Orpheu Nº2 Revista Trimestral de Literatura

Chapter 4

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Ah! a selvageria desta selvageria! Merda Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto! Eu pr'àqui engenheiro, prático à forca, sensível a tudo, Pr'àqui parado, em relação a vós, mesmo quando ando; Mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil; Estático, quebrado, dissidente cobarde da vossa Gloria, Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta!

Arre! por não poder agir d'acôrdo com o meu delírio! Arre! por andar sempre agarrado às saias da civilisação! Por andar com a _douceur des moeurs_ às costas, como um fardo de rendas! Môços de esquina--todos nós o sômos--do humanitarismo moderno! Estupores de tísicos, de neurasténicos, de linfáticos, Sem coragem para ser gente com violência e audácia, Com a alma como uma galinha presa por uma perna!

Ah, os piratas! os piratas! A ânsia do ilegal unido ao feroz A ância das cousas absolutamente crueis e abomináveis, Que roe como um cio abstrato os nossos corpos franzinos, Os nossos nervos femininos e delicados, E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vasios!

Obrigai-me a ajoelhar diante de vós! Humilhai-me e batei-me! Fazei de mim o vosso escravo e a vossa cousa! E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone, Ó meus senhores! ó meus senhores!

Tomar sempre gloriosamente a parte submissa Nos acontecimentos de sangue e nas sensualidades estiradas! Desabai sôbre mim, como grandes muros pesados, Ó bárbaros do antigo mar! Rasgai-me e feri-me! De leste a oeste do meu corpo Riscai de sangue a minha carne! Beijai com cutelos de bordo e açoites e raiva O meu alegre terror carnal de vos pertencer, A minha ância masóquista em me dar à vossa fúria, Em ser objecto inerte e sentiente da vossa omnívora crueldade, Dominadores, senhores, imperadores, corcéis! Ah, torturai-me, Rasgai-me e abri-me! Desfeito em pedaços conscientes Entornai-me sôbre os convezes, Espalhai-me nos mares, deixai-me Nas praias ávidas das ilhas!

Cevai sôbre mim todo o meu misticismo de vós! Cinzelai a sangue a minh'alma! Cortai, riscai! Ó tatuadores da minha imaginação corpórea! Esfoladores amados da minha carnal submissão! Submetei-me como quem mata um cão a pontapés! Fazei de mim o pôço para o vosso desprezo de domínio!

Fazei de mim as vossas vítimas todas! Como Cristo sofreu por todos os homens, quero sofrer Por todas as vossas vítimas às vossas mãos, Às vossas mãos calosas, sangrentas e de dedos decepados Nos assaltos bruscos de amuradas!

Fazei de mim qualquer cousa como se eu fôsse Arrastado--ó prazer, ó beijada dôr!-- Arrastado à cauda de cavalos chicoteados por vós... Mas isto no mar, isto no ma-a-a-ar, isto no *MA-A-A-AR!* Eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! *EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH! No MA-A-A-A-AR!*

Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Grita tudo! tudo a gritar! ventos, vagas, barcos, Mares, gáveas, piratas, a minha alma, o sangue, e o ar, e o ar! Eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh! Yeh-eh-eh-eh-eh-eh! Tudo canta a gritar!

*FIFTEEN MEN ON THE DEAD MAN'S CHEST.* *YO-HO-HO AND A BOTTLE OF RUM!*

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Hé-lahô-lahô-laHO-O-O-ôô-lahá-á-á--ààà!

*AHÓ-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó--yyy!...* *SCHOONER AHÓ-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó-Ó----yyyy!...*

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw! DARBY M'GRAW-AW-AW-AW-AW-AW-AW! FETCH A-A-AFT THE RU-U-U-U-U-UM, DARBY!

