# Os Bravos do Mindello Romance Historico

## Part 11

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--Trouxe sempre vigiada a innocencia por outro grande pastor d'almas, o nosso padre mestre, que tem feito ver a sua prima D. Victoria o peccado que commetteu. Ella, que é uma mulher de vergonha...

--Uma descarada!--protestou Martinho Vasques--Fazer-me o que me fez! Mas não admira, a fama que ella sempre teve, com a casa cheia de frades...

Tocado na corda sensivel, voltou fr. Angelico ao pathetico:

--Calumnias, meu senhor, calumnias espalhadas pelos filhos de Satanaz. Não ha nenhum director espiritual d'essas santas senhoras que não tenha sido conspurcado na sua virtude, na sua innocente castidade. Até sei pelas suas creadas que a senhora D. Perpetua, n'aquellas terriveis convulsões em que parece possessa do inimigo, diz contra mim coisas de se abrir o chão, decerto inspiradas pelo proprio demonio, como vingança contra o varão forte que por tanto tempo lh'a defendeu das garras.

E n'um suspiro, como não obtivesse resposta, voltou a D. Victoria:

--Ella tem feito todo o possivel para a desgostar, e não se opporá a que lh'a tirem d'ali.

Atraiçoou-se o morgado, pondo de parte a rigidez apparente:

--Dava metade do que possuo para a fazer voltar a casa, sem que, pelo triumpho dos nossos, a forçassemos, por forma a fazer rebentar a castanha na bôca aos que se regosijavam com a minha vergonha.

--Pois dê v. ex.{a} com que eu possa mover o ceu a nosso favor, e tentarei o milagre.

Sabendo-lhe as manhas, ia Martinho Vasques prevenido de dinheiro, a vêr se, a troco de alguma esmola para o convento, lhe deixavam levar o indispensavel commensal.

--Pois aqui tem para principio. E quanto mais depressa, melhor.

--É agora propicia a occasião. Está o seductor seguro na Praia. Mas pretendem recolher-se ao castello, com as familias, se forem derrotados á beira-mar, e se lá a metem, então, meu senhor, é que é fazer-lhe uma cruz. Ficaria perdida a senhora D. Maria, entre semelhante malta. Da mesma sorte se os nossos desembarcarem rapidamente, como ha de permtir o ceu, tomando-a por liberal, violental-a-hão, e á prima, como é do seu dever, para exemplo das malditas mulheres que preferem as creaturas de Satanaz aos amigos da religião. Portanto, se podermos recolher desde já a filha prodiga, teremos mais socego para os ver esganar, pois virá por ahi quem saiba da póda.

--Que tenciona fazer?

--O que Deus me inspirar.

--Mas quando, quando?

--Elle o determinará em sua divina sabedoria.

E como o morgado, apesar de devoto, não ficasse muito satisfeito:

--Olhe, vá v. ex.{a} a pé por essa cidade, mande a besta esperal-o fóra dos portões, e a todos que lhe perguntarem por sua esposa dê-a como perdida, que poucos dias lhe restam de vida, para que a senhora D. Maria o saiba. Ensinarei o recado ao padre mestre, para dizer a D. Victoria que é um caso de consciencia encobrir por mais tempo a uma filha a agonia da mãe. Depois eu darei conta de mim.

* * * * *

Uma tarde, tendo ensaiado fr. Angelico um ar compungido, certo da afflicção de Maria pelas más noticias da mãe, foi a casa de D. Victoria.

Mal o viu, atirou-lhe Josepha com a porta, mas o frade insistiu, percebendo que a mãe a reprehendia, ao saber quem era.

Em voz de prédica, perguntou da escada se a senhora D. Maria estava em carcere privado, e se era contra a Carta Constitucional levar a uma filha noticias de sua mãe.

Foram abrir-lhe, e Maria, apezar dos exforços de Josepha para a fechar na alcova, pediu por amor de Deus novas de D. Joanna.

Elle, n'uma suavidade melada, ergueu os olhos, e declamou:

--Deus manda perdoar as injurias, esquecer as fraquezas do proximo, e consolar os afflictos! Fiz ideia como estaria a sua alma, e arrisquei-me a este passo, que pode ser tão mal apreciado...

--Diga-me a verdade!--implorou Maria, atterrada pelo exordio.

--Peço-lhe que não se assuste. A senhora D. Perpetua está gravemente doente, mas ainda ha esperanças de a salvar.

