Part 13
—Não penses em tal. Formosuras d’aquellas não as ha na terra, nem sei mesmo, minha Agueda, se as haverá no ceu. Entretanto eu via todas as tardes aquelle vulto illuminado no meio de resplendores de fogo, e dos raios scintillantes do sol poente. Depois ao cair da noite ia-se sumindo pouco a pouco na escuridão até que uma só estrella a substituia no ceu.
Se visses que melancholica luz espalhava aquella estrella! Acreditei que o meu anjo da guarda me apparecia, e que a estrella, que de noite scintillava, mais resplandescente do que todas as outras, fôra cravada nos ceus pela mão do Senhor para me animar quando desanimasse, para me esclarecer quando as trévas envolvessem a terra.
—Mas dizias, que te fallára!
—Pouco a pouco comecei a comprehender, que me fazia gestos, como indicando me um ponto muito affastado dos ceus. Parecia que lá muito longe estava a felicidade, que eu almejava. Um dia ajoelhei e pedi-lhe, que me fallasse, que me dissesse o que significava aquelle gesto constante a mostrar-me a immensidão.
—E respondeu-te?
—Não é mais harmonioso o som do orgão, quando, depois de tocado, parece gemer saudoso na egreja, não é mais suave o canto da viração da tarde rumorejando pelo arvoredo, nem o lamentar ao longe do rouxinol em madrugadas de maio.
—E disse-te...
—«Pobre de ti, que procuras a felicidade na terra. Está bem longe e tão longe que nem teus olhos a alcançam nem tua mente a imagina. Queres ser rico, queres ser feliz! Louco! Não ha de ser ahi que encontrarás nem riqueza nem felicidade. Chegará um dia em que me sigas, e então verás patentes thesouros, que nem suppões, felicidades que nem as sonhas.»
—Era a tua cabeça que desvairava meu Thomaz!
—Não era, Agueda, não era. Levantei-me para seguir direito o caminho que me apontava; mas ao calcar as primeiras hervinhas senti entre seus gemidos, que me chamavam: ambicioso! louco!
—As hervas?
—Sim as hervas, voltavam-se para mim e apontando-me para os campos onde viviam censuravam-me por as deixar: para que partes? Não tens o pão que te alimenta, o sol, que te dá calor, o ar, que te nutre a respiração, não vês como vivemos contentes no mesmo logar, amando-nos umas às outras, bebendo a agua dos ares, e aquecendo-nos o sol?
—E pensaste então em amar?
—Pensei! Depois quando volvia para debaixo da minha arvore as avesinhas brincando umas com as outras, diziam: «Não é preciso ir longe para se ser feliz. Este pobre rapaz quer deixar-nos, e nós podiamos-lhe ensinar como se encontra a felicidade. Uma arvore nos abriga, um ninho serve de berço aos nossos amores, uma folha nos resguarda do sol, a semente que cae no chão nos sustenta, a agua, que as covasinhas conservam, nos mata a sêde. Sabemos amar e viver, amamos e sômos felizes.
—Seguiste o conselho das aves?
—Segui. No dia immediato a visão sorria menos melancholica, e ao perguntar-lhe se devia partir, respondeu-me: Não ouviste as hervinhas do campo e as avesinhas do bosque. Sê humilde como ellas são, contenta-te com o que as satisfaz e serás então como ellas feliz.
—Mas como havemos de viver assim, meu Thomaz, não podemos habitar n’um ninho, nem n’uma leira dos campos.
—Ouve-me até ao fim. Quiz amar para ser feliz, mas todas me voltavam a cara, ou me apontavam dizendo: olha o Thomaz idiota, o Thomaz dos passarinhos.
Só a minha visão me sorria boa nos ceus, emquanto todos na terra se riam de mim como uns maus. Perdi as esperanças de encontrar quem me tivesse amor, e procurei amar aquella que me queria. E sempre a via, sempre lhe fallava no meu querer, e ella sempre se curvava para mim e tristemente me dizia: estamos longe, muito longe!
E entretanto as aves e as plantas contavam-me os seus amores, e animavam-me tambem.
Vi-te, Agueda, e ao passo, que mais a meudo me appareceste mais fui querendo á tua presença. Por fim não podia já passar sem ti e nas horas em que devias chegar, mais me palpitava o coração.
—Querer-me-ias, por ventura?