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH! EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH EH EH-EH! *EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!* *EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH-EH!*

Parte-se em mim qualquer cousa. O vermelho anoiteceu. Senti de mais para poder continuar a sentir. Esgotou-se-me a alma, ficou só um éco dentro de mim. Decresce sensívelmente a velocidade do volante. Tiram-me um pouco as mãos dos olhos os meus sonhos. Dentro de mim ha só um vácuo, um deserto, um mar nocturno. E logo que sinto que ha um mar nocturno dentro de mim, Sobe dos longes dêle, nasce do seu silêncio, Outra vez, outra vez, o vasto grito antiqùíssimo. De repente, como um relâmpago de som, que não faz barulho mas ternura, Súbitamente abrangendo todo o horizonte marítimo Húmido e sombrio marulho humano nocturno, Voz de sereia longinqùa chorando, chamando, Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos, E à tona dêle, como algas, boiam meus sonhos desfeitos...

Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò--yy... Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò----yy......

Ah, o orvalho sobre a minha excitação! O frescôr nocturno no meu oceano interior! Eis tudo em mim de repente ante uma noite no mar Cheia do enorme misterio humanissimo das ondas nocturnas. A lua sobe no horizonte E a minha infancia feliz acorda, como uma lágrima, em mim. O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo Fôsse um arôma, uma voz, o eco duma canção Que fôsse chamar ao meu passado Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.

Era na velha casa socegada, ao pé do rio... (As janelas do meu quarto, e as da casa de jantar tambem, Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio proximo, Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo... Se eu agora chegasse ás mesmas janelas não chegava ás mesmas janelas. Aquêle tempo passou como o fumo dum vapôr no mar alto...)

Uma inexplicavel ternura, Um remorso comovido e lacrimoso, Por todas aquélas victimas--principalmente as crianças-- Que sonhei fazendo ao sonhar-me pirata antigo, Emoção comovida, porque elas fôram minhas victimas; Terna e suave, porque não o fôram realmente; Uma ternura confusa, como um vidro embaciado, azulada, Canta velhas canções na minha pobre alma dolorida.

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas cousas? Que longe estou do que fui ha uns momentos! Histería das sensações--ora estas, ora as apostas! Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe As cousas de acôrdo com esta emoção--o marulho das ágoas, O marulho leve das ágoas do rio de encontro ao cais..., A vela passando perto do outro lado do rio, Os montes longinquos, dum azul japonez, As casas de Almada, E o que ha de suavidade e de infancia na hora matutina!...

Uma gaivota que passa, E a minha ternura é maior.

Mas todo este tempo não estive a reparar para nada. Tudo isto foi uma impressão só da pele, como uma caricia. Todo este tempo não tirei os olhos do meu sonho longinquo, Da minha casa ao pé do rio, Da minha infancia ao pé do rio, Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite, E a paz do luar esparso nas ágoas!...

Minha velha tia, que me amava por causa do filho que perdeu..., Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me (Se bem que eu fôsse já crescido de mais para isso)... Lembro-me e as lágrimas cáem sobre o meu coração e lavam-o da vida, E ergue-se uma leve brisa maritima dentro de mim. Ás vezes ela cantava a «Nau Catrinêta»:

_Lá vai a Nau Catrinêta_ _Por sobre as ágoas do mar..._

E outras vezes, numa melodia muito saudosa e tão medieval, Era a «Bela Infanta»... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto! Como fui ingrato para ela--e afinal que fiz eu da vida? Era a «Bela Infanta»... Eu fechava os olhos, e ela cantava:

_Estando a Bela Infanta_ _No seu jardim assentada..._

Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz.

_Estando a Bela Infanta_ _No seu jardim assentada,_ _Seu pente de ouro na mão,_ _Seus cabelos penteava..._

Ó meu passado de infancia, boneco que me partiram!

Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, E ficar lá sempre, sempre criança e sempre contente!

Mas tudo isto foi o Passado, lanterna a uma esquina de rua velha. Pensar nisto faz frio, faz fome duma cousa que se não pode obter. Dá-me não sei que remorso absurdo pensar nisto. Oh turbilhão lento de sensações desencontradas! Vertigem tenue de confusas causas na alma! Furias partidas, ternuras como carrinhos de linha com que as crianças brincam, Grandes desabamentos de imaginação sobre os olhos dos sentidos, Lágrimas, lágrimas inuteis, Leves brisas de contradicção roçando pela face a alma...

