Os Bravos do Mindello Romance Historico
Part 9
--Agora! Agora!--accudiu o frade, já desanuviado.--Imaginam que está por ahi alguem escondido, e como andam á procura do João Moniz e do Joaquim d'Almeida...
--Pois lembra bem, deve ser isso--concordou o morgado.--Que hei de fazer n'esse caso?
--Recebel-o ás bôas, deixal-o dar busca á sua vontade, e ficaremos livres d'elle.
--Pois hei de franquear-lhe minha casa?
--Que remedio, se pode entrar á força. Estão de cima. É aguentar e cara alegre, emquanto não chegam melhores dias.
--Vá então recebel-o em meu nome, e desculpe-me. Diga que estou doente.
--Eu, senhor! Não sabe v. ex.{a} o odio que nos votam esses adeptos de Satanaz! O pobre de mim até foi na lista que elles mandaram ao nosso provincial, intimando-o a prohibir os franciscanos de defenderem a causa do throno e do altar.
--Não posso ver gente de justiça, e demais a mais justiça d'esta!
--Tenha paciencia, que nos havemos de vingar de tudo. Vá attendel-o v. ex.{a}, ponha-se ás bôas, trate-o o melhor que puder, para não dar logar a que exhorbite, e tenho para mim que o ha de confundir a sua respeitabilidade. Eu ficarei rogando a Deus...
--Isso é que não. Ou me acompanha, ou não o recebo, e faça o que melhor lhe parecer.
Olhou irritado para os campos innundados de agua:
--Tivesse cá a gente de trabalho, e outro gallo lhe cantára. Mas assim, não ha com que lhe dar uma lição, que elle com certeza não vem só, nem com as mãos a abanar.
E como visse retrahir-se o frade:
--Ande d'ahi, já lhe disse.
Apavorado, pediu fr. Angelico, de mãos postas:
--Só se v. ex.{a} me promette ser conciliador. Disse o Divino Mestre, que se o inimigo nos offender na face esquerda devemos offerecer-lhe a direita.
--Isso aconselharia aos frades, que aos fidalgos não!--respondeu irritado Martinho.
--Pois n'esse estado de espirito, meu senhor, Deus me defenda.
--O melhor é falar vossa reverendissima. Eu acompanho-o, mas permitto-lhe todas as habilidades conciliadoras, porque tambem prefiro que não me incommodem.
--É Deus que o illumina, senhor morgado. Assim verá que fica tudo em bem.
--Mande-o entrar para a sala dos retratos--disse o morgado á criada--peça desculpa da demora, e que já lá vamos.
Estremeceu o frade de novo:
--Ah! Senhor do ceu! Basta o tempo que o fizemos esperar para o esbirro já estar como uma bicha. Que carantonha que não vae fazer!
Bebeu mais aguardente o fidalgo, tirou o capote, mirou-se, compoz os bofes, puchou os punhos de rendas, e lançou a fr. Angelico um olhar de desdem:
--Você já não conheceu o homem de côrte. Pois fique sabendo que me vi muita vez nos regios paços de Queluz, e sei bem a etiqueta das salas. Verá como procedo, e como, sem o humilhar, por que elles estão de cima, lhe farei sentir a differença que vae de um fidalgo a um traficante de sentenças. Basta o logar onde o recebo para o envergonhar do seu baixo nascimento. E certas coisas que lhe direi ao correr do pello...
--Não me perca v. ex.{a}, por amor de Deus! Deixe-me ficar no meu cantinho!
--Não, que você é manhoso como os que o são e, se eu me desmanchar, meterá a sua colherada. Beba uma pinga para cobrar animo, e vamos dar-lhe uma lição mestra já que cá veiu meter o nariz.
Tomou novo alento ao beber, o frade, mas ainda aconselhou:
--Lembre-se v. ex.{a} que os demonios teem o poder na mão, e por algum tempo. Além da victoria do Pico do Selleiro, ainda foi por elles o temporal que destroçou a esquadra de sua magestade, depois de tomar a Madeira, quando vinha fazer o mesmo a esta desgraçada terra. Primeiro que se arme em Lisboa outra frota para vir até cá ... Não se esqueça v. ex.{a} d'isto. Agora são elles quem manda.
Ao entrar na sala, empertigou-se mais o morgado em respeito ao scenario aonde ultimamente só raras vezes se mostrava, télas escurecidas pelo tempo destacando nas paredes caiadas, o cadeirado de coiro e pregaria amarela, o grande buffete carregado de finos buzios rosados, de amplas conchas de madreperola, os reposteiros vermelhos onde pompeava o seu brazão, com longes de capoeira.