—Não sei. Se o amor é um sentimento, que nos prende a idéa ao ente amado, se o amor é o sacrificio da nossa vida á que se ama, se amor é ser todo d’uma só mulher, e só d’ella, eu não te amo, porque bemquero áquella imagem, e a sua lembrança corta-me os pensamentos, que te consagro. Olha, não sei como te explique o que sinto. Quando quero comprehender-me julgo-me tambem idiota, como me chamam todos. Não ha mulher para mim que te valha, mais rica ou mais formosa que fosse; mas tambem nada ha, que seja em mim superior á idéa d’aquella imagem. Quando vou levado pelo pensamento para ti, surprehendo-me a meio caminho, arrependo me de me esquecer d’ella, e fico em doce contemplação a adoral-a. Quando ella se some, appareces-me tu. Sabes?... Creio que amo a ambas, a ella com o amor do ceu, a ti com o amor da terra.
Agueda suspirou e limpou uma lagrima, que lhe escorregava pelas faces.
—Porque suspiras?
—Tenho ciumes da tua visão; e depois, bem vês, não poderemos casar nunca.
—Sabes que lá bem longe ha terras, em que as riquezas não faltam?
—Sei.
—Sabes que é para bem longe que o meu bom anjo me chama?
—Assim m’o disseste.
—Pois se tu quizeres casar comigo, irei apoz a minha querida visão, seguirei o seu gesto, e tenho por fé que ao voltar serei rico, que o esperei sempre; serei feliz, que m’o assegurou ella.
—Enlouqueceste, Thomaz?
—Nunca estive mais em meu juizo.
—Pois queres sósinho, sem meios, sem conhecimentos ir por esse mundo de Christo, atravessar os mares, fazer uma viagem tão grande! Dizem que d’aqui ao Brazil é um por ahi além de leguas!
—Sei, que importa isso! Tenho pensado muito, comigo, aqui, e com aquella boa imagem além. Não tenho palavras para dizer o que vae cá por dentro ahi a qualquer. Póde ser que eu seja idiota, mas parece-me que mais são os que me chamam por não lhes fallar, nem lhes dar satisfações da minha vida.
Humildes são as plantas, mais atrevidas as aves, mais atrevidas ainda as nuvens dos ares e as estrellas dos ceus. Quanto maior é o seu atrevimento, mais longe se levam.
O homem que vive cá n’este mundo extremo de todos, sem querer deixar rasto de si, nem cousa alguma que o lembre, passada a sua hora, é como a planta, lançada á terra pela mão de Deus. Nasce, medra e morre; deitam-lhe a foice e fica por terra.
Assim era eu. Não tinha para quem o fosse, não queria ser rico. Espera, dizia-me a voz; está muito longe a felicidade, repetia-me a visão, e eu ia esperando sem tentar os longes.
Mas quando ama, não chegam para o homem alguns torrões apenas, como para o pé de trigo: vae longe buscar com que fazer seu ninho, percorre os ares como as aves: e, emquanto a esposa o espera cuidando dos filhinhos, trabalha elle para sustentar os outros.
Assim poderia eu ser; mas não bastava.
Para ti, Agueda, que vaes repartir comigo a tua vida, que te vaes enlaçar comigo, como a videira se enlaça no carvalho, que vaes ser minha mulher, sabes o que isto quer dizer, minha mulher?... não basta o bago de trigo, que sustenta o pardal, nem o bichinho que nutre a cotovia. Quero ir longe, mas tão longe como vão as nuvens e não como as aves; quero correr mundo, como correm as estrellas que hoje espalham aqui a sua claridade, depois allumiam outras terras: e mais tarde, ao voltar com dinheiro para ambos, com o descanço para os que hão de ser nossos, dizer-te:
—Vês? É assim que um homem sabe amar.
E Thomaz transfigurára-se ao dizer estas palavras; a sua belleza varonil assumira o que quer que era extraordinario, parecia inspirado. Chispavam-lhe centelhas dos olhos, aspirava com as ventas dilatadas os aromas da tarde, soltava os cabellos bastos á feição do vento. Erguera-se emquanto fallava, a sua figura parecia mais crescida. Cercava-o uma aureola de magestade, destacava-se do fundo escuro do tronco a que estivera encostado, recortava-se sobre o azul carregado do céo, como um d’aquelles sacerdotes das florestas gaulezas, quando colhido o agarico sagrado erguiam os olhos, pediam a inspiração aos numes e rasgavam o ar com o gesto alargando os braços sobre as multidões curvadas.
