Os contos do tio Joaquim

Part 14

Chapter 144,018 wordsPublic domain

Quando, passado tempo, parecia tornar a si, tinha os olhos vermelhos, o rosto abatido, o corpo quebrado. Levantava-se com muita difficuldade e mal se podia arrastar aos primeiros passos. Depois fazia como que um grande esforço sobre si, compunha a physionomia, chamava um sorriso bastante rebelde n’essas occasiões, e tornava a ser o tio Joaquim da casa da malta e do canto da lareira.

Foi n’uma dessas tardes, e na praia de Cabo Ruivo, que consegui ouvir ao velho narrador a sua historia. Andára triste todo o dia, acabára de jantar, déra conta da obrigação e convidára-me para sair em sua companhia. Não soltára meia palavra pelo caminho e mal chegára perto da fonte atirára comsigo para uma d’aquellas pedras tão desalentado, que parecia não querer mecher-se mais d’ali. Ficara a scismar, como costumava; mas não seria passado ainda um quarto de hora, ao olhar para elle vi que lhe escorregavam as lagrimas pelas faces.

—Chora, tio Joaquim?...

—Não repare, atalhou elle rapidamente limpando as lagrimas, como envergonhado, eu tambem não reparava.

—Anda sempre triste, e assim sem desabafar, bem pelo contrario fingindo-se alegre quasi sempre; ha de padecer muito!

—Muito! Mas não tem duvida.

—Diz-se que as maguas contadas são alliviadas; porque me não dá parte das suas tristezas?

—Para quê? Com o andar do tempo não lhe faltarão proprias; deixe as alheias.

—Cuida que sou alguma creança, tio Joaquim?

—Bem sei que não é, mas...

—Seria a maior prova de amisade que me podesse dar. Ha tanto tempo que desejo saber a sua vida!

—Como deseja ouvir as historias aos serões, não é assim?

—Não. Essas servem para passar o tempo, esta outra para o conhecer bem, e para o poder consolar.

—Pois seja para me conhecer, que para me consolar não, porque não póde. Hoje tambem, parece-me que rebentava, se não repetisse alto o que tem sido a minha vida. Quando conversamos comnosco, a voz faz ecco bem fundo na cabeça e no coração, repercute mais e soffre dobrado. Se não tivesse vindo comsigo parece-me que entrava a fallar só, para ahi a essas pedras e a essas aguas. Oiça-me pois, já que tanto deseja saber a minha vida.

E o tio Joaquim deu começo á sua historia.

II

Meus paes viviam n’uma das provincias do norte, e se não eram ricos tinham com que passar menos mal. Meu irmão Filippe e eu eramos os dois unicos filhos, e o que havia chegava bem para nós. Filippe, porque era o mais velho, devia ser lavrador como meu pae; eu, por ser o segundo, estava destinado para frade.

Admira-se, porque já lá vão os frades; mas se vivesse no tempo dos conventos conheceria então, que de ordinario se destinava para ordens sacras o filho segundo em quasi todas as familias.

Accrescia mais que o mestre dos noviços do convento proximo, sr. João da Soledade, era muito de nossa casa, e depois de ter convencido minha mãe de que me fazia feliz mettendo-me a frade, lhe promettera tomar-me sob sua protecção.

Pela minha parte, posto que ninguem me consultasse o querer, parecia me tambem que viveria contente n’aquelle socego do convento. Via os frades gordos, satisfeitos, córados e risonhos sempre. Traziam-me presentes e davam-me dôces, faziam-me festas, e contavam-me historias, não me queria pois com outra gente.

Em vendo habito approximava-me logo, e minha boa mãe, que a mais não alcançava, lia n’esta inclinação pueril uma verdadeira e pronunciada vocação.

Assim fui creando-me n’estas idéas, até que chegou a idade de começar a aprender. Fr. João convenceu minha mãe, de que para o meu estudo muito melhor seria viver no convento do que em casa, pois que ao passo que ia seguindo as disciplinas com maior regularidade, ia costumando-me tambem á regra conventual.

Frei João era para meus paes apostolo e propheta ao mesmo tempo. O que dizia seguia-se com reflexão. Despedi-me, chorei muito e partimos.

Não tinha tamanho desafogo em casa, que extranhasse muito a vida nova que encetava. A companhia dos outros noviços, aquelles costumes extranhos para mim, aquella novidade de estudos, e mesmo o bom modo, com que Fr. João me tratou sempre, conseguiram que dentro em pouco me afizesse de todo ao recolhimento claustral.

