Os Bravos do Mindello Romance Historico

Part 6

Chapter 6 3,994 words Public domain Markdown

Postos diante d'elle os torresmos frios, conservados em banha, e o pão de cabeça ainda quente, levantou-se o morgado e, tomando o cangirão de barro, de aza partida, cintado por dentro de sarro, foi-se ao barril cuidadosamente encanteirado, tirou-lhe o espicho e o vinho esguichou alourado, espumante, tornando a tapar por suas mãos, tanto cuidado lhe merecia o trato, tanta habilidade considerava necessaria para saber encher, sem deixar turvar.

Atestou o grande copo de crystal floreado de meia canada, difficil de abarcar na grande mão, ergueu-o á altura dos olhos, observou o vinho contra a luz, sorriu vendo mosquitos sepultos no fundo pelo jacto, e sobrenadando em redemoinho, prova de que continuava excellente o verdelho.

Esvasiou-o, excedendo a receita da sabedoria conventual «antes da sopa molha-se a bocca», «depois da sopa lava-se a bocca»; e quedou-se a admirar o vidro, seu unico luxo, a que ligava o valor estimativo dos reis testando em especial a taça «porque bebiam»; por onde só elle bebia, e bebia sempre, a não ser o vinho novo que, como entendedor, tomava por tijelinhas de barro.

Subiu da cosinha, afadigada, D. Perpetua, batendo nos degraus as galochas.

Volumosa pelas muitas saias de estopa e de panno da terra, como as creadas e as camponezas, trazia á cinta a bolsa de velludo preto, bordada a vidrilhos, onde tiniam grossos patacos de bronze e mólhos de chaves, pura ostentação, ante a dispensa escancarada, com a esbeiçada bexiga da gordura, onde se espetava a colher de pau.

Baixa, grossa, trigueira, olhar lubrico, beiços carnudos, olheiras em papos, pelle encarquilhada nas fontes, grandes rugas atravessando a testa de lado a lado, despenteada ainda como saíra da cama, as mãos sujas, de unhas negras como olhos de fava, desinteressava-se de tudo que não fosse fazer dôces, como aprendera no convento, e entregar-se a exercicios espirituaes com fr. Angelico, a cuja intimidade se agarrara n'um desespero de abandonada.

Era o symbolo da desordem que João sentia pairar n'essa casa, orgulhando-se de que a sua valia mais, porque n'ella transparecia a solida união que os elevára, emquanto a embriaguez, a preguiça, o desmazelo dissolviam aquella.

Sentou-se perto da cabeceira occupada pelo marido, e os dois pareciam degredados no isolamento da grande meza deserta, onde nos grandes dias se ostentava a baixella de prata guardada no fundo da arca e se alinhavam os grandes beberrões dos primos dando-lhe cresta na adega, por dias de annos, pelas festas; onde em quinta-feira santa jantava a creadagem com os amos, celebrando a ceia dos apostolos.

Faltava Maria, e a mãe perguntou á creada:

--A menina?

--Mandou ir o almoço ao quarto.

--Estará doente?

Interpoz-se o morgado:

--Não sabe o que ella tem? Sei eu. É que vae saindo á senhora, herda-lhe as boas prendas, porque não tem outras que herdar.

Respondeu em furia de hysterica D. Perpetua, envidraçando os olhos que só para o frade se enterneciam:

--Vejo que o senhor ainda está com os destemperos de hontem. Já nem sequer o dormir lh'as coze.

Não se escandalisou o morgado, acostumado a essas violencias, e continuou:

--Por causa de sua filha houve hontem n'esta casa um escandalo. Não quero que se repitam, nem que ella faça o que a senhora toda a sua vida fez.

--O que eu fiz? Mas o que é que eu fiz, senão caír nas bocas do mundo por causa dos atrevidos do seu jaez. Por ter sido sua victima sou culpada? E então que nome merece o senhor, que com a sua brutalidade abusou da minha innocencia?