Evoco, por um esforço voluntario, para sahir desta emoção, Evoco, com um esforço desesperado, sêco, nulo, A canção do Grande Pirata, quando estava a morrer:

_Fifteen men on The Dead Man's Chest._ _Yo-ho-ho and a bottle of rum!_

Mas a canção é uma linha recta mal traçada dentro de mim...

Esforço-me e consigo chamar outra vez ante os meus olhos na alma, Outra vez, mas atravez duma imaginação quasi literaria, A furia da pirataria, da chacina, o apetite, quasi do paladar, do saque, Da chacina inutil de mulheres e de crianças, Da tortura futil, e só para nos distrairmos, dos passageiros pobres, E a sensualidade de escangalhar e partir as cousas mais queridas dos outros, Mas sonho isto tudo com um mêdo de qualquer cousa a respirar-me sobre a nuca.

Lembro-me de que seria interessante Enforcar os filhos á vista das mães (Mas sinto-me sem querer as mães dêles), Enterrar vivas nas ilhas desertas as crianças de quatro anos Levando os pais em barcos até lá para vêrem (Mas estremeço, lembrando-me dum filho que não tenho e está dormindo tranquilo em casa).

Aguilhôo uma ansia fria dos crimes maritimos, Duma inquisição sem a desculpa da Fé, Crimes nem sequer com razão de ser de maldade e de fúria, Feitos a frio, nem sequer para ferir, nem sequer para fazer mal, Nem sequer para nos divertirmos, mas apenas para passar o tempo, Como quem faz paciencias a uma mesa de jantar de provincia com a toalha atirada pra o outro lado da mesa depois de jantar, Só pelo suave gosto de cometer crimes abominaveis e não os achar grande cousa, De ver sofrer até ao ponto da loucura e da morte-pela-dôr mas nunca deixar chegar lá... Mas a minha imaginação recusa-se a acompanhar-me. Um calafrio arrepia-me. E de repente, mais de repente do que da outra vez, de mais longe, de mais fundo, De repente--oh pavor por todas as minhas veias!--, Oh frio repentino da porta para o Mistério que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar! Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente A velha voz do marinheiro inglez Jim Barns, com quem eu falava, Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim, das pequenas cousas de regaço de mãe e de fita de cabelo de irmã, Mas estupendamente vinda de além da aparência das cousas, A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Bôca, Vinda de sobre e de dentro da solidão nocturna dos mares, Chama por mim, chama por mim, chama por mim...

Vem surdamente, como se fôsse suprimida e se ouvisse, Longinquamente, como se estivesse soando noutro logar e aqui não se pudesse ouvir, Como um soluço abafado, uma luz que se apaga, um halito silencioso, De nenhum lado do espaço, de nenhum local no tempo, O grito eterno e noturno, o sôpro fundo e confuso:

Ahô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô--yyy...... Ahô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô----yyy...... Schooner ahô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô------yyy.........

Tremo com um frio da alma repassando-me o corpo E abro de repente os olhos, que não tinha fechado. Ah, que alegria a de saír dos sonhos de vez! Eis outra vez o mundo real, tão bondoso para os nêrvos! Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquêtes que chegam cêdo.

Já não me importa o paquête que entrava. Ainda está longe. Só o que está perto agora me lava a alma. A minha imaginação higienica, forte, prática, Preocupa-se agora apenas com as cousas modernas e uteis, Com os navios de carga, com os paquêtes e os passageiros, Com as fortes cousas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras. Abranda o seu giro dentro de mim o volante.

Maravilhosa vida maritima moderna, Toda limpeza, maquinas e saúde! Tudo tão bem arranjado, tão expontaneamente ajustado, Todas as peças das maquinas, todos os navios pelos mares, Todos os elementos da actividade comercial de exportação e importação Tão maravilhosamente combinando-se Que corre tudo como se fôsse por leis naturais, Nenhuma cousa esbarrando com outra!

Nada perdeu a poesia. E agora ha a mais as maquinas Com a sua poesia tambem, e todo o novo genero de vida Comercial, mundana, intelectual, sentimental, Que a era das maquinas veiu trazer para as almas. As viagens agora são tão belas como eram dantes E um navio será sempre belo, só porque é um navio. Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve-- Em parte nenhuma, graças a Deus!

