Os Bravos do Mindello Romance Historico
Part 5
Já reconciliadas do arrufo, debruçaram-se as primas no mirante da quinta dos Folhadaes, devorando com os olhos o caminho da cidade.
--E nunca mais cá veiu?--perguntava Josepha da Esperança.
--Nunca mais. Como se tornou esse rapaz! Tão orgulhoso como se fosse fidalgo, tão brioso como nós!
--É o que elles dizem, que valem tanto como os nobres, que somos todos eguaes. Que te parece, prima?
--Não percebo nem quero perceber d'isso. É bom para as caturreiras de fr. Angelico e do pae.
--Que elle é melhor que o primo Jorge, lá isso é que é.
--Achas?
--Está feito um homem. Diz coisas graves como nenhum dos nossos primos seria capaz.
--Deu-lhe para tomar a serio o que não devia passar de uma brincadeira.
--Mas tu não desgostavas d'elle.
--Não desgostava, não.
--É muito sympathico.
--É um bonito rapaz, confesso.
--Aquelle lindo buçosinho... E a covinha do queixo, e as das faces, quando se ri. É um amôr!
--Engraças muito com elle.
--Não fiques com ciumes.
--Eu? Toma-o para ti, que t'o agradeço.
--Isso agradecias tu. Não gosto de sobejos, mas lá por falta de mulher não deixa elle de casar.
--Como tu és! E o primo?
--Não lhe chega aos calcanhares.
--Olha, o teu genio é que eu nunca hei de comprehender.
--Então, filha, são feitios. Cada um é como Nosso Senhor o fez. Mas ao menos eu confesso a minha fraqueza, gosto muito, muito, de um bonito rapaz, e não quero meter-me a freira. E as que dizem que lhe atiram com pedras, estão pregadas nos mirantes a vigial-os...
--Já lhe disse, prima, que não quero o João para namorado.
--Mas para que passa agora todas as tardes aqui, de alcateia...
--É que me irrita o procedimento d'elle. Dito e feito! Que nunca mais vinha, e nunca mais appareceu.
--E isso dá-lhe pena?
--Não. Mas exaspera-me pelo seu atrevimento. Queria vêl-o mais uma vez, descompol-o muito, dar-lhe muita bofetada, muita bofetada, puchar-lhe pelas orelhas, e depois dizer-lhe: «Põe-te fóra, fedelho, e vê lá para quem te atreves a levantar os olhos».
--Pois caiste, prima, e não foi sem tempo. Já não pódes passar sem elle.
--Não me diga isso, que até me mete raiva.
--Essas furias já passaram por mim.
--A prima é muito experiente.
--Pois sou, e por isso sinto que lhe estás nas mãos, ou nunca mais pensavas nas suas palavras.
Maria não lhe respondeu, e continuou a observar a estrada, na irritação em que ficára desde a saída de João.
N'uma crise nervosa passára os primeiros dias fechada no quarto, sem vêr ninguem, depois fatigara-se em pertinazes passeios ao longo das varandas de pedra, para cá e para lá, olhos fitos na direcção que elle costumava trazer.
Abandonada pelo pae, sem intimidade com a mãe, que passava o tempo na cozinha fazendo doces, ou em exercicios espirituaes com fr. Angelico, vira-se forçada a mandar chamar a prima Josepha, para ter com quem desabafar.
E apezar do que ella lhe dizia, não cuidava amar João. Nutria contra elle, ao contrario, um sentimento de hostilidade, de revolta. Sentia uma insurreição de todo o seu ser contra essa creança que de repente, sem lh'o ter deixado suspeitar, entendera dispôr absolutamente do seu futuro, querendo-a para sua mulher.
Continuava Maria amuada, ria á socapa Josepha da Esperança, quando passou o jardineiro, com um braçado de flores e a podôa na mão.
--Ora tenham muito bôas tardes, minhas meninas. Então já sabem a grande novidade? Vem cá hoje o nosso homensinho.
