Os Bravos do Mindello Romance Historico

Part 12

Chapter 12 3,880 words Public domain Markdown

--Pódes dizer-lhe adeus. Pensa n'outra, que é o menos que falta. Não tarda o velho pela barra fóra, que está na lista dos suspeitos, dos que tramam na sombra e ajudam as guerrilhas por baixo de mão. O Villa-Flor é têso, faz elle muito bem; ainda não bebeu agua das Covas, nem bebe, honra lhe seja; não se amolda, pois, aos costumes da terra, e não quer saber se o Martinho é muito ou pouco fidalgo, se vem de reis ou de lacaios. Isso é bom para nós, que na nossa insignificancia ainda caímos de cocoras diante d'esses paparrotões, só porque teem quatro avoengos, embora os renegassem como esse refinadissimo «corcunda», tornado em lacaio dos sotainas, quando o avô ajudou a expulsal-os, cumprindo as medidas de Pombal. Agora que a victoria de 11 de agosto poz isto na ordem, é preciso limpar a terra das hervas damninhas, porque, meu rapaz, ainda ha muito e muito que fazer.

Ouvia-o João, transtornado, sem comprehender bem.

--Quer dizer que Maria se vae embora?

--Não se trata d'ella, meu rapaz. O nome do pae é que eu vi na lista dos deportados.

Foi procurar emigrados, rapazes que o podiam comprehender melhor do que o velho, e cuja deliberação no combate lhe ganhara a sympathia.

--Mas afinal que queres tu?--dizia um academico--A rapariga gosta de ti, não é verdade? Pois muito bem, vamos lá uma noite, tira-se para fóra, dá-se uma sova nos migueis que se fizerem finos, metel-a em tua casa, e não queiras mais saber de deposito. Em teres andado tanto tempo ao rabo da saia d'ella, e deixal-a assim levantar o vôo, bem mostras que foste educado por padres e te tornaste um maricas. Havia de ser commigo!

--Ella é que não quer fugir. Que ha-de casar, e não sae d'ali.

--Pois tira-se mesmo contra vontade, que quem governa somos nós, e como tu és das caras direitas que estiveram na batalha da Praia, fecha-se os olhos á rapaziada.

--Preciso consultal-a primeiro...

--O que tens é medo d'ella. Pois deixa-a ir para o primo, que em chegando a Lisboa não se lembra mais de ti. Aquillo é que é terra!

--Não durmas sobre o caso--lembraram-lhe--olha que elles não tardam a ser corridos, que isto agora é dito e feito.

Escreveu-lhe, pintando o horror d'essa separação. Estava preparado para a ir buscar, acompanhado por amigos. Não havia perigo, e no caso de força maior tinha ella completa justificação aos olhos de todos. E que importava que os censurassem, se a sua felicidade os faria esquecer tudo? Se não acceitasse é porque nunca lhe quizera bem, porque cedera apenas a um capricho.

* * * * *

Quando viu o pae exultando pela ordem de deportação, arrependeu-se amargamente Maria de ter voltado a casa.

Só então o morgado quebrára o teimoso silencio, para se dar como disposto a tratar a mulher, mas procurando prender assim a filha á esperança de salvar a mãe.

Levando Maria para Lisboa, realisaria completamente o seu velho plano.

Mas comprehendia bem que João devia tentar retêl-a, e queria influir n'ella astuciosamente, já que pela força nada poderia contra os que se firmavam em duas victorias, e esmagavam os adversarios.

Para estar precavido, augmentára o numero de homens de trabalho, a pretexto das vindimas, e tinha ali muitos dos guerrilhas do Pico do Selleiro, com armas á mão.

Sentia ella os olhares dos guardas, mas não duvidava que, se quizesse, João a viria buscar n'um momento.

Ainda a carta d'elle a exaltou por instantes, na seducção da aventura, mas repugnava-lhe o coxixar dos mantos apontando-a em mancebia; as invejosas, as rivaes voltando-lhe a cara indignadas, e mais uma vez impoz-se-lhe o orgulho.

Respondeu-lhe com serenidade, meditando muito as palavras.