Maria recriminou a prima:

--Ou haverá ou não! Eu bem t'o dizia, Josepha, eu bem t'o dizia.

Mas ella continuava a disputal-a:

--Não te deixes enredar!

--E com isto não enfado mais--disse o frade, cumprimentando muito correcto, um ar de beatitude a escorrer-lhe pela face alvar--Vim só trazer esta palavra de consolação, como é dever do meu ministerio. Sua mãe não está na agonia, como para ahi espalharam, o que me forçou a vir tranquilisal-a. Eu ainda confio n'um milagre!

Quiz demoral-o D. Victoria:

--Então, nem sequer se senta! Faça-me um bocadinho de companhia...

--Muito obrigado, minha querida senhora, mas a minha presença não agrada...

--Peço-lhe perdão pelo que toca a minha filha. Se ella tivesse um pae que a castigasse...

Aproveitou o frade o pretexto, e pegaram-se n'uma interminavel palestra, emquanto Josepha conseguia arrastar a prima para dentro.

Mas ahi Maria respondeu-lhe frenetica:

--Que mau sestro tomaram todos de me governar. Foi o pae, a mãe, depois o João, tua mãe, e agora tu! Pois eu tenho mais juizo que vocês todos, não preciso de tutôres.

--Estás sendo muito enganada!--repetiu Josepha.

--Deixa-me! Deixa-me!

E refugiou-se na torre, a meditar, sentada n'um bahu, a cabeça apoiada nas mãos, os olhos vidrados muito abertos, as fontes latejando.

Depois ergueu-se, enxugou os olhos, e foi direita á sala.

--Que vaes fazer!--perguntou Josepha, interpondo-se:

--O que devo! Larga-me.

E arrependendo-se:

--Bem sei que me queres bem, mas perdôa. Oh! Ninguem se veja como eu me vejo!

No estoicismo da resolução, dirigiu-se a fr. Angelico da Immaculada:

--Muito obrigada a vossa reverendissima pelas suas noticias. O meu desejo era ver a mãe...

--Não esperava menos do seu coração de filha!--exclamou radiante o frade--É esse effectivamente o seu dever.

--Ai, Maria, que caiste no laço!--bradou Josepha,--Estás doida? Estás doida?

Mas ella, sem a attender, dizia ao frade:

--Se pudesse ser...

--Hei de fazer o possivel, alma santa!--respondia fr. Angelico, revirando os olhos.

--O pae não ha de querer ...--continuava Maria, emquanto D. Victoria continha a filha.

--Oh! Não conhece a grandeza do seu coração! Foi muito offendido, realmente, mas é pae, é pae!

--Aconselhe-me então o que devo fazer.

--Foi Deus que a inspirou. Faça o que disse. Venha vêr sua mãe. Eu acompanho-a, e respondo pela licença do senhor morgado.

--E quando? quando?

--Quanto mais depressa melhor, que a vida e a morte estão nas mãos de Deus!

Josepha ainda irrompeu, avançando para o frade:

--O que falta aqui é um homem para o esbofatear!

Mas nada poude demover Maria, muito tremula, batendo os dentes, convulsa, á ideia de ir vêr a mãe.

Ao saír, com a tia e o frade, ainda Josepha a puchou para dentro:

--Ó doida! E ao João, que lhe hei de dizer?

E como ella balbuciasse que ia só vêl-a, e que voltava, tapando a bôcca, abafando-se no biôco do manto para não a ouvirem soluçar, gritou-lhe do alto da escada:

--Mal empregado rapaz! Tu não o mereces!

XI

Pelo caminho, baloiçada na traquitana que tomaram no alto das Covas, ainda lhe echoavam aos ouvidos as palavras de Josepha:

«Não o merecia».

E o que diria elle ao saber que destruira n'um momento o que bastante lhe custára a conseguir? Era capaz de descrer d'ella.

Roubar-lh'o-ia a prima, que tanto sympathisava com elle?

Mas não havia de deixar morrer a mãe á mingua. Deus não lh'o perdoaria, e para sempre esse peccado ameaçaria a sua felicidade. João, que era prudente e rasoavel, comprehendel-a-ia.

E se Josepha a intrigasse? Logo aquella triste coincidencia de estar na Praia. E ao lembrar-se que elle se encontrava em perigo de vida, davam-lhe furias de saltar do carro, de fugir para junto da prima.

