas do convento, espavoridos, tremulos, espalhando vistas atterradas para todos os lados, e escutando os pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os ares.
Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia, que a intelligencia forte e arrojada exerce sempre n’uma corporação naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um pouco os animos.
Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em confortar os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com esperanças de melhor futuro; em que elle acreditava menos do que ninguem.
As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de victoria, pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos sons misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós em turbilhões e redemoinhos como o vento da tempestade.
Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por seu lado, a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o poder da vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos; entretanto os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o rasto do fogo annunciava a approximação dos guerrilhas.
Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os inimigos, deante dos quaes fugiam em debandada alguns miliciannos da terra, que por momentos tinham pensado em bater-se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças e das mulheres, ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade, avidos de sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram, erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o psalmo dos agonisantes.
As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa presença; ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões dos frades,—e apontaram as espingardas.
Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:
—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os frades obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no chão; os tiros partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas cabeças, e uma só feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais distante.
Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas a que atirou o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções, caindo, erguendo-se, de rastos, gritando, gemendo, mas correndo quanto podiam.
Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois da primeira descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.
V
Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a saquear e a devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se conhecer de seus movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar de gritos afflictivos, e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam aqui e além, sobre os telhados das habitações a que lançavam fogo, quando a preza os não satisfazia.
A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca, confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas levantava ao céo, accudiu-me ao pensamento.
—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento e nos surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da povoação, e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa casa, avisaremos depois sobre o que temos que fazer.
—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.
Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por minha vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera da minha cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que seria de Margarida! Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha ante os olhos mais me apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos horrores, que ella poderia ter presenciado, se é que d’elles não tivesse sido victima.
Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por muito que lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella porém era guerra de exterminio.
Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia dezenas de annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e irmãos, e aggrediam-se tanto mais cruelmente, quanto melhor sabiam, onde haviam de ferir. Não poupavam ninguem, não havia recanto que valesse, não havia esconderijo que salvasse, não havia nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do insulto, da affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos que dois dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.
Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae. Tinham-me preparado para terriveis surprezas as scenas, que presenceára pelo caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao que eu esperava.
Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de meu pobre pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de feridas...
As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar por momentos antes de poder proseguir.
—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me contará o resto.
—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é lembrar; e raras vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de descanço e continúo.
Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem os thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa. Desesperados por não acharem o que esperavam, voltaram-se contra os dois velhos, que por mais que quizessem não os podiam satisfazer; por quanto apenas havia começado a guerra tinham escondido n’outra parte o seu dinheiro.
Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos barbaramente para se vingarem das suas negativas.
—E Margarida?
—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em companhia de meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.
—Pois quê?...
—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia barreira que se lhe puzesse deante, nem consideração, que os demovesse, pareciam furiosos.
Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o amor da patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava unicamente.
—Pois o tio Joaquim?...
—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes operou em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de destruição, de vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma só lagrima. A febre do exterminio requeimava-me por dentro, cravei uma cruz sobre a cova onde ficaram, unidos como o haviam sido sempre, e jurei que não descançaria emquanto tivesse forças para uma espingarda.
Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o conheciam, juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do logar, aggravámos as feridas dos que mais haviam padecido, e levantámos uma guerrilha das mais afamadas n’aquelles tempos, e bem conhecida pelo nome de—guerrilha do frade.—
Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia que as forças se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida errante perto de um mez, sem dormir uma noite somno que aproveitasse, sem ter duas horas de descanço, sem ter um momento sequer para pensar no passado, ou no futuro.
Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques, sem descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens de ferro para aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos trazia incendidos, que ao cabo do mez parecia que mal haviamos começado.
Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu avisar-nos de que outra guerrilha se approximava, da qual se contavam proezas inauditas.
Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com esses tão celebrados inimigos.
Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de parte a parte, até que fugiram em debandada, deixando o campo juncado de cadaveres. Dos nossos a perda fôra consideravel tambem, e Fr. João agonisava com uma bala nos pulmões. Saia-lhe da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia horror ouvil-o, e expirou-me nos braços, procurando debalde articular algumas palavras.
Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...
VI
Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha campanha estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a morte de meus paes, e arrojava a espingarda homicida diante do cadaver de meu irmão.
Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas dos meus mais proximos parentes!
A guerra estava a acabar.
Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte os vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das represalias pela fuga, ou pelo homisio.
Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao ensanguentado espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me, trazendo apoz si as victimas de quantos haviam perecido aos nossos tiros; os meus companheiros tresmalharam-se em diversas direcções. Separámo-nos, como nos haviamos reunido, sem pena nem saudades. Apesar de termos vivido tanto tempo juntos, quasi que nem nos conheciamos.
Á noite entrei na povoação.
Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava mais affastada das outras. Abriram-me a porta, soltaram um grito ao vêr-me: eu ia dando no chão. Reconheci Margarida.
—E Filippe?
Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou ao primeiro fratricida:
—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?
Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:
—Morto!
E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos.
Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que dá o sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que parecia accusar-me pela bocca de Margarida.
A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha enlouquecido.
Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma lhe haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim rapido, quasi inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao menos deixava de padecer.
Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha experimentado, poderia dizer se brinco de creanças comparado aos tormentos que aturei durante esses mezes.
Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus bens. Estavamos pobres, e Margarida, que se definhava a olhos vistos, reclamava cuidados e despezas que me obrigaram a vender quanto possuia, e a trabalhar de noite e de dia para acudir á pobre enferma.
Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo amor. A paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores emprezas, ou o precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em mim com toda a força ao vêr aquella santa e boa rapariga.
Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto mais, quanto via que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao meu. Agora, porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou peor ainda, porque horrorisavam e arrefeciam mais aquelles transportes de loucura, do que os gelos e o pavor da sepultura. Ouvi-a de noite e de dia chamar por um nome que não era o meu, e cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle, d’aquella bocca pela qual para que desabrochasse n’algumas palavras de amor, eu déra a vida, saía uma accusação, um anathema contra mim.
O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque estava morto, esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de meu irmão, morto pelos meus, talvez por mim; e eu vivia para que Margarida me recordasse a todos os momentos: a mesma bala que commettera um fratricidio, enlouquecera a unica mulher que havia amado.
Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para continuar por muito tempo.
Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado de terriveis recordações. Fugi a esse mundo de pavorosos espectros, e vim por ahi abaixo procurar no trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado; mas não poude esquecer ainda!...
VII
O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham ficado resoando-me as suas palavras, como a pancada do sino depois de tangido, e que por muito tempo vae abalando o espaço.
Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o céo, a encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a tempestade, quando o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-lhe as ultimas palavras. A natureza parecera querer accrescentar um côro magestoso áquella eloquente manifestação.
Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque já fazia muito escuro.
O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se como uma creança. Não parecia d’este mundo.
Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a estrada, volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais, e vi á luz de um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha ouvido a historia do velho.
Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava surdamente na alma do velho, e a que estalava nos ares levantando em escarceus a agua do mar, e varrendo a terra com o furioso soprar do furacão.
Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a poucas horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta; mas o tio Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora do repouso.
Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem o descanço chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade.
Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.
FIM
NOTAS
[1] Na manhã do dia seguinte áquelle, em que este pequeno conto apparecia publicado, recebia o auctor uma carta do sr. A. F. de Castilho, em que dizia: _amigo, pelos seus retratos de familia receba um bom abraço do seu etc., etc._ Estas poucas palavras valeram para a pessoa a quem se dirigiam, mais do que largos e empolados juizos criticos. Regista-as aqui, não por vaidade, não por desvanecimento; mas só como um testemunho da verdadeira estima e profunda gratidão, que tributa ao grande poeta.
[2] S. Lucas—Cap. 6.º—V.º 25 e 26.
[3] S. Matt.º Cap. 6.º V.º 28 30 31 32 33 34.