Part 10
Entretanto estava resolvido a seguir á ventura, certo de que em pouco tempo encontraria abrigo; quando deante de si, na quebra de uma azinhaga, lhe pareceu vêr uma sombra rasteirinha coser-se com o muro e seguir a modos de homem, que fosse agachado, como receando ser visto.
—Quem vae ahi? perguntou Joaquim que costumado ás aventuras do sertão não se inquietava muito com um mau encontro.
Mas a sombra seguiu mais apressada, sem dar resposta.
Joaquim chegou esporas ao cavallo e correu sobre o vulto.
Proximo reconheceu duas creancinhas, um rapasito de sete annos, ao mais, e uma menina de seis, que de mãos dadas e tremendo de medo ambos, ajoelharam quando o viram ao pé de si, exclamando o mais velho, e que parecia mais animoso.
—Não nos faça mal, temos o pae doente e vamos levar-lhe este remedio, que lhe receitou o mestre Eusebio.
(Eusebio ainda era sangrador-barbeiro approvado pelo proto-medicato, e facultativo á falta d’elles).
Depois voltando-se para a irmã, que se fazia bem pequenina para se esconder atraz d’elle, disse-lhe, mudando as fraquezas em forças, e n’um tom mais seguro, como para lhe incutir valor.
—Não tenhas medo, Isabel, aquelle senhor não nos ha de fazer mal, não vês que tem cara de boa pessoa!
O pequeno não podia perceber que tal fosse a physionomia de Joaquim; esta amabilidade era pois um argumento _ad benevolentiam_, aprendido quasi intuitivamente, na rethorica saloia.
—Não faço mal, não, pobres pequenos, com este tempo, tão mal resguardados!
Isto era dito já a pé junto d’elles e detendo se com verdadeira compaixão ao attentar nos farrapitos, que mal os cobriam.
—Nós cá não tem duvida: o pae é que precisa mais, está tão doente.
—Ha tres dias que não come nada.
—E a nossa mãe, coitadinha, ha oito dias que não dorme!
—E o pae, está com uma cara! Nossa Senhora nos valha, parece um defunto.
—Não digas isso, Isabel!... depois approximando-se mais de Joaquim, com quem ia já acostumando-se, e como para lhe provar que não era creança, o rapasito continuou mais de vagar; o pae está muito mal, que eu bem vi a cara que fez hontem o mestre Eusebio, mas a mãe não desconfia e a Isabel nada sabe.
—É muito longe a sua casa?
—Não, meu senhor, é logo alli.
—Pois vamos lá, que eu tambem os acompanho. Já agora... Não temos outra noite, e d’aqui ao lugar ainda ha uma boa meia legua bem puchada. Quando lá chegasse achava tudo fechado.
—Mas o senhor vae ficar muito mal accomodado, exclamou a pequena, que ainda se não affizera muito ao seu novo conhecido, a gente é tão pobre!
—Não tem duvida, minha menina, em qualquer canto me arranjo, sou facil de contentar.
—Oh José, eu tenho medo do homem, elle vem com a gente? perguntou ao ouvido a pequenita a seu irmão.
—Tu tambem, sempre és uma medrosa!... E d’ahi não sabes que lá em casa não ha que levar!
—Sim, mas olha eu sempre tenho medo.
Joaquim comprehendêra pelo conchegar assustadiço da creança para seu irmão, e pelos modos importantes que este assumira, qual tinha sido o dialogo em voz baixa, e sorrindo-se disse á pequena:
—Não tenha medo de mim, não sou nenhum ladrão. Mas bem pelo contrario a prevenção mais assustou a creança, que não atinando com o modo porque elle ouvira a sua conversação, exclamou apressurada, mas sem olhar para o seu interlocutor:
—Eu bem sei que o senhor não é nenhum ladrão; mas... adivinha o que a gente diz!
—Então minha menina, julga-me agora feiticeiro?
—Deixe-a fallar, é uma creança, ainda não fez seis annos.
—E o menino é um homem, não tem medo.
—Eu já tenho sete annos, e d’ahi o senhor não havia de fazer mal a duas creanças, nem a meu pobre pae. Está tão doente!
—Pois deixem estar que eu verei se sei d’algum remedio, que lhe faça bem. Pelas terras, por onde andei, aprende-se muita coisa e eu conheço algumas drogas que talvez aproveitem: e d’ahi eu quero pagar-lhes o agasalho, tenho com quê.
