Os Bravos do Mindello Romance Historico

Part 7

Chapter 7 4,025 words Public domain Markdown

--Casa immediatamente, não é verdade?

--É claro.

Recreiou-se o veterano com a resposta:

--E havia de casar n'essa edade, com dezaseis annos?

--Que tem que vêr a edade com o amôr?

--Ora vá-se crear, menino. Isso até lhe fazia mal á saude.

Córou João até ás orelhas.

--Não me fique amuado, que isto é brincar.

--Bem. Então falemos a serio.

--Não se zangue. Que geniosinho!

João fôra respirar á janella, a cabeça em fogo, e puzera-se a olhar ao longe, na direcção das raras luzes das casas de campo, em meio das quaes reconhecia a d'ella.

Chegou o velho á janela, abrangendo n'um gesto a cidade e o castello:

--Sabe que mais? Ponhamos as coisas a direito, que ella lhe ha de ir parar ás mãos.

--Não póde ser. E d'aqui até lá ha de ficar abandonada ao pae e á mãe, sem contar commigo, sem me sentir a seu lado?

--Tem razão, nanja que eu lha tire. Mas deixe acabar a desconfiança do morgado, que agora anda tudo de olho em cima d'ella...

--Será assim, mas não posso esperar.

--Largos dias tem cem annos.

Entendeu João pôr-lhe termo aos conselhos, e proceder por sua conta.

--Pois mestre Jacintho, muito obrigado pelo que por mim fez. E não o incommodarei mais por esta causa, que agora já não é como no seu tempo, que só pela altura dos trinta annos é que se julgava uma senhora em edade casar. Agora vae tudo muito mais depressa. Se até ha barcos que andam a fogo!

Queixou-se amargamente o veterano:

--Foi sempre assim. A mocidade não quer saber da velhice para cousa nenhuma.

--Não diga isso. Sabe como o estimo. Só me refiro a estas coisas de amôr, de que mostra não perceber nada, pois quer que um namorado se cale, depois de acontecimentos como os de hontem.

N'uma saudade do passado, da juventude, do amôr, do prazer, remoçou-lhe o rosto engelhado:

--Isso é que percebo! Lá por me vêr agora um velhão, olhe que já passei pela sua edade, e até fui de mama! É o que lhe digo, não se me ponha a rir nas minhas barbas. No seu tempo, porém, ainda me entretinha a deitar o pião, não sabia o que fosse o bicho mulher. Mais tarde, sim; fui desempenado, bonitóte, e antes de me darem as bexigas, pellavam-se bôas moças por mim. Já vê que percebo, e tive bom mestre, olé se tive.

Aproximou-se muito o veterano, e num ar de confidencia, um sorriso bonacheirão, disse-lhe baixinho:

--Lições de seu avô, que foi das pontas! Elle atirava-se ás patrôas, e eu ás creadas. Uma vez...

Mas arrependeu-se.

--Nada. Nada. Suas tias podem desconfiar de que estou para aqui a perdel-o...

--Ellas não ouvem. Conte, conte.

--Uma vez que elle foi de castigo para a Graciosa ... Não digo nada, senão que muitos primos fidalgos tem por ahi, sem imaginar.

--Quem? Quem?

--Ora. Vão lá saber.

Deliciava-se na evocação:

--Só se atirava ao fino, o maroto. Deus lhe fale n'alma!

Entristeceu-o a ideia da morte, mas desanuviou-se rapidamente:

--O menino vae pelo mesmo caminho. Atirou-se logo a uma rica herdeira...

--Oh! Não julgue que foi por isso.

Continuou o velho, sem dar tento na interrupção:

--Fidalga como as melhores, bonita sem senão, os olhos de todos n'aquelle palminho de cara, e o morgado crente de que nenhum a valia, a ponto de a querer levar a um primo do reino.

--Fosse ella uma pobre de Christo, queria-lhe da mesma maneira, acredite-me.

--Pois sim, pois sim; mas ella é o que eu disse, isso é que é a verdade. Se fôsse uma pobre sem eira, nem beira, nem ramo de figueira, não lhe açulavam os cães. Tratavam logo de o encambulhar com ella ... Agora sendo o que é, não espere conseguir d'ali nada ao bem. Ha de ser á má cara, e é se fôr.

--Estou resolvido a tudo.

--Não digo menos d'isso. Quem sae aos seus não degenera.

--Maria ha de ser minha mulher, ao bem ou ao mal!

--Que a coisa começa torta, bem vejo eu. O menino já tem chorado lagrima gorda por causa d'ella. Mas não deve desanimar. A farda sempre deu sorte em coisas de mulheres. Lá por ella ser morgada, não é mais do que a imperatriz da Russia, que dava o cavaquinho pelo general Gomes Freire, com quem andámos no Russilhão. Pois eu não conheci um corneta, um rapagão como um turco, o menino bonito da rainha nossa senhora que se perdia a ouvir-lhe repetir os toques? E não vieram todos desvanecidos os soldados do dezaseis de infantaria de um destacamento em Queluz quando a Senhora D. Carlota Joaquina estava presa? Até um granadeiro, alto como uma torre, valha a verdade, trazia duas cartas de pessôa de dentro!

E reparando na surpreza de João:

--O menino ficou vermelho como uma malagueta. Mas olhe que é tudo verdade. Pergunte lá no castello, que lh'o hão de trocar em miudos.

Concentrou-se João, e depois perguntou:

--Em resumo, mestre Jacintho. Está, ou não disposto a auxiliar-me?

--Com alma e vida.

--Não podia esperar de si outra coisa. Muito obrigado. Agora diga-me lá, que lhe parece: devo procural-a ou escrever-lhe?

--Por emquanto não se podem levar as coisas ás do cabo. O menino ainda está com os dentes com que mamou, e já quer casar. Valha-o Deus!

--Lá volta aos gracejos.

--Mas não torno mais. Olhe, por agora basta que lhe escreva.

--Tambem me parece.

--Se a sua firmeza fôr tal como diz, o tempo que levarem separados ha de fazel-os quererem-se mais um ao outro.

--Juro-te que é.

--Ninguem lucra mais com o seu casamento do que eu. Voltar aos meus canteiros, ao meu buraquinho, fazer de enxota cães quando lá fôr fr. Angelico ou os collegas, a vêr se pilham alguma coisa.

--Como lhe hei de mandar a carta, sem a comprometter?

Meditou um pouco o soldado, e respondeu:

--O melhor, e o mais seguro de tudo, é falar á senhora D. Josepha. É muito capaz d'isso, porque gosta muito do menino. Até parecia uma gata assanhada quando foi da patifaria do quinteiro, que por signal lá anda com a cabeça amarrada, para não cair n'outra.

--E como ha de ser para lhe falar?

--Descance. Eu sei de uns atalhos, por entre as terras, que vão lá sair mesmo ao pé do canavial ao fim do pomar.

--Tem a certeza de que não nos podem vêr?

--Conto que não.

--Pois então vamos lá amanhã mesmo, visto que não ha nada a receiar.

--Amanhã? Deus te livre! Andam á espreita d'ella para ganharem o dôce. Davam-nos logo com o rasto, e o morgado mandava alevantar o muro. Nada! Nada! Deixe ao meu cuidado saber o que se passa lá dentro, e em elles andando desprevenidos, damos-lhe a saltada.

João, por fim, rendeu-se á evidencia:

--Pois seja assim. Mas vê lá o que promettes.

--Descance, que não me esquecerei. Não tenho menos vontade n'isso, creia, para o vêr feliz, e para ajustar as minhas contas. Onde se fazem, lá se pagam. Ali aonde me desfeitearam é que quero entrar de cabeça levantada, a deitar foguetes, no dia do casamento.

--Oxalá!

--E com esta me vou, senhor Joãosinho.

Já de pé, sacou do mólhinho de folhas de milho, das mais tenues camisas que na sóca protegem o grão tenro, leitoso; alisou-a com a navalha, acamou-lhe o picado de tabaco negro, da terra, accendeu ao candieiro o cigarro grosso e despediu-se:

--Com bem passe.

Ainda João tentou retel-o:

--Porque não quer ficar? A casa é grande, cabemos todos.

--Obrigado, menino. Ali é que é o meu poiso. Antes eu de lá nunca houvesse saído, para ver o que tenho visto.

E já na escada recommendou ainda, muito baixinho, o dedo na bocca:

--Deixe esquecer a coisa por estes dias, olhe que o morgado anda com a pedra no sapato.

* * * * *

Ao ficar só, sentou-se ao bufete e poz-se a escrever. Não se recusaria D. Josepha a pôl-os em relações.

Acceitava esse alvitre do velho, mas lá deixar de vêl-a, isso é que não.

Perguntava-lhe a melhor maneira de o fazerem, e se mestre Jacintho não accedesse, iria sósinho.

Com espanto, sentiu perdida, ao escrever-lhe, a timidez em que só por meias palavras se lhe declarára. Enthusiasmava-se como se a tivesse diante de si, mas dirigia-se-lhe em termos que, face a face, nunca arriscaria.

Era o seu primeiro amor. Sentira bem como á ameaça de um ciume, ao receiar que a entregassem a outro homem, a amisade de irmãos se transformára na paixão em que esquecera a sua inferioridade ante a riqueza e a nobreza da mulher para quem se atrevera a levantar os olhos. Mas n'estes tempos de liberdade podia aspirar a ella, erguer-se até á sua grandeza, porque d'ora ávante as posições, os cargos, a consideração publica ganhar-se-iam com o trabalho, não se obteriam só por herança.

E n'uma grande ternura comparava o viver de ambos, tão semelhante; elle sem pae nem mãe, ella como se os não tivesse, isolada no ermo casarão onde pairava a sombra da tristeza.

* * * * *

Restituiu essa carta a Maria a tranquillidade que lhe roubára o conflicto, e quando esperava alegremente a prima, e se perdia com ella pela quinta, nas travessuras de outros tempos, chegava o pae a suspeitar que recebesse noticias d'elle.

Não desconfiava, porém, de D. Josepha da Esperança, e toda a vigilancia era na porta e nos muros, receiando temeridades do veterano ou algum arrojo de João.

Tendo como militares garantida a impunidade, cria-os capazes de irem lá, com algum bando de camaradas, a desforrarem-se da cilada da sua gente.

Passaram-se dias, e parecia completamente esquecido o caso. Era, porém, caprichosa de mais a filha para não querer, ao menos por despeito, entender-se com João.

No seu tempo já teria liquidado tudo á valentona. Hoje usava-se de astucia, e n'esse terreno reconhecia-se inhabil.

Eram assumptos mais para fr. Angelico, manhoso como frade, batido em argucias de confessor habituado a lêr no intimo das almas.

Deixára de apparecer, e fazia lhe falta. Offendera-o a sua sobranceria. Puzera-se nas suas tamanquinhas, e mandar chamal-o era uma satisfação. Mas antes dar o braço a torcer, que deixar fazer o ninho atraz da orelha. Só o frade seria capaz de desenredar a meada, e de trazer Maria a bom caminho.

* * * * *

Resfolegou triumphante fr. Angelico ao receber o recado do morgado.

Dar-lhe ordens como a um feitor? Era lá coisa que lhe permittisse? Agora o passado, passado; mas faria render a reconciliação. Não voltaria da quinta sem grosso donativo a pretexto do levantamento de guerrilhas; sem algumas das peças que D. Perpetua, na intenção de salvar a alma, forrava, em demencias de usura, ás despezas da casa, e escondia no colchão.

Servia-lhe de pretexto a atitude do fidalgo para acabar com a intimidade da dona da casa. Fatigava-o já a paixão senil a que ella se apegára durante vinte annos, desde que succedera na capellania da casa ao seu mestre, de quem decerto herdára a affectuosidade da morgada, a sua predilecção pelo lubrico contacto do aspero burel.

Parecendo-lhe nos primeiros tempos uma antecipação do paraiso, tornára-se depois o automatismo de um habito, e liquidára por fim nas repugnancias da obrigação.

Ia todos os dias a creada saber da saude de sua reverendissima e falava-lhe da afflicção da senhora, tão sequiosa das suas bemfeitorias espirituaes.

Mostrava-se elle theatralmente, no seu palco, ao fundo do sanctuario onde se armazenavam as imagens sem capella propria, cujos olhos de vidro brilhavam nas meias tintas do escuro armazem.

Os grandes pés descalços no lagedo, sem habito, a camisa desabotoada, empunhando disciplinas de grossa corda e nós nas pontas, simulava fr. Angelico o soffrimento de terriveis expiações.

Respondia n'uma voz sumida:

--Diga a sua ama a grande penitencia que estou cumprindo, a pão e agua. Que rese por este pobre peccador, para que lhe sejam perdoadas as fraquezas.

Regressou um dia a creada com a nova de que reappareceria o frade chamado do senhor; e D. Perpetua não desamparou o mirante e a varanda, passeando inquieta, aconchegando ao peito o embrulhinho com que faria esquecer ao penitente as visões do inferno.

Mal transpuzéra a porta da saleta, puxou-o para um canto, e meteu-lhe na mão o saquinho de sêda carmezim, onde elle pelo tacto reconhecia as peças de oiro.

--Angelicosinho da minha alma, para que me deixaste, ingrato? Que mal te fez a tua Perpetua?

Elle simulava um terror sagrado:

--Deixa-me, filha, tenho esta alma mais negra que um tição. Já estou a arder nas penas do inferno, sinto o fogo aqui dentro.

E comprimia o estomago, onde as penosas digestões de toucinho e presunto, servido em grandes postas no refeitorio, fermentavam em dolorosas azias, que afogava a bôa aguardente do fidalgo.

--É assim que me pagas os sacrificios que tenho feito por ti? São desculpas como das outras vezes. Nova confessada, descarado. Ha de ser a tal Joaquinina do Ó, de quem me chegaram uns zum-zuns.

Elle erguia o olhar ao tecto, n'um ar compungido:

--Ai filha, que perdeste a minha rica alminha! E não ha remissão para o peccado da carne, de si mesmo mortal, aggravado ainda em cima com o disfarce de coisas de religião.

Forcejava por desprender-se:

--Nunca mais! Acabou-se!

Perpetua agarrou-o na angustia do desamparo. Ia-se com elle o ultimo vislumbre de mocidade, o sonho em que se emancipava da trivialidade do seu viver. Era a morte aquelle rompimento!

N'um desespero articulou surdamente:

--Assim é que se perde a minha alma!

--Tem paciencia, irmã. Procura a consolação espiritual na penitencia. Verás como é bom, que gosos celestiaes dão os cilicios e as disciplinas. Pede á Senhora da Rocha que te ajude a conformar. Tem dado vista aos cegos e movimento aos paralyticos, fará o milagre de te dar resignação.

E aproveitando o desanimo em que ella se amparava ao archibanco, enfiou pelo corredor em demanda de Martinho.

Lavando na aguardente o mau sabôr dos beiços de D. Perpetua, desculpou-se fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria com a doença, que o impedira de ir receber as ordens do seu bemfeitor.

E emquanto passavam da casa de jantar á adega, sumindo-se um atraz do outro pelo alçapão, ia o frade lamentando a incredulidade dos tempos, e a audacia do governo provisorio.

Assentado no tampo do barril, o dorso apoiado ás frescas aduelas das pipas cheias, emquanto lá fóra escaldava o sol, desabafava o morgado, sentindo-se sem testemunhas:

--Estou muito isolado, fr. Angelico, desconfio de todos. Hoje só conto com a sua amisade sincera e desinteressada.

Agarrou logo o frade a occasião, que vinha preparando:

--E desinteressada, senhor Martinho Vasques! Permitta-me v. ex.{a} que accentue essa palavra, ao ser forçado a appellar mais uma vez para a sua inexgotavel caridade, para a sua nunca desmentida dedicação ao throno e ao altar!

Simulava não reparar nos gestos de contrariedade do morgado:

--N'estes perversos tempos retraem-se os donativos, e o nosso convento quasi não tem para a sua pobre meza. Peço, pois, uma esmolinha para os frades de São Francisco, certo de que não recorro em vão á boa e generosa alma de v. ex.{a}

Tartamudeou o morgado:

--Ámanhã, ámanhã...

Continuava, porém, infatigavel o frade:

--Tudo se prepara para nos vermos livres d'essa liberdade de má morte. Apparecerão guerrilhas no concelho da Praia, para restabelecerem os inauferiveis direitos do nosso legitimo rei, e auxiliarem o desembarque da esquadra que se espera a todo o momento. Ha muitos fieis alistados, mas faltam armas e polvora. Todos os defensores da ordem tem auxiliado a boa causa. Espera-se que v. ex.{a} não deixe de concorrer...

--Ámanhã, ámanhã...

--É de tamanha urgencia...

--Bem sabe o costume. Só mexo em dinheiro antes do jantar. E cada vez me sinto peior para contractos, porque o desgosto de minha filha poz-me muito fraca esta pobre cabeça.

--Isto não é negocio, senhor D. Martinho, ou antes, grande negocio é que elle é. Quem dá aos pobres empresta a Deus, recebendo-se no ceu o principal e os juros. Emquanto á esmola para meus irmãos em Christo. Que do auxilio aos partidarios do senhor D. Miguel tira logo v. ex.{a} o lucro, em não ter a sua casa ameaçada de confiscos...

Tocado na corda sensivel, sobresaltou-se o morgado:

--E elles irão de vez a terra?

--Quem o póde duvidar? Em todo o Portugal governa sua magestade. Falta só este palmo de terra, por vergonha de todos nós! Dá-se a mão aos que vem pelo mar, e acaba-se com elles n'um instante.

--Deus o permitta, que não posso ir descançado para Lisboa deixando-os em cima. São capazes de me darem cabo de tudo.

--Haja com que comprar espingardas, polvora e bala, e nem terão tempo de dizer Jesus! Com quanto póde concorrer v. ex.{a}?

--Já lhe disse que ámanhã. Venha jantar, e antes de nos sentarmos á meza...

--Muito obrigado, senhor Martinho Vasques. Vou já annunciar o valioso auxilio de v. ex.{a} aos amigos da religião.

--Preciso-o cá, e até o tomaria para sempre como commensal, para alivio da sua pobre meza, se lh'o consentissem os seus labores.

--Que honra, senhor morgado.

--E sabe porque? Preciso da sua influencia junto de minha filha. Se podesse ganhar n'ella o ascendente que tem em minha mulher...

--Quizesse-o ella--respondeu o frade n'um suspiro--e eu seria o mais feliz dos homens!

Continuou n'um arroubo ascetico:

--Trazel-a ao bom caminho! Afastal-a d'esses herejes que lhe hão-de perder a alma!

--Era isso mesmo que queria que lhe dissesse, porque eu não sou capaz de a levar ao bem, e não usarei da força senão na ultima extremidade. Faça o possivel por demovel-a, fr. Angelico.

E n'uma ameaça, para o lado do pomar, onde a sabia em colloquio com a prima:

--Mas ai d'ella se não obedecer!

VIII

--Alviçaras, senhor morgado, alviçaras! Deus amerceiou-se de nós, e deu por terminada a expiação com que quiz provar os seus servos!

Olhou-o um tanto desconfiado Martinho, pela falta de fundamento de semelhantes boatos.

Mas o frade confirmou, enthusiasmado:

--Victoria! Victoria! E graças sejam dadas ao ceu!

--É então verdade o que para ahi dizem?

--Estão reunidos nos Biscoitos mil e quinhentos homens, commandados por João Moniz Côrte-Real e Joaquim d'Almeida. Esperam mais gente de outras freguesias, e vão acclamar el-rei na villa da Praia, e facilitar ali o desembarque á esquadra do senhor D. Miguel, que saíu contra a Madeira, e vem agora libertar a nossa terra!

--E a tropa que marchou hontem contra elles?

--Protegeu o Senhor os nossos, e deu lhes logo a victoria. Foram derrotados os dois destacamentos, e ficaram presos os infames soldados liberaes. Que vergonha para esses fanfarrões!

--E que vergonha para mim, fr. Angelico--exclamou o morgado, n'um impeto guerreiro.--Devia estar ao lado d'elles, como me impõe o nome, a linhagem, o serviço do throno e do estado. Venha d'ahi, sellam-se dois cavallos, e em quatro horas estamos com elles.

--Não posso, senhor Martinho Vasques; a minha missão é toda de paz!

--Sei de muitos frades que se teem batido pela bôa causa.

--Sempre houve meus irmãos em Christo que usassem a cruz e a espada. Eu porém sou mais destro no manejo das armas espirituaes...

--Pois irei eu só. Não quero que notem a minha falta...

--Lembro-lhe a sua idade, meu senhor, e as molestias que tanto o tem impossibilitado. O melhor serviço que póde prestar ao senhor D. Miguel é dar mais alguma quantia...

--Tem razão, estou já muito velho para essas danças--concordou o morgado, procurando eximir-se á nova contribuição.

--Será tido na devida conta o seu soccorro, e Deus reconhecerá n'elle a sua bôa vontade.

--Se venceram, como diz, para que precisam elles mais dinheiro?

--Sempre são mil e quinhentas bôcas a comer...

--Tomem á força o que precisarem, como fizémos no Roussillon.

--Não diria o mesmo V. Ex.{a} se esses valentes realistas andassem cá pelas visinhanças.

--Tem razão, tem. Mas que isto se decida por uma vez. Acabe-se com a choldra, para que eu possa embarcar descansado.

--Ainda persiste em ir para Lisboa?

--E conto que vossa reverendissima prepare o espirito de minha filha, para que de todo esqueça esse disparatado namorico, e se disponha a desposar o primo D. Luiz de Sousa, que dará á minha casa a tão desejada successão.

--Perdôe V. Ex.{a} a minha extranheza. Depois do que se tem passado ainda pensa em tão honrosa alliança?

--E porque não?

--Póde um dia o nobre fidalgo a quem a destina pedir contas d'essa peccaminosa aventura...