Riu Martinho estrondosamente:

--A innocencia de uma menina de vinte e quatro annos, creada n'um convento de freiras, acostumada ás denguices das grades, á intimidade dos primos, sabida em poucas vergonhas de namoros. Innocente, a senhora!

--Ria-se, ria-se. Mas não se riu quando o pae que Deus tem, que o conhecia por dentro e por fóra, o agarrou pelas orelhas: «Has-de casar, maroto, ou mato-te como a cão damnado, porque me enxovalhastes a filha». E o senhor tudo eram escrupulos do que se dizia, porque torna porque deixa, só por eu ser filha segunda, e andar á cata de herdeiras ricas. Quando viu sacos de cruzados não quiz saber de famas, de ditos nem mexericos. Meteu-me aqui dentro, tratou-me sempre como uma escrava, fez de mim esta desgraçada, mas plantou novas cepas para se emborrachar á vontade, e concertou este pardieiro onde chovia como na rua.

E n'um gesto longo abrangeu as paredes de cantaria de onde a cal despegava, o forro do tecto embarrigado pelo peso da telha, com lôstras de amarelo sujo, escuras ao centro, esbatidas para os bordos, da agua da chuva represada pelos coiceis, nascidos nas toiças de terra entre os regos; vertida pelas telhas rachadas por garotos que varejavam á funda os altos alamos, á caça de melros.

--Mente!--protestou o morgado contra a insinuação de interesseiro.--Cumpri apenas um dever de honra.

Riu convulsamente D. Perpetua, tendo perdido na intimidade o respeito á importancia que elle se arrogava ante os estranhos, impressionados pelo traje de côrte, á antiga, que o marcava como homem de outros tempos, tornado respeitavel á força de velho.

--A sua honra! Deixa-me rir! Quando o chamaram a Lisboa para a guerra com os franceses, o senhor, apesar da sua patente de capitão, não quiz saber de palavras bonitas, e deixou-se ficar no quartel de saude, como diz mestre Jacintho.

Iam comendo e insultando-se, na rotina de trinta annos de rancor.

--Como ha-de comprehender escrupulos de honra quem nunca os teve!--commentou o morgado.

Insistia D. Perpetua, muito teimosa, desabafando o odio ao longo captiveiro em que a mantivera:

--A sua honra, a sua embofia de fidalgo, que não o impediu de explorar como um judeu o primo Chico, pondo-o ao descimento da cruz com os seus contractos de avarento.

--Se a senhora não havia de defender esse reles picador de toiros!

--Que quer dizer com isso?

--Bem sabe o que fez, mesmo depois de casada, sua descaradona!

--Não tem senão lingua! Não lhe dar um estupôr que lh'a puzesse lesa!

--Tambem tenho mãos!--explodiu elle n'uma ameaça, dando um murro na meza, mostrando o punho fechado.--Não queira tornar a conhecel-as!

Sentindo reviver a offensa dos bofetões que a atiravam ao chão, replicou arripiando-se como uma gata:

--Conheço-lhe as mãos, covarde, mas o primo conhece-lhe a cara. Ainda o estou a vêr, quando cá veiu, muito enfiado, por causa da quinta do Pico da Urze: «Tu ficaste-me com as terras, pois então fica-me lá tambem com esta». E traz! Emplastou-lhe os cinco dedos nas bochechas!

Terminára o almoço, e ambos se ergueram de mãos postas, dando graças a Deus.

Vendo ainda vinho no fundo do jarro, deitou-o Martinho no copazio, atirou-o á bocca e chamou a mulher:

--Oiça as minhas ordens.

Voltou-se D. Perpetua no habito de servidão adquirido n'uma vida inteira de obediencia, em que apenas havia a revolta das más palavras, que para o isolamento de ambos se tornára n'uma necessidade.