—O senhor dá cura ao pae?—Que bondade seria a sua!
—Não te dizia eu, Isabel.
—Ora pois então vamos lá. Digam-me seu pae é muito velho?
—Não senhor, tem trinta annos e mais alguma coisa, os desgostos é que o acabaram muito.
—Pobre homem!
—Demais a mais um tio, que anda lá por fóra quer tirar-nos tudo. E d’ahi o pae, vive tão apoquentado!
—Um tio?
—Sim, senhor, atalhou a pequena, um tio muito mau! Sempre tenho uma raiva ao meu tio!...
—Calla-te, mana, tu não sabes que o pae diz que o tio não tem a culpa?
—Então o tio anda ha muito por fóra! Como se chama?
—Ora o senhor não o conhece, replicou o rapaz meio desconfiado; está muito longe.
—Quem sabe, ás vezes! Diga-me sempre como elle se chama.
—É o tio Joaquim.
—E está?...
—Lá para o Brazil.
—E seu pae, chama-se?
—Mas o senhor de certo não se importa com a vida da gente, respondeu o Josésito, que já não ia gostando de tanto perguntar e que receava, com aquella giria que parece acompanhar os saloios desde o berço, que lhe podesse porvir algum mal das suas respostas.
—Por amor de Deus diga-me como se chama seu pae.
—Assim, como assim, o senhor sempre o ha de vir a saber, chama-se Raymundo.
—Então os meninos são?...
E a commoção embargou-lhe a voz.
—Somos, sim senhor, somos filhos de meu pae, eu chamo-me José, que era o nome de meu avô, e minha irmã é Isabel, porque nasceu no dia de Santa Isabel.
—Pois eu...
Mas a reflexão cortou-lhe a palavra: queria vêr; queria, antes de se declarar, que aprendessem a abençoal-o. Entretanto, agarrou-os bem para si e abraçou-os muito enternecido.
—O senhor está a chorar, disse Isabel com aquella perspicacia de mulher mesmo pequena, olhe, já vou gostando mais de si!
—Gosta, gosta, minha Isabelinha, que eu tambem gosto muito de ti. E tu lá, José, tambem és meu amigo?
—Eu engracei comsigo logo ao principio. Aqui está a nossa casa; e batendo á porta:—mãe, mãe, aqui vem um senhor, que sabe d’um remedio para curar o pae! Abra a porta, mãe, somos nós.
Effectivamente estavam á porta de Raymundo. A luz que vinha de dentro ao abrir, cegou por momentos a Joaquim, que só depois de se costumar á claridade é que pôde dar fé do interior d’aquella habitação.
Era uma casa terrea, que accumulava as funcções de cosinha, sala, casa de jantar e quarto de dormir dos pequenos. A um canto uma cortina de chita muito remendada resguardava-lhes a alcova; do lado direito uma porta meia aberta dando para o escuro, d’onde saía o som angustiado e sibilante de uma respiração irregular accusava o quarto do enfermo: junto da chaminé, onde ardiam em chamma fraca e incerta alguns cavacos apanhados na estrada, via-se uma cadeira antiga de espaldar de coiro e pregaria amarella. Era o unico movel de algum valor.
Uma meza de pinho, bem tosca e bem pouco segura, umas pratelleiras sobre a meza pregadas na parede, onde se viam uns pratos quasi todos rachados e alguns tachos bem velhos, tres mochos em roda da meza, uma arca carunchosa ao lado da porta de entrada, dois registros por cima da arca, uma palma e um rosario crusando-se sobre os registros, constituiam toda a mobilia, a que accrescentaremos apenas, para que a descripção seja completa, um banquinho proximo á entrada do quarto do doente e junto da arca, d’onde Leonor se levantára para abrir a porta aos recem-chegados.
Sobre a arca uma lamparina allumiava os santos e dava claridade para o trabalho de Leonor, que ali, ora levantando os olhos de supplica para as imagens, ora volvendo-os cuidadosa para o quarto onde jazia o esposo, remendava um capote de Raymundo, sobre o qual de vez em quando caiam as lagrimas da desgraçada.
A luz incerta do brazeiro, sobre o qual e para o escurecer mais ainda estava uma panella de folha, em duas pedras, que suppriam a fornalha; e o clarão mais terno ainda da lamparina, luctando com as sombras e perdendo-se na escuridão, tornavam a casa mais vasta, mais nua e mais triste.