Devia continuar como enfermeira da mãe, que adoecera por sua causa, e agora ia procurar a cura. Demais, viver com elle, sem casarem, tornava-se indigno d'ambos. Era descer, abandalhar-se aos olhos de todos, e talvez até aos d'elle proprio. Haviam de unir-se dignamente, como mereciam. De outra maneira, não. Só Deus sabia o que lhe custava separarem-se, mas, como sua mulher, havia de ser a guarda da sua honra, e não podia começar por sacrificar-lhe o bom nome. Se era differente das outras, por isso mesmo lhe devia querer mais. Concluia insistindo que, da mesma forma, ficariam separados quando elle embarcasse na expedição liberal ao continente, e ella ficasse na ilha á sua espera. Assim até era melhor, porque iriam encontrar-se em Portugal. Até lá, pois, e ou seria d'elle, ou de ninguem.

E como n'essa madrugada em que a chegada do navio, que a devia levar, o decidira a declarar-se, João, depois de a ter visto embarcar desfallecida, olhos vermelhos, ao lado da cadeirinha da entrevada, foi pôr-se á janela.

Viu o barco largar d'entre as escunas da laranja, que baloiçavam como berços o leve bojo, finas, veleiras, atrevidas; que fugiam debaixo de tempo, antes que o suéste as désse á costa; ou redemoinhavam como pedaços de cortiça, quando os inglezes, reconhecendo se impotentes para arcarem com a tormenta, fechavam escotilhas e emborrachavam-se na coberta, para não darem pelo naufragio.

Oh! Mas d'esta vez iria após ella, como então resolvera, sentindo se homem ante o risco de a perder; iria após ella, a essas terras onde tudo se decidia, já sem a emulação de outr'óra, integrado nas mesmas aspirações dos emigrados, tendo como elles ideias a affirmar, victimas a remir.

* * * * *

Desde então só tem um fito a sua vida, partir como ella, e essa ideia fixa mantem-o atravez dos momentos de desanimo que tiram o caracter de decisivo ao combate da Praia; a falta de dinheiro, a intriga diplomatica, as rivalidades da familia liberal.

E essa obsessão leva-o a consagrar-se como um fanatico á conquista do archipelago, com um navio adquirido por subscripção.

Empolga-o a figura prestigiosa de D. Pedro, indo á ilha organisar a expedição liberal, pôr-se á frente d'ella; e n'esse imperador de trinta annos, que abdicára duas corôas, assignára duas constituições, proclamára a independencia de um imperio, fôra grão-mestre da maçonaria, e interpretára em dois hymnos a sua ingenua crença liberal; n'esse principe, hostilisado em Portugal por ter emancipado o Brasil, guerreado no Brasil por se preocupar com Portugal, via agora o desenlace do conflicto, pela garantia de ordem que dava á Europa a cathegoria do novo general dos que, desde Vinte, se batiam pela liberdade.

Todos queriam partir, e os officiaes emigrados, que não cabiam nos quadros das forças, constituiram o Batalhão Sagrado, para terem a honra de fazer parte do exercito libertador, aonde aos veteranos do Rousillon, aos soldados da guerra da peninsula e da legião portuguêsa ao serviço de Napoleão, se juntavam os voluntarios de 23, os academicos, os alistados agora, os pescados á esquadra, estrangeiros vibrantes da indignação que agitava a Europa contra a oppressão portugueza, toda a juventude sangrada aos Açores para a libertação de Portugal.

Ao partirem da ilha de S. Miguel, onde se concentrára a expedição, cantavam enthusiasmados o novo hymno constitucional, que D. Pedro escrevera ao vir lançar-se na lucta pela carta outhorgada, pelo throno da filha:

Da rainha e da carta o pendão Já nos mares se vê tremular, Nobre esforço que a honra dirige, Vae de Lysia a desgraça acabar.

D'entre a noite no carcere horrendo, Resurgidos ao dia fatal, Inda vertem heroes portuguêses No patibulo o sangue leal.

Nas entranhas da escura masmorra Onde reina da morte o terror, Outros mil inda esperam constantes Igual sorte c'o mesmo valor.

Mesta Lysia em gemidos implora Que as algemas lhes vamos quebrar; Já nas praias as mães lagrimosas Pelos filhos se escutam bradar.

A cada quadra repetia-se o estribilho:

Foge, foge, ó tyranno e não tentes Ferreo sceptro mais tempo suster; Que nas aras da patria juramos Viver livres, ou livres morrer.