Saudou o juiz n'uma pirueta cortez:
--Desculpe v. s.{a} a involuntaria demora. A justiça é como se entrasse em minha casa el-rei, que vossa senhoria já representou, e em nome de quem continuará um dia a exercer o mando, como é timbre de homens d'ordem.
Mordeu os labios o magistrado ao tratamento e ao remoque, mas, contando com peior acolhimento, saudou por sua vez o morgado:
--Está v. s.{a} em sua casa, e sou eu que tenho de escusar-me de o vir incommodar.
Córou Martinho Vasques á falta de excellencia, e o frade, que o percebeu, muito animado pelo tom ordeiro do juiz, interveiu:
--Permitta-me v. ex.{a}, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro, que aponte a sua senhoria os achaques...
Mas o corregedor, sem fazer caso, interrompeu-o, dirigindo um novo golpe á prosapia de fidalgo:
--Não julgue, senhor Soeiro, que venho aqui por causa das tristes perturbações fomentadas pelos mal intencionados que exploram as disenções de irmãos. Calcula decerto o grave motivo que me traz por semelhante tempo...
Ferido no seu orgulho, julgou conveniente o morgado dar-lhe desde logo a lição projectada, e forçando um sorriso que o tornava mais feio, respondeu:
--Quem não deve, não teme, e se eu tivesse que receiar das justiças, ou não estaria á mercê d'ellas, ou a minha porta achar-se-ia guardada, com o direito de que sempre usaram em Portugal fidalgos de solar.
Apontou para fóra o juiz, n'um gesto amavel:
--Foi informado o tribunal de que ha aqui um quinteiro brigão, o que, para evitar algum desacato d'esse desordeiro, me forçou a vir convenientemente acompanhado, não por causa de v. s.{a}, mas por via d'elle.
Trocaram um olhar fr. Angelico e o morgado. A escolta lembrava logo uma prisão. E a referencia á cilada fazia-lhe receiar que João ou o veterano o tivessem denunciado como conspirador.
Triumpharam os propositos conciliadores que ditava o mêdo, e o frade adiantou-se, muito curvado:
--Perdôe v. ex.{a}, senhor corregedor, não lhe ter offerecido já alguma coisa quente, uma chavena de café, uma magnifica aguardente da lavra do fidalgo, para o preservar de uma peitogueira...
Sorriu muito lhano o magistrado:
--Lembrou bem vossa reverendissima, e acceito de bôa vontade, com o que provo os meus amigaveis intuitos.
Saíu por um momento, muito lépido, o frade a dar ordens; e o morgado, fazendo um exforço, recalcou as offensas, e submeteu-se ao receio da escolta:
--Vejo que v. ex.{a} não me conhece, por attribuir á minha atitude intuitos diversos da justificadissima surpreza...
--Oh! De modo algum.
--E como v. ex.{a} não é da ilha, permitta-me que me apresente, fazendo-o tomar relações com os meus antepassados, que não lhe podia ter dado melhor companhia, pois não a ha mais escolhida n'esta terra, nem lá fóra é frequente a que se lhe possa comparar.
--Já os estive admirando assim que entrei, e conheço-os por tradicção, como conheço a v. ex.{a} mais do que imagina.
Envaideceu Martinho a homenagem do tratamento e, attribuindo-o ao effeito d'essa berrante linhagem, insistiu no proposito de desenrolar os pergaminhos.
--Perde-se a minha geração na noite dos tempos, entroncando-se por muitas vezes no ramo da dynastia, mas a mais proxima representante é esta minha trisavó, que morreu em Odivellas em cheiro de santidade.
Apontou um retrato de moldura oval, que tão bem ia ao rostinho envolto na toalha:
--É soror Thereza de Jesus, que em formosura desbancou a madre Paula, senhora de Melres, e conhecida por isso no convento pela _Melrinha_, ao que allude o segundo quartel do meu brazão, tres melrinhos de oiro sobre purpura. Era já fidalga, filha do senhor de Villar de Corvos, representado no primeiro quartel por aquelle corvo de prata em campo azul, mas el-rei o senhor D. João V--e curvou-se como se estivesse na presença do monarcha--houve por bem, ao conceder-lhe o alvará de legitimação do filho, dar a meu bisavô o titulo de moço fidalgo da casa real, com serviço no paço.