Os portos cheios de vapores de muitas especies! Pequenos, grandes, de varias côres, com varias disposições de vigias, De tão deliciosamente tantas companhias de navegação! Vapôres nos portos, tão individuais na separação destacada dos ancoramentos! Tão prasenteiro o seu garbo quieto de cousas comerciais que andam no mar, No velho mar sempre o homerico, ó Ulisses!

O olhar humanitario dos faróis na distância da noite, Ou o subito farol proximo na noite muito escura («Que perto da terra que estavamos passando!» E o som da agua canta-nos ao ouvido)!...

Tudo isto hoje é como sempre foi, mas ha o comercio; E o destino comercial dos grandes vapôres Envaidece-me da minha epoca! A mistura de gente a bordo dos navios de passageiros Dá-me o orgulho moderno de viver numa epoca onde é tão facil Misturarem-se as raças, transpôrem-se os espaços, vêr com facilidade todas as cousas, E gosar a vida realisando um grande numero de sonhos.

Limpos, regulares, modernos como um escritório com guichets em rêdes de arame amarelo, Meus sentimentos agora, naturais e comedidos como gentlemen, São práticos, longe de desvairamentos, enchem de ar marítimo os pulmões, Como gente perfeitamente consciente de como é higienico respirar o ar do mar.

O dia é perfeitamente já de horas de trabalho. Começa tudo a movimentar-se, a regularisar-se.

Com um grande prazer natural e directo percorro com a alma Todas as operações comerciaes necessarias a um embarque de mercadorias. A minha época é o carimbo que levam todas as facturas, E sinto que todas as cartas de todos os escritórios Deviam ser endereçadas a mim.

Um conhecimento de bordo tem tanta individualidade, E uma assinatura de comandante de navio é tão bela e moderna! Rigôr comercial do principio e do fim das cartas: Dear Sirs--Messieurs--Amigos e Snrs, Yours faithfully--... nos salutations empressées... Tudo isto é não só humano e limpo, mas tambêm belo, E tem ao fim um destino maritimo, um vapôr onde embarquem As mercadorias de que as cartas e as facturas tratam.

Complexidade da vida! As facturas são feitas por gente Que tem amores, odios, paixões politicas, ás vezes crimes-- E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso! Ha quem olhe para uma factura e não sinta isto. Com certeza que tu, Cesario Verde, o sentias. Eu é até ás lagrimas que o sinto humanissimamente. Venham dizer-me que não ha poesia no comercio, nos escritórios! Ora, ela entra por todos os póros... Neste ar maritimo respiro-a, Porque tudo isto vem a proposito dos vapôres, da navegação moderna, Porque as facturas e as cartas comerciaes são o principio da historia E os navios que levam as mercadorias pelo mar eterno são o fim.

Ah, e as viagens, as viagens de recreio, e as outras, As viagens por mar, onde todos somos companheiros dos outros Duma maneira especial, como se um misterio maritimo Nos aproximasse as almas e nos tornasse um momento Patriotas transitorios duma mesma patria incerta, Eternamente deslocando-se sobre a imensidade das ágoas! Grandes hoteis do Infinito, oh transatlanticos meus! Com o cosmopolitismo perfeito e total de nunca pararem num ponto E conterem todas as especies de trajes, de caras, de raças!

As viagens, os viajantes--tantas especies dêles! Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profissão! tanta gente! Tanto destino diverso que se póde dar á vida, Á vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma! Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente. A fraternidade afinal não é uma idéa revolucionaria. É uma cousa que a gente aprende pela vida fóra, onde tem que tolerar tudo, E passa a achar graça ao que tem que tolerar, E acaba quasi a chorar de ternura sobre o que tolerou!

Ah, tudo isto é belo, tudo isto é humano e anda ligado Aos sentimentos humanos, tão conviventes e burguezes, Tão complicadamente simples, tão metafisicamente tristes! A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano. Pobre gente! pobre gente toda a gente!