Como um signal de que o ceu respondia ao appello do hymno

Nossos votos são carta e rainha; Nosso guia quem ambas nos deu; Defendemos a causa do mundo; É por nós a justiça do ceu.

appareceu azul o sol, velado por tons de anil, pondo em tudo reflexos ceruleos, casando se ás côres da nova bandeira azul e branca, as côres do laço liberal de Vinte, o branco da espuma da onda, o puro azul do ceu de Portugal.

Fez-se ao largo temerariamente, em velhos transportes comboiados por uma esquadrilha, esse punhado de homens, cerca de sete mil e quinhentos, o numero que a tradicção para sempre fixou, n'uma commovida gratidão.

Realisava-se emfim o longo sonho do exilio, e, ao saltarem no Mindello, prostravam-se os expatriados, beijando o querido solo, cujas poças de sangue reflectiam as rubras tintas d'uma nova aurora.

Apertando convulsos as armas fraticidas, com que eram forçados a apoiar os gritos de liberdade, os votos de egualdade e fraternisação, pediam novas forças a essa terra que ainda defenderiam cobrindo-a com o retalho do seu corpo, osculando a na crispação da ultima agonia; sentiam-se felizes ao tocarem-a, embora para morrerem n'ella, ameaçados por oitenta mil soldados, e pelo fanatismo catholico mantido por frades e jesuitas entre as populações a libertar.

Na patria ensanguentada, apunhalada pelos pés das forcas, oscilavam garrotados, como pendulos sinistros, marcando á tyrannia a hora fatal.

XII

Observava Maria através das grades.

Iam as ruas d'Evora coalhadas de soldados miguelistas, e ao convento chegavam novas da retirada de Santarem.

--É o fim da guerra, descança--dizia-lhe uma freira de meia edade, amarela de cera, vislumbres de juventude no olhar vivo, que tambem observava para fóra.

--De quantas batalhas o tem dito--respondeu Maria com desanimo.

E lançou um olhar de desesperança á fria cella, nua, sem conforto, á cama, á arca, a essa cruz negra que era o sêllo do captiveiro.

--A guerra prolongar-se-ha como os pesadêlos que me endoidecem n'este carcere.

--Para que has de descoroçoar?

Ouvia-a, muito abatida, sem desfitar os bandos.

--O peior está passado--continuou a freira.

E n'um suspiro:

--És nova, tens vida para tudo.

--Ha quanto tempo que m'o diz!

--Desde que viestes.

--Não podia ser mais feliz, encontrando tão bom coração.

--Podias, se me tivesses conhecido mais cedo. Aconselhar-te-ia de outra forma, e decerto não estarias aqui.

--Agora não tem remedio!

Continuavam a olhar para fóra.

--Admira-me não avistar o pae.

--Não deve ter muita vontade de ver-te, nem suppõe que terás grande gosto em o encontrar--disse a freira com amargura.

--O mal que elle me tem feito!--murmurou Maria.

--Conheço muito bem o senhor meu primo! Era outro que tal o senhor meu pae, Deus lhe perdôe. Tinham mulheres e filhas por escravas, e serviam-se d'estas prisões para se desfazerem das filhas segundas, para imporem casamentos ás morgadas como nós. Infelizes tempos! Desgraçadas que somos!

Fixou Maria novos grupos, e perguntou:

--Se o pae continua a acompanhar D. Miguel, como desde que saiu desesperado d'aqui, deve ter vindo com elle.

--Sim. Ha de estar na cidade.

--Só se lhe succedeu alguma coisa...

--Quanto a isso está descançada. O infante viu a guerra de longe, não é como o senhor D. Pedro, que acode ás baterias debaixo de fogo, aponta as peças como um artilheiro, e apparece no ardôr da peleja a animar os seus.

--A não ser da vez que foi ao Porto para incitar o cerco...

--Que por signal andou abandalhando-se em Braga, com mulheres de má nota, fazendo flostrias a cavallo para lhes agradar, emquanto que outros morriam pela sua teimosia de ter cadeias atulhadas de innocentes, e conventos cheios de desgraçadas como nós.

Na preocupação da rua, Maria respondeu:

--Então é porque não quer ser visto.

--Sabe os sentimentos que inspira.

E encarando com ella.

--Não é por lhe querer bem que pensas n'elle, não é verdade?

Maria titubeou:

--Apesar de me pretender enterrar em vida, apesar do que fez á mãe...