--Quem, tio Jacintho?--perguntou Josepha, para acirrar Maria.
--Quem ha de ser? O senhor Joãosinho.
--Ouves? Temol-o por ahi.
--Que me importa!--protestou Maria, muito córada.
--Vi-o hontem na cidade, já anda fardado de voluntario, e a farda fica-lhe a matar. Está uma flôr! Até se parece com o avô, o capitão Silveira, que eu vi assentar praça da mesma edade. E ha de ir longe como elle, ha de ir longe!
--Não lhe disse nada?--perguntou a prima.
--Não sejas inconveniente, Josepha, ou ficamos de mal.
E para impedir alguma inconfidencia do velho:
--Vá com Deus, tio Jacintho, e obrigada.
Mas a prima ainda o deteve:
--Diga-me cá, elle agora póde chegar a official?
--Até a brigadeiro, que é muito capaz d'isso, e as meninas ainda o hão de vêr a cavallo a commandar batalhões e regimentos. Eu já hei de estar debaixo da terra, mas vou consolado por deixal-o bem encaminhado, que lhe quero como se fosse meu filho.
Muito maldosa, Josepha virou-se para Maria:
--Casarás quando elle fôr brigadeiro, muito velhote como o tio Vicente.
--Quando deixarás de meter-te na minha vida, prima?
--Quando tu m'a contares como bôa amiga. Começa lá, e confessa que te péllas pelo João.
--Se assim fosse não fazia mysterio, não tinha de quê. Mas não é verdade, não é verdade!
E sentou-se pensativa na banqueta, fronte apoiada á mão, a olhar ao longe.
Retiraram-se porém subitamente, e foram ambas esconder-se no jardim, ao avistarem fr. Angelico. Enfadava-as a sua apologia da vida conventual, no interesse de obter para a ordem os dotes e os bens que, como ricas herdeiras, lhe trariam; repugnavam-lhes as pretendidas caricias paternaes em que o seu instinto de mulheres adivinhava desejos lubricos.
O frade, que reparara na subita desapparição, passou rosnando ameaças por debaixo do mirante, e entrou, mesmo sem bater.
Bufando, limpando o suor, afrontado da caminhada, só deu com Martinho Vasques na adega, desabotoado, sentado em cima de um barril, observando o alambique, e provando a aguardente de vinho que mandára queimar.
Offereceu-lhe logo uma caneca cheia, que fr. Angelico esvasiou, limpando a bocca á manga do habito, e explodindo logo na sentença que viera preparando pelo caminho.
--Malditos tempos, senhor morgado, malditos tempos!
Martinho escorropichou gulosamente, e concordou:
--Não sei como tanta impiedade não provocou já um tremendo castigo! Deus porém compadeceu-se de nós, e as vinhas continuam, como nos dias de fé, a dar este saboroso nectar ... Outro, fr. Angelico, outro copinho...
Offereceu-lhe, na ancia de propaganda dos alcoolicos.
Saboreou o frade aos goles, defendendo-se:
--Senhor, preciso forças para falar.
Acabando de beber, tornou a bradar em tom de sermão:
--Tempo de desgraça! Tempo perverso!
Mirou-o o morgado, surprehendido por essa gravidade, só usada quando havia gente de fóra.
--Você tem coisa, ó Angelico!
--E grave, meu senhor.
--Pois desembuche.
--Tenha V. Ex.{a} a bondade de subir ao escriptorio...
--Homem, subir ... essa agora!
E olhava apavorado a escada de mão, encostada ao alçapão que da casa de jantar dava para a adega.
--Não póde abrir o bico ahi mesmo?
--Trata-se de um assumpto tão grave ... tão grave...
Pelo ar mysterioso, ficou Martinho desconfiado:
--Se é mais dinheiro para guerrilhas acabou-se ... Quero dizer, os tempos vão maus, os rendeiros pouco pagam ... E você bem sabe que a estas horas não estou em casa para taes coisas...
Indo da meza para a adega, saindo da adega para a meza, reconhecera ha muito o morgado que de tarde não fazia bons negocios, e antes de jantar fechava as gavetas do dinheiro e saía sem cinco réis, para que não lh'o extorquissem, com intimidações do inferno, para missas; para que não lh'o arrancassem, com lagrimas, antigas jovens das redondezas, invocando as complacencias de solteiras em favôr dos maridos, dos filhos, dos netos.
--Não se trata de dinheiro, meu senhor, embora saiba que a sua generosa bolsa está sempre aberta para a defeza da bôa causa.
E falando-lhe ao ouvido, insinuou:
--Trata-se da sua honra, senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro!
Ergueu-se, aprumou-se o morgado, e os musculos do rosto, distendidos na bonhomia de ebrio, contrahiram-se n'uma inesperada expressão de gravidade. A normalidade da embriaguez permittia-lhe a consciencia das situações extremas, ao contrario da absoluta perda de conhecimento dos que não bebem por habito, e só excepcionalmente se transtornam.
--Siga-me!--ordenou ao frade, que se humilhava hypocritamente, n'um ar compungido.
Encaminhou-se para a escada de mão, segurou-se-lhe, poz o pé no primeiro degrau, mas ao querer subir cambaleou, em risco de cair.
Offegante do exforço, accentuou se-lhe na fronte uma ruga, e pairou-lhe nos labios uma contracção de vergonha, de nojo de si mesmo. Ia occupar-se da sua honra a cair de bebedo!
Tinha de dar a volta, e entrar pela escada principal.
Então abotoou o collete, compoz a casaca, puchou os punhos, arranjou as pregas dos bofes, e apoiando-se ao marmeleiro que deixára contra as pipas, caminhou n'um ar magestoso, seguido pelo frade cabisbaixo, rastejante.
Pesadamente, no mesmo aprumo, entrou no escriptorio, foi sentar-se na solida cadeira negra, de alto espaldar, encimada pelo folhado de uma concha, e agora parecia-se com os retratos dos antepassados da sala nobre, a grave cabeça apoiada nos hombros largos; a meza, as pennas de pato de que nem sabia usar, a gravidade do conjuncto dando lhe o ar de um ministro, de um desembargador.
--Explique-se!--ordenou-lhe, como um juiz a um reu.
De pé, nos gestos dos grandes dias, começou fr. Angelico:
--Senhor, esta casa acaba de ser duplamente enxovalhada. Sentou praça de voluntario, em reforço ao infame batalhão que é a vergonha e o grilhão d'esta terra, esse rapaz que V. Ex.{a} protegeu, e que recebia em sua casa como a um filho...
--O João? Já tinha reparado na sua falta.
--Hão de dizer que são os nossos exemplos!
--Meteram-lhe isso em cabeça, patifes! A culpa é de quem perverte a juventude, e a arrasta para os abysmos da impiedade.
--Talvez V. Ex.{a} não leve a sua generosidade a ponto de perdoar-lhe, quando o vir logo entrar fardado aqui.
--Aqui?
--Sim senhor, a titulo de pedir desculpa de não poder continuar com a escripturação, mas para nos afrontar com o maldito uniforme constitucional, porque bem sabe quaes são as opiniões de V. Ex.{a} e minhas.
--Bom é que venha, que lhe quero dizer algumas verdades, e dar-lhe puxões de orelhas, que é o que merece.
--Perdôe-me V. Ex.{a} mas nem devia consentir que viesse...
--Isso é commigo.
E dirigindo ao frade um olhar severo:
--Mas que tem que vêr isso com a minha honra, a que você se atreveu a alludir?
Curvou-se mais o frade, e respondeu na voz lagrimejante dos sermões quaresmaes:
--Já lá vamos, senhor morgado, já lá vamos, embora o que me pesa ... só Deus o saiba!
Aproximou-se da meza, e quasi ao ouvido de Martinho:
--Perdôe V. Ex.{a}, mas diz-se á bôcca pequena que o miseravel ousa levantar os olhos para a senhora D. Maria.
--Para minha filha?
Ergueu-se apopletico o morgado, o sangue a rebentar do cachaço rubro, abaixando a fronte, n'um gesto de investida. Zumbia-lhe nos ouvidos um turbilhão de sangue exasperado, passavam-lhe no olhar relampagos de vingança, e os labios mexiam-se-lhe convulsos.
Mas tornou a sentar-se, e disse com certa compostura:
--Isso póde não passar de uma brincadeira. Comtudo fez bem em me avisar.
--Desculpe V. Ex.{a}--insistiu o frade--mas não se trata da infantilidade que julga. São os conselhos da botica, é a lição da liberdade! Esses infames querem afundar tudo na anarchia, e lançar mão das grandes casas fidalgas, em nome da egualdade que apregoam!
Meditou o morgado, a cabeça apoiada entre as mãos, e depois disse gravemente, em phrase arrastada:
--Basta, fr. Angelico. Isso póde ser um calculo d'elle, mas não alcança minha filha, nem attinge a minha honra, entenda-o bem. Podem fazer as leis que quizerem sobre egualdades. Quem é do nosso sangue não desce! Vença quem vencer, nós continuaremos a ser o que sômos, e elles o que são. Vossa reverendissima não póde comprehender isto, porque é plebeu. Mas eu sinto-o no sangue, como minha filha o deve sentir.
Conteve n'um gesto o frade, que ia a falar.
--Póde retirar-se. O que tenho a fazer é commigo, juiz e executor em minha casa, na minha familia e na minha raça, como chefe de linhagem que sou!
E correspondendo ás subservientes reverencias de fr. Angelico:
--De caminho mande-me o quinteiro, faça favôr.
Saíu pouco satisfeito o franciscano, procurou o quinteiro, mandou o á presença do fidalgo; depois chegou ao portão da quinta, observou para fóra antes de o transpôr, e em seguida, muito cosido com o muro, partiu para os lados de S. Carlos, para voltar á cidade sem se encontrar com João.
Notaram-lhe as manobras Maria e Josepha da Esperança, que tinham voltado ao mirante mal elle entrara.
Satisfeitas, por se verem livres d'elle, continuaram a observar impacientes o caminho da cidade.
Distinguiram por fim ao longe uma figurinha de militar.
Era João, vestido de guarda nacional, farda curta de saragoça portugueza, com botões brancos, golla azul claro, laço azul e branco no chapéu redondo.
Do ponto onde estava, o mirante sobranceiro ao pateo, em face ao alpendre da escada, ia vêl-o entrar e, talvez como antigamente, elle viesse falar-lhe, arrependido da imprudencia.
Pensando assim, seguia-o Maria n'um olhar de anciedade, encobrindo-se com as trepadeiras do caniçado, para não lhe dar a confiança de mostrar que o esperava.
Vinha já perto, quando notaram dentro movimento desusado.
Corria o quinteiro, e meia duzia de cavadores de enxada, batendo os pés descalços na terra endurecida pelo calôr, varapaus ao hombro, falando alto.
Desacorrentára o creado dois grandes cães de fila, amarelos, rabo cortado, focinho negro, fauces ameaçadoras, que de noite rondavam ganindo e uivando.
Ao chegarem ao pateo, occultaram-se na cocheira homens e cães, e o quinteiro foi esconder-se por traz do postigo, como se quizesse fechal-o mal entrasse João.
--Que é isto, José?--perguntou Maria, suspeitando uma violencia.
--Ordens do senhor morgado--respondeu elle, rindo alvarmente--não quero saber!
Mas Josepha da Esperança, muito nervosa, nem lhe dera tempo á resposta, e ao vêr João em frente do mirante, avisou-o:
--Não entre, que lhe querem bater!
Maria, correndo ao muro, bradou-lhe tambem:
--Foge, foge!
N'uma grande excitação, gritava a prima:
--Aqui d'el-rei! Aqui d'el-rei!
Elle recuára ao ouvir os gritos e, vendo apparecer ao postigo a cabeça lanzuda, comprehendeu que lhe faziam uma espera.
Desembainhou a baioneta, aprumou-se garboso, e avançou muito pallido para a porta, que de dentro fecharam com estrondo.
Sentiu então Maria que o amava, vendo-o encarnar o typo glorioso, cavalheiresco, da imaginação das raparigas, geralmente fixado nos que teem por ferramenta a espada e a lança do cavalleiro andante de outras eras.
Dirigia-se-lhe com o coração nas mãos, como elle no pomar, n'um rubor de sangue, lavada em lagrimas, pondo as mãos:
--João, João, não te percas por minha causa!
Sem a attender, batia exasperado no portão com o punho da baioneta, bradando querer falar ao senhor Martinho Vasques.
Ouvindo ladrar ameaçadores os cães de guarda, virou-se Maria para o pateo.
Aos gritos de soccorro de D. Josepha, correra de dentro o jardineiro com um grosso varapau cruzado como a espingarda, a ponta á altura dos olhos, fortemente cingido ao corpo.
--Querem bater no Joãosinho!--explicou-lhe ao vêl-o.
Correu o veterano ao postigo, aferrolhou-o, e berrou aos caceteiros que se fossem embora.
--Quem manda aqui é o fidalgo!--respingou o quinteiro, fazendo-se forte á frente do bando.
Mas os camponeses, receiando as furias do velho, mantinham-se indifferentes, apoiados aos bordões, n'um riso estupido.
--Deixe-me abrir a porta!--insistia o José da Quinta, querendo deitar os cães, segundo as ordens do amo.
--Primeiro te racho de meio a meio!--ameaçou mestre Jacintho, encostando-se ao postigo.
--Avem-te com estes!--casquinou o quinteiro, abrindo com um pontapé a porta da estrebaria.
Saíram ladrando excitados _Marujo_ e _Sultão_, mas conhecendo o jardineiro, não lhe pegaram.
--És peior que os cães, que os animaes não teem entendimento e não fazem mal só porque os mandam!
E o velho rilhando o dente, na furia que o tornava terrivel, avançou, crendo-se em plena batalha, e fez recuar o capataz e o rancho, levando-os de roldão até ao fundo do pateo.
Ahi, metido em brios, tentou defender-se o mandatario do morgado, mas caíu, lavado em sangue, com uma cacetada na cabeça.
Appareceu no alpendre da escada D. Perpetua entre as creadas, attrahida pelo alarido.
Chamou a filha para casa.
--Vamos para dentro, Maria. Que vergonha!
E como ella não a attendesse, deu a volta e foi obrigal-a a saír do mirante.
--Isto é alguma tarde de toiros? Gostas de vêr no que dão as bebedeiras de teu pae?
Arrastada pela mãe, envolvida no berreiro das creadas, Maria, com a cabeça perdida, não viu que mestre Jacintho abrira a porta e, dando conta a João do que se passava, aconselhara-o a ir-se embora. Depois falariam.
Ao passar no pateo, para entrar em casa, afastou a cabeça para não vêr a torva lividez do ferido, os olhos vidrados, a testa gotejando, os cabellos empastados em sangue, a mulher ajoelhada ao pé, clamando que o morgado lhe metera o homem em trabalhos.
Ao entrar em casa ainda poude Maria olhar para fóra, e ficou descançada vendo João já muito longe, a caminho da cidade, salvo de todo o risco.
Veiu do fim da quinta Martinho Vasques a vêr como tinham sido executadas as suas ordens. Ao conhecer o procedimento do veterano, partiu exasperado em busca d'elle, depois de ter mandado chamar o barbeiro para curar o ferido.
--Tu é que déste a pancada no quinteiro?--perguntou-lhe colerico, ao vêl-o deitado n'um molho de rapa, a resfolegar, muito cançado.
Ergueu-se logo o velho, empertigou-se na rigidez do habito militar ante o superior, mas respondeu, orgulhoso da façanha:
--Pois quem havéra de ser? Quem ha ahi com alma para tirar fumaças a pimpões?
--Mas tu sabias que era ordem minha!
--E que me importava isso a mim?
--Então, refinadissimo tratante, comes o meu pão para me desobedeceres?
--Sabe que mais, patrão, não venha tirar palha commigo.
Mas o morgado, que via n'elle o culpado da vergonhosa scena em que fôra desrespeitado, e de que o rapaz saíra triumphante, irritava-se cada vez mais.
--Aquella pancada é como se fosse dada em mim mesmo.
O ex-soldado virou-se para elle, mediu-o de alto a baixo, e de esguelha, disse-lhe decidido, teimoso:
--Se o senhor se tivesse ido metter com o menino...
Arremetteu com elle Martinho Vasques. Porém a reputação do soldado, apesar da mesquinha attitude em que ia a retirar-se, sem fazer caso, dobrado ao meio, as mãos pacificamente atraz das costas, o pescoço magro saíndo da colleira negra, descarapuçado, bastou para conter n'um prudente respeito o morgado, alto, forçoso, sanguineo, armado do rijo varapau.
--Esquecestes quem sou eu?
--E o fidalgo não se esqueceu do que lhe deve ao avô, do que me deve a mim, para vir para aqui, vermelho como uma lagosta, impar de raiva mansa?
--Se não tivesse que descer a medir-me comtigo, fazia-te engulir tudo isso com os dentes que te restam.
Tremia apertando nervosamente o bordão.
--Com bem passe, senhor Martinho--e o velho dizia-lhe adeus com a mão, sem se voltar.--Fale-me ámanhã em jejum.
--Ó bandalho, tu chamas-me bebedo?
--O patrão é que se está chamando, nanja eu.
--Olha que eu mando-te fazer uma montaria como a lobo!
--Pois vamos a isso. Coza-a commigo, que tenho o coirão duro, mas lá com o menino, cautela! Olhe que lhe sae do pêlo, senhor morgado.
--Pois atreves-te a ameaçar-me? A mim?
--Hoje em dia, meu amo, já não se póde mandar matar um homem sem se bailar n'uma forca, porque se acabaram os fidalgos e as suas patifarias.
--Até a isto se pegou a sarna jacobina!--exclamou com desdem, com desgosto.--Não falavas assim se eu não te désse licença para te ires emborrachar com a choldra do castello.
--Aqui, senhor morgado, aqui é que ellas se apanham de caixão á cova.
Perdendo a cabeça, o morgado poz o pé atraz, empunhou o cacete, mas envergonhando-se, atirou com elle, e deixou-se cahir no banco de pedra como aniquilado.
Ficou para ali vendo anoitecer, não querendo passar pelo pateo onde a quinteira se arrepelava, bradando que lhe desgraçára o marido.
Tinha ainda nos ouvidos os gritos de Maria, as injuriosas referencias da esposa.
Acabava de insultal-o um creado!
Sentia inteiramente desfeito o poder, a autoridade de que fôra tão cioso.
Todos se voltavam contra elle, todos pareciam ter razão contra a sua razão, a unica authentica, a unica verdadeira.
Perdera se a obediencia, quebrara-se o respeito, e em sua casa todos queriam mandar tanto como elle.
Estaria então a sociedade tão profundamente minada pelo mal, como dizia fr. Angelico, que a filha, uma fidalga, descesse até um misero plebeu, e todos se conspirassem contra elle, tomando partido pelo insignificante?
E atreviam-se a falar-lhe cara a cara, a elle, morgado, senhor de terras, nas novas leis que impediam a nobreza de desafrontar a sua honra a dentro do seu solar?
Invadia-o uma amarga dôr, um triste desanimo, como se a sua integridade physica fosse attingida, como se lhe tivesse quebrado a cabeça a cacetada, como se lhe mordessem os proprios cães.
E n'essa hora de abandono assaltava-o o remorso de muita injustiça.
Mas pouco a pouco reconquistou-o a fé absoluta na verdade das suas ideias.
Reanimou-se, decidiu-se.
O mal crescera, chegára a invadir-lhe a casa! Pois bem, collocar-se-ia d'ahi em diante ao lado dos que mantinham a verdade do passado, a honra incorruptivel da fidalguia, a fé religiosa intransigente!
E levantou-se aprumado, disposto á lucta que a todos reclamava, e a que até ahi o subtraíra a indolencia do seu viver.
VI
Segundo o costume, mal se levantára, fôra logo o morgado para a casa de jantar e, com a cabeça apoiada entre as mãos, os olhos fitos nos montes de rapa, nos picos de esterco do pateo interior, onde fossavam porcos e depenicavam gallinhas, reconstituia por partes a scena da vespera, illuminando se-lhe successivamente zonas da memoria, mas sem continuidade nos acontecimentos, como se uma palavra do frade lhe ficasse menos gravada, como se um insulto do veterano se marcasse mais fundo; e depois colligiu tudo, e poz-se a ligar os factos aos antecedentes e a preparar-lhes, por sua iniciativa, a necessaria conclusão.
Batiam alto na cosinha as galochas de sola de cedro da morgada, ao passar na parte do lagedo raspada pelo rachar da lenha; em sons abafados, surdos, ao calcar as crôstas de lama negra e luzente, terra da horta, caldeada ás escorrencias da amassaria.
Começou a chiar a frigideira na trempe, ao fogo das achas atiçadas pelo borralho do forno, onde acabava de cozer o pão da semana.
Ao cheiro da gordura e da linguiça com ovos, desabaram moscas do tecto de maceira, onde jaziam mortas gerações e gerações, o ventre inchado, avivado de cintas brancas, presas umas nas bambinelas de teias de aranha, suspensas outras pela tromba á cal do forro, que sustentava a telha, apoiando-se ás pernas de asna, firmadas por sua vez no friso onde amadureciam maçãs, e nas grandes traves em que curavam aboboras.
Esbarraram algumas, desvairadas, nos vidros poeirentos, grudados aqui e ali por miolo de pão, no centro das rachas estrelladas; mas depois precipitaram-se todas na cosinha, d'onde d'ali a pouco vieram pairando por cima da pratada, quando os pés descalços da creada batiam pancadas seccas nos degraus de pedra, da cosinha para a casa de jantar.
Entraram zumbindo pelas janellas as varejeiras dos chiqueiros e da esterqueira, cujas emanações azedas azotadas e amoniacaes, abafavam o cheiro da linguiça temperada a oregãos e da banha de vinha d'alhos.
Distraíu-o momentaneamente a lucta com os insectos, muitos dos quaes iam morrer na fervente gordura em que boiava a fritada.
Para comer em socego mandou fechar as janelas, e cessou a baforada da estrumeira, onde se enthesoiravam os despejos da casa, para riqueza das terras; mas pela do pateo da entrada, aberta para arejar, veiu o fedôr a bêsta das estrebarias que ficavam por baixo dos quartos de cama, onde pelas gretas do sobrado insinuavam ninhadas de pulgas.
Coube a vez ás moscas de cavallo, tardas, pegajosas, expulsas ás rabanadas pelas alimarias que, n'um luctar irritante, continuo, escarvavam o chão calçado de pedra roliça como amendoa, boleada pelo rolar das marés, pelo limar da areia.