—O pae está descançando, não façam bulha, apressou-se em dizer aos seus dois filhos a attribulada mulher. Depois voltando-se para Joaquim:—Vossa senhoria ha de perdoar, os pequenos é que tiveram a culpa de o cá trazer, bem vê que não temos accommodações para hospedes; depois a doença de meu marido...
—Olhe, mãe, segredou-lhe o José como quem queria dar a entender que não andára de leve, elle tem dinheiro para pagar á gente, e diz que traz um remedio que dá cura ao pae...
—Não venho para encommodar. Estou affêito a tudo, e qualquer coisa me satisfaz, uma pouca de palha e uma manta, uma manta só, coisa nenhuma que seja; mas licença de descançar ahi sentado, e de adormecer com os braços sobre a meza e a cabeça encostada aos braços. Eu sei o que são doenças, e talvez mesmo lhe possa servir de algum prestimo. Nas terras por onde andei nem sempre havia medico á mão, nem boticario ao pé da porta. Ia-se a gente curando conforme podia, e aprendendo á sua custa...
Emquanto Joaquim proseguiu no seu arrasoado, examinava sua cunhada, que pela sua parte aproveitava tambem estes proloquios para observar o hospede que seus filhos lhe traziam.
Leonor era ainda uma formosa mulher, posto que o desgosto lhe tivesse gravado algumas rugas na physionomia e embranquecido alguns cabellos. Morena, olhos pretos e rasgados, nariz recto e fino, labios delgados e vermelhos, rosto oval, um d’estes typos peninsulares, mescla formosa do sarraceno trigueiro e nervoso, como as filhas do norte pallidas e lymphaticas.
Era esbelta e da altura propria de mulher. Tinha sentimento na physionomia e elegancia no corpo. Mostrava o que devera ter sido, antes que as maguas a envelhecessem e os trabalhos a cançassem.
A tristeza espalhava lhe pelo rosto um melancholico mas diaphano véu, atravez do qual transparecia a vermelhidão do pejo ao lembrar-se da má hospedagem, que com difficuldade podia offerecer. E quanto mais olhava para Joaquim mais ia sympathisando com a cara rude mas franca do recem-chegado.
Este mostrava tambem ter muito mais edade do que tinha. Valera-lhe por dez um dos annos que passára no sertão: mas aquella belleza agreste do homem callejado no trabalho, aquella lhaneza não destituida de finura, que se adquire no trato licito, mas laborioso e muitas vezes bastante complicado, davam-lhe relevo ás feições e imprimiam-lhe um cunho particular. Trajava simplesmente e como lavrador abastado.
Apesar da compostura que se notava no traje de Leonor, apesar do cuidado com que vestia e do aceio da sua roupa, a mão da miseria denunciava-se a todo o momento. Da miseria que não faz alarde de si, que se esconde, que se disfarça, que tem pejo do seu estado e receio de que a conheçam. Miseria timorata e desconfiada, a que tudo offende, porque tudo a fere; que de todos foge, porque, sem quererem mesmo, todos a escandalisam. Uns pela ostentação, outros pelo dó, pela indifferença mesmo outros. Miseria que sorri por fóra emquanto chora por dentro, que apparenta desapego emquanto treme pelas consequencias, que encontra perigos sempre diante de si, e que soffre tanto mais, quanto receia que o desabafar seja tido como uma supplica e a franqueza como um rodeio para pedir. Miseria que se roça por nós sem que a conheçamos, e que por um nobre orgulho denomina doença a fome, desleixo o máu vestuario, extravagancia a necessidade.
Tal era entretanto a que se lia no modesto e envergonhado trajar de Leonor, e que Joaquim, com a perspicacia que dá tambem a infelicidade, conheceu á primeira vista.
—Se não fosse a molestia do meu Raymundo, proseguiu ella, melhor agasalho lhe poderiamos offerecer; mas assim... Parece que Deus se esqueceu da gente a alguns annos a esta parte! E tudo por causa de um mano de meu marido... que elle não quer ouvir tal, e pelo contrario sempre defende o irmão, que no seu dizer não tem culpa do que faz um tal João Simões... mas o senhor não se interessa com isto. Vou vêr se lhe posso offerecer alguma cousa de cear, e perdoará a limitação.
E, emquanto fallando e dando voltas, Leonor ia preparando a ceia, e espreitando sempre o quarto de seu esposo, para se certificar se este continuava a dormir; Joaquim ficára á porta, de pé, chapéu na mão e como pasmado a comparar aquella pobreza, com as informações que recebera.
Leonor reparou na posição do seu hospede, e indicando-lhe a cadeira de espaldar, proxima da chaminé:
—Vem molhado, e está ahi em pé, sem se chegar ao menos para o lume, sente-se: ainda assim esta cadeira é a predilecta de meu marido, era onde se sentava quasi sempre meu sogro.
Joaquim já tinha conhecido a poltrona, mas quando Leonor lh’a indicou pedindo-lhe, que se sentasse, não pôde dominar uma visivel commoção. Teve duvida, quasi medo de se sentar. Parecia-lhe vêr seu pae apontando-lhe para aquella casa, para aquella miseria e expulsando-o. Affigurou-se-lhe de repente o quadro, que tantas vezes examinára. O rosto entre severo e indulgente de José dos Santos inquieto por amor do filho, que se demorava, e preparando um sermão, que levava a cabo raras vezes, porque antes de meio lhe desarmava as iras o verdadeiro affecto paternal.
Leonor, que não podia acertar com a causa de semelhante hesitação, attribuiu-a a causa bem differente.
—Não faça cerimonia, se meu marido estivesse aqui, elle mesmo lh’a cederia, que sempre lhe ouvi dizer, que era dever sagrado fazer bom acolhimento aos viajantes. E perdôe vossa senhoria que eu ande no meu trafego.
N’este comenos, remechêra na arca, e bem vermelha de vergonha tirára um panno muito lavado, é verdade, mas cheio de remendos, e que estendera sobre a mesa; desencantára n’um armario velho, que pelo estado em que se achava e pelo pouco vulto que fazia nos esqueceu mencionar, duas brôas de milho e alguns queijos brancos salgados; escolhêra da pratelleira os pratos menos quebrados, a que juntou os talheres, que apesar de serem de chumbo, pareciam de prata pelo brilho, tão limpos estavam: e indo buscar á chaminé a panella onde fervia um caldo de couves e toucinho, convidou o seu hospede a tomar parte d’aquella ceia.
Não era coisa sufficiente, bem o sabia, mas a sua pessoa havia de desculpar, pois que não esperava ninguem de fóra nem estava no auge de o receber como desejava, pois a doença do seu homem a tinha quebrado de pernas e braços.
—E o que diz o facultativo da doença do seu marido?
—Diz, que é uma dôr no interior, que lhe costuma a dar e que é de muito perigo se continua, que elle já é attreito a padecer do figado, que segundo parece é molestia de familia, e que lhe póde subir o mal ao bofe se não puchar abaixo com força. E será assim?
—Não o creio. Deus ha de affastar o agoiro do tal barbeiro.
—Elle tambem diz, que é bom dormir, e o meu Raymundo ha umas quatro horas que está descançando tão socegado, que parece mesmo uma creança.
—Isso sim; o dormir é sempre um excellente remedio, restaura as forças e faz cobrar saude. D’ahi seu marido deve estar amofinado por lhe correr o negocio mal. Não me fallou ha pouco de um irmão?...
—Do Joaquim, fallei, sim senhor.
—Então esse Joaquim?
—É, segundo a minha opinião, a causa de tudo isto. Que o Raymundo diz que não, e jura que não era capaz de fazer uma acção d’estas, se soubesse do estado a que chegámos...
—Que acção, atalhou precipitadamente Joaquim?
—Uma penhora, á gente, n’isto que o senhor ahi vê. Na verdade vale bem a pena de incommodar a justiça, ha de ficar bem rico, não tem duvida nenhuma! Mas ainda assim, Deus sabe a falta que nos faz tudo. Ficamos a pedir esmola. Até agora ainda tinhamos o nosso buraquinho para uma afflicção; mas de hoje em diante...
—Que diz?...
—A verdade. Um tal João Simões, é que tem andado acceso n’este negocio todo, porque tomou asca ao meu Raymundo desde que elle um dia, já de proposito, por saber que era o Simões que lhe desinquietava o irmão, lhe voltou costas no arraial de Nossa Senhora do Rosario. Depois, apresentou-se feito procurador do Joaquim, deu testemunhas... se o senhor soubesse, que testemunhas!... as caras mais atraiçoadas do logar, em como o pae de meu marido tinha deixado muitos bens, que o meu Raymundo estragára tudo, e depois tem andado em demandas para puchar pela legitima do amigo. Legitima!... Só se foi a benção do pae á hora da morte, porque emquanto ao mais! Nem chegou o dinheiro para o enterro, que foi preciso ir pedil o fóra.