--Se elle tivesse vergonha nem voltava a esta terra, onde veiu deixar os ossos da desgraçada. Soube-se dos seus maus tratos, e todos lh'o levaram a mal, acredita. Olha que muitos que se dizem realistas, e o applaudem e a outros que taes, é só por medo d'essas viboras, que se vingam nos inermes, e fogem a sete pés dos que estão armados.

Maria abraçou-se a ella, chorando:

--Perdôe-me, D. Anna, mas como lhe hei de querer, se me tem tratado cruelmente, se torturou a desgraçadinha, se lançou João no horrôr da guerra...

--Deixa-o, filha, não penses mais n'elle. É como se tivesse morrido. E pede a Deus que ainda lhe possas pagar em caridade, nos seus ultimos dias, que os ha de ter bem negros!

--O mal que lhe desejo me venha a mim.

--Elle não pensa mais em ti, descança. Ha que tempos não me escreve, não me força a responder-lhe n'essas cartas em que te dou a caminho da profissão, n'uma vida de penitencia.

--Tem sido tão bôa para mim.

--O que mais me custa, Maria, é conter-me, lançar ao papel essas mentiras, em vez de lhe dizer as duras verdades que merece!

--Ninguem o convence.

--E elle tirava-te logo d'aqui.

--Se suspeitasse o que a tia tem sido para mim!

--Não ha remedio senão dissimular, que felizmente ha de ser por pouco tempo.

--Agradeço lhe a bôa intenção, D. Anna, mas já não espero ver fim a isto.

--Pois não vês que a falta das cartas em que elle teimava para que professasses, não querendo que um dia viesses a casar, mostra que já não tem cabeça para nada? Sempre que os liberaes ganhavam um palmo de terreno, apertava-me elle para que te lançassem o habito. Agora não tuge nem muge. Que mais queres?

--Talvez desconfie da sua amizade por mim.

--Como? se só tu a conheces, e não ha muito tempo, porque ao principio fui para ti o que tinha sido para todas, retrahida, reservada! Quando me encerraram aqui, os escandalos com que enxovalham a casa de Deus, que, como tens visto, serve para as mais torpes devassidões, não me desmoralisaram como ao geral das que cá veem parar. Fizeram-me conservar á parte, sem me prestar a ditos e mexericos, sem beberetes na cella ou na grade, sem dar confiança a nenhuma. Segui sempre com sympathia os liberaes, porque bem sabia que elles libertariam as pobres enclausuradas. Mas não me manifestei aqui dentro, porque de nada servia, como as freiras constitucionaes postas a pão e agua no carcere, forçadas a penitencias vergonhosas diante d'essa communidade de descaradas, transferidas para longe dos seus. Calei-me sempre, mas trago no exercito libertador soldados armados e pagos por mim, por via de encubertos liberaes d'esta terra que fazem o mesmo, a occultas, para que não os roubem e assassinem.

--Pois tem feito isso?

--Tenho. Mas ai de mim se o suspeitassem!

--Ah! D. Anna, que tem sido a minha verdadeira mãe!

--Não quiz que soffresses o que eu soffri. E tenho o gosto de te haver salvo de vez. Sem mim, ao teu genio assomado, caías nos enganos que te armaram, professavas, e adeus para sempre.

--E se elle morrer, faço-o, tia!

--Está a acabar a guerra, foste feliz!

--Quantas vezes o tenho acreditado, e quantas a realidade me entristeceu!

Recordou a sua longa espectativa, passando por alternativas dolorosas, ora esperando João no dia seguinte, ora julgando nunca mais o vêr.

Acompanhara-o em espirito, no desembarque no Mindello, e tivera a mesma desillusão que elles, ao appellarem para os manifestos, na repugnancia de derramar sangue, contando mais com a adhesão em massa do que com a dolorosa guerra civil.

Exultára na recepção do Porto, a cidade em delirio, damas de azul e branco, lançando mais flores a esses queridos soldados, por entre a tempestade dos vivas aos libertadores.

Mas em breve tornaram-se em lagrimas os risos, em crepes os laços bicolores, em chuva de granadas as de rosas, e em bravas vivandeiras as donzellas, que os realistas offereciam em pasto á soldadesca, como premio do assalto.