Que cobardia a sua! Abandonal-o quando se arriscava, envolvido em tudo aquillo por causa d'ella!

Dominava-a, porém, o pavoroso abandono da velha, e via-a como a creada a pintara, gaguejando, a cama por fazer, atulhada em cisco, envolvida em trapos! Desgraçada!

Na sua ingenuidade parecia-lhe assim melhor para todos. Imaginava uma grande scena de reconciliação, o pae abraçando-a quando se lhe deitasse aos pés a pedir perdão, e fr. Angelico abençoando-a em nome de Deus, limpando uma lagrima.

Agora não lhe parecia mau o frade, n'aquelle ar compungido.

E crendo possivel pôr tudo em bem, ainda esperava falar a João na propria quinta, e talvez, quem sabe, ganhar pouco a pouco, pela submissão, a boa vontade do pae, podendo ser que viesse a casar por consentimento d'elle.

Esfarrapava n'um momento a suave visão o echo dos gritos de Josepha, a lembrança das indignações de João quando soubera do desagravo de S. Francisco.

Sendo impossivel contentar a todos, limitar-se-ia ao que a levava ali, vêr a mãe, tranquilisar-se a respeito do seu estado.

Chegaram, e, como se já contassem com elles, ninguem appareceu.

Deixou-as o frade na casa de entrada, e foi em procura do morgado.

Recordou-se da cilada armada a João, dos maus tratos a que só a justiça a pudera arrancar, mas, longe de intimidar-se, sentiu que a emancipára a saída da casa paterna, dando-lhe a consciencia da propria individualidade.

Alarmou-a um grito da mãe, um grito de desespero, rouco, abafado pela porta, vindo do interior.

Ia accudir-lhe, mas conteve-a D. Victoria, e ella propria reconheceu então que perdera o direito de entrar como d'antes.

Appareceu o frade, mostrando-se confuso, transtornado, apparentando vir offegante como de uma grande discussão.

Repetiam-se os gritos de D. Perpetua e, como incommodado por elles, disse á pressa fr. Angelico:

--Accusou-me de desleal o senhor morgado por a ter introduzido aqui. Diz que a senhora só póde entrar n'esta casa como filha arrependida e submissa, e até sem esperança de um perdão, que só a sua conducta poderá merecer. E Deus me perdoe ter procurado semelhantes trabalhos por minhas mãos!

Teve Maria um impeto de voltar para traz, mas os gritos da mãe pregavam-a ao sobrado.

Fez-se luz no seu espirito, não duvidou que o frade fôra expressamente preparar-lhe aquella situação.

E n'um relance comparou a vida que levava em casa da prima, sem poder vêr João, senão vigiada. Era-lhe mais doloroso tel-o junto a si, sem poder desabafar.

Ali, tratando da mãe, parecer-lhe-ia menos penosa a espera.

Decidira-se em casa de Josepha, apesar das suas solicitações. Tinha por melhor esperar ali.

E respondeu gravemente ao frade que sim, que ficava de vez, desde que o pae não duvidava acceital-a.

Despedira-se, applaudindo-a, D. Victoria, desejosa de se vêr livre d'ella, e Maria, de olhos enxutos, cabeça erguida, caminhou após o frade em direcção ao seu quarto, aonde agora estava D. Perpetua.

Então fr. Angelico, retomando o ar de dominio de outros tempos, reprehendeu-a severamente:

--Lembre-se que a sua desobediencia trouxe a deshonra e a desgraça a esta casa, e que a doença de sua mãe é o justo castigo de Deus.

--Representou bem o seu papel--respondeu-lhe Maria--mas não julgue que me illudiu, nem creia que se ha-de rir de mim.

Abriu a porta, fechada por fóra, e tirou a chave. No leito soltava a mãe phrases incomprehensiveis.

Sabia que a esperavam, e os seus berros tinham sido para que não ficasse, para que não tornasse a caír nas mãos dos seus algozes.

O estado em que a viu fortaleceu Maria na consciencia do dever cumprido.

Vibrava o seu corpo fragil n'uma energia de ferro. Olhava para tudo como senhora, como morgada, e revoltava-a aquelle abandono.

Ia ao pae para reclamar um medico, e dar então ordem á casa.

Mas D. Perpetua, temendo ficar só, chamou-a afflicta para junto de si:

--Filha, não sei se tornarei a vêr-te, que elles são capazes de te fechar, ou até de te estrangularem, como já me teem querido fazer.