Agueda desconhecia-o e pasmava.
—Como és formoso assim, meu Thomaz, e como eu te avaliava tão mal, exclamou a pobre rapariga cedendo ao impulso da admiração.
Thomaz caiu em si, e tornou-lhe tristemente:
—Todos me têem julgado como eu não merecia. A solidão tem-me feito amadurecer muito, e se não fallo, penso. Dizem que o mocho é prudente e assisado, e entretanto nem trina como o rouxinol, nem canta como a toutinegra, nem se veste de côres brilhantes como o pintasilgo. Emquanto todos dormem vigia elle, emquanto folgam e brincam á luz do sol mergulha-se no escuro e recata-se no seu souto. As horas de solidão valem mezes de viver em companhia, e os dias de abandono ensinam mais do que os annos de carinhos e meiguices. Eu, Agueda, tenho vivido sempre desamparado, só e triste. Tenho pensado muito, assim eu tivesse palavras, como tenho idéas; mas vou a fallar, não sei, e fico-me...
—Apesar d’isso dizes coisas que não comprehendo.
—Que queres, os fructos quando veem ao chão, ou pedram-se e fazem-se ruins; ou amadurecem mais depressa. Não tinha queda para ruim, deitaram-me por terra, amadureci. Já foste á cova das rapozas?
—Deus me livre! Apparecem por lá as almas dos defuntos. O João da Josefa do tio Domingos, foi lá ter atraz de uma ovelha e viu uma aventesma surdir-lhe de um d’aquelles buracos. Pois tu já lá foste, Thomaz!?...
—Fui! Tudo quanto é fóra do commum tem agrados para mim. Procurei saber o que era. Entrei, e vi uma cousa que não esperava.
Do tecto da cova desciam pinhas de pedras preciosas até ao chão e formavam columnas, como as do altar-mór da egreja; mas quanto bem mais formosas! Pareciam feitas de bocadinhos de espelho. A luz que entrava pela bocca da cova e a que eu levava do archote, saltavam de columna para columna, brincavam n’aquellas laminasinhas, faziam ziguezagues, voltas, revira-voltas, como se fossem um cardume de lusilumes. E eram luzes de todas as côres, azues, vermelhas, verdes, côr de rosa; como n’aquelle fogo de vista que deitaram os homens de Lisboa. Estonteava a vista olhar, andava a cabeça á roda.
—Bem dizia eu, Thomaz, era obra de feitiço, para que foste lá?—E appareceu-te algum phantasma?
—Não. Perguntei uma tarde ao sr. padre prior o que eram aquellas columnas, e como estavam alli em pilha tantas pedras preciosas, sem que tomassem conta d’ellas?
—E elle o que te disse?
—Que o que eu julgava serem pedras preciosas era a agua da chuva e nada mais.
—Ora!
—Era sim. Gotta a gotta ia filtrando pela rocha e pendurando-se da pedra, como o pingo da fonte no cazal das Cortiças, que se baloiça antes de caír custando-lhe tanto a despegar-se. Mal uma não caía ainda, vinha outra abraçar-se com ella, e prendel-a mais. As que iam ao chão seccavam devagarinho e deixavam a fazer altura as terras que traziam comsigo. Debaixo foram subindo, de cima foram descendo; e quando se uniram, estava a columna prompta. Vieram novas gottas, foram baixando pela columna: e parando aqui, detendo-se além, arrendaram-lhe o feitio, e recortaram-lhe as fórmas...
—Pois isso póde ser!
—Póde! E este milagre é obra da solidão, do socego, e da meditação bem escondida do mundo.
A agua da chuva que cae nas ruas faz-se lama, a que cae nos campos secca-a o vento, ou encaminham-na os homens para as regueiras e levadas, a que cae com força faz cheia e arrasta tudo, a que cae de manso perde-se; mas a que livre do vento, e dos homens, gotteja escondida, e escorre devagar entregue só a si, forma columnas maravilhosas, e faz-se em pedras de valor. Aqui tens como eu tenho aprendido tambem. Fujo de tudo e de todos, escondo me, penso, medito, e aprendo.