Como desejaria estar entre ellas, correr animosa ás trincheiras, servir polvora e bala aos luctadores, accudir aos feridos, estar ao lado de João quando o trouxeram n'uma maca, exangue!

Logo sobre as noticias da entrada triumphal viera a sangueira, a chacina dos combates, investidas ferozes contra o Porto, e a cidade em risco de invasão, laços constitucionaes deitados fóra, gente prestes a fugir pela barra, militares rapando os guerreiros bigodes.

Tão pouco estavel era ainda a causa, que d'um momento para o outro se receiava a prisão, o supplicio; e os que, como João, luctavam, tinham agora a dupla certeza da morte, ou no campo, ou na forca.

Que desditosa influencia a sua n'esse rapaz, arrancado ao socego da terra, ao conforto da casa, para dormir ao relento, passar a fome do cerco, tremer inquieto sob esse maldito bombardeamento, usado pelos miguelistas em requintes de tortura, em tiros descompassados, para maior sobresalto, á hora do jantar para tirar o socego da meza, em pontaria aos hospitaes para augmentar o horror.

Tremia aos symptomas do cannibalismo da lucta, o prazer do pormenor em que um general communicava terem ficado os bravos officiaes do Batalhão Sagrado com as cabeças abertas de meio a meio, pelos celebres dragões de Chaves que depois se passaram para os liberaes; o auto de fé planeado pelos frades de S. Francisco, deitando fogo ao convento para queimarem o batalhão de caçadores 5, quando os soldados dormiam fatigados da batalha de Ponte Ferreira!

Para a fazerem professar, no interesse do dote, na avidez de dadivas do morgado, no odio ao noivo liberal, aggravavam-lhe as freiras as más novas, dando os constitucionaes como perdidos, e mostrando o evidente castigo do ceu na morte de certos voluntarios academicos, a quem attribuiam profanações no convento de Santo Antonio do Livramento, de Angra, accusando-os, como outr'ora aos Templarios e aos Judeus, de fazerem alvo da imagem do santo no nicho da frontaria.

A todos os momentos receiava a noticia de que João morrera, e um dia as freiras, qual mais havia de arreliar «a do malhado», foram dar-lhe hypocritas condolencias porque elle recolhera ao hospital, gravemente ferido n'uma d'essas teimosas sortidas que dizimavam a guarnição.

Tivera-o por morto, como lhe insinuavam, negando frouxamente, mas falando-lhe das consolações que a egreja reservava a todas as dôres, insistindo em que se votasse ao divino esposo, já que tão misericordiosamente a libertára dos laços do mundo.

Tomára então a tia, para com a abbadessa e as mais ferozes madres, o compromisso de a decidir, e, recolhendo se a catechisal-a, abrira-se com ella.

Começára por uma reprehensão, em que o olhar brilhára apaixonado, e o rosto pallido, enrugado, se fôra animando gradualmente, até dar longes de outros tempos, da juventude impetuosa e ardente, do momento em que amára e fôra amada, em que se tornára mulher e devia ser mãe.

--Que mal que fizeste em resistir! Como desperdiçaste a mocidade. Em nome d'umas formulas vasias sacrificou-te, e a elle, o teu orgulho! E se te morrer? Que recordação te fica para evocares o breve tempo que não volta mais?

Insistira, ao vêl-a debulhar-se em lagrimas:

--Chora, desabafa, que deves sentir um mortal remorso; chora as duas vidas que despedaçaste, e convence-te de que nunca o amaste, porque o verdadeiro amor não raciocina, porque é a suprema lei da vida, tudo se lhe amolda, e elle não!

--Que hei-de fazer agora, senão professar--bradava ella, arrepelando-se.

--O teu orgulho ainda! Cala-te, vaidosa, que darias mais uma pessima freira. Vive para elle, é o teu dever.

--Para elle? E se morreu?

--Vive para a memoria d'elle, mas nunca a dentro d'um mosteiro, porque deves lembrar o mal que d'estas casas te adveiu.

--Então que hei-de fazer?

--Porque não pensaste em fugir d'aqui, em ires acudir-lhe, pôr-te á sua cabeceira, tratal-o, acarinhal-o, cerrar-lhe os olhos se Deus o levar, como fazem as fortes mulheres que estão velando o leito d'outros feridos, as que não desampararam os maridos na retirada e na emigração?