E o seu espirito doente confundia a realidade com a allucinação:

--Quero confessar-me, Maria, que estou para Deus me levar; mas ha-de ser a ti, filha, que não creio no fr. Angelico nem nos outros malditos!

Sacudia-a a convulsão, entortavam-se-lhe os olhos, ficava-lhe a bocca arrepanhada ao lado, asphyxiava-a a escuma sanguinolenta, que Maria limpava compadecida.

--Quero confessar-me a ti, sim, filha--voltava ella n'uma insistencia pavorosa, olhos esgazeados, a voz cortada, difficil de perceber--Tenho um grande remorso, um peccado mortal, e tu, que estás uma mulher, pódes comprehender-me e perdoar-me.

Pedia-lhe que socegasse, mas ella tinha a ancia de falar:

--Fui rapariga como tu, e não tive a felicidade de encontrar um rapaz como o que amas, que é o brio dos homens, ao que tem feito por ti. Ha tanto quem possa ser feliz e tanto quem nunca o poude ser! São destinos. Eu enganei-me sempre, e querendo tornar-me ditosa fui ludibriada por teu pae, e vi-me casada com elle sem amor.

N'uma explosão de raiva e nojo, em arrancos como se vomitasse, contou-lhe a torpe ligação ao frade, a maneira como elle a explorára e como por fim a tratava, unindo-se ao marido contra ella.

Então Maria comprehendeu o sentido das allusões de João e Josepha, certos sorrisos surprehendidos em beiços de creadas.

Quando a viu mais tranquilla, aliviada pelo desabafo da sua miseria, saíu Maria, cada vez mais resoluta.

Encontrou o frade no escriptorio:

--Fez-me minha mãe certas revelações, creio que me comprehende...

E a perturbação de fr. Angelico mostrava-lhe que sim.

--Não voltará a esta casa, sob pena do pae nunca mais o deixar saír. Desculpe-se como puder. Aos seus processos, não lhe será difficil.

Muito enfiado, levantou-se fr. Angelico da papeleira, e deixando a escripta como estava, compoz o habito, desejando vêr-se muito longe d'ali.

Encontrou o morgado á meza, e não teve meio de esquivar-se immediatamente.

Podia levantar suspeitas, que lhe seriam fataes, e resignou-se a acompanhal-o ao jantar, no supplicio de não poder comer.

Repentinamente Maria entrou e dirigiu-se a Martinho Vasques:

--A sua benção, pae.

Tomou-lhe a mão e beijou-lh'a, sem que elle, perturbado, podesse retirar-lh'a.

Sempre de pé, declarou n'uma voz sumida:

--Conforme as suas palavras, procurarei merecer o seu perdão tratando da mãe.

Pôz o morgado os olhos no prato, e não respondeu palavra.

Muito servilmente, para captar a benevolencia d'ella, interveiu o frade:

--Volta a viver como outr'ora, foram as palavras de seu pae. Tenha a bondade de sentar-se--e offereceu-lhe uma cadeira--que eu tenho de levar até ao fim a missão de que me encarreguei.

Chamou a creada, mandou pôr-lhe talher, e voltou-se para Martinho, que continuava comendo, como se nada fosse com elle:

--O senhor morgado perdoará, porque Deus tambem perdoou!

--Com licença, pae!--disse Maria sentando-se.

E emquanto redobrava o pasmo de Martinho, ella adquiria maior firmeza, mais sangue frio.

Reapossava-se do seu logar, succedia á mãe como dona da casa, para depois succeder ao pae como senhora absoluta de tudo.

Mal teve ensejo, ergueu-se o frade, a despedir-se.

--Tenha a bondade de mandar immediatamente um bom medico, que não se póde abandonar uma creatura de Deus no estado a que chegou a mãe.

Para se furtar ao cumprimento da filha, ergueu-se Martinho e agarrou-se ao franciscano:

--Venha d'ahi, fr. Angelico, beber uma golada para o caminho.

Sentiu-os afastar, discutindo, e então chamou as creadas, reprehendeu-as, tratando-as de desmazeladas, e levou adiante de si, tremendo de medo, para arranjarem o quarto, as que ainda ha pouco se riam da velha.

No dia seguinte, depois de almoçarem sem trocar palavra, veiu o medico, que observou demoradamente D. Perpetua.