--Noto a insistencia com que vossa reverendissima aggrava o alcance d'essa creancice, condemnavel, sim, mas pura creancice. Sabe por ventura alguma coisa?

--Sei o bastante, senhor morgado. Elle é um perverso, um hereje, um liberal; em conclusão: um depravado capaz de tudo.

--Mas minha filha é uma fidalga, e as fidalgas estão muito acima d'esses miseraveis, para que a sua intimidade se lhes torne perigosa.

--Na minha qualidade de director espiritual d'esta casa, é-me permitido manifestar as indicações que faz o Creador ás creaturas servindo-se dos seus intermediarios. Assim, senhor morgado, dir lhe-ei que uma voz occulta brada em meu peito: «Quero-a para mim! Quero-a para mim!» Significa isto que está indicada a clausura como penitencia da leviandade, e como resposta aos malvados constitucionaes que se arrojaram a cubiçar os bens de V. Ex.{a} para as suas obras de Satanaz.

--Se fôsse uma filha segunda já lá estava. Mas é uma morgada, não a hei de meter freira.

--Não digo que professe, senhor Martinho Vasques. Aconselho apenas que a mande para o convento, como castigo pela sua imprudencia, e como resposta á seita jacobina. Se mais tarde o Senhor lhe inspirasse a vocação, ver-se-ia. A verdade é que fazendo-a passar pelo claustro, ficava quite V. Ex.{a} para com seu genro. Creio que a senhora D. Maria só foi attingida na sua bôa fama. De mais graves estragos, porém, tem ido refazer-se jovens fidalgas ao seio das virtuosas madres, e bastou isso para que seus nobres esposos se dessem por satisfeitos.

Meditou um pouco o morgado, e respondeu:

--Não posso deshabituar-me da ideia de que hei de vêr um neto varão, já que Deus não me deixou vingar um filho, que succedesse no meu appellido e nos meus bens. Quanto ao mais, não tenha receio. Minha filha leva um magnifico dote, e por minha morte ficará bem. O primo, que pouco possue, alem da herdade perto de Evora, e do seu grande nome, terá toda a conveniencia em não dar ouvidos ás intrigas.

--E a senhora D. Maria quererá casar com elle?

--Cumprirá o que lhe ordenar, como deve.

--Assim é em theoria, meu senhor, mas lembro que n'estes malditos tempos nem fica incolume a propria obediencia filial. Foram por certo os conselhos d'esse perverso que a fizeram má filha, como a hão-de fazer má esposa.

--Entregue-a eu ao marido, e o mais é com elle. Bem sabe a fama de leviandade que minha mulher teve, e a seriedade com que tem procedido desde casada. Feche-a, como eu faço, tire-lhe as occasiões, e será esposa exemplar como as outras.

--Como a senhora D. Perpetua--exclamou fr. Angelico, pondo a mão no peito--apesar das más linguas a quem irrita o exemplo da virtude! Que até em demasia pratíca a minha senhora os seus deveres religiosos. Appelle V. Ex.{a} para a sua autoridade de marido, e faça-a limitar a frequencia ao tribunal da penitencia. Ella é insaciavel de mortificações, e receio que acabe por lhe fazer mal. Imponha-lhe parcimonia, porque o meu ministerio não é o mais proprio para a arrancar a excessos de devoção.

--Não se lhe preste vossa reverendissima ás rabujices de beata. Agora todo o seu tempo será para corrigir minha filha. Sou o primeiro a sentir a sua desobediencia e a reconhecer a culpa que n'ella tenho, pelo mimo de que a rodeei. Por isso recorro ás suas luzes. Repita-lhe as confissões, meta-lhe medo com o inferno e fale-me, á meza, dos sacrilegios d'esses patifes.

--Cumprirei a minha missão de pastor, chamando ao redil a desgarrada ovelha ... Mas o mais seguro de tudo é a caça aos lobos. É preciso offerecer a esta nossa terra o espectaculo do desaggravo da religião e de el-rei, encher as casamatas do castello e dar que fazer á forca!

--Sim, diz bem.

--Pois lembre-se V. Ex.{a} dos nossos amigos que já começaram a batida.

Receioso da incerteza dos tempos, precavia-se d'essa fórma fr. Angelico, enchendo o seu pé de meia antes que o morgado abalasse para Lisboa.

Deu-lhe Martinho, voltando a cara, novo saquitel de dinheiro, fechando cuidadosamente o contador e, sem mais palavras, foram para a meza.