Não tinha por fóra coisa alguma, que me attraisse, e a affeição de meus paes e irmão, unicas de que a porta do convento me separava, não eram de ordem tal, que me fizesse lamentar muito o haver-me apartado do mundo.

N’uma das campanhas em que entrei mais tarde ouvi contar o seguinte caso a um veterano, que tinha ido na legião lusitana com os francezes fazer a guerra da Russia.

Nas noites frias e claras do norte em que a luz de umas auroras particulares ás terras d’aquelle paiz resplandece nos gelos, começava a cair neve, e os pobres soldados a cairem com ella inteiriçados e hirtos. Alguns cobravam forças, erguiam-se e continuavam. Outros caiam, não tinham forças para se mecher e ficavam por uma vez.

Ao tal veterano, se lhe não accodem ainda a tempo ia succedendo este mesmo facto.

Dizia elle, que percebia bem que ia morrer, que cada vez se enregellava mais, e que dentro em pouco, tinha d’isso a certeza, estaria de todo gellado.

Sentia porém um que quer que era agradavel n’aquelle approximar da morte, queria evital-a mas não tinha forças, e ia sentindo sumir-se-lhe a vida com aquelle prazer com que nos deixamos esvaecer após a embriaguez.

A solidão, tive tempo para o observar, parece-se com os gelos do norte. Entristece-nos, mas encanta-nos com a sua tristeza, sentimos que lhe devemos fugir, e conservamo-nos entretanto, parece-nos que nos esmorece a alma e o sentimento, mas é tão dôce esse esmorecer, como a morte após um desmaio, como o adormecer da creança nos braços maternos.

Antes de saber o que era a vida, começava a agradar-me a morte, e sem transicção alguma, arrefeciam-me os ardores dos dezoito annos, com os frios d’aquellas sepulturas de vivos a que chamavam cellas, claustros e conventos.

Estudava, aprendia, e meditava. Meditava sem saber em quê, porquanto o mundo, que eu via pelas grades do meu quarto, e o que eu phantasiava pela leitura dos livros da bibliotheca, differençava-se tanto do mundo real, que mais tarde vim a conhecer, como aquelles sonhos de madrugada, que nos accodem quando não dormimos de todo e quando não estamos acordados ainda, se distinguem da vida commum e dos acasos de todos os dias.

Passava horas e horas a formar castellos no ar, vagos, indefinidos, indeterminaveis, e evocando phantasmas de mundos que eu não conhecia, mas que adivinhava. Dentro em pouco de tal fórma me costumei á reflexão e ao apartamento, que fugia de todos nas horas que tinha livres, para ir sentar-me sósinho a sonhar e a scismar.

Apontavam-me no convento como modelo de bom porte, e diziam os frades aos meus companheiros que o amor do estudo e da reflexão me traziam assim embevecido.

Não lhe sei dizer, o que me preoccupava, mas não era de certo o amor do estudo, nem o desenvolver da vocação monastica, como a vaidade dos frades lhes fazia suppôr. Tão entranhado estava em mim o amor da solidão, que nas raras vezes, em que ia visitar os meus, pouco me demorava em casa. Debalde a sollicitude materna me procurava deter; em vão, meu pae mesmo, posto que pouco dado a ternuras, me dizia que era conveniente de quando em quando descançar algum tempo; trabalho perdido era o de meu irmão em convidar-me para os divertimentos dos outros rapazes; mal saia do meu convento, desejava logo recolher, e estava fóra da minha cella, como o peixe fóra d’agua. Porque dir-lhe-hei de passagem, a estima de Fr. João fizera com que eu residisse n’um quarto junto do seu, e não no dormitorio commum com os outros educandos e noviços.

Oxalá tivesse eu ficado por uma vez n’aquella sepultura!

Se não fossem as visitas a minha casa, talvez não tivesse experimentado na minha vida o que era amor; mas tambem não teria comprado á custa de tormentos indisiveis essas raras e amarguradas horas de sentir apaixonado.

N’estas alturas da sua historia o tio Joaquim limpou o suor que lhe corria a fio da testa, curvou-se para a lapasinha proxima, tomou uma pouca d’agua nas mãos, bebeu soffregamente; renovou a respiração umas poucas de vezes com força; carregou outra vez o cachimbo, accendeu-o e passado algum tempo proseguiu na sua narração.