Orgulhava-se apontando outro retrato, um homemzarrão em corpo inteiro, grande cabelleira em caracoes, tricornio debaixo do braço:
--É meu visavô, D. Francisco, com quem, dizem, me pareço muito. Batendo-se como um heroe, conquistou para o nosso nome um immorredoiro prestigio, merecendo pelos seus feitos d'armas, e pela particular predilecção que sempre nutriu el-rei por minha visavó, as doações com que se creou o nosso morgado.
Indicou-lhe outro retrato, em meio corpo:
--Este é meu pae, D. Fernando, intimo d'el-rei o senhor D. Pedro III, que o teve em alta estima. A esse prestigio de que sempre gosámos no paço, deve minha irmã, D. Mafalda, o honroso logar de dama de honor da rainha senhora D. Carlota Joaquina.
Era a dama que enchia outra grande téla, em trajo de côrte, vestida a azul e vermelho, toucado de plumas, opulenta de rotundidades que a tornavam celebre nos lubricos bailados da rainha, sua rival em fama.
Por sua vez, indicou o juiz um retrato:
--Este, que como os meninos postos de castigo está voltado para a parede, brilha para mim atravez da tela. Conheço-o, é D. Bernardo, o amigo dedicado do grande marquez de Pombal, que veiu a esta terra cumprir a ordem de expulsão dos jesuitas. Porque não honra v. ex.{a} as nobres tradições d'este seu avô? Porque não reconhece que as nossas ideias teem raizes bem fundadas, e que já foram defendidas por bons fidalgos, como v. ex.{a} classifica os da sua geração?
Respondeu gravemente Martinho Vasques:
--Este infeliz foi transviado, corrompeu-o o mal do tempo, e a sua alma deve estar no purgatorio, aguardando o juizo final, feliz ainda assim por levar em seu favôr os serviços que filhos e netos teem prestado ao throno e ao altar. Os verdadeiros principios da minha familia são os religiosos; nasceu e creou-se meu visavô no convento; auxiliou meu pae a restauração religiosa da senhora rainha D. Maria, que santa gloria haja, e foi minha irmã uma das fundadoras do culto da Senhora da Rocha.
Voltára o frade, á frente da creada com a bandeja de dôces, a chicara do Japão com o café, e a garrafinha dourada com aguardente, a tempo de auxiliar a defeza dos bons principios:
--O timbre e lustre da linhagem, excellentissimo senhor, é D. Francisco, que em serviço d'el-rei e gloria do reino, andou no cruzeiro d'Angola defendendo para a nação os rebanhos de escravos de que os malditos estrangeiros queriam lançar mão. Perseguido um dia por um negreiro hollandez refugiou-se na costa, e com tanta felicidade que poude dar auxilio a um barco portuguez que carregava _ébano_ para o Brasil. Não queriam obedecer os malditos pretos, e elle, n'uma patriotica decisão, desembarcou com uma manga de arcabuzeiros. Não intimidaram aos ferozes selvagens os elmos, as couraças, nem as grandes armas apoiadas nas forquilhas. E quando D. Francisco, ao cravar no sólo a nossa gloriosa bandeira, viu que não se deitavam por terra, curvando-se ante o lábaro sagrado que levára á Africa a religião de Christo, mandou-lhes dar uma surriada de arcabuzes, emquanto o navio os varejava de metralha. E de toda essa multidão bravia que nutrira a louca ideia de, com settas de cana, emplumadas de pennas de gallinha, defender mulheres e filhos, não ficou um para amostra. Dos nossos apenas foi ferido esse bravo dos bravos, com uma azagaiada na nadega, que toda a vida o fez sentar de banda.
Muito ancho, accrescentou o morgado:
--É o feito que commemora aquella cabeça de negro, em fundo de prata, do meu brazão; e a esse alto tropheu de familia corresponde aquelle outro emblema, as mãos de ouro em vermelho, como fartando-se d'esse sangue derramado em prol da nação.
Muito risonho commentou o juiz, que tomára o café e provára um calice da justamente celebrada aguardente:
--Pois conheço-o tão bem, D. Martinho, que me admiro não vêr-lhe sobre as armas o distinctivo dos bastardos reaes.
--V. ex.{a} confunde-me!