Levou-o Maria á presença do pae, a quem elle expoz a situação da doente. Devia ter sido chamado mais cedo. Talvez nas Caldas da Rainha podesse obter melhoras. Ali ficaria entrevada de todo.

Ouviu-o o fidalgo com má sombra, sem responder.

No seu impenetravel mutismo, meditava na maneira de sahir d'aquella situação, peior que a anterior, a casa governada pela filha, o exemplo d'essa arrogancia mostrando-lhe bem o que ella faria quando João voltasse da Praia e começasse a rondar por ali.

Animava-o, porém, a confiança de que triumphasse a esquadra miguelista, desfazendo o castello de cartas do minusculo reino liberal.

Então recolhel-a-ia a um convento, até a levar para Lisboa, ou a casar com o primo, se ainda a podesse render pela clausura, ou a fazel-a professar.

Descançava Maria no banco do pomar, onde passava as tardes com João, pensando n'elle, quando uma creada a foi chamar:

--Venha vêr, menina, venha vêr que coisa tão linda. É a esquadra do senhor D. Miguel.

Subiu assustada ao mirante, e viu ao largo, no pégo do mar, vinda de oeste, a infinita linha dos navios, carregados de pannos, rebocando enfiadas de grandes barcos que, n'uma bordada ao sul da Terceira, tinham ido reunir ás ilhas de baixo para o desembarque. Rindo inconscientes, as creadas comparavam a resteas d'alhos a correntêza de lanchas.

Aterrava-a o grande poder, que ia talvez roubar-lhe para sempre o seu noivo, a sua ventura.

No torreão, munido de oculo, contava o morgado a nau, as fragatas, as corvetas, e considerava como positivo o triumpho dos seus.

Até ao pôr do sol viram-os sempre, parecendo fixos no mesmo ponto; mas ao romper da manhã, quando Maria os procurava inquieta, já não os avistou.

Por volta das onze horas começaram a ouvir-se estampidos muito distantes. Estava travado o combate, mas não era contra o castello, cujas muralhas se avistavam da quinta.

Só podia ser na villa da Praia, onde estava João!

E n'uma desesperada angustia figurava-se-lhe o horror de carnificinas, como a do Pico do Selleiro.

Ao começo da noite, encostada ao ralo, ouviu passar homens do trabalho, que vinham da cidade, falando alterados, decerto commentando as noticias da batalha.

Gritavam «viva a nau encalhada», mas essa phrase nada lhe fazia comprehender.

Chamou o pae um rancho, e perguntou-lhe o que se passára.

Responderam n'uma attitude hostil, repetindo os vivas, e um explicou que a nau _D. João VI_ estava perdida.

--Isso póde lá ser, homem de Deus--contestou Martinho--Uma nau de tres pontes, que é a flôr da nossa marinha!

Insistiram, e accrescentaram:

--A nau encalhou, e os realistas foram todos pescados!

Afastaram se repetindo o grito de alegria «viva a nau encalhada!»

--Tinham vencido! É porque Deus os protegia--pensava ella--tão poucos, tão fracos, creanças como João, e os academicos que tinham ido para a villa! E elle? Saíria a salvo? Teria ficado ferido ou morto?

Logo de manhã o creado da prima appareceu com um açafate á cabeça, a pedir flôres.

Era o signal da outra vez, querida Josepha!

Agora sim, agora confiava no futuro.

Escoltando carros de bois, cheios de _pescados_, vinha João entre camaradas, enfarruscados de polvora, espingardas enramadas de louros, cantando na musica do toque da alvorada:

Ai, meu Deus, Isto é que é rir! Vêr os caipiras Da Praia a fugir.

Ainda lhe parecia mentira!

Quando ao desfazer-se o nevoeiro vira a bahia cheia de grandes navios ameaçadores de portinholas, onde apontavam guelas de canhões, creu tudo perdido, porque o grosso das forças liberaes estava a quatro leguas, no castello, e ali só havia quinhentos homens, e onze velhas peças montadas em ruinas de fortes, com simples soldados por commandantes!

Ribombou a artilharia da esquadra, guarnecida de trezentas e quarenta bôcas de fogo, e ensurdecido pelo estrondear, cego do fumo, da terraceira projectada pelas balas, julgou tudo fulminado, vencido de vez.