Despeço-me desta hora no corpo deste outro navio Que vai agora saíndo. É um tramp-steamer inglês, Muito sujo, como se fosse um navio francês, Com um ar simpatico de proletario dos mares, E sem duvida anunciado ontem na última página das gazetas.

Enternece-me o pobre vapôr, tão humilde vai êle e tão natural. Parece ter um certo escrupulo não sei em quê, ser pessoa honesta, Cumpridora duma qualquer especie de deveres. Lá vai êle deixando o lugar defronte do cais onde estou. Lá vai êle tranquilamente, passando por onde as naus estiveram Outrora, outrora... Para Cardiff? Para Liverpool? Para Londres? Não tem importancia. Ele faz o seu dever. Assim façamos nós o nosso. Bela vida! Boa viagem! Boa viagem! Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favôr De levar comtigo a febre e a tristeza dos meus sonhos, E restituir-me á vida para olhar para ti e te ver passar. Boa viagem! Boa viagem! A vida é isto...

Que aprumo tão natural, tão inevitavelmente matutino Na tua saída do porto de Lisboa, hoje! Tenho-te uma afeição curiosa e grata por isso... Por isso quê? Sei lá o que é!... Vai... Passa... Com um ligeiro estremecimento, (T-t--t---t----t-----t...) O volante dentro de mim pára.

Passa, lento vapôr, passa e não fiques... Passa de mim, passa da minha vista, Vai-te de dentro do meu coração, Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus, Perde-te, segue o teu destino e deixa-me... Eu quem sou para que chore e interrogue? Eu quem sou para que te fale e te ame? Eu quem sou para que me perturbe vêr-te? Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro, Luzem os telhados dos edificios do cais, Todo o lado de cá da cidade brilha... Parte, deixa-me, torna-te Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nitido, Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto, Depois ponto vago no horizonte (ó minha angustia!), Ponto cada vez mais vago no horizonte..., Nada depois, e só eu e a minha tristeza, E a grande cidade agora cheia de sol E a hora real e nua como um cais já sem navios, E o giro lento do guindaste que como um compasso que gira, Traça um semicirculo de não sei que emoção No silencio comovido da minh'alma...

ALVARO DE CAMPOS,

_Engenheiro._

[Nota do Transcritor: Aqui surge a fotogravação de _Hors Texte_ de Santa Rita Pintor.]

*SANTA RITA PINTOR.* PARIS ANNO 1913.

Syntese geometral de uma cabeça--infinito plastico de ambiente-- transcendentalismo phisico.

_(SENSIBILIDADE RADIOGRAPHICA.)_

_LUÍS DE MONTALVÔR_

*NARCISO*

POEMA

a Fernando Pessôa.

*NARCISO*

Erram no oiro da tarde as sombras de estas ninfas!

E até onde irá o aroma dos seus gestos que sei tentam prender meus olhos que, funestos, sonham um esplendor fatal de pedrarias?

Tarde de tentação! Que estranhas melodias inquietam o ceo de um rumor ignorado? Seringe! Tua flauta arrosa de encantado e sangue de Ilusão esta tarde em demencia que a legenda recorda; e da immortal essencia do sonho esta hora antiga exhuma o velho idilio.

Ha mãos de festa e sonho em meu deserto exilio!

A Beleza é pra mim, ó ninfas! o segredo com que Deus me vestiu de Lindo!... Ai, tenho medo de morrer o que sou ás mãos desse desejo das ninfas; mas está a sombra que não vejo depois e antes de mim e, se afundo o olhar na ancia de me ver, só me vejo ao collo da Distancia! Deixai dormir um pouco o ceo nos olhos meus, eu não os quero abrir antes que os feche,--Deus!--

Ninfas! vós penteais o pavor á janella da minha alma atravez a hora sombria e bella. Corôas não serão sobre mim as de flôres que desfolhais, mas brancos braços de amôres que abrem nocturnamente e num paiz sem dia...

Sois o sonho de mim ao collo da Alegria! Vossa presença põe o medo em meu destino.