--É um direito que só lhe contestam os primos do Alemtejo, dizendo que n'esse tempo entrava em Odivellas o sequito do rei, até ao ultimo lacaio, que todas as freiras reclamavam os mesmos prazeres que a madre Paula, que as santas monjas não recusavam a esmola das graças corporaes, e que vibrava o mosteiro em alegres risos de muitas creanças.
--Sei que meus primos falam por inveja--retorquiu o morgado--mas não deixam de reconhecer a superioridade do meu ramo, tanto que requestam para seu filho a mão de minha filha.
Aproveitou o juiz o ensejo:
--Desculpe v. ex.{a} o meu involuntario esquecimento. Como está sua excellentissima filha?
--Bem, muito obrigado a v. ex.{a}
--Já que me deu o prazer de conhecer os seus antepassados, desejava ter a honra de ser apresentado á senhora D. Maria, cujos dotes de espirito tanto me elogiam.
Trocaram novo olhar o morgado e o frade, e acudiu fr. Angelico ao amo:
--Sua excellencia disse «bem», porque felizmente não é coisa de gravidade, mas a pobre menina não se póde levantar da cama, constipada por esta frialdade...
Estranhou o juiz n'uma inflexão grave:
--Parece que o contrariou o meu desejo.
--De modo algum.
--Não m'o recuse pois. O seu ligeiro incommodo não a impedirá de certo de vir á sala.
Interveiu de novo o frade:
--Trata-se de um caso de certa gravidade, que só para não assustar o senhor morgado, fingimos considerar sem importancia.
--Acho conveniente--retorquiu o juiz--que se não meta onde não é chamado. Dirigia-me ao senhor Soeiro, e creio que elle, que tanto se orgulha da sua nobreza, não ignora que os fidalgos dizem timbrar em não mentir.
--E não mentem, senhor!--protestou o morgado.
--Mantenha então a primeira resposta, de que sua filha se encontrava de perfeita saude.
Encolhera-se o frade, e Martinho Vasques dirigiu-se ao juiz, mudando de tom:
--Antes de mais nada: Que significa semelhante insistencia?
--Sabe-o tão bem como eu.
--Sinto apenas uma certa estranheza...
--Tratando de sua filha, calcula decerto ao que venho. Vá, um bom movimento! Ponha de parte os seus escrupulos e torne felizes aquelles que uma honesta inclinação destinaram um ao outro.
Passou no olhar do morgado um lampejo de rancor; mordeu furioso os labios, mas conteve-se ante o receio de ser dado por cumplice dos revoltosos, e de vêr confiscados os bens.
Ainda assim entendeu dar por finda a visita:
--Se v. ex.{a} não tem outro assumpto a tratar...
Redarguiu energicamente o magistrado:
--Vejo que comprehendeu o sentido das minhas palavras. Tenho pois todo o direito a uma resposta.
Fazendo esforços para se não exceder, respondeu o morgado:
--Minha filha casará com o primo D. Luiz de Sousa, a quem está prometida ha muito.
--É essa a sua ultima palavra?
--Naturalmente.
--Desejava conhecer a resposta da senhora D. Maria.
--Lá vem outra vez com minha filha!
Accorreu de novo fr. Angelico:
--As filhas só podem ter a vontade dos paes.
Tornou a pedir o juiz:
--Satisfaça v. ex.{a} o meu pedido, e retirar-me-hei com a resposta da senhora D. Maria, seja qual fôr.
--Senhor, a sua insistencia!
--Não se exalte. Quero estabelecer a harmonia e não desejo usar de outros processos.
--Ameaça-me?
--Não. Lembro-lhe apenas quem sou, e o respeito que me é devido.
--Pois lembre-se tambem em casa de quem está, diante d'estas nobres figuras, e reconheça que, em vez da atitude pacifica em que se disfarça, levou a sua audacia, apoiada na escolta, a ponto de me tratar como um igual quando eu sou um fidalgo, e o senhor, apezar do seu cargo não passa de um plebeu.
--Assim é. Na minha familia não ha femeas que tivessem servido de cano de esgôto para a transfusão do sangue real. Não me orgulho do que envergonha gente de bem. Quanto a esses mostrengos de narizes coloridos pela aguardente, só podem interessar a Lavater, que teria muito que estudar n'aquellas physionomias. Quanto a mim nada me importam, e de grande paciencia dei provas ouvindo-lhe as historietas do brazão.