Mas ao subir a nuvem azulada, reappareceram os exiguos fortes liberaes, e os artilheiros, imperturbaveis, n'essa indifferença do habito que, mais do que tudo, o surprehendia, apontavam agora, e alguns tiros insignificantes, um como brinco de creanças, responderam áquella unanimidade de canhonadas.

Caíu logo uma retranca á nau, e a confusão da tolda demonstrou que os de terra não tinham perdido a serenidade.

No forte de S. José, o velho ilheu Manoel Caetano acompanhava os filhos, artilheiros da costa, para os ensinar a fazerem as pontarias.

--Senhor governador--dissera ao sargento commandante--feche a porta e guarde a chave, porque estes mancebos são muito bisonhos, e ainda não ouviram zunir pelouros.

Ao cahir um d'elles, dirigiu-se ao que lhe restava:

--Desvia teu irmão que já pagou a sua divida á patria, e tratemos de o vingar!

E só assim, dedicações firmes, convicções inabalaveis, poderam resistir a esse infernal canhoneio de cinco horas.

Avançaram ao desembarque mil e tantos homens, o dobro dos que guarneciam meia legua de areal, e a vantagem do numero e da concentração, deu-lhes logo o alto do Facho e o forte do Espirito Santo.

Mas os liberaes voluntarios correram-os á bayoneta, varejaram-os com penedos rolados á força de braços, e ao verem-os vencidos, luctando com as ondas e a braveza dos rochedos, gritavam-lhes que não fizessem mais fogo, porque os desgraçados, que tinham ordem de não dar quartel, contavam ser tratados de egual fórma, e ainda disparavam loucos de desespero.

Desceram a rocha os constitucionaes, meteram-se ao mar para salval-os, e João, entre outros, com agua pelos peitos, tirava a braços os feridos, os estropiados, que a maré dentro em pouco afogaria.

As victimas da tyrannia miguelista, que até ali os arrastára, olhavam pasmados esses homens que, para os salvar, arriscavam a vida, e não comprehendiam a sua fraternidade.

Poz termo ao combate a chegada da columna de Villa-Flôr, voltando a tiro as lanchas do segundo desembarque, e obrigando a frota a cortar amarras e a fazer-se ao largo, podendo agora safar-se com a enchente a nau, que logo ao começo da acção tocára o fundo.

Vinha João calculando o decisivo alcance da victoria, que devia despertar echo em Portugal, levar as potencias a reconhecerem o unico governo português legitimo, permittir a reunião de recursos para o desembarque no continente.

Ao chegar á cidade soube que Maria voltara a casa, perdendo assim a vantagem a tanto custo conquistada, exactamente quando era a seu favor essa absoluta consolidação da ilha.

Conseguira mais o trama de um frade que a natural inclinação dos dois corações; tivera mais força n'ella a intimidação do inferno que o enthusiasmo da mocidade a impellil-a para elle.

Oh! quanto custaria emancipar os espiritos acorrentados ao erro, na treva da oppressão!

Pedia-lhe perdão a carta d'ella por não o haver consultado, mas davam-lhe a mãe agonisante, e a pobre estava realmente mal. Tanto fazia esperar ali como em outra parte, já que não podiam casar tão cedo. Não receiasse que a opprimissem, porque o soffrimento fizera-a mulher. Tivera ensejo de conhecer a hypocrisia que dictava o procedimento dos frades, e perdera o escrupulo religioso que tanto a affligia. Concluia affirmando a sua absoluta fidelidade. Nunca fôra tanto sua como agora.

Não lhe importavam, porém, as palavras.

Caíra na anterior situação, estando de novo sob a alçada do frade, que continuaria a governal-a apesar dos seus ingenuos protestos.

Escreveu-lhe desesperado, queixando-se da falta de confiança que denotava a sua precipitação.

Andava como louco. Que havia de fazer para a arrancar novamente d'ali?

Tinha a certeza de que ella, só por orgulho, se não reconhecia victima de uma perfidia, mas que devia anciar por se vêr livre da tyrannia paterna, a que tanto custára arrancal-a.

Appellou para Fulgencio, mas o boticario desilludiu-o:

--Agora? Era pegar-lhe com um trapo quente. Ella quebrára o deposito, recolhera a casa por _motu proprio_, já a justiça não podia ir reclamal-a, houvesse o que houvesse. Sim, que isso de tirar uma filha a um pae não era brincadeira, nem devia ser.

Enternecido pelas supplicas sahiu a pedir por elle, mas voltou com más novas.