E como ella a olhasse como pasmada:

--É que ha mulheres, e mulheres; e as mais felizes, como tu, pelo amor que lhes dedicam, são afinal as que menos o merecem!

--Tenha dó de mim, não me trate d'essa fórma!--supplicava ella.

Então compadecera-se D. Anna, e pedira-lhe, mudando de tom:

--Não tornas mais a falar em profissão, haja o que houver?

--Não, não torno.

--Pois bem. Ouve-me agora serenamente. Que te disseram d'elle? Que estava ferido? Pois bem, ha-de curar-se, e eu tenho maneira de saber exactamente o seu estado, mas não dês credito senão ao que eu te disser, e cala-te com isto.

Depois, n'um enthusiasmo que contrastava com a estudada placidez usual:

--Que elle viva ou morra, os liberaes hão de triumphar, pois ao que se tem soffrido não é possivel vencel-os, pelo desespero com que se batem. Os conventos acabaram, e temos de saír todas d'estes logares de maldição. Mas os votos ninguem os tira, os padres não casarão as que os tiverem. E aquellas que perderem a mocidade, já nada do mundo lh'a póde restituir!

Então afogaram-a as lagrimas, e revelou-se tal qual era:

--Tambem me contrariaram um amor. Fugi com o meu noivo, mataram-m'o, mas tenho vivido desde então evocando as horas em que me pertenceu. E esse amor foi o meu culto aqui dentro, a minha religião, porque a outra perdi-a pouco a pouco, ao vêr da parte de dentro os ministros do Senhor e as suas esposas, os que communicam com Deus, os intermediarios da sua graça, do seu perdão!

Conseguiu D. Anna saber d'elle, e pôl-os em relações. Melhorára depressa, era já alferes, e a Torre e Espada assignalara-lhe a ferida.

Depois tivera-o a dois passos, na divisão do duque da Terceira que atravessou n'um relampago do Algarve a Lisboa, levando adiante de si os miguelistas, que fugiram espavoridos d'esses dois mil homens, incitando em desforra as populações a tratarem-os como lobos.

E o fanatismo catholico dos soldados e das tropas apunhalou no Algarve, queimou vivos e arrastou á cauda dos cavallos os prisioneiros liberaes; martyrisou em Beja portadores de ordens; queimou dois constitucionaes forçando as irmãs a assistirem á execução; despedaçou á machadada trinta e cinco presos politicos no castello de Extremôz, incluindo uma creança de seis annos!

Atravessára Telles Jordão o Tejo para fulminar os liberaes, como esmagava os presos de S. Julião da Barra, mas ao vêl-os armados, decididos, o valentão que esbofeteava os miseros encarcerados, lhes sujava a comida e os obrigava a rezar o Terço, fugiu covardemente, até que o alcançaram em Cacilhas, vingando os camaradas torturados.

E fugiram de Lisboa os miguelistas que ainda na vespera, em requintes de barbaridade, tinham enforcado um liberal, para o impedirem de gosar o triumpho dos seus, já na Outra Banda; que haviam ensanguentado a cidade em barbaras repressões.

Mas nem d'essa vez findára a guerra!

Os miguelistas, que haviam recusado salvar a esquadra, aprisionada no Tejo pelos franceses, dando em troca a liberdade aos afflictos prisioneiros voltaram á carga e encheram de cadaveres, de ruinas, os arredores da capital.

Saldanha descercára Lisboa, e D. Pedro, em homenagem, mandou collocar no pedestal da estatua de D. José o medalhão do avô, o marquez de Pombal, que os jesuitas haviam arrancado. E assim a epopeia liberal, ligada á obra de Vinte, á tentativa patriotica de 1817, mostrou se o logico desenvolvimento da obra de Pombal, que se desenvolvia, alargando a todas as ordens religiosas, fautôras do retrocesso, incitadoras dos morticinios, a extincção dos jesuitas.

Arrastara-se a lucta sanguinaria, e de retirada em retirada tinham vindo parar ali as forças, ainda importantes, que os mais teimosos pretendiam levar ao campo, a uma derradeira tentativa.

Olhavam Maria e D. Anna os grupos de soldados, querendo lêr-lhes no rosto as decisões d'essa hora suprema, em que as divisões de Saldanha e Terceira avançavam contra Evora para os esmagar, ou reduzir á rendição.