III

Estudos que mais me preocupavam tinham feito com que, havia muito, não fosse visitar os meus. Devendo em breve tomar ordens de prima tonsura, este successo, que fatalmente determinava a minha vida trouxera-me entretido, não poucos mezes. Finalmente déra o primeiro passo solemne, e por conselho de Fr. João, parti a congratular-me com meus paes, da conquista que alcançára: e a viver por algum tempo a vida de familia antes que de todo me apartasse do mundo.

Parti; e com a indifferença que de mim se apoderára, desde que me haviam destinado para o convento, passei os humbraes d’aquellas portas que então já eram minhas, e que não se me poderiam cerrar mais de todo, embora quizessem.

Grandes alegrias havia em minha casa. A minha chegada encareceu-as mais ainda. Meu irmão estava breve para casar e a sua escolha fôra tanto do agrado de meus paes, que os bons velhos não cabendo em si de contentes não achavam mimos que lhe parecessem bastantes para com elles cercar a esposa futura de seu filho.

Margarida era o que em linguagem commum se chama um bom casamento.

Filha unica devia herdar de seus paes uma fortuna consideravel. Os seus haveres juntos aos bens de minha casa formariam a primeira propriedade da provincia.

Sorria a opulencia a meus paes e embevecia-os a contemplação de um futuro placido e desassombrado de cuidados.

Vi Margarida, e ao vêl-a, ao trocar com ella as primeiras palavras conheci, que tinha no peito coração, e que me corria o sangue dos vinte annos nas veias tremulas e agitadas.

Margarida aproximava-se tambem dos vinte annos, mas toda a candura infantil fulgurava n’aquelle rosto, que não desabrochára ainda. Não tornei, por vida minha, a encontrar olhos que mais dissessem ao coração, quando mesmo quasi sem querer fallar se volviam serenos entre um denso veu de pestanas compridas e encurvadas. Toda a sua formosura estava nos olhos, mas esses não cediam em primores a quantos hei visto em mulher ou em pinturas. Fazia vontade de chorar olhar para elles, sentia se devoção fitando-os muito. Porque não ha como a mulher para nos fallar do ceu, de Deus, das coisas sagradas. Se creaturas assim corressem mundo a resgatar almas, se para os mais apartados da religião dirigissem um olhar d’aquelles dizendo magua, enthusiasmo e amor, e depois d’ahi os volvessem ao ceu como rasgar caminho para a alma renitente, não haveria atheu que resistisse, nem coração que se não dobrasse.

Vendo Margarida lembrava-me do ceu, lembrando-me do ceu, accudia-me que professára votos que me condemnavam a um perpetuo celibato. Um circulo de espinhos me apertava a imaginação: e padecia, como nem os condemnados no inferno poderiam padecer assim.

Com a candura de creança Margarida reconheceu-me desde logo como seu irmão. Não houve segredo que em mim não depositasse, esperança que me não dissesse, planos de futuro sobre que me não ouvisse, queixumes de meu irmão, que comigo não lastimasse.

Filippe casava porque tinha de casar, estimava Margarida como podia estimar uma irmã ou uma parenta, e nada mais. Margarida ao contrario não via, não suppunha, que podesse haver homem, que valesse o seu noivo. Amava-o com a cegueira, com o arrebatamento, com a loucura de um primeiro amor.

Não imagina como padeci com essas confissões arrebatadas, que me denunciavam um mundo de felicidades, que nem sequer entrevêra. Não imagina que dôr tão funda me ia direita ao coração, quando ella animada por aquelle amor que a aquecia e transformava, olhando-me, com as suas mãos nas minhas, com o seu halito a confundir-se com o meu, transfundia-me a electricidade que irradiava, e descrevia-me o amor que lhe chammejava na alma.

Deixava-a como louco e ia, quantas vezes sósinho, de noite, correr por aquelles descampados, andar muito sem saber por onde, cançar o corpo para descançar o espirito, e para depois, cedendo á fadiga, poder cerrar os olhos por algumas horas e tentar um somno mais attribulado mesmo do que fôra a propria vigilia.

Envelheci muito n’aquelles dias que duraram até ao casamento de meu irmão. Via approximar-se a epocha e não acreditava, não sei que louca esperança, não sei que desvario me dizia que tal casamento se não chegava a realisar. Parecia-me um sacrilegio, que tanto amor fosse empregado em tanta indifferença, parecia-me impossivel que Deus consentisse em tal.

Sacrilegio era o meu amor, sacrilegio duas vezes, por que era de padre e porque era por uma irmã.

Pelo modo como o tio Joaquim narrava a sua historia conhecia eu quanto elle teria padecido, e bem conforme ao que disséra antes de começar, presentia que outros tormentos deveria haver maiores do que as minhas duvidas e incertezas sobre o futuro, do que os meus sonhos e aspirações.