Ficaram ambos silenciosos por algum tempo. Agueda não comprehendia mas advinhava; Thomaz, esse que havia muito tempo não fallára tanto, parecia seguir callado o fio do discurso conversando comsigo. Foi a rapariga, que renovou o dialogo.
—Pois sempre queres partir?
—Quero. É tenção feita e não mudo. Espera-me tres mezes, como eu tenho esperado annos. Ceifaram os campos ha pouco; por ahi não ha senão restevas. Callaram-se os passarinhos, acabaram-se-lhes os amores, e somem-se para outros logares. Vou partir, Agueda, de dia seguirei o meu anjo, de noite a minha estrella; e, quando a relva vestir esses prados, quando as aves cantarem de novo, vêr-me-has regressar d’essas terras, e n’esta arvore onde temos passado tantas horas de felicidade, contar-te quanto passei por amôr de ti.
Debalde procurou a rapariga despersuadil-o. O caracter de Thomaz, como o de todos os espiritos concentrados, era teimoso. Pensava muito em qualquer resolução, que devesse tomar; uma vez porém que a adoptasse, havia de seguil-a por força. Poucos dias depois abandonava a aldeia. Agueda, soluçando, acompanhava-o até duas leguas fóra do logar.
Longo e triste fôra relatar a perigrinação do pobre rapaz. Pedia esmola para comer, quando tinha fome; deitava-se pelo caminho, quando se sentia cançado, ou abrigava-se em qualquer pousada, onde o deixavam dormir. Ia porém seguindo na mesma direcção e para onde lhe parecia acenar a figura, que se lhe representava em suas allucinações.
Houve quem, ouvindo-lhe dizer que queria ir longe tentar fortuna, o alliciasse para o Brazil. Thomaz perguntou para que lado ficava o Brazil, deram-lhe uma direcção. Errada ou verdadeira esta direcção era a mesma que trouxera sempre. Acceitou.
Os que já conhecem Thomaz pódem avaliar bem que desgraçado colono havia de ser e por quantos tormentos passaria. Entretanto nem doenças, nem fomes nem maus tratos, nem trabalhos superiores ás suas forças o desanimavam. Uma coisa só o trazia apaixonado. Não via n’aquelles céos a sua estrella. Nos horisontes affogueados não descortinava a sua visão.
Passaram annos e Thomaz, apezar de tanto padecer, conservava ainda recatada na alma a santidade das suas aspirações. Ha temperas d’esta ordem, que como as perolas se conservam limpidas, e puras, no meio das correntes e das tempestades.
Houve quem se condoesse da sua sorte e lhe proporcionasse passagem para Portugal. Acceitou-a reconhecido; perdêra todas as esperanças de ganhar fortuna, voltava quebrado, doente, incapaz de trabalhar, mas vinha de novo para terras, onde lhe apparecia o bom anjo, e a boa estrella, onde conhecia o cantar dos passaros e o fallar das plantas, e onde tornaria a vêr a sua Agueda.
—E a rapariga, perguntei ao tio Joaquim, quando rematou a sua narração, ainda está á espera d’elle?
—Olha quem! D’ahi a dois mezes fugia da terra em companhia de um soldado do destacamento, o Thomaz vem achar-lhe o logar.
—E já sabia d’isso, hontem á noite, quando lhe contou a sua vida?
—Ainda não, vinha a caminho, quando a chuva o não deixou proseguir e nos pediu agasalho. Hoje é que deve saber a verdade toda.
—O tio Joaquim não lhe disse nada?
—Não tive animo para lhe dar a noticia. Pobre homem, fugiu-lhe a noiva, morreu-lhe a mãe, está só!
Fôra depois do jantar que o tio Joaquim me contára esta historia, a tarde estava muito amena, e o descair do dia ganhava os doces encantos da tristeza.
O que ouvira harmonisava-se com o que estava vendo: e a melancholia começou a tomar conta de mim. Propuz ao tio Joaquim um passeio até ao logar para espairecer. Saimos.
Á porta do boticario estava junta quasi toda a povoação; grande novidade ia pela botica. As velhas entravam, saiam, segredavam umas com as outras, levantavam os braços ao ar e voltavam para saber e contar novas coisas.
Conseguimos entrar e vêr o que tanto attrahia as attenções. O pobre Thomaz jazia banhado em sangue. Fôra encontrado cahido no fundo de uma trincheira, que andavam abrindo para o caminho de ferro, e quebrára a cabeça e os braços de encontro ás pedras que estavam em baixo. Restava-lhe pouco tempo de vida.