As taças que entornais do aroma sibillino da seducção, de tédio enchem o que me déste, ó Deus! Gela meu ser ao sorriso terrest'e das virgens, que reflecte a tarde a rescender do olor de Pan! ... E o olhar dóe por no o esconder do ceo; pois para toda a alma dormir, do bello, o serafico azul é como um pezadêlo!

Porêm como fugir ao sonho que me faz como estrangeiro em mim; do bello azul, voraz a bôca triste, sem côr e de humanas dôres-- como se triunfal e de palidas flôres da noite, fôssem de um sonho, na hora escultado?

Captivo em mim sou como o dragão que, inviolado, bebe a scintillação da s'nora claridade do cabello sinistro, onde a luz arde e invade de metalico hallor o nixo onde se acoite...

Vossos cabellos ai! chovem como oiro, á noite! como fios de horror da teia do mistério...

Do cabello, o esplendor do oiro esteril, é aério c'mo de arachnideo sonho ou de siderio tecto cinzelado no olhar--um reflexo de insecto-- no frio vôo num ar de somno e oiro e luto...

Avalanches de tédio em seu cabello escuto!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Fixo a carne, spectral, como ante inerte frizo de sombras, a nudez, linha esquecida em riso sobre chammas, cruel,--Joia dos calafrios!-- Um horror de ónix néva entre os meus dedos frios!

Contemplo o meu destino em mim. Ninfas, adeus! Meus gestos irreaes tem seculos de Deus! Na paisagem do ser corre um rio sem fim: Os meus gestos são como a outra margem de mim... Cai alma no jardim dos meus sonhos funestos. É sempre noite lá no fundo dos meus gestos onde espreita Deus: ha luar nas minhas mãos... As mãos abanam no ar os nossos gestos vãos, --mundos de sonolencia ardendo em reliquarios: Joias celestes, vós, meus gestos solitarios!

Por mim divaga o ceo. E morre um diadêma á minha fronte triste e pensativa, emblêma da alma palida como um velho pálio ou ouro... Comtudo que torpor me encosta ao sorvedouro c'mo esfinge que se inclina ao abysmo e debruça, a mirar a alma, irmã de um sonho que soluça? É que um gesto sem nome em minha alma se aclara, e no Jardim de Deus sou a ideia mais rara!

Meus gestos vão como esta agua sempre correndo pra a foz do nada; encosto a minha alma, tremendo, á voz da agua--cristal sonoro do alhear-me!--

No novelo de mim a minha ancia a enredar-me.

Ó agua sempre triste em seu ir pela parte da terra que é livida e c'mo alma que se farte de sonhos! Não será a minha sombra ausente um ar vosso--ou serei a imagem da corrente?

Quem descesse o mistério e visse a semelhança nesse intimo torpor das cousas, onde cansa essa fuga do tempo em sombra reflectida... Eu nunca terei dois gestos irmãos na vida, e se olhasse pra traz t'ria medo de mim... (Inter-lunio de nós no sonho d'alêm-fim...)

O que me reflectir roubará meu segredo. O tempo escorre por nós como alguem com medo por sobre um muro... Crio olhos de ser distante... Na alma porei as mãos como por um quadrante... As mãos são tempo... e tudo é um somno de si...

Miro-me, e não serei a sombra onde me ví?...

Ó espelho sem hora! Ó agua em somno, lustral, --espelho horizontal de tédio c'mo um canal sem ter fundo nem fim. Meu perfil sua dôr! Só me reflicto e não me vejo no torpor da agua que abana o tempo... ai, o tempo é a voz com que se acorda o medo--escultura de nós na distancia... Em rumor, na agua, vago demencia e durmo de Beleza ao collo da Aparencia, que foge como esta agua e este tempo a correr... Marulhar de mim no fundo do meu ser... Só as mãos sabem ter o ar de sonhos contin'os...

Ai! Se o olhar cai nas mãos, desenham-se destinos como arabescos... Abro os braços, mas em vão, e ergo-me de mim com vestes de comoção!

Resta-me contemplar pela noite que inundo de mim, pendido sobre a aparencia do mundo. Minha sombra exilada esculto-a na doçura!

Perturbo-me de Deus nos braços da Ternura!