Chegou entretanto o dia, proseguiu o velho, e não sem que a estrada dolorosa tivesse sido para mim bem cheia de agonias e de provações. Margarida não suspeitou nunca quanto eu a amava, nem sob o gelo apparente, em que a tanto custo me sepultava, poude perceber os ardentes lumes de um amor desvairado. Occasiões houve em que rasgava o peito com as unhas até fazer sangue, em que tremia em convulsões para resistir, em que me exforçava com sobrehumano impeto para não desatar em suluços; outras em que tive de fugir para evitar a sua presença, porque já não podia luctar com o impulso que me arrojava para os seus pés a dizer-lhe quanto a amava.

E tive de assistir impassivel a todos aquelles pormenores, que me fallavam da felicidade futura de ambos, tive de escutar as singellas narrações de Margarida sobre todas essas minuciosidades, que me retumbavam na cabeça com estridor horrivel, porque em todas ellas descortinava, ou pretextos para uma caricia, ou commodos para um transporte, ou logar finalmente para aquelles dôces e para mim desconhecidos mysterios do thalamo nupcial.

Os primeiros clarões da alvorada no dia do casamento, encontraram-me accordado ainda. Na vespera mesmo não acreditava que podesse chegar: via raiar a manhã e cuidava estar sonhando. Pois Margarida havia de casar!

Minha familia, sem comprehender nem de leve, porque não recata mais cuidadosamente a abelha os seus lavores do que eu escondera de todos e de tudo o meu insensato amor, minha familia, digo, só experimentava uma pena: não ser eu quem casasse meus irmãos, porque a minha benção, cuidavam os credulos paes, havia de forçosamente attrahir felicidades sobre os esposos.

Na verdade seria o ultimo sacrificio, depois do qual poderia dizer a Christo: tambem sei o que é o Golgotha!

Pareceu-me tudo um pesadello, persuadi-me que acordaria breve de tão cruel illusão. Vi, ouvi, fallei, dirigiram-me perguntas, tornei respostas, e não soube nem sei ainda o que vi, o que ouvi, o que me perguntaram e como respondi. Dizem que pessoas ha que dormindo andam e fallam, assim devia ser o estado em que estive todo o dia.

Mal poude fugir á noite, corri, corri, e quando me vi bem longe, desatei a chorar como me não lembrava em minha vida de ter chorado assim. Parecia que me estallava a alma n’aquelles soluços, mas ao correr das lagrimas um grande peso saia de sobre mim. Não sei como, mas chorando sempre achei-me de repente deante das janellas do quarto de Filippe. Estavam illuminadas, fitei-as com o pavor com que daria de rosto com a entrada do inferno; vi passar dois vultos por dentro das vidraças, reconheci-os e com a razão de todo perdida atirei comigo a terra, agarrei com ambas as mãos a cabeça, e comecei a bater com a testa, como desesperado de encontro ao chão.

Com a força da dôr perdi os sentidos e para alli fiquei banhado em sangue, até que os raios do sol, já bem alto, me fizeram tornar em mim. Olhei machinalmente para a janella. Estava cerrada ainda; senti nova vertigem mas d’essa vez, sem me lembrar que ia banhado em sangue deitei a correr, o mais rapido que podia, em direcção do meu convento.

Disse que uma quéda no caminho me fizera o sangue que trazia, e facilmente me acreditaram. A verdade, se o dissesse, é que fôra para duvidar.

Encerrei-me na minha cella, pretextei uma doença para não sair e pedi ao meu bom mestre, que me ouvisse de confissão. Contei-lhe a minha historia, tal como se passára n’esses dias e pedi-lhe que me accudisse, pois que não sabia de mim. Ouviu-me o santo velho com lagrimas nos olhos, depois:

—«Deus me perdôe se errei, disse-me, e mais ainda se fiz a tua infelicidade, Joaquim, chamando-te para o serviço do Senhor. Mas era impossivel que assim não fosse. Ha homens condemnados fatalmente pela desgraça, e tu és um d’elles. Lê-se no rosto esse infeliz condão, adivinhei-t’o eu, que tambem sei o que é padecer.