O tio Joaquim approximou-se do moribundo, elle reconheceu-o logo e sorriu-lhe tristemente.
—O que foi isso, homem? perguntou-lhe o velho narrador.
—Acertei finalmente com a felicidade, não tarda; em pouco vou ser muito rico.
Pensaram que já estava tresvariado. O tio Joaquim, disse-lhe que socegasse.
—Bem socegado estou, acabou-se-me para sempre a lida. Agueda, tinha-se cançado de esperar, nem todos têem paciencia como eu tive... Corri á minha arvore, já a não encontrei... tinham-na derrubado... Os campos estavam cortados pela estrada, as hervas calcadas pelo pisar dos trabalhadores do caminho, as aves tinham fugido espavoridas com os tiros das minas na pedreira... Aqui, como lá bem longe, estava só de todo... De repente, poude vêr, com os olhos arrasados de lagrimas o meu anjo no mesmo logar a olhar para mim como d’antes, a chamar-me como d’antes, mas mais triste do que nunca... Caminhei direito a elle, fitando-o sempre... Faltaram me os pés... Cahi... Mas sei que me hei de levantar em breve, e d’esta vez hei de approximar-me d’elle para não mais o deixar... Até que em fim... comprehendi-o... Dizia-me que estava longe... bem longe...
E estava!... Conchegou-nos a morte: a felicidade... a riqueza... debalde as procurei na terra;... mas agora... sei que as vou encontrar... no ceu.
Passada meia hora o Thomaz da tia Annica, o Thomaz dos passarinhos, como por alli lhe chamavam, era cadaver.
XII
A historia do narrador
I
Por mais de um mez procurára tambem saber a historia do tio Joaquim. Havia na tristeza, em que o velho descaia tantas vezes, quando parecia mais alegre, rasão sobeja para me aguçar a curiosidade. Tentára interrogal o; mas debalde sempre.
Não era porque o tio Joaquim deixasse de me estimar devéras.
Conhecêra-me de pequeno e tivera-me sempre por seu companheiro constante nos passeios melancholicos, em que, apoz o seu pensamento, caminhava horas sem dar palavra.
Ia com elle, calado tambem. Respeitava a grande dôr que n’essas occasiões parecia opprimil-o; e não me atrevia a perturbal-o com perguntas indiscretas, ou observações futeis.
Presentia, que um padecimento grande o envelhecêra bem cedo, e receava tanto mergulhar a vista nas profundezas d’aquella magua, como trepidava sempre ao approximar-me de um precipicio. Era o desconhecimento que me sobresaltava, o que quer que era extranho, que me impunha respeito.
O tio Joaquim lembrava-me um d’esses livros antigos de bruxedos e encantamentos, que fechado poder-se-ia confundir aos olhos de um observador qualquer com um ripanço de semana santa; aberto porém espavoria a imaginação povoando a com os quadros temerosos de castellos encantados, florestas magicas, sortilegios infernaes, feiticeiros, trasgos, almas penadas e cemiterios.
Levava-me o desejo a folheal-o; a duvida affastava-me de lhe tocar.
Aventurára perguntas timidas em varias occasiões; mas o velho, sem que empregasse na resposta a natural rudeza, com que despedia os importunos triviaes, affastava-me brandamente do ponto a que eu desejava chegar.
—Quando no jardim ou no prado colhe uma flôr não cuida das profundezas onde as raizes mergulham para a alimentar; quando tira da fonte uma pouca d’agua para abrandar a sede, não indaga por que extensões corre a veia que alimenta a fonte. Não cuide em devassar segredos, que de pouco lhe podem importar; mas que uma vez sabidos lhe hão de trazer desgosto. A amendoa de muitos fructos trava, emquanto elles são dôces, aproveite-se da polpa e não queira saber do caroço.
E assim, mudando rapidamente de assumpto, evitava sempre que insistisse.
Entretanto iamos muitas tardes para um logar da praia, que de preferencia escolhiamos por ser mais recatado e só.
Entre ambos havia como que uma communhão de tristezas. Elle pelo passado, eu pelo futuro; elle por o que já experimentára e sentira; eu porque receava experimentar e sentir tambem.