Ditava o morgado, sobrancelhas contrahidas, carrancudo, como absoluto senhor:

--Maria não tornará a saír do quarto sem minha ordem!

--Ah! Então fica encarcerada?

--Cale-se e obedeça!

--Não, que me sóbe uma coisa á garganta, e rebento se não lhe digo as verdades! Quer fazer-lhe o que me fez a mim, que me fechou como a um cão, para se meter com as creadas e com as mulheres do monte, vindas de proposito pagar as rendas em vez dos homens, para levarem sua pataca amarrada na ponta do lenço!

--Já acabou? Então oiça, e veja se tem a imprudencia de me desobedecer. Já sabe o que lhe custa!

--Quere-a para freira?

--D'aqui em deante não a deixe só, não lhe consinta cartas. Não a perca de vista, tome cautella. Eu vigiarei ambas.

E confirmando a ordem n'um gesto de ameaça, saíu em passos largos, bordão em punho, caminho da adega, a visitar o alambique.

Muito irritada, porque a vigilancia da filha ia alterar-lhe os habitos, entrou-lhe D. Perpetua com mau modo pelo quarto dentro:

--Venho aqui esfogueteada por sua causa. Ouvi a seu pae o bom e o bonito! A menina precisa ter muito juizo. Lembre-se de quem é! Seu pae não quer que saia do quarto sem licença, e olhe que se ateima no namoro, é capaz de lhe pregar as janelas.

Recebeu Maria com indifferença a reprimenda, levantou-se e encaminhou-se para a porta.

--Que faz?!

--Que tenho eu que se ponham a disputar á meza, e depois queiram exercitar o genio commigo? Não fiz mal nenhum, não quero ficar presa! Não quero! Não quero!

--A menina está doida!

E saíndo para o corredor, apezar da mãe lhe querer tomar a porta:

--Vou mandar chamar a prima Josepha e o primo Jorge. Com gente de fóra hão de ter mais vergonha.

--Olhe, eu é que não estou para me incommodar. Préso muito o meu socego. Vou fazer queixa a seu pae, vou pôr-lhe tudo em pratos limpos.

--Pois vá, que não tenho medo do papão.

Embrenhou-se na quinta, e foi para o sitio onde ouvira o que tinha alterado o seu viver.

Longe de todos, repetia as suas palavras, recordava como ellas o iam transformando.

Ao principio era ainda o pequeno de escola com quem brincava; o humilde dependente d'esse frade, que viam passear ao longo da janela do escriptorio, côr de papoila, dedo no ar, ditando com voz de sermão.

Ao affirmar que a amava não parecia o mesmo; grave, offendido, dizendo retirar-se para sempre, decidido talvez a morrer n'essas luctas onde tantos caíam crivados de balas.

Na sua imaginação de rapariga apparecia João envolto no prestigio do sacrificio, via-o galhardamente na estrada brandindo uma lamina, arrostando com as ameaças, tão differente do tempo em que córava ao fingir-se ella convencida de que fr. Angelico lhe dava puchões de orelhas.

Parecia outro, mais esbelto, mais homem assim fardado; e agora lembrava com desvanecimento que elle lhe chamára bonita e dissera ter o futuro nos seus bellos olhos, a esperança de felicidade nos seus labios.

Queria-a para mulher. E poderia ser? Elle não era nobre, o que diziam não ser já preciso para nada. Mas o pae, só por uma desconfiança fizera o que fizera! Não quereria ouvir falar em semelhante casamento. Que haviam de fazer?

João o diria. Decidido como se mostrára, levaria tudo a bom caminho.

E se casassem?

Era bem differente do pae; delicado, fino! Não seria desgraçada como a mãe.

Que alegria a d'elle se a escutasse. Ah! mas teria vergonha de lh'o confessar. Da sua bocca nunca o ouviria. Dar-lho ia a saber pela prima. Oh! pela prima não. Achava-o tão lindo, era capaz de roubar-lho. Mas João amava-a muito para fazer caso de outra mulher. Portanto não lho mandaria dizer por pessoa nenhuma, havia de repetir-lho ella propria.