Para dôres como a tua, para outras bem maiores ainda, se fizeram as solidões dos claustros e o gelo d’estes vastos carneiros. Sepulta para ahi a tua alma, emquanto não te sepultam o corpo, sob essas lages que hoje calcas, e morre já que foste condemnado a não viver. Não julgues cruel esta linguagem, é a que te póde fallar um amigo, quasi um pae.—O que sômos nós outros, pobres frades, n’este mundo? Fantasmas erradios que arrastamos a mortalha em vida, arrebentos solitarios, que medrâmos entre pedras. Para nós não ha familia, não ha esposa, não ha filhos, tudo que é morre comnosco, nada deixamos n’este mundo, que se lembre de que vivemos.

Mais um numero n’uma pedra, um nome no livro do registro, alguns ossos mais n’uma cova. Torna impenetravel o teu tumulo, calafata com o maior cuidado qualquer orificio por mais pequeno que seja, que dê para o exterior, e já que nada podemos ter com o mundo aparta-te d’elle de todo.

Já que não pódes ser feliz esquece, já que não pódes gosar, não sintas.»

Segui á risca o seu conselho. Graças á sua protecção deixaram me na minha cella, mesmo porque, segundo dizia, assim me preparava pelo estudo e pela meditação para ordens maiores. Passou um anno. Trabalhei, estudei muito e como disse Fr. João da Soledade, se não fui feliz, não senti; não me lembrei e não padeci.

IV

O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a tempestade, que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano, rebentára já sobre todo o paiz.

Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido percorriam as povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o assassinato, o roubo, o incendio, o forçamento e o sacrilegio.

Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas ainda assim por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam fóra. Por quanto ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este mundo, por tal fórma andavam todos preoccupados com os acontecimentos, que se iam succedendo uns após outros com rapidez incrivel, que era impossivel deixar de perceber, que havia graves casos, a attribularem a humanidade.

Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de devastações; mas tal eu estava, que me era tudo indifferente. Antes, porém, occasiões havia em que, confesso-lh’o, desejava que um terremoto subvertesse o mundo para que na geral destruição encontrasse vingança correspondente ao que me haviam feito padecer.

Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da povoação proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do nosso convento. Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas, passos de quem fugia, vozes de quem pedia soccorro, supplicas, choros, imprecações tudo se misturava e confundia.

Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de semelhante alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da Soledade me appareceu á porta da cella aberta de par em par.

—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu bordão de viajante e caminha!

Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-me effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no Valle de Josaphat.

—Que quer de mim, meu pae?

—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações e da lucta. Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra como animaes ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem as abobadas sagradas, nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a hostia sacrosanta na mão será o padre perseguido se assim o encontrarem!

A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos tempos da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas do diluvio avançam cada vez mais.

Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica ateava-lhe o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos altares as suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos. Pela minha parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem emphatica, que estava empregando, destoava muito da singelleza em que educára o meu espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com o olhar chammejante, o gesto altivo, o rosto illuminado por um enthusiasmo mais guerreiro do que apostolico, lembrava-me um d’aquelles monges prégadores de eras affastadas, que a minha imaginação tivesse feito surgir dos livros abertos deante de mim, e que de espada na mão direita, e crucifixo na esquerda, queriam abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor, atravez das hostes dos infieis.

—Mas, meu pae, que aconteceu?

—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando campos e povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada não ha propriedade que resista, cabellos brancos que se respeitem, honra de mulher que se recate; aconteceu que aos que cedem, espoliam; aos que não cedem, assassinam; aconteceu, que fallam em levantar mão sacrilega contra as muralhas defesas a profanos d’este venerando templo. Os phariseus em motim pedem o sangue dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos expulsa a malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra em terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes não cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra tosca e rude a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem comnosco filho, vem percorrer o teu Getsemani.

Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno, os gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados dos frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam vivido por tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o som ameaçador e irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella scena um caracter que impressionava profundamente. Pela minha parte, parecia-me que um novo pesadello me vinha cortar a somnolencia em que demorava havia tanto; resistia ao movimento e prostrado de animo e de corpo, preferia que me matassem n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que tinha tão grande horror.

Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se, approximou-se de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me contra minha vontade, e bradou-me com voz terrivel:

—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do perigo? Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a prova mais cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido castigo, por ter deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te para ahi, e fique a minha maldição comtigo.

E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra. Firmei-me porém, e respondi-lhe:

—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra segue o corpo, como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do mundo que me espavoria; voltára tão mal ferido do combate, que não seria para extranhar que vacillasse agora antes de vestir de novo as armas. Sabe meu pae, que me não arreceio nem da morte nem das provações; mas sabe tambem quanto me custa ir fitar de novo essa gente, que tão grandes males me causou. Eis porque hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não apartarei do seu lado.

O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos: