Os Bravos do Mindello Romance Historico
Part 13
De dentro chegavam-lhes successivas noticias, andavam já em negociações, decidira capitular o conselho de guerra, e estava assignada a paz.
Ouviram ao longe o hymno constitucional, confirmando a noticia, e ao som da musica, ao ruido atroador dos vivas que se approximavam, desappareceram, cabisbaixos, os soldados de D. Miguel, e a rua ficou deserta, emquanto ao longe avançava a onda libertadora.
--E João viria com esses?--exclamava Maria, em lagrimas de jubilo, abraçada á freira.
Ganhára o enthusiasmo a cidade opprimida, dos carceres do convento irrompiam freiras desgrenhadas a saudarem das grades a victoria.
Chamaram Maria ao parlatorio, e as duas mulheres desceram logo.
Em vez de João, esperava-as o morgado.
Por excepção não se embriágara, na dôr do derruir das ultimas esperanças, e parecia ebrio, cambaleando, pallido, coberto de suor frio, o olhar pasmado, as palpebres cerrando-se a meudo.
Custava-lhe a encarar a luz, como se o deslumbrasse a evidencia do triumpho.
Depois de saudar ligeiramente a prima, dirigiu-se á filha:
--Menina, prepare-se para me acompanhar.
Maria recuou attónita. Dava-se o que receiára. Tentava o pae reapossar-se d'ella.
--Aonde, senhor?--perguntou afflicta.
Fazendo-se forte no ultimo poder que lhe restava, retorquiu o morgado:
--Não aprendeu a ser obediente? Pois ainda está em edade de se tornar bem ensinada. Obedeça-me!
D. Anna falou n'uma voz grave:
--Senhor, não lhe basta o mal que tem causado? Não se dá por satisfeito?
Descarregou Martinho Vasques a colera que para ellas reservara, reduzido á impotencia pela convenção de Evora Monte:
--Que significam essas palavras, prima?
--Que felizmente já posso desabafar e dizer-lhe tudo o que sinto, sem receio de que Maria soffra por minha causa.
--A prima sempre foi uma doida!--explodiu elle--Vejo que fiz mal em confiar-lhe minha filha. Mas estou a tempo de emendar o erro.
E voltando-se para Maria:
--Porque espera? Não ouviu o que lhe mandei?
--Escusa exaltar-se, senhor--respondeu a freira--Esta menina está sob a guarda do mosteiro, e só póde saír por ordem superior.
--Reclamo-a eu, seu pae, com o mesmo direito com que a entreguei.
--Mas felizmente os seus já não governam, e agora já não se entregam victimas aos algozes.
--Tia!--interveiu Maria--pelo amor de Deus não o offenda. Bem lhe basta o seu desgosto.
--Ainda não estás pervertida, filha. Pois bem, vamos, que a dignidade do teu nome impõe-te o dever de seguires teu pae, embora vencido.
--É tarde, pae!
--Que significa isso!
--Já me sacrifiquei bastante. Não posso mais.
--Então recusas te a acompanhar-me?
--O senhor já nada representa para ella. Não quiz sepultal-a viva n'uma tumba? Faça de contas que a matou, como á mãe, e retire-se. Quem procede como o senhor, perde o direito a ser tratado como pae. E vá esconder-se, para não passar pela vergonha de ter a sorte que merece.
Tiniram esporas na portaria, arrastaram-se espadas, e passos d'homem subiram a escada do locutorio.
Era João.
Tendo ouvido as ultimas palavras, dirigiu-se respeitoso ao morgado:
--Senhor, tanto reconheço os seus sagrados direitos, que peço respeitosamente a v. ex.{a} a mão de sua filha.
Elle recuou um passo:
--Vem zombar dos meus cabellos brancos?
Levou a mão ao lado, para arrancar da espada, mas deixou pender os braços, desanimado.
--Quebrei-a na esquina da rua a minha velha companheira para não a entregar aos seus. Estou desarmado. Póde insultar-me!
Tinham as duas mulheres abandonado a grade e, correndo á sala das visitas, metiam-se de permeio.
João respondeu commovido:
--Senhor, acolhemos a todos com o perdão, abrimos os braços aos camaradas a quem a sorte das armas foi adversa, e n'esta hora solemne não ha logar para rancores. Fraternisam os filhos da mesma terra. Pois perdôe-nos tambem v. ex.{a}, e a nossa alegria lhe fará esquecer os seus desgostos.
Dava as mãos a Maria, devorando-lhe com os olhos o rosto muito branco, onde as olheiras pareciam mais fundas, e a dentro d'ellas maiores os bellos olhos claros, que a melancolia enriquecera de ternura.
Embevecia-se ella no tostado rosto de João, envolto na fina barba, bebendo a vida n'esse firme olhar que adquirira lampejos de energia varonil.
--O vosso perdão não passa de uma caridade de phariseus!--atirára-lhe o morgado em resposta.
Debalde procurava D. Anna convencel-o, emquanto João e Maria se contemplavam, anciosos por se abraçarem.
Ainda ella teve coração para sentir o desespero do pae:
--Fique comnosco, senhor! Na nossa ventura ha logar para si.
--Não! Não!--retorquiu teimoso o velho--Já não tenho filha, já não tenho familia! O meu logar é junto do principe proscripto.
Revia D. Miguel na commoção da retirada, abotoado na sobrecasaca azul, de chapéu á Napoleão; dando a mão a beijar ao povo fanatisado, com cuja ignorancia se identificava, merecendo o mesmo perdão pela inconsciencia em que viviam; alheio ás transformações do tempo, contando ainda com o milagre; victima tambem, elle o chefe dos algozes, victima da mãe quo o incitára, do anterior estado social que o educára, o tornára a sua bandeira, o seu symbolo, e agora o arrastava comsigo.
João tambem lhe pediu.
--Não! Não!--insistia o morgado--Somos o passado, que não transige! Tambem ha de chegar o nosso dia, e S. Miguel Archanjo ha de voltar! Adeus, filha desventurada. O meu logar é junto d'elle.
Ainda correram á janella.
Afastava-se aniquilado, braços pendentes, sem o bordão que lhe dava o ar magestoso, sem a espada a que se apoiava, desempenando-se; irreconciliavel como o passado que ia afogar na sombra do tumulo a sua amarga desesperança.
* * * * *
--Só tu me restas, João!--e Maria deitou-se-lhe ao pescoço.
--Ha quanto tempo que podia ser!--queixou-se elle, ainda cioso da felicidade esperdiçada.
--Não te amava tanto como agora! Sinto-o hoje, porque só sabe amar quem soffreu muito!
FIM
INDICE DOS CAPITULOS
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End of Project Gutenberg's Os Bravos do Mindello, by Faustino da Fonseca