N’estas alturas do dialogo um gemido do doente chamou a attenção de Leonor que correu á alcova de seu marido e por lá se deteve. Cançada de lidar, apenas se certificou de que o marido continuava dormindo e que o gemido fôra apenas sobresalto de algum sonho angustiado, sentou-se aos pés da cama, e passando as contas de um rosario, cedeu por fim ao cançasso e adormeceu tambem. Os pequenos logo depois da ceia tinham ido aninhar-se para o seu cantinho, e havia muito que resonavam.
Joaquim ficára entregue ás suas reflexões.
Correram as horas, esmoreceu de todo o lume no brazido, apagou-se a lamparina, ficou a casa em trevas devassadas apenas pela luz diffusa da atmosphera, que passava pelas fendas do tecto: e elle cogitava ainda no passado e no presente, nos seus sonhos, nas suas aspirações, nos seus erros e nas suas culpas.
A solidão d’aquella casa povoava-se-lhe de vultos, todos elles conhecidos, todos eloquentes: alguns severos julgadores, outros saudosos e indulgentes amigos. Uma a uma iam-lhe correndo as scenas da sua infancia, via, como em lanterna magica, recortarem-se nas trévas do aposento as figuras de quantos havia conhecido, de todos com que lidára, e superior a todas como absorvendo-as e substituindo as, a figura veneranda de seu pae, ora exprobando-lhe terrivel o quanto perseguira seu irmão; ora sorrindo-lhe amorosamente na hora derradeira e estendendo-lhe sobre a cabeça as tremulas e enrugadas mãos para o abençoar.
Ao assomar da alvorada pendendo-lhe as palpebras adormecia tambem; não com o somno socegado e reparador, que se segue ás fadigas do corpo; mas com aquella modorra agitada e febril, que é o decair das grandes luctas moraes. Cabecear cortado de sobresaltos, dormir carregado de pesadellos, descanço, que nos deixa mais cançado ainda.
Entre dormindo e acordando começou a ouvir o seguinte dialogo:
—Como te sentes, Raymundo?...
—Melhor, Leonor, muito melhor. Fez-me bem o somno d’esta noite. Já vieram?
—Quem?
—Os officiaes de justiça, os que hão de fazer a penhora.
—Não cuides n’isso, que te amofinas, talvez não venham; talvez fosse tudo palavriado do Simões para assustar a gente. É impossivel que não olhem ao teu estado.
—Qual olham, nem meio olham! Bem se conhece, que não entendes d’estas coisas. Pois tu não sabes que a justiça é cega? Taparam-lhe os olhos para que não visse a desgraça dos pobres.
—Mas teu irmão!
—Não sabe de nada, Leonor, diz-me o coração que não sabe de nada. O Joaquim teve sempre a cabeça levantada; mas no fundo não era mau rapaz. Se elle soubesse o que o Simões tem feito já lhe tinha tirado a procuração.
—Tu tambem sempre o defendes, és a bondade em pessoa, meu pobre Raymundo, não ha para ti ninguem mau n’este mundo.
—Olha, o Joaquim se não fossem as más companhias não teria feito o que fez: não gostava de se chegar para o trabalho, era o seu senão; mas não era capaz de fazer mal a ninguem, nem rapaz de mau interior.
—Foi elle que matou teu pae, e que no fim de contas nos tem levado a este estado com as suas demandas.
—Não digas isso, Leonor, que me affliges. Meu pae morreu, porque lhe tinha chegado a sua hora, custou-lhe muito a partida de Joaquim; mas abençoou-o á hora da morte. Lembras-te, não é assim? Se elle perdoou, porque não havemos nós de perdoar...
—Obrigado, irmão!
Era affogada em lagrimas a voz de Joaquim, que estava entre portas do quarto. Tinha accordado e escutado cada vez com maior attenção o dialogo, que tão de perto lhe dizia respeito. Julgou ao principio que seria sonho, conheceu depois que era realidade, e tremendo todo ergueu-se e, para melhor ouvir, approximou-se do logar d’onde partiam as vozes.
A gratidão, e talvez o remorso fizeram-lhe soltar aquellas duas palavras, que cortaram o dialogo.
Raymundo conheceu a voz, sem que podesse distinguir-lhe o rosto, porque o irmão estava de costas para a claridade; pareceu-lhe que invocára um phantasma, estendeu para elle os braços, exclamando:
—Joaquim!
E caiu desmaiado com o abalo.
Joaquim precipitou-se chorando para junto da cabeceira do irmão, abraçou-o vezes infinitas e teve o indisivel jubilo de o vêr tornar a si em seus braços.
—És tu, meu irmão!... Bem me dizia uma voz cá dentro, que havias de voltar.
—Perdoas-me, Raymundo?
—Perdoei-te sempre. Tu é que tens que me perdoar.
—O que?
—Não te haver já transmittido a benção do pae. Ajoelha, Joaquim.
—Em nome do nosso bom pae que está nos céus, eu te abençôo, meu irmão: sê bom como elle foi, e mais feliz do que eu tenho sido.
—Sel-o hemos todos, Raymundo, porque se me deixas viver comtigo, nunca mais saio da tua companhia.
Escusado é dizer agora como terminou esta historia. João Simões não pôz mais pés na terra; Joaquim tinha-lhe jurado pelo corpo, e elle bem sabia que não era homem de faltar á sua palavra. Declarára que seria a sua ultima extravagancia; mas d’essa não desistia nem por Christo. O caso era encontrar o seu procurador.
A doença de Raymundo desappareceu breve, e a alegria voltou áquella casa, para não a desamparar mais.
Muitas noites, quando se conchegava para o pé do lume, depois de ter contado aos sobrinhitos que o não deixavam por contos, uma historia do Brazil, Joaquim voltava-se para o irmão e para Leonor e dizia-lhes sorrindo:
—Sempre hão de confessar que estes endiabrados pequenos são uns grandes doutores! Como elles nos souberam ganhar a demanda!...
X
O sexto mandamento
O padre prior, que os nossos leitores conhecem já, era um modelo de virtude e um exemplo vivo de caridade christã.
Apenas começára pastoreando aquelle pequeno rebanho, não houvera cuidados nem disvellos, que lhe parecessem de mais para encaminhar nos trilhos escabrosos do bom porte e da honra as suas ovelhas de monte, que, quando se apartavam do bom do parocho, era mais por ignorancia do que por maldade.
Conhecera-o elle tambem desde logo, e empenhára as forças do seu corpo e o poder da sua intelligencia em esconjurar os peores de todos os demonios, a que a natureza humana póde dar albergue; a ignorancia e a rudeza.
Não abria mão d’estes piedosos exorcismos: qualquer logar, qualquer occasião lhe pareciam proprias para travar combate; e apparelhado, como sempre andava para a lucta com as armas da crença e da boa vontade, raramente deixava de contar da victoria.
Não quero dizer, todavia, que o meu parocho fosse um segundo Vieira, ou outro Macedo Polygrapho.
Bem pelo contrario, Deus perdoe á sua alma, e mais ainda á alma dos governos (se é que os governos tem alma), que tão pouco têem cuidado na educação do clero, o bom do padre muitas vezes, brigava com armas eguaes contra a ignorancia dos seus parochianos; e, quando vencia, era substituindo preconceito por preconceito, absurdo por absurdo.
Procediam porém de tão boa origem os erros do velho, fundavam-se em tão verdadeira bondade: e tão piedosa uncção revestia os seus disparatados conceitos, que por amor da singela magestade, e boa tenção da mentira, quasi se malqueria á verdade.
Era falso o arrasoado, bem o sabiam alguns: mas deliciava a alma e commovia o coração, encaminhava para o bem, posto que por transviado caminho. E o padre dizia-o tão de dentro, tão convencido, que chegava a parecer impossivel que não fosse assim.
Mas não era, verdade verdade, não era; que a sciencia fugia espavorida diante das legiões barbaras, que appoiavam algumas considerações do velho.
Não era, porque o pobre homem, que sem maldade nem recalcitramento, mas por simpleza e costume antigo, encommendava a missa _pro rege nostro Michaele_, resumia a sua instrucção á leitura, um tanto embaraçada, seja dito aqui particularmente, da Biblia, dos Evangelhos, do breviario e da _Nação_, cujo assignante era desde o principio.