Emquanto o velho passava horas silencioso e triste a rever as paginas da sua vida, a rememorar dôres, alegrias, saudades, e amores: eu que ia conhecer o mundo, eu que deixava de ser creança e não começára ainda a ser homem, scismava no futuro para que caminhava, e devaneiava conjecturas sobre essa vida nova, que ia encetar. Agradava pois a ambos a solidão, e ambos procuravamos de preferencia os sitios, onde menos nos podiam inquietar os conhecidos.
A praia da nossa predilecção estendia-se desde Cabo-Ruivo e o recolhimento do Moinho. Em frente espraiava-se o Tejo pelos juncaes, que, mesmo em preamar, erguiam os cimos arrouxados sobre as aguas; detraz a costa subia quasi a prumo para os olivaes do Casal das rolas.
Uma ou outra pedra ennegrecida pelo tempo, pelo quebrar das ondas, pelos limos e pelas ostras que a revestiam destacava-se na arêa da praia, ou avultava por meio dos juncos. O rio, n’aquellas alturas quasi sempre só, parecia não terminar no lado opposto; porque a outra margem se confundia com o céo. De cima, como torre de vigia de castello antigo entrava pela agua dentro o pavilhão quadrado e de tecto esguio do antigo recolhimento. Debaixo o cabo a que pela vermelhidão do terreno tinham dado o nome de Ruivo, limitava o horisonte, e tirava a vista da parte do rio mais cheia de navios e de animação.
Tudo alli era silencioso, tudo infundia sentimento, tudo convidava para a meditação.
Torcendo-se por entre os alcantis da ribanceira, escondendo-se umas vezes por detraz de moitas de rosas carrasquinhas e de giestas, outras caminhando entre pequenas mattas de congoças, outras descobrindo-se de todo n’um terreno escalvado e nu, um caminho de pé posto conduzia dos olivaes á praia, e estabelecia communicação entre o mundo e aquelle retiro. Avistavamos pois a grande distancia, quando alli estavamos, qualquer, que do Casal descesse para a praia, e haveria por conseguinte facilidade de mudar de conversação, sem que nos perturbassem d’imprevisto.
A meio do carreiro n’uma lapa gottejava da rocha a agua mais pura das visinhanças e demorava-se n’um berço de relva e musgo verde como esmeralda, macio como velludo, e que forrava a cova, que a agua havia feito. Junto á fonte algumas pedras pulidas pelo roçar continuo dos cantaros das raparigas dos sitios, que alli vinham buscar agua, offereciam um bom poiso para descançar.
Era tambem alli que mais de habito nos sentavamos. O mar deante de nós, o ceu sobre nossas cabeças, as costas dadas ao mundo, e a imaginação a perder-se no espaço.
Depois, quando descaia a tarde, aquelle silencio perturbado apenas pelo surdo marulhar das aguas, aquellas côres sombrias do mar e do ceu, aquelle espectaculo do infinito, que tanto nos confrange e opprime, e a indecisão, que nos baloiça no espirito, as duvidas que se apoderam de nós, sobre o que seremos, sobre o que nos tornará felizes, a lucta com essa terrivel e mysteriosa sphinge que se chama futuro, tudo isso me levava a um estado especial que muitos talvez tenham sentido, mas que poucos poderão definir, em que desejava sem saber o que, em que soffria e agradava-me o soffrimento, em que amava e debalde queria fixar o grande amor que sentia, em que lastimava sem que podesse explicar porque, não estar assim sempre, não passar d’ahi para outro mundo, outra vida, outro que quer que fosse, para mim desconhecido, mas que me parecia fatalmente destinado para me dar a verdadeira felicidade apoz a qual voava a minha imaginação apaixonada.
Estes ataques de uma nostalgia particular traduzil-os-hia eu, se traducção podessem ter, como o chorar da alma infinita dentro da sua tão limitada prisão, pelos espaços e pelos mundos infinitos d’onde veio, e onde deve ir um dia.
Sei, para em duas palavras me exprimir, que soffria muito, mas que era feliz soffrendo assim.
O meu velho companheiro, esse, apenas ali chegava sentava-se n’uma das pedras, carregava o cachimbo, feria lume, accendia o tabaco e entrava a fumar; depois o pau com que começára a traçar arabescos no chão parava gradualmente, os braços caiam-lhe sobre os joelhos, o cachimbo apagava-se, e os olhos cerravam-se-lhe como se tivesse adormecido.