Habituar-se-ia, pouco a pouco, um bocadinho de cada vez, dando-lhe a perceber nos olhos...

Pois se casassem haviam de ter segredos?

Affligia-a o remorso. Porque não lhe falara assim quando elle, tão pallido, se arriscára a desabafar? Não sentaria praça, não passaria pelo desgosto de o quererem espancar, e ella não estaria agora ameaçada pelo pae e pela mãe. Sempre o estimára, é certo, mas deixara-a fria esse inesperado desabafo, tanto estava longe de pensar n'elle para marido, quando desdenhava morgados, e julgava tudo merecer.

Elevara-o a deliberação, a coragem, o firme bem querer manifestado no rompimento com a situação de inferior.

Agora sim! Agora comprehendia-o e queria-lhe bem.

No enlevo d'essa commoção, não pensou mais nas ameaças, e apresentou-se á hora do jantar, como se nada tivesse havido.

Quando D. Perpetua lhe foi participar a desobediencia da filha, ficou muito offendido o morgado, mas não se ergueu do barril, não desamparou a destillação, nem sequer deu por entendido o recado.

Reconhecendo a mulher, em intima alegria, quanto o pungia essa noticia, voltou-lhe costas e foi-se.

Quando ao jantar, Maria lhe tomou a benção, estremeceu Martinho Vasques. Creára-a mimosa, votára-lhe certa affeição, embora o seu genio sêcco não o deixasse transparecer.

Ante o seu ar alegre, de desafio, não se atreveu a censural-a, e durante o jantar não se trocou palavra a respeito da vespera.

Saíram as mulheres após as graças a Deus, e ficcou o morgado, meditando e bebendo, até á chegada de fr. Angelico.

Não libaram n'esse dia.

Tomando a serio o papel de dono de casa, de senhor absoluto, desfechou-lhe o morgado, á queima roupa, a ordem de fazer contas ao jardineiro, e de o pôr fóra immediatamente:

--Não lhe consinta lamurias nem alcovitices.

Partiu o frade, humilhado da seccura e passando pelo escriptorio para levar a pataca do mez, foi procurar mestre Jacintho ao casinhoto.

Voltou á adega o morgado, encarando com mais clareza a situação. Livre do veterano, não poderia a filha corresponder-se com João, e esquecer-lhe-ia a perrice.

E na primeira aberta que lhe permittissem as questões da ilha, toca para Lisboa!

Tencionava o frade descarregar no velho o despeito pelo tom imperioso do fidalgo, quando o viu saír, muito escovada a antiga farda; posto á banda o boné, n'uma reminiscencia da passada elegancia; calça de linho, de pastor, de onde rompiam, pesados e bolorentos, os butes do uniforme; saco de chita debaixo do braço; cacetinho na mão.

Disse-lhe n'um amargo sorriso:

--Bem vê que já estava em ordem de marcha. Ao que houve, não contava com outra coisa.

Olhou em torno, e como não visse o fidalgo:

--Admira-me que o senhor morgado não venha pôr-se a arrotar contra mim.

E n'um risinho de triumpho:

--Tem mêdo cá do ginja! Pois não lhe comia nenhum bocado. Palavra que tenho pena, queria dizer-lhe duas verdades. E d'ahi, não. Aquillo não tem emenda. É falar ás paredes.

Ouvia-se rir, ao longe, Maria com a prima Josepha da Esperança.

--Ó aquella sim, tenho pena! Andei com ella ás cavallotas, quando me saltava nos canteiros atraz das borboletas, estragando-me as flôres, a traquinas.

Abrangeu a casa e a quinta n'um olhar de saudade:

--Cá fica, a pobre, para ter a sorte da mãe! Mas ella, que ri tanto, é porque não tem mêdo das parlapatices d'aquella bôa alma do pae. Faz bem rir, é uma creança!

E dando uma palmada irrespeitosa no ventre de fr. Angelico:

--Por mais ameaças que lhe faça, ha de o morgado ir adiante d'ella, é lei do mundo! Por mais intrigas que forge vossa reverendissima, tambem irá comer hervas pela raiz, e ella ha de cá ficar, e gostará de quem lhe der na veneta. Até eu, que não sou nenhum rato de sacristia, hei de ir á missa de costas, e ella ainda estará em edade de casar com o menino João.

--Vocemecê nada mais tem que fazer aqui. Está pago e satisfeito...

--Põe-me na rua? Não quer que me despeça da D. Mariquinhas? Pois é melhor para me não saltarem as lagrimas, e vossa reverendissima não se rir depois á minha custa, quando fôr á lambujem do alambique.

--Avie-se, que eu tenho mais que fazer.

--Pois vá-se embora, que não lhe pego. Ah! Fica de sentinella a mim! Quem tal havia de dizer! Fr. Angelico da Immaculada Conceição de Maria a governar esta casa! Olhe que eu nunca lhe gosei da carantonha, e agora comprehendo que vocemecê, e os outros da sucia, como os mosquitos de roda do vinho bom, andam á espreita das casas ricas, para apanharem freiras com bons dotes, e quintas onde se refocillem. Mas esta não apanham, juro-lh'o eu, porque a minha menina não é para graças. Não vae com cantigas. Aquella ha de fazer sempre o que muito bem quizer, que a isso a costumaram desde pequena. Era o nosso «Sant'antoninho, onde te porei»!

Limpou uma lagrima ao canhão vermelho da jaleca, e virou-se contra o frade, que já não estava nada satisfeito:

--Ha de se lhe acabar o governo aqui dentro, como já se lhe acabou lá fóra!

Deu alguns passos para a porta, mas ainda se voltou para traz:

--Vou para o castello. Hão de precisar lá de soldados velhos para ensinar a recruta á galuchada.

Passou o postigo que o frade lhe fechou nas costas, de pancada, indo depois vigial-o para o alpendre.

Voltara-se mestre Jacintho ao estoiro, e não poude represar as lagrimas vendo-se expulso d'essa casa, que considerava como a sua.

Deu alguns passos, vergado ao peso do saco, penosamente apoiado ao bordão, mas tirara-lhe as pernas a sensibilidade e veiu sentar-se na banqueta, a refazer-se.

Descendo para as bandas de S. Jorge, illuminava o sol as vidraças dos quarteis da fortaleza.

Abrangeu o velho toda a cortina que vem da bateria de São Diogo, cintando á beira-mar o Monte Brasil, varejando a bahia do Fanal; depois os grandes pannos da muralha do Caminho Novo, o torreão e a ponte levadiça.

Estava agora ali dentro João, o seu derradeiro affecto, e a velha espingarda com que fizera a campanha, e que tanto chorara ao abandonar ao quarteleiro.

Tinha a proteger essa creança, a reivindicar essa arma, a punir os aggravos do morgado e do frade.

Meteu-o em brios o espirito da classe. Ergueu-se, poz o saco no poial, abaixou-se-lhe, passou os cordões aos hombros e atou-os atraz das costas, á laia de mochila. Levantou-se com elle e o peso, puxando-o para traz, fez lhe perder a curvatura senil.

Deu uns passos amparando-se ao bordão, mas desempenou-o o automatismo profissional. Pôl-o ao hombro á guisa de espingarda, deu a si proprio uma voz de commando:

--Ordinario, marche!

E a passo cadenciado avançou estrada fóra, rejuvenescido pela esperança.

VII

Na melancholia do entardecer, em que as trindades põem o echo de um soluço, impregnado da tristeza do esmorecer do sol, fitava João o mirante da quinta, quasi totalmente esbatido na folhagem dos pomares.

Representava-se-lhe a scena da emboscada, revia-se na galharda atitude em que provocára os adversarios, baioneta em punho; fixára na retina o rosto transformado de Maria, a ardencia refulgindo-lhe no olhar; e vibrava-lhe ainda nos ouvidos a commoção dos gritos afflictivos.

Amava-o! Denunciara-a a surpreza.

Se estivesse contra elle, riria ao vêl-o corrido pelos cães, ou ter-se-ia retirado indignada pela sua audacia.

Mas não! Manifestára-se claramente a seu favôr, e só á força deixára o torreão.

Amava-o pois! Era o essencial.

Sempre contára como hostil o pae. Haviam de vencer com persistencia, confiando um no outro, certos da mutua fidelidade. E, tão novos, pertencia-lhes o futuro.

Como haviam de entender-se? Precisavam apoiar-se, trocar esperanças, animar-se na penosa separação.

Iria pela quinta a cavallo, para vêr para dentro, onde o muro era mais baixo, e poder resistir melhor ás ciladas. Levaria pistolas nos coldres, e ai de quem se lhe atrevesse!

Turbavam-o impetos de vingança, deslumbramentos de sangue, ferido pelo insulto.

Como concretizar a desforra?

Indicavam os preparativos que era esperado. Mas quem o denunciára?

Ao lusco-fusco assoprou a creada o borralho para o corno da isca, accendeu a candeia da cozinha, e foi levar-lhe, com as bôas noites, o candieiro de latão de tres bicos, e a branda luz do azeite alagou o polido do bufete, projectada pelo reflector.

Illuminado o quarto, deixou de vêr na penumbra o tenue esboço dos Folhadaes, mas quedou-se no mesmo sitio, esperando que o pontear de luzes lhe fôsse dando referencias para o reencontrar.

Gritou lhe de baixo a tia Dorotheia:

--Ahi vae uma visita.

Descontente por irem perturbal-o, não acertava com quem fôsse, nem conhecia os passos pesados, vagarosos e tropegos, subindo para a torre.

--Dá licença, camarada?--disseram da porta.

Era a voz do veterano, rouca da bronchite chronica adquirida nas noites ao relento.

--Vocemecê por aqui, mestre Jacintho?

E mandou-o sentar, no alvoroço de noticias.

--Como tem passado? Como vae a menina Mariquinhas?

Acanhou-se, sob o olhar magano do velho.

--Não se faça vermelho, senhor Joãosinho.

E batendo palmadas nos joelhos:

--Então logo a uma morgada, hein? Sim senhor, sim senhor!

João sentia o sangue rebentar-lhe pela cara, mas a anciedade impelliu-o:

--Conte-me que se passou depois que a mãe a levou para dentro.

--Que se havia de passar? Mais era com ella!

--Reprehenderam-a?

--Não é para graças, não tem mêdo.

--Então o morgado...

--Commigo, commigo é que foi o bom e o bonito!

--Coitado! Comprometter-se por minha causa.

--Não me coite, que não me fui abaixo das pernas.

--Na sua edade!...

Ergueu-se o veterano, desvanecido pelo rasgo:

--Foi-se pôr o morgado a crescer para mim, mas eu, como quem diz, fingi que não era commigo, que aquillo não tem senão lingua, mas tambem é como um lavadoiro!

--Perdôe-me ter sido a causa de tal desgosto.

--Espere, que elle não se foi sem resposta.

E possuindo-se da paixão com que falára:

--Disse-lhe tudo que me veiu á bôcca, deitei-lhe á cara a negra ingratidão com que nos pagou termos-lhe salvo a pelle, eu e seu avô; e o matreiro embuchou e ficou-se a assoprar, a roer...

João pediu-lhe, compungido:

--Não tome mais o meu partido, não se inquiete por mim...

--A bôas horas. Hoje o intriguista do frade poz-me na rua.

--O quê? Pois está despedido?

--Não se assuste, menino, não hei de morrer á mingua. Aveso algumas patacas para pão de milho, e n'aquelle castello cabe muita gente. Já lá fui pôr os trapicalhos e marcar poleiro.

--Tem a nossa casa, mestre Jacintho.

--Bem sei, mas obrigado. Se mesmo o menino á escolheu aquella, queria que eu ficasse a rezar n'umas contas?

--Vocemecê precisa de socego.

--Depois, depois. Agora ninguem é de mais ali dentro, que cá por fóra os patifes são muitos.

--Desarrumar-se dos seus commodos por môr das minhas creancices!

--Não se afflija, que eu por mim não tenho pena nenhuma. Só me custa não ter dado uma afogação em fr. Angelico, que me tratou como a um negro.

Mostrava o punho cerrado:

--Mas não as perde. São favas contadas!

--Socegue, deixe-o lá. Essa agitação faz-lhe mal.

--Hei de escalal-o, como a um chicharro, para lhe enforcar o Miguel nas tripas.

E como João sorrisse:

--Ah! Sim? Pois elle chegou muito estugado á quinta antes do menino, e não se me tira da cabeça que foi armar a tratantada.

--Elle?

--Sim senhor. E depois vi arrebentar muito depressa pela porta fóra aquella cára de condemnado, com estes dois que a terra ha de comer. Tenho para mim que ia com ella fisgada.

--Não seria simples coincidencia?

--É má rez, como todo o homem que veste saias. Sucia de mandriões!

--E Maria?

--Não ha mal que lhe chegue.

--Viu-a hoje?

--O patife do frade não me deixou, e eu não teimei porque a ouvi rir a bom rir.

--Pois ella estava alegre?

--Eu lhe conto. A senhora D. Perpetua foi muito prognostica dar-lhe o recado do pae, que ao almoço esteve como uma bicha, ouvia-se-lhe ao longe a prégação. Mas ella o caso que fez das prohibições foi escapulir-se logo para a quinta. Rapariga de uma cana!

Reparou que João entristecera.

--Não se me ponha a malucar, que se ella estava de risota com a senhora D. Josepha da Esperança era decerto para não dar o braço a torcer.

Depois de luctar comsigo mesmo, aventurou-se a perguntar:

--Manda-me dizer alguma coisa?

Riu-se muito Jacintho, meneou a cabeça, e respondeu:

--Estou velho, mas não ando de capote e capello.

Arrependeu-se João:

--Desculpe, não foi por menos consideração.

--Desculpar o quê? Tivesse falado com ella, que eu mesmo lhe perguntava se queria alguma coisa para o menino.

--Como lhe hei de agradecer tanta dedicação!

--É vicio velho em mim, não me caíam os parentes em deshonra.

E vigiando que não fôsse ouvido:

--Já n'esse particular servi de muito ao seu avôsinho.

Bateu-lhe familiarmente nas costas:

--Ainda assim, elle não começou tão cêdo, verdade seja dita.

Desvaneceu-se o rapaz pela admiração implicita n'aquellas palavras, e animou-se a aproveitar a bôa vontade:

--Preciso falar-lhe, ou escrever-lhe, comprehende bem. Tenho muito que lhe dizer, e quero saber o que ella pensa de mim.

--O que ahi vae, o que ahi vae.

--Aconselhe-me, mestre Jacintho. Como ha de ser?

--Dê tempo ao tempo!

--Hei de desamparal-a quando todos a ameaçam?

--Não tenha mêdo, que aquillo é taboa que não joga. Teimosa! Que o diga eu, que muito lhe soffri em mais pequena.

--Que quer dizer na sua?

--Espere, espere, que ha de chegar-lhe tempo para tudo.

--Esperar? Isso não. Quero entender me francamente com ella, por palavra ou por escripto. E se me quizer como eu lhe quero, como hontem me pareceu...