E como o frade se interpozesse, querendo abrandar o morgado, que bufava, apopletico:
--Entremos no assumpto que aqui me traz. Recebeu a justiça uma queixa de que jaz ha muito tempo em carcere privado e recebe maus tratos, a senhora D. Maria. A insistencia com que recusou apresentar-m'a confirma a queixa. Ora nem v. ex.{a} nem pessoa alguma póde encarcerar por seu arbitrio quem quer que seja.
Martinho Vasques desabafou:
--Sente-se bem, no irritante do seu falar, que por terem vencido uma escaramuça, e haver o temporal desviado a esquadra, tem o rei na barriga, e se lançam em desenfreadas vinganças. Agora trazem a anarchia ao seio da familia! Já nem respeitam a santidade do lar!
--O despotismo familiar não o respeitamos, nem o consentimos. É da lei, que temos obrigação de cumprir.
--Essas malditas leis constitucionaes...
--Já as ordenações do reino o prohibiam, mas eram letra morta as medidas que defendiam os fracos, pois gosavam da impunidade os poderosos como v. ex.{a}. Hoje a lei é egual para todos, quer premeie quer castigue. Eu proprio, por esta mesma diligencia posso ser julgado se me exceder. São regalias que custaram muito sangue, e hão de custar ainda mais. Mas o poder despotico de maltratar, de torturar, acabou para sempre!
--Se quer que o respeite--bradou o morgado--não alluda mais ás intrigas tecidas por um atrevido que fui forçado a expulsar d'esta casa.
--Saiba, senhor, que a justiça não se rebaixa a intrigas. Ha uma queixa em fórma, com testemunhas, contra o seu procedimento.
--Uma queixa d'esses reles soldados...
--Foi apresentada por uma fidalga, sua parenta, a sr.{a} D. Victoria, digna portanto de todo o credito.
--Ah! Espertezas da menina Josepha da Esperança! Essa namoradeira é outra que tal! Se eu lhe tivesse arrancado as orelhas não era ella que ia enredar-me...
--Vem dos mesmos illustres avós que v. ex.{a}, essa dama que maltrata. Mas não me pertence apreciar se o seu procedimento é ou não de fidalgo.
Fazia esforços fr. Angelico por conter Martinho.
O juiz dirigiu-se a elle:
--Queira vossa reverendissima aconselhar o seu amigo. É conveniente evitar aparatos incommodos. Não desejo chamar a minha gente para testemunhar o encarceramento da senhora D. Maria, o que redundaria n'um processo crime, com pena de cadeia. Basta-me que lhe possa falar livremente, e esquecerei tudo o que desagradavel se tem passado.
Arrastando-o para um canto, tentava o frade convencer o morgado, falando-lhe em voz baixa, acaloradamente mas, não conseguindo decidil-o a apresentar Maria, ainda pretendeu abrandar o juiz:
--Se é necessario o testemunho do ministro do Senhor, aqui estou eu prompto a jurar, pelo santo nome de Deus, que s. ex.{a} é incapaz de opprimir sua filha, sendo, pelo contrario, o modelo dos Paes.
Já enfadado, retorquiu-lhe o corregedor:
--Vá vossa reverendissima buscar a senhora D. Maria, ou obrigam-me a praticar uma violencia, em que tambem será envolvido.
Desculpou-se o frade para com o fidalgo, indicando-lhe o magistrado n'um gesto:
--Deus é contra o escandalo.
Dirigiu-se á porta, para ir chamal-a.
--Seja assim--disse Martinho Vasques--vá buscal-a, e este senhor reconhecerá a sem razão das accusações dirigidas contra mim.
Depois de a vir intimidando pelo corredor, apresentou Maria fr. Angelico:
--Aqui a tem, senhor.
Occupada com a pacificação da ilha, a captura dos guerrilheiros, a investigação das cumplicidades, não pudera a justiça intervir mais cedo.
Estava Maria ao corrente dos seus esforços. Apezar da continua vigilancia, recebia cartas que o moço de cavallariça lhe metia da cocheira por uma greta do sobrado, onde introduzia as respostas, depois de bater devagarinho para baixo.
Durante mezes interminaveis ambicionára esse momento, mas agora sentia-se fraquejar ao ter de queixar-se do pae, ao quebrar, ante o novo amor, a linha de obediencia, o respeito de filha, o periodo de submissão.
Compadeceu-se do velho, cujo rosto transtornado vira de soslaio, e sentia-se sem forças para realisar o que planeára no seu desespero.
