Orpheu Nº2 Revista Trimestral de Literatura
Chapter 5
Sinto que a minha voz já atravessou Deus!... Cresço sobre mim, ó noite em delirio! Adeus! Imagem de ser bello ás mãos da minha infancia.
Sou echo de rumor quebrado na distancia.
Alma da noite antiga incendiada a lavores!
LUÍS DE MONTALVÔR.
[Nota do Transcritor: Aqui surge a fotogravação de _Hors Texte_ de Santa Rita Pintor.]
*SANTA RITA PINTOR.* PARIS ANNO 1912.
Decomposição dynamica de uma mesa--estylo do movimento.
_(INTERSECCIONISMO PLASTICO.)_
*CHUVA OBLÍQUA*
POEMAS INTERSECCIONISTAS
DE
FERNANDO PESSOA
*Chuva obliqua*
*I*
Atravessa esta paysagem o meu sonho d'um porto infinito E a côr das flôres é transparente de as velas de grandes navios Que largam do caes arrastando nas aguas por sombra Os vultos ao sol d'aquellas arvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pallido E esta paysagem é cheia de sol d'este lado... Mas no meu espirito o sol d'este dia é porto sombrio E os navios que sahem do porto são estas arvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paysagem abaixo... O vulto do caes é a estrada nitida e calma Que se levanta e se ergue como um muro, E os navios passam por dentro dos troncos das arvores Com uma horizontalidade vertical, E deixam cahir amarras na agua pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho... Súbito toda a agua do mar do porto é transparente E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada, Esta paysagem toda, renque de arvores, estrada a arder em aquelle porto, E a sombra d'uma náu mais antiga que o porto que passa Entre o meu sonho do porto e o meu vêr esta paysagem E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro, E passa para o outro lado da minha alma...
*II*
Illumina-se a egreja por dentro da chuva d'este dia, E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ella é o templo estar acceso, E as vidraças da egreja vistas de fóra são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendôr do altar-mór é o eu não poder quasi vêr os montes Atravez da chuva que é ouro tão solemne na toalha do altar... Sôa o canto do côro, latino e vento a sacudir-me a vidraça E sente-se chiar a agua no facto de haver côro...
A missa é um automovel que passa Atravez dos fieis que se ajoelham em hoje ser um dia triste... Subito vento sacode em esplendôr maior A festa da cathedral e o ruido da chuva absorve tudo Até só se ouvir a voz do padre agua perder-se ao longe Com o som de rodas de automovel...
E apagam-se as luzes da egreja Na chuva que cessa...
*III*
A Grande Esphynge do Egypto sonha por este papel dentro... Escrevo--e ella apparece-me atravez da minha mão transparente E ao canto do papel erguem-se as pyramides...
Escrevo--perturbo-me de vêr o bico da minha penna Ser o perfil do rei Cheops... De repente paro... Escureceu tudo... Caio por um abysmo feito de tempo... Estou soterrado sob as pyramides a escrever versos á luz clara d'este candieiro E todo o Egypto me esmaga de alto atravez dos traços que faço com a penna... Ouço a Esphynge rir por dentro O som da minha penna a correr no papel... Atravessa o eu não poder vel-a uma mão enorme, Varre tudo para o canto do tecto que fica por detraz de mim, E sobre o papel onde escrevo, entre elle e a penna que escreve Jaz o cadaver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos, E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo E uma alegria de barcos embandeirados erra Numa diagonal diffusa Entre mim e o que eu penso...
Funeraes do rei Cheops em ouro velho e Mim!...
*IV*
Que pandeiretas o silencio d'este quarto!... As paredes estão na Andaluzia... Ha danças sensuaes no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára..., Pára, escorrega, desembrulha-se..., E num canto do tecto, muito mais longe do que elle está, Abrem mãos brancas janellas secretas E ha ramos de violetas cahindo De haver uma noite de primavera lá fóra Sobre o eu estar de olhos fechados...
*V*
Lá fora vae um redemoinho de sol os cavallos do carroussel... Arvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim... Noite absoluta na feira illuminada, luar no dia de sol lá fóra, E as luzes todas da feira fazem ruido dos muros do quintal... Ranchos de raparigas de bilha á cabeça Que passam lá fóra, cheias de estar sob o sol, Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira, Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar, E os dois grupos encontram-se e penetram-se Até formarem só um que é os dois... A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira, E a noite que pega na feira e a levanta no ar, Andam por cima das copas das arvores cheias de sol, Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol, Apparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam á cabeça, E toda esta paysagem de primavera é a lua sobre a feira, E toda a feira com ruidos e luzes é o chão d'este dia de sol...
De repente alguem sacode esta hora dupla como numa peneira E, misturado, o pó das duas realidades cahe Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar... Pó de ouro branco e negro sobre os meus dedos... As minhas mãos são os passos d'aquella rapariga que abandona a feira, Sósinha e contente como o dia de hoje...
*VI*
O maestro sacode a batuta, E languida e triste a musica rompe...
Lembra-me a minha infancia, aquelle dia Em que eu brincava ao pé d'um muro de quintal Atirando-lhe com uma bola que tinha d'um lado O deslisar d'um cão verde, e do outro lado Um cavallo azul a correr com um jockey amarello...
Prosegue a musica, e eis na minha infancia De repente entre mim e o maestro, muro branco, Vae e vem a bola, ora um cão verde, Ora um cavallo azul com um jockey amarello...
Todo o theatro é o meu quintal, a minha infancia Está em todos os logares, e a bola vem a tocar musica Uma musica triste e vaga que passeia no meu quintal Vestida de cão verde tornando-se jockey amarello. (Tão rapida gira a bola entre mim e os musicos...)
Atiro-a de encontro á minha infancia e ella Atravessa o theatro todo que está aos meus pés A brincar com um jockey amarello e um cão verde E um cavallo azul que apparece por cima do muro Do meu quintal... E a musica atira com bolas Á minha infancia... E o muro do quintal é feito de gestos De batuta e rotações confusas de cães verdes E cavallos azues e jockeys amarellos...
Todo o theatro é um muro branco de musica Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello...
E d'um lado para o outro, da direita para a esquerda, D'onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa Com orchestras a tocar musica, Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia...
E a musica cessa como um muro que desaba, A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos, E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto, Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d'um muro, E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo...
_8 de Março de 1914._
FERNANDO PESSÔA.
Preço 30 centavos
LISBOA
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