Mas horrorisava-a o que a mãe soffrera, captiva d'esse homem que, por se dizer seu progenitor, por um direito que era alheio ao seu consentimento, a maltratára de palavras, a magoára brutalmente, e a fechára á chave no quarto, prohibindo-lhe os passeios, os entretenimentos, a correspondencia, o convivio.
No absoluto isolamento dos primeiros dias horrorisara-se ante a annulação da individualidade, a suppressão da consciencia, que era a educação preconisada pelo pae. Ao visitar d'antes a prima Josepha envergonhava-se de não saber tocar cravo, de não conhecer os livros em que ella lhe falava, e que só a furto podia devorar, porque, no entender do morgado, a leitura pervertia a mulher. Não sabia bordar como ella, nem fazer os pequeninos enfeites que por toda a casa lhe denotavam a educação e o gosto.
Depois, quando o frade lhe foi aconselhar uma submissão ainda mais completa, não só nos actos externos, mas nos seus sentimentos mais intimos, revoltou-se energicamente. E saíu corrido fr. Angelico, queixando se de que o demonio, por intermedio do jacobino, se apossára inteiramente d'ella.
Por fim a mãe, exasperada pelo abandono, vendo o frade senhor da casa, pastoreando o rebanho das creadas, passou a odial-o, como odiava o esposo, comprehendendo o baixo interesse que o ligára a ella, emquanto do sacco das despezas lhe podia ir dando suas peças, e tornára-se cumplice da filha, protegendo-lhe a correspondencia, avisando-a do que elles projectavam, animando-a a insurgir-se, a libertar-se d'elles.
E n'esses dias enfadonhos, n'essas infindaveis noites de inverno, contava lhe insulto a insulto, offensa a offensa, grosseria a grosseria, o seu martyrio de trinta annos.
Prohibira-lhe o marido as idas á egreja, sua unica distração, mandando dizer missa na capella da quinta, para lhe tirar esse pretexto de saír; impedira-a de fazer visitas; negára-a ás pessoas que a procuravam; afastára-lhe os derradeiros parentes, que ainda arrostavam com o seu mau modo para não a desampararem; offendera-a, humilhára-a em intimidades suspeitas com serviçaes, com rendeiras, e fizera d'ella aquelle trapo, envelhecera-a aos cincoenta annos, moera-a, tornára-a negra por dentro, matára-a lentamente: que sem punhal ou veneno tambem se mata!
Seguia o pae já com ella o systema; nunca vira com bons olhos Josepha, e por fim expulsára-a; queria entregal-a a um homem a quem recommendaria os seus processos, e tornal-a-ia uma escrava por sua vez.
Oh! Antes morrer!
Esperava dia a dia a promettida intervenção da autoridade, e tinha-a antecipadamente como o momento em que passaria a pertencer a João.
Como elle era differente! Como seria ditosa ao seu lado, no enthusiasmo d'esse amor juvenil, na meiguice do olhar, na delicadeza do seu trato, na suavidade das suas falas. Com que direito pois lhe prohibiam a sua parte de felicidade n'este mundo, se tivera a suprema ventura de a poder realisar?
Espreitava por dentro dos ralos a chegada da justiça, adivinhando-a em todos os vultos que divisava ao longe, nos carroções que denunciava o estrepito distante, e só n'essa manhã tivera a fortuna de a vêr chegar.
Tremendo, abraçada á mãe, a quem n'esses dias de dôr quizera mais que em toda uma vida de afastamento, de seccura, aguardou que a fossem buscar.
Parecia-lhe de mau agouro a demora.
Quando o frade a chamou, seguiu-a D. Perpetua n'um repente tão aggressivo que fr. Angelico receiou um desacato.
Que triste que era o seu noivado! pensava Maria, ao encaminhar-se para a sala, crente de que a esse rompimento seguiria o consorcio.
Revoltou-se o juiz ao vêr-lhe os olhos pisados de chorar, as faces pallidas, cavadas, a agitação em que tremia.
Pediu-lhe que se sentasse, e perguntou-lhe se era verdade ter sido maltratada, e encontrar-se prohibida de toda a communicação.
Acobardou-se ella ante o tom grave da pergunta, e levando o lenço aos olhos, rompeu a chorar, sem responder.
--Não preciso melhor confirmação--disse o juiz erguendo-se, e dirigindo-se a Martinho Vasques--É o caso da lei, abuso do poder paternal. Sou pois forçado a cumprir o que se me requer, o deposito judicial em casa do mais proximo parente.